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4.6 Descrição dos sujeitos

4.6.1 Estudo 1 – Crianças e adolescentes

As crianças e adolescentes que participaram da presente pesquisa pertenciam à faixa etária de 6 a 16 anos de idade, viviam em situação de vulnerabilidade social e procediam de distintas regiões da cidade de Ponta Grossa. Os questionários foram aplicados em quatro instituições de contraturno social para todas as crianças e adolescentes matriculados nessas instituições, e que estavam presentes no dia dessa aplicação. No entanto, para a análise, serão consideradas três instituições, devido à desistência de uma das instituições em participar do processo de investigação.

Para descrever as 107 crianças e os 147 adolescentes que responderam ao questionário, organizamos quatro tabelas. As duas primeiras são especificamente a respeito das informações das crianças e as duas últimas sobre os adolescentes. A primeira tabela traz os dados censitários como faixa etária, gênero, número de participantes por instituição, quem é responsável pela criança e a quantidade de irmãos. A segunda apresenta as informações de desempenho escolar e situações de conflitos nas escolas.

Tabela 4 – Caracterização das crianças que responderam ao questionário em 2012. Total da Amostra N=107

Faixa etária Total %

6 a 7 anos 30 28,04 8 a 9 anos 52 48,60 10 a 11 anos 25 23,36 Gênero Masculino 72 67,29 Feminino 35 32,71

Participantes por Instituição

Instituição A 30 28,04 Instituição B 34 31,78 Instituição C 43 40,19 Mora com Pai e mãe 62 57,94 Mãe e padrasto 8 7,48 Pai e madrasta 2 1,87 Mãe 21 19,63 Pai 4 3,74

Mãe, avós e tios 2 1,87

Pai, avós e tios 5 4,67

Avós 3 2,80

Quantidade de filhos que os pais têm Não respondeu 1 0,93 Somente 1 10 9,35 2 a 3 filhos 42 39,25 4 a 5 filhos 31 28,97 6 a 7 filhos 11 10,28 8 filhos 1 0,93 10 a 12 filhos 3 2,80 2 do pai e 4 da mãe 4 3,74

Até 5 do pai e até 5 da mãe 4 3,74

Fonte: A autora, 2015. Adaptado de Trejos-Castillo (2006) com autorização.

Numa primeira análise, observamos que há um predomínio de meninos nas instituições. Outro detalhe que nos chama a atenção nessas informações, é de que há um grande número de lares chefiados somente pela mãe. Esse fator, como vimos no capítulo 2 pode vir a potencializar a situação de vulnerabilidade e pobreza na família (PNUD, 1995; 2014; ZABALA-ARGÜELLES, 2009). Vale destacar que 57,94% das crianças moram com o pai e com a mãe. Sobre esse último, damos destaque na análise das informações.

A tabela abaixo explana o desempenho escolar e a situação de conflito das crianças nas escolas.

Tabela 5 – Índice de reprovação das crianças e situações de conflito na escola, em 2012. Total da Amostra N= 107 Já reprovou Total % Sim 16 14,95 Não 89 83,18 Não respondeu 2 1,87 Gênero e Reprovação Masculino 13 81,25 Feminino 3 18,75

Situações de conflito na escola Desentendimento com colega

Sim 58 54,21

Não 48 44,86

Não respondeu 1 0,93

Desentendimento e reprovação

Aluno (a) repetente 13 22,41

Aluno (a) não repetente 45 77,59

Jutificou o motivo

Sim 56 96,55

Não 2 3,45

Desentendimento com professor (a)

Sim 8 7,48

Não 96 89,72

Não respondeu 3 2,80

Desentendimento reprovação

Aluno (a) repetente 1 12,50

Aluno (a) não repetente 7 87,50

Jutificou o motivo

Sim 6 75,00

Não 2 25,00

Fonte: A autora, 2015. Adaptado de Trejos-Castillo (2006) com autorização.

Nessas informações, observamos que a questão de gênero é bem acentuada quanto ao desempenho dos estudantes na escola (CARVALHO, 2001; RODRIGUES; MAZZOTTI, 2013). Em relação à questão das brigas, somente um dos alunos que já reprovou também já brigou com o professor, e apenas um que brigou com o professor também já brigou com os colegas. O termo ‘briga’ foi utilizado porque faz parte do vocabulário utilizado tanto pelas crianças como pelos adolescentes, para se referir a situações de provocação, xingamentos, gritos e outras que constituem a violência verbal. Nesse sentido, a criança não diz: “Ele gritou comigo!”, e sim, “Eu briguei porque ele gritou comigo”. Desse modo, as provocações deslocam-se do plano que favoreceria um conflito para serem reduzidas ao conflito. Essa informação foi obtida através das observações.

Na tabela 6, em relação ao adolescente, confirma-se novamente a acentuada presença de meninos nas instituições. Outro fato que se confirma, é um grande percentual ter em seus lares pai e mãe. Essa informação é importante, dado que os professores, pedagogas e educadores sociais tendem a reproduzir em suas falas, que o problema dos embates nas instituições educativas tem sua origem em lares “desorganizados”, onde falta ou o pai, ou a mãe. Em outras palavras, falta uma referência de família – aquele modelo tradicional de preferência. No entanto, nossos dados confirmam que esse pode não ser o motivo.

Tabela 6 – Caracterização dos adolescentes que responderam ao questionário em 2012. Total da Amostra N= 147

Faixa etária Total %

11 a 12 anos 65 44,22 13 a 14 anos 63 42,86 15 a 16 anos 19 12,93 Gênero Masculino 95 64,63 Feminino 52 35,37

Participantes por Instituição

Instituição A 60 40,82 Instituição B 45 30,61 Instituição C 42 28,57 Mora com Pai e mãe 86 58,50 Mãe e padrasto 19 12,93 Pai e madrasta 1 0,68 Mãe 23 15,65 Pai 4 2,72 Avós e tios 10 6,80 Tios 3 2,04 Irmãos 1 0,68

Quantidade de filhos que os pais têm

Não respondeu 3 2,04 Somente 1 6 4,08 2 a 3 filhos 61 41,50 4 filhos 30 20,41 5 a 6 filhos 25 17,01 7 a 8 filhos 9 6,12 9 a 10 filhos 2 1,36 14 filhos 3 2,04

Até 3 do pai e até 3 da mãe 5 3,40

Até 4 do pai e até 7 da mãe 3 2,04

Fonte: A autora, 2015. Adaptado de Trejos-Castillo (2006) com autorização.

Dos adolescentes que responderam ao questionário, 30 tinham 11 anos e participavam das mesmas atividades com os demais, nesse sentido, responderam o questionário destinado aos adolescentes.

A tabela 7 mostra a situação de reprovação e conflito entre os adolescentes nas escolas.

Tabela 7 – Índice de reprovação dos adolescentes e situações de conflito na escola em 2012. Total da Amostra N= 147 Já reprovou Total % Sim 33 22,45 Não 114 77,55 Gênero e Reprovação Masculino 25 75,76 Feminino 8 24,24

Situações de conflito na escola Desentendimento com colega

Sim 67 45,58

Não 80 54,42

Desentendimento e reprovação

Aluno (a) repetente 25 37,31

Aluno (a) não repetente 42 62,69

Jutificou o motivo

Sim 58 86,57

Não 9 13,43

Desentendimento com professor (a)

Sim 34 23,13

Não 112 76,19

Não respondeu 1 0,68

Desentendimento reprovação

Aluno (a) repetente 10 29,41

Aluno (a) não repetente 24 70,59

Jutificou o motivo

Sim 32 94,12

Não 2 5,88

Fonte: A autora, 2015. Adaptado de Trejos-Castillo (2006) com autorização.

Aqui também se confirma que as meninas têm o menor índice de reprovação em relação aos meninos, pois somente oito estão entre os 33. Já, referente às brigas, o número de reprovados é mais elevado (10 alunos) entre os que já se desentenderam com os professores. E sete alunos, que já se desentenderam com os professores, também já se desentenderam com os colegas.

Para participar da fase de entrevista, selecionamos 60 sujeitos das duas instituições que participam de todas as etapas da pesquisa (observação, questionário e entrevista). Para seleção desses sujeitos foram consideradas as visitas às famílias e a autorização dos pais e/ou responsáveis legais (TCLE) para

que participassem do estudo. Das 30 entrevistas realizadas na Instituição A, 15 educandos estão na faixa etária de 6 a 11 anos e os demais entre 12 a 14 anos. Do total, 13 são meninas e 17 meninos. Uma característica que vale ressaltar referente ao processo de pesquisa, envolvendo as crianças e adolescentes das instituições, está na mudança no relacionamento com a pesquisadora após essa visitar suas casas. O estreitamento dos vínculos entre pesquisadora e sujeitos foi essencial para o aprofundamento das questões durante a entrevista, visto que o sentimento de confiança foi o elemento central nesse processo.

As entrevistas aconteceram no espaço da capela da instituição A, por ser um local sossegado e afastado das demais atividades. As crianças e adolescentes, participantes dessa etapa, embora passem por muitas dificuldades e alguns provenham de extrema situação de vulnerabilidade social, buscam superar suas dificuldades da melhor forma possível. São sujeitos que, pela pouca idade, apresentam uma maturidade singular em relação à vida e o convívio com as pessoas. Demonstram conhecer profundamente a situação que vivem e embora percebam que em algumas escolas o tratamento é diferenciado, apresentando até um pouco de resistência aos alunos, eles ficam em silêncio, pois o professor é uma "autoridade".

Muitos dos que participaram dessa fase, são bem inquietos, falantes e brincalhões, mas no momento das entrevistas olhavam firme para a pesquisadora e realmente participavam desse processo. Dos participantes, dois meninos, tio (7 anos) e sobrinho (6 anos), que moram com a avó, pois as mães estão envolvidas com o tráfico e uma delas encontra-se encarcerada, mostraram dificuldade em definir o parentesco, enquanto para um o outro era primo, esse considerava aquele como irmão. Essa foi a única situação encontrada de confusão de parentesco.

As situações vivenciadas por esses sujeitos são as mais adversas possíveis, mas em questão de moradia, o caso de um menino (11 anos) chamou-nos a atenção, pois na época da visita domiciliar morava em uma casa em extrema situação de risco, numa localidade de ocupação irregular em uma das vilas com maior índice de exclusão social da cidade, de acordo com Nascimento (2008). Uma vez que a mãe, nessa oportunidade, contou que a família iria mudar-se para um loteamento novo, a pesquisadora sempre perguntava para o menino sobre a mudança, até que um dia ele disse todo feliz que tinham ido até à casa nova e que essa parecia até casa de rico, pois tinha pintura e asfalto na rua da frente da

residência. Essa situação mostrou-nos o quanto a casa é realmente a referência da pessoa (SARTI, 2011).

Os demais eram muito comunicativos, questionadores, curiosos e se mostraram interessados a participar da investigação da pesquisadora.