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4 RACIONALIDADE, DERROTABILIDADE E COERÊNCIA

4.3 A PERSPECTIVA LÓGICA DA DERROTABILIDADE

4.3.3 Estrita legalidade, derrotabilidade e coerência

alteração do quadro de premissas da norma, para que a solução normativa seja alterada, vale dizer, a conclusão da regra-matriz de incidência é derrotada quando se considera a norma isentiva como fato impeditivo da exigência tributária. Mas, se a regra-matriz de incidência, em última análise é "p → r", em uma lógica clássica, não é possível (p q) → -r. Essa constatação revela que a teoria da isenção tributária desenvolvida por Paulo de Barros Carvalho, para levar a cabo a modificação da conclusão normativa, a partir da alteração do quadro de premissas, deve reconhecer a aplicação de uma lógica não-monotônica.173

4.3.3 Estrita legalidade, derrotabilidade e coerência

Interpretações que vão além da previsão prima facie da regra jurídica podem ser mais ou menos factíveis, a depender da área do direito de que se está tratando. Segundo Humberto Ávila, a resistência à superação de certa regra será maior quando ela comprometer a realização do valor segurança jurídica, especialmente em áreas onde a padronização é importante – direito penal e direito tributário – e, por outro lado, será muito pequena naqueles casos em que o alargamento ou a restrição da hipótese da regra seja indiferente em relação à segurança jurídica; em seguida, conclui que o grau de resistência da regra há de ser tanto superior quanto mais a tentativa de fazer justiça para um caso possa afetar a promoção da justiça para a maior parte dos casos.174

173 VASCONCELLOS, Fernando Andreoni. A derrotabilidade da norma tributária.

Revista Tributária e de Finanças Públicas, São Paulo, n.77, p.125-127.

174 ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios. 13.ed. São Paulo: Malheiros, 2012. p.117-118.

Do mesmo modo, o raciocínio coerentista pode ser aplicável em maior ou menor grau, a depender da matéria a ser tratada. A investigação em torno da coerência entre a regra jurídica e a sua razão subjacente, por exemplo, será mais ou menos factível, dependendo da área do direito interpretada.

No caso do direito tributário, a possibilidade de superação da previsão prima facie, em uma análise coerentista, possui contornos específicos. Em nosso ordenamento, lembra José Roberto Vieira, invocando Alberto Xavier, a legalidade é a

"[...] mais importante de todas as limitações constitucionais ao poder de tributar".175 Sob essa perspectiva, foram edificadas todas as bases da doutrina tributária brasileira, mediante teorias, raciocínios e argumentos que visam a preservação da certeza do direito, da segurança jurídica e da previsibilidade das condutas a serem tomadas pelos cidadãos-contribuintes. A legalidade concede estabilidade às relações jurídicas, protegendo os cidadãos de eventuais desacertos estatais nos âmbitos administrativo e legislativo. As exigências da estrita legalidade, no que pertine à minuciosa descrição dos dados da obrigação tributária, afirma Paulo de Barros Carvalho, caracterizam a chamada tipicidade tributária.176

A legalidade é tão importante que o legislador não se limitou a tratá-la no artigo 5, inciso II, indo além, para então formular, de modo específico, na seara tributária, a previsão do artigo 150, I, impondo-a para instituição, para o

175 VIEIRA, José Roberto. Fundamentos republicano-democráticos da legalidade tributária: óbvios ululantes e não ululantes. In: FOLMANN, Melissa (Coord.). Tributação e direitos fundamentais: propostas de efetividade.

Curitiba: Juruá, 2006. p.197.

176 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. 23.ed. São Paulo: Saraiva, 2011. p.208.

exercício da competência tributária, ou para a majoração de tributos.177

O próprio Código Tributário Nacional estabelece previsões cujo escopo é reforçar a legalidade estrita, como as regras interpretativas do artigo 111, mediante as quais o legislador pretende direcionar o ato interpretativo em questões que atingem o pagamento do tributo: isenção, suspensão da exigibilidade e dispensa de deveres instrumentais. Nesses pontos, o legislador exige a interpretação não ampliativa, com a pretensão de que o intérprete não queira elastecer a literalidade textual, para dela extrair interpretações diferentes daquela obtida prima facie, por qualquer mecanismo interpretativo, inclusive por intermédio da coerência.

A jurisprudência acolhe tais previsões legais. O Superior Tribunal de Justiça já entendeu que as normas que concedem isenção do imposto de renda, para aposentados portadores de moléstias graves, estabelecem um rol taxativo de enfermidades, não sendo possível estendê-lo por meio da interpretação.178 Nesse caso, a de verificar-se o cumprimento de todos os requisitos estabelecidos para o gozo do favor fiscal. 2. O conteúdo normativo do art. 6.o, XIV, da Lei 7.713/88, com as alterações promovidas pela Lei 11.052/2004, é explícito em conceder o benefício fiscal em favor dos aposentados portadores das seguintes moléstias graves: moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma. Por conseguinte, o rol contido no referido dispositivo legal é taxativo (numerus clausus), vale dizer, restringe a concessão de isenção às situações nele enumeradas. 3. Consectariamente, revela-se interditada a interpretação das normas concessivas de isenção de forma analógica ou extensiva, restando consolidado entendimento no sentido de ser incabível interpretação extensiva do aludido benefício à situação que não se enquadre no texto expresso da lei, em conformidade com o estatuído pelo

limitação legal não foi derrotada, tampouco a possível coerência entre a razão subjacente da norma, a previsão da norma isentiva e determinada doença grave, autorizou a extensão da conclusão normativa. Ou seja, em nome da legalidade estrita, a solução prima facie fornecida pelo direito positivo foi privilegiada, em detrimento da interpretação de outros dispositivos legais ou constitucionais.

Nada obstante, isso não impede que, em situações específicas, o direito tributário permita ilações para além da interpretação prima facie, por intermédio da coerência, como se verá, em profundidade, no capítulo 6.

4.4 PARADOXO: UMA SOLUÇÃO DERROTÁVEL É COMPATÍVEL COM O