3.2 AMBIENTE ANGLÓFONO
3.2.1 Bordwell e a atividade do espectador
3.2.1.2 Os modos de representar
Não seria fácil fazer um apanhado geral do pensamento e da evolução das teorias de Bordwell num trabalho com as dimensões e objetivos desta tese. Mas, tomando como referências, além do ensaio já citado, três outras obras que nos mostram partes de suas atividades relacionadas com a análise fílmica, Narration in the fiction film, de 1985, Making
na luz38, de 2008, podemos tentar seguir a lógica do seu raciocínio.
Nos dois primeiros capítulos de Narration in the fiction film (BORDWELL, 1985), além de fazer uma síntese crítica das teorias do cinema, e por consequência dos fundamentos da análise fílmica, ele separa essas teorias em dois grandes grupos: as teorias miméticas e as teorias diegéticas da narração cinematográfica. No fundo, nesses capítulos, Bordwell apresenta as duas grandes correntes teóricas das narrativas e constrói a base sobre a qual erigirá a sua metodologia de análise.
No primeiro capítulo, ele parte das definições de Aristóteles, na Poética, acerca dos
modos da imitação para chegar aos conceitos de mostrar e contar. Este capítulo é dedicado ás
teorias miméticas. Partindo do modo dramático posto na Poética, aborda a questão da representação da ação através de sua apresentação visual ao espectador. Da situação da ação no espaço ele chega ao ponto de vista, o lugar de onde a ação é vista. Do ponto de vista ele vai à perspectiva renascentista. Bordwell (1985) estabelece aqui um curioso vínculo: interpreta a perspectiva como um artifício vinculador do olhar do espectador ao espaço interno da cena e depois relaciona a visualidade com a sua descrição verbal no romance, chegando, por fim, às teorias que associam o ponto de vista narrativo, que já era estudado anteriormente na teoria literária, com o ponto de vista ocular, lugar de onde se vê, da narrativa cinematográfica.
A visualização do espaço é central nessas teorias. Parte-se do espaço físico, literal, ao espaço ficcional, abstrato. Do ponto de vista, como lugar de onde se olha, chega-se a ao ponto de vista como lugar de onde se narra. Um lugar que corresponde à posição de um sujeito narrativo. É colocada a questão de quem olha, num filme, e quem governa o olhar de quem olha num filme etc.
No raciocínio de Bordwell (1985) essas teorias miméticas conduzirão àquilo que depois, analisando as narrativas, ele chamará de fábula. Mais adiante tentaremos chegar à definição mais precisa deste conceito de fábula. Por enquanto, é importante reter que a fábula é o mundo interno da história e os acontecimentos em sua ordem natural. Segundo Bordwell, a tarefa do espectador é reconstituir esse mundo, apesar dele entrar em contato apenas com partes ou fragmentos desse mundo. Voltaremos a isso.
No segundo capítulo, das teorias diegéticas, Bordwell recorre a Platão, a quem atribui a paternidade das teorias diegéticas (assim como atribuiu a Aristóteles a paternidade da teorias miméticas). Ele parte das definições de Platão de mimésis e diégésis, aquilo que na Poética, de Aristóteles, mais tarde apareceu como modos da imitação poética.
Sobre as maneiras de contar histórias, para Platão, a primeira, diégésis, seria a
narrativa, pura e simples. Nela o poeta fala por ele mesmo e não tenta sugerir que outro fale, senão ele mesmo. Já na mimésis, cujo exemplo maior é a forma dramática, o poeta fala através de seus personagens, como se ele fosse outra pessoa. O termo diegese foi 'recuperado' por Etienne Souriau, em 1953, para referir à história contada por um filme. A partir de então, o termo, própria ou impropriamente, tem sido usado para significar o universo ficcional de uma história. As teorias diegéticas com que Bordwell (1985) dialoga em seu segundo capítulo priorizam a função do texto narrador. Na literatura, seria o fato linguístico. Longa é a discussão reproduzida por Bordwell, em que procura distinguir e conceituar as diferenças entre o mundo narrado e o discurso que narra. Também não entraremos nas nuances desta discussão. Vamos nos concentrar num de seus resultados mais importantes para o modo como Bordwell enxerga o fenômeno cinematográfico.
Já na introdução ele distingue três modos de analisar e de lidar com as narrativas: como representação, como estrutura e como atividade (BORDWELL, 1985, xi). Como veremos a seguir, a chave para o tipo de análise fílmica proposta por Bordwell está na relação entre o mundo representado no filme e os recursos expressivos que o filme usa para representar esse mundo. O discurso fílmico. Não pretendemos entrar na discussão que ele traz no segundo capítulo, quando vai buscar na tradição literária os conceitos de discurso e de enunciação, nem se estes implicam ou não a presença de um emissor e de um receptor no ato de comunicação etc. O que nos interessa, e parece que a Bordwell também, é que existe um conjunto de sinais expressivos impressos no suporte da obra cinematográfica que, ao lhe serem apresentados em projeção, o espectador percebe fundamentalmente daquelas formas já descritas anteriormente por Christian Metz: como imagens fotográficas em movimento, como imagens de textos linguísticos, ou como sons que podem ser palavras faladas, podem ser música ou ruídos ambientes. E esses conjuntos de sinais expressivos são percebidos e “lidos” pelos espectadores, que os compreendem como representação de coisas que compõem o “universo” sobre o qual se conta e/ou mostra. Ele resume isso dizendo que assumiu ”[...] a diference between the story that is represented and the actual representation of it, the form in which the perceiver actually encounters it”.39 (BORDWELL, 1985, p. 49)
Então, para Bordwell, das relações entre o mundo representado e os instrumentos de sua representação de fato, que poderíamos também chamar de fabula e narrativa, ou enunciado e enunciação, história e discurso, ou como ele, Bordwell, propõe mais adiante, tomando os termos emprestados dos Formalistas Russos, fábula e syuzhet, é que o analista vai
39 Nossa tradução, meio ousada: “[...] a diferença entre a estória que é representada e que a representa de fato, a
poder classificar a obra em análise e também procurar entender o seu modo de funcionar. É preciso advertir aqui que syuzhet não pode ser entendido literalmente como o discurso da narrativa. Syuzhet será o arranjo que o narrador em última instância, ou mega narrador, ou grande imaginador, ou autor, enfim, faz dos elementos da fábula dispostos como pistas para o apreciador recompor a fábula em sua própria imaginação. Assim, o syuzhet será idêntico mesmo quando transposto para diferentes suportes ou linguagens, como o romance, o filme, a história em quadrinhos. (BORDWELL, 1985, p. 50)