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3.2 AMBIENTE ANGLÓFONO

3.2.1 Bordwell e a atividade do espectador

3.2.1.5 Estilo

Os elementos de estilo são todos os recursos expressivos que fazem parte do discurso audiovisual do filme. Enquadramento, movimento de câmera, montagem, fotografia, uso dos sons e da palavra falada, enfim, a forma fílmica singular de cada filme, produto de decisões e escolhas do diretor (como autoria) na filmagem e matéria concreta com que o espectador entra em contato ao apreciar um filme. A maneira particular de usar esses recursos é que constitui o estilo.

Bordwell mostra que na narrativa canônica o estilo é quase invisível, passa despercebido para o espectador. O estilo vai-se tornando mais evidente na medida em que

syuzhet e fábula vão se tornando menos redundantes e as operações inferenciais vão ficando

mais sofisticadas, como nas narrativas do cinema de arte e na materialista histórica. Se nos tipos de narrativas anteriores a unidade do todo era construída pela uniformidade do personagem e pela predominância do sistema de causalidade, como na narrativa canônica, ou pelo jogo estabelecido entre expressão e decifração estabelecido no syuzhet do filme de arte, ou pelo argumento estilizado apresentado na narrativa materialista histórica, na narrativa paramétrica o próprio estilo é o fator integrador que compõe a unidade da obra. São os traços

42Este livro é uma republicação em inglês, em 1981, do Praxis du cinéma, publicado na França pela Gallimard,

estilísticos que constroem a unidade do todo.

Neste caso, a organização estilística vai influenciar e deformar a composição do syuzhet, tornando-se um elemento a mais para o trabalho cognitivo do espectador. O

schemata a ser testado pelo espectador é o reconhecimento da unidade formal como condutor

do sentido. Como acontece na poesia rimada, ou com a narrativa na ópera, que obedece à lógica musical e mesmo assim continua sendo um syuzhet e remetendo a uma fábula.

A junção do mundo “contido” na fábula, da construção do syuzhet e do estilo, são três dimensões de qualquer obra cinematográfica narrativa. O modo como a obra funciona, como nela opera o programa de produção de efeitos, só poderá ser conhecido pelo analista se este for capaz de perceber estas três dimensões e entender como os dispositivos que operam em cada uma das dimensões contribuem para o todo. Em termos práticos, perceber as formulações no nível da fábula e entender a relação dela com a articulação do syuzhet. Mas isso tudo só pode ser verificado no que se evidencia na forma do filme, na disposição do próprio material fílmico, ou estilo.

Bordwell (2008) escreveu um livro em que analisa a questão do estilo em quatro filmes e faz algumas proposições teóricas: Figuras traçadas na luz. Fora alguns artigos, sua única obra integralmente publicada em português. Para ele, o estilo cumpre quatro funções. Primeiro denotar o campo das ações, os agentes e as circunstâncias. Esta função denotativa do estilo seria a mais importante e a primeira função que ele recomenda analisar. Como parte desta função está o direcionamento da atenção do espectador até mesmo no sentido de apontar para onde olhar, dentro da tela. Podemos fazer uma relação aqui entre a função denotativa e aquela da compreensão, como uma etapa da interpretação, a que nos referimos no início deste capítulo. A função denotativa está ligada a compreender, as funções conotativas ou simbólicas se ligam ao deciframento mais profundo da obra, conforme Bordwell e o sentido de interpretação de Ricoeur, exposto no início do capítulo.

Depois, o estilo tem funções expressivas. As funções expressivas do estilo cinematográfico podem ser transmitidas pela iluminação, pela cor, pela interpretação dos atores, pela trilha musical, por movimentos de câmera etc. O resultado dessa função expressiva é provocar uma ampla gama de reações tanto na área da emoção e de sentimentos como dos estados de ânimo induzidos sensorialmente. Através do estilo pode-se apresentar uma qualidade de sentimento ou provocar esse sentimento. “O estilo determina nossa experiência de um filme em muitos níveis”. (BORDWELL, 2008, p. 61)

A terceira é a função simbólica. Neste caso, através da frustração da realização do sentido denotativo do estilo, a busca do espectador pode ser dirigida para implicações

simbólicas através de associações com significados mais gerais e abstratos.

Por fim, Bordwell identifica também uma função decorativa no estilo. Os elementos expressivos, neste caso adquirem a função de ornamentos. “[...] em qualquer meio, o estilo pode operar por si mesmo. Cria climas discretos e padrões mais envolventes por seus próprios meios, levando-nos a descobrir uma ordem escondida ou anotar pequenas diferenças”. É essa função ornamental que é maximizada na narrativa do tipo paramétrico, definida por Bordwell como “uma execução estilística altamente organizada”. (BORDWELL, 2008, p. 60-61)

Mesmo sabendo que seria impossível dar conta de todas as contribuições de David Bordwell para a teoria e a crítica cinematográficas, encerramos este bloco a ele dedicado pretendendo ter recolhido o que há de mais importante entre as ferramentas conceituais e práticas que ele fornece ao analista de filmes.

Havemos, porém, de celebrar uma última frase de Bordwell (2008, p. 69): “O espírito do tempo não liga a câmera”. Ele usa essa frase ao se opor aos “sistemas explicativos que dominaram a historiografia do filme”. Refere-se a uma atitude muito comum entre analistas, tanto principiantes como experientes, que costumam atribuir as conformações estilísticas do filme a fatores socioculturais amplos, como os fatores ideológicos, os ambientes culturais ou aspectos do tipo o espírito da modernidade ou da pós modernidade. Neste aspecto, ele cobra do analista maior familiaridade com os processos produtivos do cinema, os aspectos concretos das condições de realização de filmes, que muitas vezes determinam opções poéticas estruturantes das obras. Ele fala do modo de produção, do tipo de recurso tecnológico disponível, orçamento, e até históricos pessoais das equipes. Há coisas que podem ter sido planejadas antes das filmagens, mas há outras que são decisões tomadas diante de um certo leque de possibilidades surgidas durante as filmagens ou na pós produção. A familiarização do analista com este campo pode ajudar e facilitar enormemente a condução da sua atenção para os papéis desempenhados pelos elementos de composição que configuram o estilo.

É claro que, de alguma forma, alguns traços do ambiente cultural, fatores ideológicos e o que se possa chamar de espírito da época estarão sempre presentes em qualquer obra de arte e nos filmes, como em qualquer outro texto da cultura. O que a fala de Bordwell combate é uma forma de prepotência e de arrogância acadêmica. Um tipo de tentativa de chegar à obra através de esquemas demasiadamente teóricos, geralmente inferências baseadas em pressupostos atribuídos mas não verificáveis nas obras, que dificultam o reconhecimento da dimensão e significado operativo de seus traços estilísticos.