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estrangeira, com cabelo curto e sotaque italiano

No documento Gênero e mobilidades no tempo presente (páginas 91-97)

Homens, os próprios cientistas no trabalho são guia-dos numa certa maneira por desejos e inclinações pes-soais: frequentemente são influenciados por interesses particulares dos grupos a que pertencem.

Norbert Elias, Engagement et distanciation, 1996

Em junho de 2008, com a minha primeira viagem para a Re-pública Dominicana, começava também a primeira estadia de pes-quisa que realizei para o estudo da prostituição de menores de ida-de7 e do turismo sexual no país. Foi uma pesquisa que realizei no

7 Vai além do escopo deste trabalho dar conta do acalorado debate em torno da definição do problema: prostituição de menores de idade ou exploração sexual de crianças e adolescentes?

Durante a experiência de pesquisa teria preferido cedo, não sem controvérsia, o uso do termo

“prostituição” e da expressão “menor de idade” em vez de “exploração sexual de crianças e adolescentes”. Como argumentei em outro lugar (2011), a venda de sexo, apesar da menor idade dos jovens que encontrei, muitas vezes parece configurar-se como um projeto consciente, acompanhado por determinação e audácia, amadurecido num contexto de restrições e

âmbito do meu doutoramento.8 No primeiro capítulo da tese, que se intitulava “A história natural da pesquisa”, a partir da minha biografia e dos meus interesses, dava conta da motivação pessoal, bem como científica, que tinha incentivado o estudo do problema.

Desde as primeiras páginas compartilhava o meu posicionamento ideológico com respeito ao problema estudado e algumas questões

“éticas” que a experiência de pesquisa empírica tinha levantado.

Uma dessas refere-se à legitimidade de investigar problemas pelo menos aparentemente distantes, mesmo territorialmente. Era uma pergunta que foi colocada insistentemente nos primeiros momen-tos da estadia dominicana, durante uma relação nem sempre fácil com os interlocutores que, pelo menos nas expectativas, teriam podido favorecer a pesquisa empírica.9 Por que não me debruçar sobre a “criança” italiana? Ou por que não estudar os turistas sexu-ais e, com eles, as responsabilidades da parte do mundo de onde eu vinha? A minha formação e os interesses adquiridos ao longo do tempo respondiam a estas perguntas e me aproximavam de uma

limitações, mas também de ambições e aspirações a melhorar a sua situação. Um desejo de quebrar a rígida moral sexual, uma fase de descoberta da sexualidade e de construção de uma identidade sexual, acompanha, em alguns casos, as experiências dos jovens que se movem dentro de um contexto de necessidade, mas também um desejo de experimentação e de

“jogo”. Nas suas palavras, a “exploração” refere-se principalmente às tentativas de identificar diferentes oportunidades de subsistência e de melhorar as suas condições de vida, em vez da experiência de venda de sexo. No que diz respeito à preferência pela expressão “menor de idade”, lembro aqui que tanto a menoridade quanto a infância não são fenômenos naturais, mas uma construção social situada historica e geograficamente. Todavia, a experiência de pesquisa empírica sugeria uma infantilização particular dos sujeitos aos quais se refere o termo

“criança” que remete a uma ideia norte-cêntrica de autonomia e necessidade de proteção.

8 Em outubro de 2010, defendi a tese na Sapienza, Universidade de Roma, sob o título Storie dominicane. Uno studio qualitativo della prostituzione minorile in contesti di turismo sessuale (Histórias dominicanas. Um estudo qualitativo da prostituição de menores de idade em contextos de turismo sexual), publicada com o mesmo título pela editora Nova Cultura em 2011. A pesquisa, caracterizada por uma abordagem qualitativa, baseia-se na integração da observação científica com a coleção de 25 entrevistas qualitativas. Dez destas foram realizadas com representantes de instituições e organizações não governamentais com experiência de trabalho no setor turistico ou com trabalhadores e trabalhadoras sexuais e/ou jovens que vendem sexo. As restantes 15 entrevistas foram realizadas com menores de idade e jovens em situação de prostituição que, no momento do encontro, moravam no contexto metropolitano de Santo Domingo, na area turística costeira de Boca Chica ou na área suburbana de Haina.

9 Eram os representantes de algumas organizações que compõem a Comissão Interinstitucional contra Abuso e Exploração Sexual de crianças dominicana; a Comissão inclui mais de uma dúzia de instituições governamentais, organizações não governamentais e internacionais, como a Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

terra e de um tema aparentemente distantes, pondo em causa as minhas responsabilidades e o meu interesse de pesquisa. Mas fica-va uma outsider (MERTON, 1972).10

Outsider enquanto “jovem, mulher, branca, estrangeira, com ca-belo curto e sotaque italiano”? Provavelmente outsider especialmente enquanto pesquisadora “outra” em relação à pesquisa que, no mesmo período, estava a ser realizada no país com o patrocínio de alguns dos meus interlocutores (ver HASBÚN, s.d.). E de maneira veemente recomendavam uma atenção especial, durante a “minha” pesquisa, a respeito dos “meninos, das meninas e dos adolescentes” que eu pre-tendia encontrar.

À preocupação com as “suas” crianças adicionava-se, para minha surpresa ingênua, a preocupação com uma das principais indústrias do país, a turística, com a consequência de que muito rapidamente o uso da expressão “turismo sexual” surgia como um tabu.

Certamente as contingências não pareciam facilitar a comunica-ção com estes atores. Nas ocasiões informais surgia o desacordo para com uma publicação que tinha saído alguns meses antes da minha chegada: um trabalho publicado num jornal por uma autora, também ela italiana, uma jornalista que “permaneceu por quinze dias no país e que, depois de algumas entrevistas e um passeio nas praias de Boca Chica” teria prejudicado a imagem do turismo dominicano.

As respostas institucionais com que me confrontei nos primei-ros momentos da estadia incentivavam uma reflexão, só brevemente referida no trabalho final, sobre a repressão como tipo fundamental de ligação entre poder e conhecimento, sexo e prostituição. Como nos lembra provocativamente Michel Foucault (2016), as crianças sabe-se que não têm sexo: uma boa razão para se proibir que se fale sobre isso e para impor prudência e silêncio também na pesquisa. Por outro lado, é significativa a dificuldade de combinar, também a nível

teóri-10 Segundo Robert K. Merton (1972), os insiders são os membros de grupos específicos e coletividades ou ocupantes de um status social especifico e os outsiders os que não são membros. Cada posição estaria relacionada com vantagens e desvantagens e preocupações específicas surgiram dentro da reflexão feminista e pós-colonial. Na sua articulação mais simples, uma perspectiva insider põe em causa a capacidade dos estudiosos outsider de compreender plenamente as experiências de um insider, enquanto uma perspectiva outsider levanta dúvidas sobre a possibilidade de um estudioso insider se colocar de fora da cultura estudada e analisá-la sem viezes (KUSOW, 2003).

co, sexo e venda de sexo, e assim como quem teoriza o sexo – pensem na Judith Butler além do próprio Foucault – muitas vezes ignora o sexo comercial dos adultos, e sobretudo dos menores.

No momento da divulgação dos resultados da minha investi-gação, o medo da falta de capacidade da “jovem” pesquisadora e a complexa gestão das emoções que haviam atravessado a experiência empírica contribuíram para concentrar toda a minha análise sobre a inesperada, multifacetada, experiência e definição do problema – a prostituição – assim como sustentada pelos menores de idade, mini-mizando uma mais cuidadosa partilha reflexiva do caminho que me tinha permitido encontrá-la.

Enquanto isso, a minha “estraneidade” tinha assumido um significado diferente com outros interlocutores, incluindo as várias organizações não governamentais que trabalhavam sobre o tema e os próprios menores de idade com experiência de venda de sexo.

Os primeiros momentos do acesso ao campo tinham encora-jado certamente uma atenção especial em relação a evitar pressões ou forçar o consentimento nas entrevistas com os jovens. Iria encontrá-los em primeiro lugar no ambiente natural da prostituição. A partilha dos seus espaços, em estreito contato com os protagonistas, determinaria um alto custo emocional da pesquisa. Jovem, mulher, “gringa” obriga-va a um posicionamento contínuo, por vezes extenuante, em relação a quem eu era e aos meus objetivos. Os espaços que cruzava eram ao mesmo tempo um lugar de construção de complexas relações de co-nhecimento e confiança.

Os rapazes, com frequência, procuravam eles próprios discreta-mente o momento da entrevista que chegava depois de uma prolonga-da experiência de partilha cotidiana, constelaprolonga-da, em alguns casos, por sutis jogos de sedução. A possibilidade de alcançar e construir uma re-lação de confiança com as raparigas foi, no entanto, uma questão mais complexa por causa, entre outras coisas, da estigmatização precoce e da condenação social de que tinham experiência. Assim, o encontro com estas foi sempre acompanhado pela intermediação do pessoal das organizações que me apoiaram no campo e sendo a entrevista, muitas vezes, o ponto de partida em vez de ser o ponto de chegada do nosso encontro.

Em qualquer caso, a minha “estraneidade” parecia restituir li-berdade de expressão, não obstante o estigma social forte e generaliza-do. A este respeito, lembro Nairobi, jovem transexual que, quando a encontrei pela primeira vez, em 2008, definia-se como “trabalhadora sexual”, mas em 2009, quando voltei à República Dominicana, espe-cialmente durante os eventos públicos em que participávamos juntas, preferia enfatizar a experiência como “trabalhadora social” na organi-zação com a qual estava colaborando.

Ademais, apesar da dificuldade de compartilhar uma experi-ência complexa, muitas vezes tive a sensação de que o encontro de entrevista provocou um efeito catártico sobre os meus interlocutores.

Muitos deles não tinham a possibilidade de acesso a lugares, mesmo informais, de informação e orientação, de escuta e relacionamento, que poderiam contribuir a estimular a aprendizagem da própria his-tória de vida e a atribuição de significado às experiências vividas. O encontro da entrevista parecia ativar um processo de escuta e de au-toescuta que, pelo menos em alguns casos, através da intervenção das mesmas organizações que tornaram possível a pesquisa empírica, con-tinuou ao longo do tempo.

Quanto às organizações não governamentais contactadas, estas responderam sem nenhuma resistência especial à partilha de experiên-cias sobre o tema de pesquisa. Uma resposta que, em alguns casos, resul-tou num apoio à descida ao campo e foi constantemente acompanhada da denúncia, do desejo de “mostrar” a forma como as coisas estão, e das expectativas de expandir o próprio capital social. Uma abertura que teve lugar de forma semelhante daquela que experimentei mais tarde, em contextos mais “familiares” e que, hoje, remove todas as dúvidas sobre o papel de uma (possível) assimetria nessas relações. Foi antes, uma “aber-tura condicional”, que se refere à questão da construção da identidade do pesquisador e a sua aceitação dentro da realidade investigada. Por outro lado, como lembra Mario Cardano, “o trabalho de campo come-ça com um rito peculiar de reversão de status: o observador torna-se o objeto de observação dos nativos” (1997, p. 58, minha tradução). O

“estudo” dos meus interlocutores sobre mim pretendia aferir a vontade de me envolver e, com ela, o interesse pela pesquisa. Por vezes, a partilha de momentos inesperados de complexidade estimularam a construção de uma relação de respeito e mútua confiança.

Durante a pesquisa, além disso, outras características da mi-nha condição de outsider entravam em jogo e adquiriam importân-cia. Uma delas refere-se ao meu cabelo curto, não tão comum no país, onde um anti-haitianismo forte e um desejo de distanciamento da descendência africana alimenta o costume de esticar o cabelo e desencrespá-lo. Os meus interlocutores perguntavam-se frequente e continuamente – nem sempre verbalizando a pergunta – se eu se-ria uma religiosa laica ou lésbica/bissexual. Ou ambas. Certamente criava confusão o fato de que, por um tempo, tinha ficado alojada com religiosas laicas, sendo que algumas destas faziam parte do meu cotidiano, assim como as jovens amigas lésbicas e feministas domi-nicanas.

Provavelmente também por esta razão, um dos atores decisivos no meu acesso ao campo, por muito tempo, sentiu a necessidade de compartilhar as suas reflexões sobre a violação dos direitos da comunidade homossexual da República Dominicana, e quando es-perava que fôssemos aos colmados11 ou às casas de alterne, propunha acompanhar-me a alguns dos pontos de referência da comunidade homossexual. É certo, tudo isso favoreceu uma atenção inesperada e julgo que uma melhor compreensão da prostituição masculina.

Da experiência dos jovens palomitos, dos sanky pancky e dos bugarro-nes dominicanos,12 que frequentam a comunidade gay dominicana que, depois de alguns meses da minha chegada ao país, também eu conhecia bem.

11 Na República Dominicana, os colmados são lojas que vendem produtos alimentares a peso e enlatados; são pequenos “centros culturais” onde as pessoas convergem para atividades que variam desde o consumo de álcool e a dança até o jogo de beisebol ou qualquer outro evento esportivo e a compra e venda de sexo.

12 Na República Dominicana, a figura do bugarrón é associada aos ambientes homossexuais das áreas urbanas do país e à venda de sexo para homens homossexuais. A dos sanky-panky, a indústria do turismo nas áreas costeiras – o sanky-panky poderia ser definido como um gigolô caribenho, que vende prazer tanto aos homens como às mulheres. Estas duas figuras da cultura popular dominicana são caracterizadas pela afirmação de uma identidade sexual não homossexual, bem como da atividade de venda de sexo. São conhecidos como palomitos os jovens adolescentes que vendem sexo.

No documento Gênero e mobilidades no tempo presente (páginas 91-97)