3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1 Estudo de caso
O estudo de caso é abordado por muitos autores como como uma estratégia de investigação, (EISENHARD,1989), (YIN, 2003), (ALVES-MAZZOTI 2006), (MEIRINHOS E OSÓRIO, 2010), este tipo de pesquisa orienta-se por consecutivas etapas de coleta de dados, análises e interpretações das informações, com propósito de investigação intensiva de um ou poucos casos com vantagens como a aplicabilidade a situações humanas e contextos contemporâneos da vida real e é uma forma comum de se fazer estudos de natureza qualitativa em ciências sociais aplicadas. (MEIRINHOS E OSÓRIO, 2010), (CESAR, 2005). Essa abordagem estratégia, para Yin (2003), é preferida quando se colocam questões "como" e "porque" e quando há pouco controle por parte do pesquisador sobre os eventos focados em fenômenos contemporâneos dentro de um contexto de vida real. Fonseca (2002, p. 33-34) afirma que:
Um estudo de caso pode ser caracterizado como um estudo de uma entidade bem definida como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social. Visa conhecer em profundidade o como e o porquê de uma determinada situação que se supõe ser única em muitos aspectos, procurando descobrir o que há nela de mais essencial e característico. O pesquisador não pretende intervir sobre o objeto a ser estudado, mas revelá-lo tal como ele o percebe. O estudo de caso pode decorrer de acordo com uma perspectiva interpretativa, que procura compreender como é o mundo do ponto de vista dos participantes, ou uma perspectiva pragmática, que visa simplesmente apresentar uma perspectiva global, tanto quanto possível completa e coerente, do objeto de estudo do ponto de vista do investigador.
Estudo de caso, em seu sentido clássico, é definido por Gil ( 2002, p. 138 ) como o estudo de um indivíduo em um contexto definido; no entanto, para o autor, o conceito de caso ampliou-se a ponto de ser entendido "como uma família ou qualquer outro grupo social, um pequeno grupo, uma organização, um conjunto de relações, um papel social, um processo social, uma comunidade, uma nação ou mesmo toda uma cultura."
O estudo de caso, para os autores Coraiola, Sander, Maccali e Bulgacov (2014), pode
ser considerado como uma das principais estratégias metodológicas para desenvolver pesquisas acadêmicas na área de administração. Consideram-no adequado para a abordagem de problemas práticos e recomendam para a problemática inerente ao campo de conhecimento aplicado. Afirmam que essa metodologia também é bastante utilizada por oferecer mecanismos de exploração e análise de unidades sociais complexas, com grandes conjuntos de variáveis inter- relacionadas, principalmente situações nas quais haja dificuldade para estabelecer separação, no estudo, entre a parte de interesse e o contexto no qual essa unidade se encontra inserida. Para Silva, Shitake, França e Vasconcelos (2014 p. 128) "o estudo de caso define-se como método de exploração de realidades, denominadas de unidades-caso, apresentando cunho investigativo (analítico). Sua operacionalização pode ser norteada por uma ou mais provocações, as quais podem surgir ao longo da experiência de imersão, suscitando novos recortes e análises."
Yazan (2015) e Brown (2008), realizaram estudos sobre os autores Robert Stake, Robert K. Yin e Sharan Merrian, por eles considerados os três maiores estudiosos que fornecem procedimentos a serem seguidos na condução de estudos de casos; esses autores citados são vistos como metodologistas fundacionais dessa área, cujas sugestões impactam nas decisões de pesquisadores e estudantes que utilizam esta metodologia. Yazan (2015) realizou o estudo, por considerar que na metodologia de estudo de caso existe uma multiplicidade de abordagens e um terreno contestado, marcado por uma variedade de perspectivas.
Brown (2008), considerou o escopo do estudo de caso limitado, mas discute que o método pode fornecer insights ricos e significativos sobre eventos e comportamentos. Para a autora, a pesquisa qualitativa de estudo de caso é apoiada pela abordagem pragmática de Merriam, informada pelo rigor de Yin e enriquecida pela interpretação criativa descrita por Stake.
O foco em profundidade do particular dentro de um sistema limitado pode ajudar a fornecer uma visão holística de uma situação. É uma visão que inclui o contexto e os detalhes de um indivíduo. Os estudos de caso fornecem uma compreensão humanista e holística de situações complexas e, como tal, são ferramentas de pesquisa valiosas. No entanto, a menos que o pesquisador entenda completamente o estudo de caso e seu lugar no processo de pesquisa, e esteja confiante no paradigma de pesquisa de onde trabalha, os debates sobre seus méritos irão obscurecer a força e a direção do esforço de pesquisa. (BROWN 2008 p. 10).
3.1.1 Tipos e características dos estudos de caso
Há dois diferentes tipos de estudos de caso: estudos de casos únicos e de casos múltiplos. O primeiro é apropriado para várias circunstâncias de pesquisas, sendo análogo a um experimento único.
Yin (2001) apresenta uma série de justificativas para o estudo de caso único como a possibilidade de poder confirmar, contestar ou estender uma teoria, ainda determinar se as proposições de uma teoria são corretas ou se novas interpretações possam trazer maior relevância, podendo ainda contribuir à base de conhecimento, construção de teorias e direcionar investigações futuras. Para Cesar (2005 p. 4) outra importante contribuição do caso único pode ser a utilização do mesmo para determinar se as proposições de uma teoria estão corretas "quando o caso sob estudo é raro ou extremo, ou seja, não existem muitas situações semelhantes para que sejam feitos estudos comparativos, quando o caso é revelador, ou seja, quando o mesmo permite o acesso a informações não facilmente disponíveis." Nesta perspectiva, os casos únicos teriam como principal papel mostrar justamente aquilo que é desprezado quando se busca a generalização empírica: o específico (ZANNI, MORAES e MARIOTTO 2011 p. 8).
O segundo tipo de estudo de caso é a composição de mais de um caso único (YIN, 2001 p, 67); segundo Yin (2001) as provas deste tipo metodológico são consideradas mais convincentes e robustas, mas é um tipo de estudo que pode envolver mais tempo e recursos que normalmente um estudante ou pesquisador possuem. Ainda nesse conceito exige-se a lógica da replicação, que é análoga à utilizada por experimentos múltiplos; para a utilização de estudos de casos múltiplos cada caso deve ser selecionado cuidadosamente, conforme Yin (2001 p. 67), de forma a prever resultados semelhantes ou reproduzir resultados contrastantes apenas por razões previsíveis (uma replicação teórica). São exemplos na utilização de estudos de casos múltiplos, o estudo das inovações introduzidas em diferentes áreas dentro de uma empresa (CESAR, 2005).
Os estudos de caso podem ser realizados sob três propósitos: pesquisa explanatória, exploratória e descritiva. Desses critérios de classificação emergem seis tipos diferentes de estudos de casos, conforme quadro 1, chamados por Yin como estratégias de pesquisa (YIN, 2001 p. 24-25).
Quadro 1 - Estratégias e propósitos de pesquisas
Fonte: Adaptado de YIN (2001, p. 23-33)
Para Meirinhos e Osório (2010, p. 57), "os estudos exploratórios têm como finalidade definir as questões ou hipóteses para uma investigação posterior. Isto é, são o prelúdio para uma investigação subsequente, mas não necessariamente um estudo de caso". O autor considera que esses estudos são diferentes dos estudos descritivos, tendo potencial de buscar hipóteses e proposições consideráveis para orientar futuras pesquisas, buscando fornecer um certo suporte para a teorização. Yin (2001, p. 25) exemplifica " o que pode ser feito para tornar as escolas mais eficazes?" para o autor este tipo de questionamento é um argumento consistente para se iniciar um estudo exploratório, objetivando desenvolver hipóteses e propostas relacionadas às indagações adicionais.
Os estudos descritivos representam descrições completas de um fenómeno inserido no seu contexto. Os estudos explanatórios investigam informações que proporcionem o estabelecimento de relações de causa e efeito, ou seja, examinam a causa que melhor explica o fenómeno estudado e suas relações causais.
Yin (2001) apresenta os atributos do desenho de estudos de caso, expondo que os casos podem ser únicos ou múltiplos e simultaneamente holísticos ou incorporados; no quadro 2 podem ser vistos os tipos de projetos de pesquisa envolvendo casos; o autor pressupõe situações de projeto diferentes e que, dentro desses dois tipos, também podem haver unidades unitárias ou múltiplas de análise.
Quadro 2 - Tipos básicos de projetos para estudos de casos
Fonte: YIN (2001, p. 61) Adaptado pelo autor Estratégia de pesquisa /
Propósitos Estudos de caso único Estudos de casos múltiplos
Exploratórios Exploratórios únicos Exploratórios múltiplos
Descritivos Descritivos únicos Descritivos múltiplos
Explanatórios Explanatórios únicos Explanatórios múltiplos
Tipos de projetos Estudos de caso único Estudos de casos múltiplos
Holísticos
(unidade única de análise) Projetos de caso único holísticos
Projetos de casos múltiplos holísticos
Incorporados
( unidades múltiplas de análise)
Projetos de caso único Incorporados
Projetos de casos múltiplos incorporados
O estudo de caso refere-se à criação de uma startup denominada GatoXadrez.com, que busca através da junção dos conceitos lean startup e open innovation, viabilizar o desenvolvimento do negócio, é uma empresa que atuará na área de educação, com o propósito de ensinar os conceitos de empreendedorismo, cidadania fiscal, ética e contabilidade para o público infanto-juvenil. A formação dessa empresa apresenta as seguintes etapas de constituição:
- Desenho inicial do negócio - Definição sobre o primeiro MVP - Validação e testes do MVP - Prospecção de profissionais - Finalização do primeiro produto - Formalização da empresa - Venda do produto
Este estudo, de natureza aplicada quanto aos seus procedimentos, utilizou a estratégia de estudo de caso único com objetivos exploratórios, com abordagens qualitativa e quantitativa. A abordagem qualitativa procura descrever a complexidade do problema e analisar a interação entre variáveis e "se preocupa com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais" (FONSECA, 2002 p. 20). Conforme Gerhardt e Silveira (2009) a abordagem qualitativa não se preocupa com representação numérica, e sim em aprofundar a compreensão de um grupo social, de uma organização, e apresenta as características de: objetivação do fenômeno; hierarquização das ações de descrever, entender e esclarecer com a máxima exatidão as relações entre o global e o local em determinado fenômeno; procura observar as diferenças entre o mundo social e o mundo natural com respeito ao caráter interativo entre os objetivos buscados, suas orientações teóricas e seus dados empíricos empenhando-se para obter os resultados mais realistas possíveis. A abordagem quantitativa concentra-se na objetividade recorrendo a linguagem matemática para analisar e descrever as relações entre variáveis, busca focalizar uma pequena quantidade de conceitos, iniciando com ideias pré-concebidas do modo pelo qual os conceitos estão correlacionados, utilizando-se de procedimentos estruturados e instrumentos formais para coleta de dados, analisando-os através de procedimentos estatísticos.