3 ESTADO NUTRICIONAL, HÁBITOS ALIMENTARES E ESTILO DE VIDA DE
3.3 Estilo de Vida dos estudantes da Pesquisa
Quanto ao hábito de fumar, 27 estudantes afirmaram não fumar e apenas um não respondeu a questão. Destacamos esse aspecto como sendo muito importante, pois esta escola realizou amplo trabalho educativo, sobre o tabagismo, ao abordar a temática sobre o câncer em outras pesquisas o que pode ter influenciado nos hábitos dos alunos quanto este aspecto (BOFF, 2011).
Ao serem questionados quanto à ingestão de bebida alcoólica, a maioria dos estudantes (60,7%) respondeu não ingerir bebida alcoólica e 35,7% relataram ingerir eventualmente ou raramente (menos de quatro vezes ao mês). Apenas um estudante (3,6%) não respondeu a questão.
Ao questionar os alunos sobre porque bebem, as respostas obtidas foram: “A4: para
acompanhar alguém mais velho, em respeito”; “A9: Por escolha”; “A16: Consumo bebidas alcoólicas quando vou em festas”; “A20: Porque eu gosto”.
Ressaltamos aqui o fato de que a maioria dos participantes da pesquisa são menores de idade, portanto, não deveriam consumir bebida alcoólica em nenhum momento. Um estudo realizado por Lepre (2009) apresentou resultados que revelaram que a maioria (56%) dos adolescentes que faz uso de álcool apresenta um raciocínio moral pouco desenvolvido o que pode dificultar sua conduta moral e, consequentemente, facilitar seu envolvimento com o uso de drogas. Esse resultado confirma a necessidade de estudos que identifiquem os hábitos de
61 adolescentes com o intuito de intervir para contribuir de forma significativa com os estudantes e assim adotar práticas que enfatizem a importância de não consumir bebidas alcoólicas para evitar prejuízos na vida destes estudantes.
Evidências científicas mais recentes mostram que a saúde pode estar muito mais relacionada ao modo de viver das pessoas do que à ideia, anteriormente hegemônica, da sua determinação genética e biológica. O sedentarismo e a alimentação não- saudável, o consumo de álcool, tabaco e outras drogas, o ritmo da vida cotidiana, a competitividade, o isolamento do homem nas cidades são condicionantes diretamente relacionados à produção das chamadas doenças modernas. Por isso, a resolução ou redução de riscos associados aos problemas alimentares e nutricionais ampara-se na promoção de modos de vida saudáveis e na identificação de ações e estratégias que apoiem as pessoas a ser capazes de cuidar de si, de sua família e de sua comunidade de forma consciente e participativa.
Na abordagem da promoção de modos de vida saudáveis, identificam-se duas dimensões: aquela que se propõe a estimular e incentivar práticas saudáveis, como o aleitamento materno, a alimentação saudável e a atividade física regular, e outra que objetiva a inibição de hábitos e práticas prejudiciais à saúde, como o consumo de tabaco e de álcool (BRASIL, 2008, p. 21).
O álcool, além de causar dependência, afeta as funções mental, neurológica e emocional. Assim a ingestão regular de bebidas alcoólicas, induz ao esquecimento aumentando o risco de demência (BRASIL, 2008, p. 25).
Quanto aos hábitos de estilo de vida, sobre praticar ou não exercícios físicos, 7 estudantes responderam praticar exercícios físicos 2 vezes por semana, 9 praticam 3 vezes por semana, 1 pratica mais que 3 vezes por semana, e, 11 não praticam (gráfico 14).
Gráfico 14: Distribuição da população de estudo segundo a prática de exercícios físicos referida pelos alunos. Ijuí/RS, 2013.
A maioria dos estudantes entrevistados (64%) relatou não realizar as atividades de educação física na escola. Estes dados na maioria das vezes se devem ao fato da disciplina de educação física ser realizada em turno inverso das demais disciplinas obrigatórias do currículo
0,00% 5,00% 10,00% 15,00% 20,00% 25,00% 30,00% 35,00% 40,00% 2 vezes por semana 3 vezes por semana Mais que 3 vezes por semana Não pratica exercicios fisicos 25,00% 32,10% 3,60% 39,30% Estudantes
62 da escola, assim os estudantes que fazem outros cursos, estágios ou qualquer outro tipo de trabalho neste turno, podem justificar sua ausência na disciplina e não são obrigados a realizá- la.
Ao questioná-los sobre se achavam importante praticar exercícios físicos, todos responderam que sim, relacionando ao conceito de saúde, sendo citada a importância para a
boa forma física, melhor qualidade de vida, para não ter uma vida sedentária, para uma saúde melhor, vida saudável e bem estar, assim como:
A9: Para ter uma boa saúde, corpo, saúde e psico em forma. A11:”Porque é um meio de cuidar da nossa saúde”.
A22: Significa corpo e mente sadios. A26: Para ter uma boa estrutura física.
Estas respostas demonstram que os alunos tem consciência e conhecem a importância da prática de atividades físicas.
Quanto aos dados de atividade física segundo o IPAC1 (gráfico 15), observamos que do total de 28 estudantes, dez (36%) são muito ativos, oito (28,8%) ativos e oito (28,8%) irregularmente ativos, sendo apenas um (3,6%) sedentário.
Gráfico 15: Distribuição da população de estudo segundo o nível de atividade física dos estudantes. Ijuí/RS, 2013.
Ao confrontar o IPAC com a classificação do IMC (Tabela 4), percebemos também que a maioria dos estudantes eutróficos (que apresentam estado nutricional adequado), são, ativos ou muito ativos.
1
IPAQ: Questionário para a Classificação do Nível de Atividade Física. 1 estudante 3,6% 8 estudantes 28,8% 8 estudantes 28,8% 10 estudantes 36% 1 estudante 3,6%
IPAC
Sedentario Leve ou Irregularmente ativo Moderado ou ativoInteso ou muito ativo
63 Tabela 4: Classificação quanto à prática de atividade física segundo Índice de Massa Corporal (IMC). Ijuí/RS, 2013.
VARIÁVEIS Baixo peso Eutrofia Sobrepeso Obesidade Total
N % N % N % N % N % IPAC Sedentário - - 1 3,6 - - - - 1 3,6 Irregularmente ativo 1 3,6 7 25,2 - - - - 8 28,8 Ativo 1 3,6 7 25,2 - - - - 8 28,8 Muito ativo * - - - - 8 1 28,8 3,6 2 - 7,2 - - - - - 10 1 36,0 3,6 Total 2 7,2 24 86,4 2 7,2 - - - -
*Não respondeu a questão.
A atividade física adotada ao longo da vida contribui para a prevenção e reversão de limitações funcionais. Ela é entendida como um elemento potencializador dos resultados esperados pela adoção de práticas alimentares adequadas e consequentemente, modos de vida saudáveis (BRASIL, 2014).
Nas últimas décadas, observou-se um aumento no número de estudos que investigaram os efeitos da prática de atividades físicas na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. Entre os benefícios imediatos que a prática de atividades físicas oferece está a melhora na aptidão física relacionada à saúde, como capacidade cardiorrespiratória, força muscular e flexibilidade (COOPER, 2006). Devido a isso, estudos relacionados aos níveis de prática de atividade física habitual na população jovem têm-se tornado importante tema de interesse dos profissionais especialistas da área. Assim como sobre as práticas alimentares, há necessidade de estudos mais detalhados sobre o padrão de atividade física dos estudantes em associação aos dados antropométricos para uma melhor explicação dessa relação.
Nesta pesquisa, também podemos observar através da análise qualitativa, a relação existente entre o consumo alimentar saudável e a prática regular de exercícios físicos. Os alunos que apresentaram uma prática regular de atividade física, também apresentaram maiores adequações quanto ao consumo alimentar e preocupação com a saúde. Assim como os alunos que assistem mais televisão ou ficam mais tempo na frente do computador, e não praticam exercícios físicos apresentaram maiores inadequações referentes a qualidade da dieta.
Em um estudo indicando que a alimentação está associada com o nível de atividade física, o autor observou que adolescentes praticantes de esportes apresentaram mais chances de ter um consumo mais elevado de vegetais e frutas, no entanto, os adolescentes que assistiam TV com mais frequência apresentaram chances maiores de ter um consumo elevado de frituras e lanches (FERNANDES, 2011).
64 A relação da atividade física e da alimentação com a saúde é estudada há muitos anos, tendo como resultados a confirmação de que a prática de atividade física regular e uma alimentação equilibrada atuam diretamente na prevenção das doenças crônicas não transmissíveis. Além disso, a alimentação e a nutrição adequadas constituem requisitos essenciais para o crescimento e desenvolvimento com qualidade de vida, bem como à prevenção de doenças cadenciais, obesidade e comorbidades associadas (MARCONDELLI et al, 2008).
Questionamos os estudantes quanto a existência de casos na família de hipertensão arterial ou doenças cardiovasculares, 50% responderam que sim e ainda destes, 10 estudantes citaram casos de diabetes, tipo 1 e tipo 2, acometendo pais, avós e tios e 4 estudantes citaram a obesidade acometendo pais, irmãos, avós e tios. Os estudantes citaram ainda que alguns destes parentes já haviam falecido em função destas doenças. 46% dos estudantes responderam não haver casos na família e 4% não sabiam ou não responderam.
A qualidade de vida, por sua vez, está relacionada diretamente com a prática diária de atividade física e a alimentação equilibrada e saudável, que em associação a abstinência ao tabagismo pode eliminar até 80% das chances de desenvolvimento de doenças cardíacas, e 70% do aparecimento de alguns tipos de câncer. A escolha errada dos alimentos, o seu consumo em grandes quantidades, ou a associação ao consumo do álcool, aumentam as chances do desenvolvimento de doenças como câncer, doenças cardíacas, distúrbios digestivos, diabetes e obesidade.Sabe-se que a associação entre uma alimentação inadequada, a prática de tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas e inatividade física podem facilitar o desenvolvimento de várias doenças (PERCEGO, 2002). Desse modo entendemos que a promoção de modos de vida saudáveis, através da alimentação saudável em associação a atividade física precisam ser estimulados ao longo da vida, desde a infância até a velhice, para que possa alcançar uma vida longa, mas que seja produtiva e saudável.
Assim consideramos a infância e adolescência como um período adequado para se colocar em prática medidas preventivas, com objetivo de impedir que os maus hábitos alimentares adquiridos pelos estudantes persistam por toda a vida adulta e tragam consequências negativas na velhice. Realizar estudos sobre o assunto em questão e discutir os resultados com os estudantes pode contribuir de alguma forma para a prevenção de futuros problemas de saúde. O diagnóstico precoce de alguns hábitos inadequados pode contribuir para melhoria no estilo de vida, assim como produzir sentidos e significados aos conteúdos escolares.
65 Salientamos que neste estudo não foi realizada análise das condições econômicas da população, assim não podemos estabelecer uma relação destas com as opções de escolha dos alimentos, com o estado nutricional ou com a prática de atividade física. Porém, salientamos também que as adequações do consumo alimentar, do estado nutricional e dos hábitos de vida saudáveis, não dependem de uma condição econômica privilegiada, mas sim, de ações de educação alimentar e nutricional, como as que estão sendo e serão desenvolvidas nesta escola. Todos os dados descritos neste momento foram apresentados e discutidos com os estudantes, integrando a significação dos conteúdos escolares no contexto da Educação Alimentar e Nutricional.
Para ampliar as compreensões sobre os hábitos alimentares dos estudantes nesta faixa etária, realizamos um estudo sobre o padrão alimentar de estudantes de educação básica, em escolas da Espanha e do Brasil.
A seguir, discutimos as aproximações e distanciamentos do padrão alimentar de estudantes de educação básica de 3 escolas de Madrid (Espanha) e 3 escolas do Rio Grande do Sul (Brasil). Analisamos o consumo de frutas e verduras e alguns hábitos alimentares dos estudantes. Neste momento novamente enfatizamos a concepção de Vigotsky (2008), mediante ao fato de que é o meio e a sociedade em que o indivíduo vive que delineia o verdadeiro curso do desenvolvimento de seu pensamento e assim também forma e estabelece seus hábitos de alimentação.