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I. ARQUITETURA E SOCIEDADE NOS TEMPOS MODERNOS

2. MOVIMENTO MODERNO E ESTILO INTERNACIONAL

2.1. L’ESPRIT NOUVEAU

O fim da guerra anuncia uma revolução estética que atribui um novo rosto à arquitetura e ao design do séc. XX, procurando atualizá-los e torná-los coerentes com a nova civilização industrial e a sua orientação pragmática. Oscilante entre concretizações e utopias, o Movimento Moderno propõe novos paradigmas para a conceção e o uso de cidades e de edifícios, com os quais procura sintetizar a complexa interação entre as questões socioculturais, levantadas pelos meios de produção e a tecnologia construtiva explorada por estes.

Fundada numa prática transdisciplinar e envolta no misticismo da técnica, a nova linguagem arquitetónica materializa a diluição das fronteiras produtivas, estéticas e funcionais entre o desenho do espaço e as artes plásticas e aplicadas.31 O conceito de sinergia artística, perseguido anteriormente pelo movimento Arts & Crafts e pela Arte Nova, afasta-se de práticas artesanais e decorativas, submetendo-se à estética maquinista do engenho industrial com vista à produção em massa de produtos standard, acessíveis a um público alargado.32

Herdeira da síntese metodológica e do modelo pedagógico enunciados pela Deutscher Werkbund (1907)33 e desenvolvidos pela Bauhaus (1919),34 a nova arquitetura procura

30 Título da revista fundada por Amédée Ozenfant e Charles-Edouard Jeanneret e editada, pela primeira vez,

em outubro de 1920.

31 Criemos uma nova comunidade de artífices em que não exista a distinção de classe que ergue uma barreira

de arrogância entre o artesão e o artista. Juntos concebamos e criemos o novo edifício do futuro, que unirá a arquitetura, a escultura e a pintura e que um dia, pelas mãos de milhões de operários, se elevará no céu futuro, como símbolo cristalino de uma nova fé. (Manifesto da Bauhaus, 1919)

32 The colorful exuberance of Art Nouveau was replaced by a Beauty that was no longer aesthetic but functional,

a refined synthesis of quality and mass production. The characteristic feature of this Beauty is the reconciliation of art and industry. Eco, 2004: 371 – 372.

33 Fundada em Munique, a Deutcher Werkbund (Federação Alemã do Trabalho) estabelece uma aliança entre

artistas, arquitetos, artesãos e empresários, com o objetivo de equacionar uma otimização funcional e estética da produção industrial Alemã. Trata-se de uma primeira tentativa de reconciliar o capitalismo e a cultura artística através da conceção de identidades corporativas que visavam o equilíbrio entre valores comerciais, morais e artísticos. Dos seus vários impulsionadores, podemos destacar Peter Behrens (Alemanha, 1868 – 1940), Hermann Muthesius (Alemanha, 1861 – 1927), Walter Gropius (Alemanha, 1886 – 1969), Mies van der Rohe (Alemanha, 1886 – 1969), Bruno Taut (Alemanha, 1880 – 1938). Sobre a Deutcher Werkbund, consultar http://www.deutscher-werkbund.de/geschichte.html (acedido em 10/06/2013).

34 Bauhaus (casa da construção) apresenta-se como uma instituição reformadora de orientação antiacadémica

que pretendia formar uma nova ordem social na Alemanha do pós-guerra. Fundada em Weimar, por Walter Gropius, procura encontrar uma resposta estética e pedagógica às questões levantadas pela operacionalidade artística no domínio do produto industrial e do objeto de uso quotidiano, desempenhando um papel incontornável na disseminação dos princípios funcionalistas. Após a liderança de Gropius (1919 – 1928) e a relocalização em Dessau (1925), a instituição conheceu ainda dois diretores Hannes Meyer (1928 – 1930) e

articular a vanguarda artística e tecnológica, numa estreita colaboração com a elite industrial35 que, por sua vez, encontra nestas instituições pioneiras um instrumento de divulgação e de autopromoção.

Esta relação de patrocínio inicia o processo de racionalização e democratização do produto industrial, no qual se conjugam soluções plásticas e construtivas, isentas de elementos supérfluos que contaminem a utilidade da forma e a fluidez da sua execução. A clareza metodológica e a objetividade do contexto industrial tornam-se metáforas de funcionalidade36 e beleza, onde o menos é mais37 ao serviço de um raciocínio económico,

com o qual se evita o desperdício de tempo e matérias-primas, viabilizando, em simultâneo, a infinita reprodução dos objetos.38 A versatilidade formal e a neutralidade estética associam-se numa nova atitude comercial assente na estandardização que procura viabilizar a integração da indústria em contextos variados, alargando o léxico funcional da sua realidade produtiva a todas dimensões quotidianas. Surgem, então, os objetos- tipo, como resposta a necessidades universais de corpos padronizados, que encontram na inteligibilidade do funcionalismo, uma síntese metodológica e estética do difícil equilíbrio entre as exigências do material, da forma e do objetivo, impostas pelo novo contexto.

A máquina assume o estatuto de musa e a forma técnica adquire um novo valor artístico. Por conseguinte, processo criativo será contaminado pelo rigor do cálculo, e rejeitar-se-á o arbitrário, a favor de escolhas conscientes, envoltas pelo método científico. Através da análise dos gestos diários e dos seus mecanismos, decompõem-se o espaço e os objetos, reduzindo-os à sua estrutura fundamental,39 traduzida em geometrias

Mies van der Rohe (1930 – 1933) que, apesar de desenvolverem posições próprias dividas entre o socialismo e o elitismo, mantiveram a centralidade da disciplina arquitetónica. Sobre a Bauhaus, consultar http://www. bauhaus-dessau.de/index.php?history (acedido em 10/06/2013).

35 De que é exemplo a fabrica AEG (1908, Berlim) e o seu design corporativo, ambos da autoria de Peter

Behrens, propulsor da Deutcshe Werkbund e mentor de alguns dos principais vultos da arquitetura do Movimento Moderno, como Walter Gropius, Ludwig Mies van der Rohe e Le Corbusier. Sobre Peter Behrens e a fábrica AEG, consultar http://www.aeg.com/en/About-AEG/History/ (acedido em 10/06/2013).

36 …the whole basis of today’s predominant views on architecture must be shifted, and we must become fully

aware that the sole departure point for our artistic work can only be modern life… what is impractical can never be beautiful. Wagner, 1988: 46.

37 Less is more, aforismo utilizado por Mies van der Rohe em 1959 durante a conferência On restraint in

Design no New York Herald Tribune. Sobre Mies van der Rohe, consultar Zimmerman, 2007.

38 A evolução cultural equivale à eliminação do ornamento nos objetos de uso corrente. Visto já não ser um

produto natural da nossa civilização, o ornamento representa um atraso ou uma degeneração…O ornamentista tem de trabalhar vinte horas para alcançar os dividendos de um trabalhador moderno que trabalhe oito horas. Regra geral, o ornamento encarece o preço de um objeto…Como o ornamento já não pertence à nossa cultura, de um ponto de vista orgânico, também já não é uma expressão da nossa cultura. (Adolf Loos, Ornamento e

crime, 1908). Sarnitz, 2007: 84-87.

39 Thou shall comprehend the form and construction of all objects only in the sense of their strictest, elementary

logic and justification for their existence. (Van de Velde, 1907) Conrads, 1971: 18.

simples que privilegiam uma lógica prática e construtiva: a forma segue a função.40 Este gesto conciliador entre o ser e a técnica decorre da convergência entre pesquisas formais lideradas pela vanguarda artística que, imbuída na precisão matemática, assume um papel convicto na resolução de questões sociais e produtivas.

Consequentemente, os fundamentos estéticos dos novos artefactos industriais resultam de um diálogo fértil, mantido com o progressivo furor iconoclasta que envolve as estéticas do Purismo, de Stijl41 e do Construtivismo Russo.42 Nestes movimentos de vanguarda, a arquitetura encontra novas concessões de espaço, de tempo e de luz, assentes numa clareza geométrica que rompe com a clássica ilusão perspética e introduz o movimento como dimensão expressiva da composição espacial. Das paletas brancas pinceladas de formas básicas e cores primárias, cimenta-se um mundo ortogonal de superfícies planas rasgadas pela transparência e despojadas de ornamentos, onde o caráter dos materiais e as vantagens da estandardização se conjugam numa abstração radical, transposta da bidimensionalidade das telas para a prática quotidiana e arquitetónica.43

of these into a number of irreducible discrete elements. Padovan, 1987: 8.

40 It is the pervading law of all things organic and inorganic, of all things physical and metaphysical, of all things

human and all things super-human, of all true manifestations of the head, of the heart, of the soul, that the life is recognizable in its expression, that form ever follows function. This is the law. Sullivan, 1896: 408

41 Corrente estética multidisciplinar associada ao neoplasticismo, fundada em 1917 com o lançamento

da revista com mesmo nome, publicada até 1931. Foi liderada por um conjunto de artistas holandeses multifacetados como o pintor Piet Mondrian (1872 – 1944) e os arquitetos Theo Van Doesburg (1883 – 1931), J.J.P. Oud (1890 – 1963) e Gerrit Ritveld (1888 – 1964).

42 Movimento formado em 1919 – 1920 que explora a nova relação entre arte e política, instaurada pela

Revolução de Outubro (1917).

43 I gabble the elementary geometry. I am possessed of the color white, the cube, the sphere, the cylinder, and the

pyramid. (Le Corbusier). Curtis, 1982: 106.

Fig. 8: Casa Schröder (1924), Gerrit Ritveld©[email protected] Fig. 9: Piet Mondrian, Composição com vermelho, amarelo e azul (1921) ©wikipaintings.org