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I. ARQUITETURA E SOCIEDADE NOS TEMPOS MODERNOS

2. MOVIMENTO MODERNO E ESTILO INTERNACIONAL

2.9. ESTILO INTERNACIONAL

O clima de tensão cultural e política que envolve a Europa antes da Segunda Guerra Mundial despoleta o exílio de nomes proeminentes do Movimento Moderno rumo a contextos livres da censura dos cânones totalitários, onde assumirão um papel missionário na propagação da nova estética arquitetónica ao ocuparem importantes cargos académicos nas terras de asilo.101

Transformada numa nação de artistas e intelectuais expatriados, os EUA assistem, nos anos 30, a um período culturalmente estimulante, acompanhado por uma profunda reforma social ao abrigo do programa financeiro New Deal (1933 – 1938) que procura reerguer o país do abismo socioeconómico da Grande Depressão.102 Esta intervenção incorpora um intenso plano de obras públicas, cujo caráter de emergência constitui uma oportunidade aliciante para implementação dos princípios construtivos, funcionais e económicos desenvolvidos, durante os anos 20, pelos arquitetos da vanguarda europeia.

Embora pioneiros nos recursos técnicos dos sistemas de produção, os EUA viviam um paradoxo arquitetónico que opunha o sofisticado pragmatismo do meio industrial à perseverança de revivalismos coloniais, incentivada por um sistema de formação tutelado pela tradição académica. Consequentemente, a vanguarda europeia projetará as suas ambições e expectativas no empreendedorismo industrial do novo mundo, através do qual procura desenvolver a sua bagagem teórica, estética e experimental, contribuindo, em simultâneo, para a renovação do ensino e da prática arquitetónica norte-americana.

A integração da nova estética e dos seus autores será fomentada por influentes instituições como o Museum of Modern Art de Nova Iorque (MoMA), que inicia um processo pedagógico e publicitário com o objetivo de promover a aceitação de uma arquitetura progressista num país ainda pautado pelos ecos conservadores dos sermões puritanos. Das suas várias iniciativas, destaca-se a Modern Architecture: International Exhibition (1932) que marca a introdução do Movimento Moderno nos EUA, ficando conhecida como a exposição do Estilo Internacional.103 Este evento desenvolve-se maioritariamente em torno

101 Alguns mestres europeus tais como Mies van der Rohe ou Walter Gropius, ocuparão posições privilegiadas

no ensino e propagação da nova estética, ao dirigir, respetivamente, os departamentos de arquitetura de instituições de referência como o Illinois Institute of Technology (Chicago, 1938) ou a Harvard’s Graduate School of Design (Massachusetts, 1938). Gropius fundará em 1945 o The Architects Collaborative (TAC, Massachusetts) que reinterpreta, em solo norte-americano, o espírito metodológico introduzido pela

Bauhaus.

102 Inicia-se com o crash da bolsa em 1929 e os seus efeitos fazem-se sentir até ao início da Segunda Guerra

Mundial, apesar dos indícios de retoma económica e produtiva que caracterizam a década de 30.

103 Evento promovido pelos arquitetos norte-americanos Henry-Russell Hitchcock (1903 – 1987) e Philip

Johnson (1906 – 2005), curador e fundador do departamento de arquitetura do MoMA. Sobre esta exposição, consultar http://www.moma.org/docs/press_archives/7003/releases/MOMA_1992_0011 _10.pdf ? 2010

dos mestres da arquitetura europeia dos anos 1920,104 extraindo das suas diversas obras as qualidades comuns que manifestam a expressão lógica e morfológica do movimento com a finalidade de definir uma gramática ao serviço da aprendizagem e da reprodução da arquitetura modernista. Após a mostra em Nova Iorque, a exposição iniciou um período de digressão de dois anos por todo o país, numa tentativa de converter o público consumidor e de recrutar o meio profissional, facto que confirmaria o seu caráter propagandista.

Das várias publicações que complementam este evento, destaca-se o catálogo The International Style: Architecture since 1922, elaborado por Philip Johnson e Henry Russel Hitchcock, onde se expõem os princípios estéticos e construtivos da vanguarda europeia, fornecendo implicitamente um quadro normativo do qual emerge o designado Estilo Internacional.105 Esta expressão regista a marca universal ambicionada pelo modernismo desde a sua génese106 e que encontra nos EUA o terreno fértil para a afirmação de uma arquitetura de “fabrico industrial” assim como um ponto de partida para a globalização da sua estética.107

Porém, com o deflagrar da Segunda Guerra Mundial, o empreendedorismo industrial é desviado para a construção de diferentes tipos de armas, a partir das quais se desenvolvem novos materiais e se aperfeiçoam métodos de fabrico que procuram antecipar e superar a sofisticação das trincheiras inimigas. Findo o conflito, o sistema de produção vê-se obrigado a reorganizar a sua estratégia comercial perante o difícil contexto de carências sociais e morais herdado da guerra, encontrando na construção civil o novo mercado para a aplicação das inovações tecnológicas pouco antes desenvolvidas pela indústria militar.108

104 Com destaque para Le Corbusier, Ludwig Mies van der Rohe, Walter Gropius e J. J. P. Oud. 105 Colquhoun, 2005: 231.

106 Aspeto que encerra um paradoxo, pois, embora a expressão “internacional” convirja com as aspirações

globais do Modernismo, a classificação enquanto “estilo” insere-o na mesma postura redutora que fora combatida durante a sua génese: A arquitetura moderna não é um estilo, é uma atitude, (Marcel Breuer). Cobbers, 2009: contracapa.

107 Por último, a definição de protótipos de habitação viabiliza a sua reprodução internacional, naquilo que se

viria a designar como o international style, ao mesmo tempo que se apresenta como um garante da eficácia e da economia exigidas pela produção de habitação em grande escala. Este ‘international style’ indica assim a consumação da desterritorialização das referências arquitetónicas e dos próprios modelos de configuração do espaço, em termos domésticos e urbanísticos. Pereira, 2012: 67.

108 À semelhança do armamento, a rapidez de execução exigida pela reedificação e expansão das cidades

europeias cria o contexto ideal para esta transferência da produção em massa de componentes industriais pré-fabricados e padronizados, aplicados não só em elementos técnicos e estruturais como na totalidade do contexto edificado, incluindo revestimentos, mobiliário, utensílios, aparelhos domésticos e objetos decorativos.

Ao mesmo tempo, os EUA vão beneficiar de um rápido crescimento económico109 que encontra no Estilo Internacional os princípios dos novos monumentos da sua hegemonia cultural e financeira. E se os edifícios concebidos e erguidos para fins administrativos reinterpretaram a eficiência modernista nas plantas versáteis de imponentes arranha- céus de vidro e de aço, os mesmos materiais estariam associados à introdução de uma postura informal numa nova arquitetura doméstica, promovida pelo mecenato industrial norte-americano.

Durante os anos 50, a divulgação e desmistificação de uma estética habitacional assente em recursos industriais e concebida nos Estados Unidos, encontra em instituições como o MoMA110 e em publicações especializadas como as revistas Architectural Record e Arts & Architecture um importante contributo.

A promoção de um novo estilo de vida estaria associada a diversas iniciativas como o programa experimental das Case Study Houses (1945-1962)111 que, dirigido pelo arquiteto John Entenza (1905 – 1984, EUA)112 e apoiado pelas indústrias da construção e equipamentos, pretendia uma aproximação entre o mercado imobiliário do Sul da Califórnia e a arquitetura do movimento moderno. Partindo do concurso Design for Post war living (1943 – 1944), organizado pela revista Arts & Architecture, o programa propunha a reinterpretação dos princípios do modernismo num conjunto de exercícios experimentais onde se realçassem as potencialidades do uso da tecnologia industrial e militar em contextos domésticos pré-fabricados. As casas tirariam partido do clima ensolarado da Califórnia que incentivava a extensão da vida doméstica e social ao espaço exterior, configurando uma imagética idílica, alusiva ao lazer e ao bem-estar, na qual se refugiam os espíritos, sedentos de paz e de harmonia após a longa opressão da guerra. Os

109 Apesar da sua participação na Segunda Guerra Mundial, os EUA mantiveram-se à margem dos intensos

danos territoriais que assolaram a Europa, enquanto palco do conflito. Deste modo, a nação norte-americana intensificaria a sua posição incontestável enquanto potência económica, política e cultural, partindo à conquista da segunda metade do século XX.

110 Durante e após a guerra, o MoMA intensificaria o seu papel no processo de aperfeiçoamento e

desmistificação de uma estética habitacional assente em recursos industriais, procurando aproximá-la das necessidades do grande público, através da organização de diversas ações que também incentivam a exploração técnica de novos materiais, anteriormente reservados à indústria militar. Das suas várias iniciativas podemos destacar os concursos de mobiliário Organic Design in Home Furnishings (1940) e

International Competition for Low-Cost Furniture Design (1948); exposições itinerantes como a Built in USA: 1932 -1944 (1944) que apresenta os primeiros projetos resultantes da cartilha modernista apresentada em

1932 na Modern Architecture: International Exhibition e, também, An Exhibition for Modern Living (1949), centrada na promoção de mobiliário moderno com custos acessíveis. A instituição elevaria a sua função de promotora de um novo universo doméstico e dos seus respetivos autores com a iniciativa anual de exibir um protótipo de residência-modelo nos jardins do próprio museu, a partir de 1949, com uma casa de Marcel Breuer.

111 Sobre as Case Study Houses, veja-se Smith e Gossel, 2002. Mccoy, 1962.

112 Este programa incluiu nomes de reputação internacional como Charles Eames, Eero Saarinen, Craig

resultados seriam publicitados em encenações fotográficas publicadas nas suas páginas e exibidos posteriormente, após a sua conclusão. Reconhecido internacionalmente, este programa permitiria a projeção na Europa de materiais e técnicas construtivas, desenvolvidas nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Deste modo, a arquitetura mantinha o seu estatuto de sistema produtivo e sobretudo reprodutivo, com o fabrico em série, mas agora com novos e predominantes suportes mediáticos. Adaptáveis a diferentes contextos e funções, a versatilidade dos métodos racionais de construção origina a produção massificada de um quotidiano estandardizado, conformando uma derivação comercial das motivações sociais assumidas pelos pioneiros do Movimento Moderno. Por conseguinte, o processo de assimilação do espaço, enquanto produto industrial, é também absorvido pelo meio publicitário e pela moda, estendendo- se à própria televisão que, cada vez mais presente e central no espaço doméstico, promoveria esta estética existencial através do Home Show (1954 – 1956), conduzido por uma glamorosa “fada do lar”,113 figurino das novas donas de casa. Neste programa, inicia- se um formato televisivo no qual seriam apresentadas as últimas novidades em mobiliários e equipamentos caseiros, intercalados por invasões encenadas às famílias exemplares das residências hollywoodianas.

Institucionalizado como código estético do ensino e prática arquitetónica nos EUA, o Estilo Internacional encontrará na reconstrução europeia uma conjuntura de expansão comercial que modifica irreversivelmente a paisagem construída do século XX. Deste modo, após a emigração forçada para os Estados Unidos, a arquitetura do Movimento Moderno regressa à Europa, com sotaque inglês e reciclada, numa retornada patente estética, de soalheiros e transparentes confortos burgueses, que servirá de veículo à implementação de referências culturais norte-americanas nos novos alicerces do velho continente.

113 A atriz norte-americana Arlene Francis, 1907 – 2001.

Fig. 11: Casa Kauffman (1946), Richard Neutra

Architecture occupies a unique position in society. It is both an art and an important economic activity, and must attend to both aesthetic and practical considerations. As if that were not enough, architecture also is an extremely politicized realm because it has major implications for the distribution of power in society. 114

114 Guillén, 2006: VI.