2.3 Cap 3 – Teoria da Polidez
2.3.2 Aspectos detalhados da teoria de Brown e Levinson
2.3.2.2 Estratégias de Polidez e sua vinculação com o gênero
A partir da definição de polidez apresentada acima, uma pergunta repetidas vezes formuladas pelos pesquisadores da área é se mulheres são mais polidas que os homens e quais as razões do uso distinto das estratégias de Polidez por homens e mulheres?
São as mulheres mais polidas que os homens? Esta é uma simples questão, mas a resposta, como Holmes aponta, é extremamente complexa. Ela depende, antes de tudo, de como nós definimos polidez e se nós aceitamos ou não que as mesmas normas de comportamento polido aplicam-se para homens e mulheres. (Ladergaard, 2004, p. 2003-2004)
Pesquisadores como Holmes (1995) são categóricos em afirmar que definitivamente as mulheres usam estratégias lingüísticas mais polidas que os homens e que isso se evidencia através do uso mais freqüente de elogios, pedidos de desculpas, menor interrupção de seus
H = Ouvinte/ A = Atos de fala
interlocutores, assegurando-lhes o direito de tomar o turno da palavra e mantê-lo em uma conversação e encorajam mais seus interlocutores a dar continuidade à conversação.
Holmes argumenta que, com todas as reservas necessárias que devem se levar em conta, ainda a resposta para nossa pergunta inicial é afirmativa. Ela argumenta que se nós olhamos para as evidencias avaliáveis na literatura sociolingüística, o quadro global é que, em geral, o uso da linguagem por mulheres para ser mais explicitamente polido que o uso da linguagem por homens. (...) Por exemplo, mulheres são mais prontas para fazer elogios; elas pedem mais desculpas e fazem isso mais abertamente e explicitamente; elas são menos prontas para interromper seus interlocutores e, conseqüentemente, demonstram mais respeito pelo direito dele(a) tomar o turno e mantê-lo; elas freqüentemente são mais encorajadoras na conversação, por exemplo, provendo mínimas respostas mais positivas e assim dando continuidade à conversação; e na conversação em geral, elas aparentam estar mais interessadas no cuidado com a face de seus interlocutores e tentam evitar os FTAs. (Ladergaard, p. 2004)
A mesma posição é defendida por Ostermann (2006) em seu estudo acerca das narrativas de mulheres vítimas de violência doméstica em espaços de denúncia em delegacias especializadas. Especialmente focada no que ela denomina de ‘sistema de tomadas de turnos’
a autora propõe que os padrões interacionais refletem as ‘comunidades de prática’ onde os mesmos são efetuados e o ‘habitus’ de quem o utiliza, sendo que o contexto simbólico irá determinar uma linguagem mais ‘feminina’ ou uma linguagem mais ‘masculina’.
Alguns aspectos da interacionalidade, por meio dos quais se pode investigar trabalho de face (ou sua ausência) (...) são o “sistema de tomada de turnos” e o “formato dos turnos” (...) A autora mostra que, contrariamente aos homens, as mulheres tendem a produzir mais respostas encorajadoras a seus interlocutores – tais como continuadores – e que tais respostas são alocadas de forma “não-intrusiva”, garantindo assim a fluidez da conversa. (...) Continuadores (...) constituem uma estratégia de polidez positiva mais óbvia, já que encorajam o falante a continuar sua linha de pensamento. (...) Estes padrões interacionais contribuem para o estabelecimento e manutenção da solidariedade ou vínculo (Ostermann, 2006, p. 19)
Todavia alguns autores entendem que afirmar que a fala das mulheres é mais polida que a dos homens é simplesmente adequar a linguagem a alguns estereótipos sociais, reforçando a idéia que os gêneros são universalmente diferentes. Weatherall (1998, p. 6-7) afirma que “a descrição da fala das mulheres como sendo polida e cooperativa é consistente com os homens como dominadora e competitiva é consistente com o estereótipo do sexo masculino”. E Mills (2000, p.6) mostra-se bastante contrária a idéia que mulheres são mais polidas que homens: “Eu sou contrária à noção de Holmes que globalmente as mulheres são mais polidas que os homens através da analise de uma instância particular de impolidez lingüística e a complexidade de inter-relação entre percepções de normas de comunidade e estereótipos de gênero”.
Vários indicadores são apontados como fazendo parte do ‘corpus’ de uma linguagem
‘polida’ e que seria utilizado especialmente pelas mulheres em distintas interações sociais.
Estes indicadores seriam: os ‘continuadores’; as respostas relacionadas ao turno anterior; a escuta participativa e as “pistas de contextualização”, entre outros. Os continuadores são os estímulos verbais que o ouvinte dá a seu interlocutor para que este continue desenvolvendo o tema e que facilitam o desenvolvimento do diálogo. Segundo Ostermann, (2006, p. 31) “os continuadores funcionam como recibos do que está sendo dito – demonstram uma “escuta participativa” – e passam adiante a oportunidade de tomada de turno, dessa forma garantindo certo grau de compreensão na manutenção do fluxo da conversa”. De igual forma as respostas relacionadas ao turno anterior estimulam ao falante que prossiga em seu assunto, fazendo com que o mesmo sinta-se validade em sua auto-estima. Uma escuta participativa pressupõe tanto o uso de continuadores como de respostas relacionadas com o turno anterior, mas também toda uma gama de sinais não-verbais que garantem ao falante que seu interlocutor deseje que ele se expresse e que sua fala está sendo validada. Finalmente as “pistas de contextualização”
sinalizam que determinado assunto vai ser concluído e outro vai ser iniciado, não ocasionando uma quebra abrupta no processo interacional e amenizando as ameaças à face do outro. “As
‘pistas de contextualização’ sinalizam para a interlocutora a iminência de uma troca de assunto, dessa forma provendo maior fluidez na interação e menor incidência de trocas de assunto abruptas, não-marcadas discursivamente”. (Ostermann, 2006, p.37)
Entretanto estudiosos como Alice Feed (apud Mills, 2000), verificaram que alguns padrões de fala utilizados na conversação entre amigos próximos e que são correntemente considerados como femininos, podem ser expressos por homens, fazendo inclusive que a percepção destes homens seja alterada em função deste uso de um padrão lingüístico mais
“feminino”.
Alice Feed sugere em sua análise de tipos de fala que são produzidas por amigos próximos que certos estilos de interação são codificados pelos participantes como feminino ou masculino: assim, por causa do contexto e a percepção que a conversação íntima é feminina, os machos em seu estudo pareciam comportar-se como fêmeas estereotipadas (...). Entretanto a noção de domínios de gênero é importante aqui habilitando para descrever o modo que o gênero causa impacto ao nível de espaço e contexto, mais do que simplesmente ao nível de indivíduos envolvidos na interação. (...) Quando esta nova e mais complexa teorização sobre gênero é estendida para a análise da polidez lingüística, resulta na mudança do estereotipado pressuposto que tem dominado as discussões sobre o uso da polidez pelas mulheres, na maioria das análises de gênero e linguagem desde Lakoff (1974) até Holmes (1996). (p.3) (Mills, 2000, p.3)
Já os indicadores de uma linguagem não-polida estão relacionados às respostas com troca de assunto e ao silêncio ou ausência de resposta. Tanto o silêncio quanto as trocas de assunto tem sido relacionados às diferenças de poder e modos de controle entre os interlocutores e por isso atribuídos a uma linguagem mais masculina em uma sociedade onde
o poder é mantido de forma desigual e através do uso da linguagem, segundo as teorias da dominância de Zimmerman e West (1975) já mencionadas. Para Ostermann (2006) “Tanto o silêncio como a troca de assunto podem indicar a falta de interesse nas contribuições feitas pela vítima, dessa forma ameaçando sua face”. (p.28) e “o silêncio pode tornar-se uma forma de controle sobre a interação” (p.31).
As mulheres tem igualmente sido descritas como mais polidas que os homens em virtude de sua capacidade de maior codificação dos elementos não-verbais presentes no processo comunicacional, o que proveria às mesmas, elementos para atenuar os atos ameaçadores da face. Assim as mulheres têm sido percebidas como mais capazes de identificar as posturas corporais, as variações de tonalidade da voz, o ritmo e a velocidade e outros elementos de forma e não de conteúdo da mensagem. Laplante e Nalini (2003, p. 439) afirmam que “mulheres provavelmente são mais engajadas nas estratégias de polidez, e mulheres tem repetidamente sido encontradas sendo superiores na codificação das insinuações não-verbais”.
Por outro lado, também o conteúdo das mensagens tem sido avaliado pelos pesquisadores que concluem que, de uma forma geral as mulheres são mais polidas por buscarem conteúdos que promovam maior vínculo, através de temas pessoais e mais atentos às necessidades da face dos outros, enquanto os homens geralmente preferem os temas impessoais e com menor preocupação à preservação da face de seu interlocutor.
(...) observa-se que ‘mulheres’ falam mais acerca de questões pessoais, são mais atentas às necessidades da face dos outros, colocam um alto valor na conectividade e na intimidade. ‘Homens’ preferem tópicos impessoais, são mais interessados em informação, valores de status e independência e falam um com outro de forma claramente mais agressiva e desafiadora. (Rose, 2002, p.529).
Para Mills (2000), a vinculação da polidez com o gênero só pode ser entendida dentro das “comunidades de prática”, as quais a autora define como “um agrupamento de pessoas as quais se reúnem ao redor de um compromisso mútuo com algum empenho comum”. (Mills, 2000, p.2). Segundo a autora, os códigos internos produzidos dentro destas comunidades de prática definiriam os comportamentos adequadamente polidos para os distintos gêneros e não haveria assim comportamentos universalmente definidos como polidos para cada gênero.
Este modelo mais produtivo de gênero torna mais difícil produzir declarações globais e conseqüentemente abstratas acerca da linguagem de mulheres ou homens; entretanto ele admite variações dentro da categoria ‘homens’ e ‘mulheres’ e permite a possibilidade de contestação e mudança, ainda também reconhecendo a força do estereótipo e das normas lingüísticas da comunidade.
(...) Também há o caso que certas atividades dentro destas comunidades de pratica poderiam ser
codificadas ou reconhecidas como estereotipicamente masculinas ou femininas, e assim, certos tipos de atividades lingüísticas podem ser consideradas por homens e mulheres como apropriadas ou inapropriadas dentro da interação e sancionadas pelo grupo como um todo. (Mills, 2000, p.3)
Embora os vários pesquisadores apontem vinculações da Teoria da Polidez lingüística em um atrelamento com o gênero, encontrando formas distintas de expressão da polidez ou da impolidez nos homens e nas mulheres, percebe-se que há lacunas que a teoria não consegue preencher e que necessitam de uma nova abordagem, especialmente do ponto de vista epistemológico. Uma abordagem que contemple as distintas classes sociais, a diversidade cultural e as comunidades de prática específicas que determinam uma linguagem mais ou menos polida.
Meu argumento é que nós necessitamos um modelo mais flexível e complexo de polidez e gênero.
Teóricos da pesquisa em gênero e linguagem não podem continuara discutir gênero em termos de comportamento lingüístico diferente entre homens e mulheres como grupos; nós necessitamos ser capazes de analisar as várias estratégias que mulheres e homens que possuem um gênero, uma raça e uma classe social, adotam em circunstâncias particulares e com alvos e interesses particulares. (Mills, 2000, p.1)
Entendemos que especialmente o contexto joga um papel importante na análise de uma estratégia mais ou menos polida e, para tanto, queremos analisar a seguir exatamente o contexto específico de um ambiente de terapia, denominado tecnicamente de “setting terapêutico”, e da importância desta compreensão na interpretação da linguagem e sua relação com o gênero dentro do mesmo.