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- Realização de entrevistas em profundidade com executivos de duas organizações de software

- Análise dos dados e avaliação da base conceitual para estudo da OE

- Proposição de categorias agregadoras para os elementos da base conceitual - Identificação de resultados prévios sobre OE nas organizações

4.4 Reconhecimento do setor e seleção das organizações

- Realização de entrevista com especialistas dirigentes de entidades representativas do setor de software do RS

- Análise dos dados e seleção de organizações de software do RS consideradas empreendedoras

A revisão bibliográfica, parte integrante do estudo, é fundamental em toda e qualquer pesquisa, pois permite o conhecimento da teoria e o embasamento para realização da pesquisa.

Castro (1977) afirma que a teoria deve ser a base para a decisão do caminho a ser seguido pelo pesquisador, pois restringe a amplitude dos fatos a serem estudados, ajuda a definir os tipos de fatos que são pertinentes, os fenômenos que devem ser estudados e sob quais pontos de vista.

Selltiz et al. (1967) apontam que a contribuição que resulta da relação entre teoria e pesquisa deve ser mútua: a teoria pode indicar áreas em que a pesquisa tende a ser produtiva; pode sumariar os resultados de vários estudos específicos; pode dar uma base para explicação e predição. Os resultados da pesquisa podem verificar as teorias já criadas; podem esclarecer conceitos teóricos e sugerir novas formulações, ou ampliar as já apresentadas.

Tendo como base a revisão bibliográfica, foram desencadeadas as etapas da pesquisa apresentadas na Figura 2, descritas nas seções que seguem.

4.2 DEFINIÇÃO DA BASE CONCEITUAL PARA ESTUDO DA ORIENTAÇÃO EMPREENDEDORA (OE) EM ORGANIZAÇÕES

No capítulo 2, seção 2.5.1, tratou-se brevemente da base conceitual apresentada no Quadro 13. Nesta seção, descreve-se um pouco mais sua constituição, que é uma etapa importante da realização da pesquisa.

A partir do estudo teórico, é possível elaborar modelos, que são uma forma de abstração simplificada da realidade no sentido de que não podem representar todos os aspectos dela, como, por exemplo, a complexidade, perigos e mudanças

contínuas (ROTEMBERG, 1988 apud LUCIANO, 2002)19. No entanto, por meio

desses modelos, é possível ter insigths sobre fenômenos a serem estudados (FRANKFORT-NACHMIAS; NACHMIAS, 1996). Assim, embora alguns modelos

19

ROTHENBERG, Jeff. The nature of modeling. In: FLOOD, R.; CARLSON, E. R. Dealing with complexity – an introduction of the theory and application of system science. New York: Plenum Press, 1988.

pareçam um tanto abstratos, o desafio do pesquisador é tê-los como base para a elaboração de hipóteses e como guia para a verificação dessas hipóteses na complexidade social.

Pozzebon e Freitas (1997) afirmam que a construção do conhecimento é marcada pela incansável busca de evidências que comprovem hipóteses formuladas. Para isso é importante o cuidado na estruturação da teoria de base, para que ela ressalte a conexão entre os fenômenos em estudo, através da apresentação dos pressupostos de base ou das hipóteses que estão na origem das suas indagações (HOPPEN; LAPOINTE; MOREAU, 1997).

Assim, à medida que o pesquisador compreende os processos que ligam os resultados de estudos isolados às formulações teóricas, aumentará a significação da sua contribuição (SELLTIZ et al., 1967), como também contribuirá para a qualidade da pesquisa, fator que merece atenção.

Esta etapa da pesquisa, a definição de base conceitual de OE, foi viabilizada a partir de ampla revisão bibliográfica sobre a temática, bem como de diversas discussões orientando-orientador. Buscou-se verificar o que a literatura tem apresentado sobre o construto orientação empreendedora, suas dimensões e os elementos, para que se pudesse adotar uma base conceitual que fosse bastante abrangente e, de certa forma, referendada por autores reputados na literatura internacional, para melhor orientar a realização de pesquisa empírica.

A base conceitual de OE foi consolidada a partir da literatura, tendo como embasamento especialmente os estudos de Miller e Friesen (1978, 1982), Miller (1983), Covin e Slevin (1989), Lumpkin e Dess (1996, 2001) e Dess e Lumpkin (2005). Também foram agregados elementos de Miles e Snow (1978), Venkatraman (1989), Chen e Hambrick (1995), Lee e Peterson (2000) e Macmillan e Day (apud Lumpkin e Dess, 2001). Foi possível identificar as cinco principais dimensões da OE (Inovatividade, Assunção de riscos, Proatividade, Autonomia e Agressividade competitiva), bem como os elementos que caracterizam cada uma das dimensões. Uma primeira versão da base foi apresentada anteriormente no Quadro 12 (imediatamente após a seção 2.4.5) e a versão final adotada no estudo no Quadro 13 (seção 2.5.1).

A fim de verificar a utilidade e uso potencial da base conceitual aqui proposta, esta foi apresentada e discutida nos grupos de pesquisa em que a autora participa

(GIANTI e GESID, ambos do PGGA/EA/UFRGS). Também foi elaborado ensaio teórico a respeito e submetido a congresso e revista da área, tendo sido apresentado em sessão interativa sobre o tema empreendedorismo em congresso da área em 2007, bem como publicado em revista nacional da área em 2008. As referidas publicações podem ser verificadas em Martens e Freitas (2007 e 2008). Tendo em vista o nível de exigência e uma já certa tradição desses veículos, pode- se, de certa forma, considerar que foi de interesse potencial o uso da base conceitual proposta. Após isso, foi realizado estudo piloto para verificação da aplicabilidade da base conceitual, conforme relatado na seção 4.3.

A base conceitual de OE (apresentada em sua versão final no Quadro 13, seção 2.5.1) ficou constituída de dimensões, categorias e elementos, estes últimos representando os métodos, práticas e estilos de gestão ou de tomada de decisão gerencial utilizados para agir de forma empreendedora. Ela foi adotado como base para a realização da pesquisa, dando suporte a diferentes etapas: na elaboração do roteiro para as entrevistas com especialistas, que então permitiram selecionar (de forma mais criteriosa) organizações consideradas empreendedoras; na elaboração do protocolo de coleta de dados para a realização das entrevistas junto às organizações; na análise dos dados coletados, tendo sido a base para a organização e análise dos dados e resultados.

O protocolo de coleta de dados utilizado nas entrevistas foi elaborado fortemente fundamentado na base conceitual, contemplando os elementos e dimensões da orientação empreendedora. Na seqüência, são abordados aspectos sobre a verificação da aplicabilidade da base conceitual e do protocolo, realizada por meio de estudo piloto.

4.3 ESTUDO PILOTO PARA VERIFICAR A APLICABILIDADE DA BASE CONCEITUAL

Tendo definido a base conceitual para o estudo da OE em organizações (primeira versão), e elaborado o protocolo de coleta de dados, buscou-se verificar a sua aplicabilidade junto a duas organizações de software, setor definido como contexto para a realização da pesquisa (mais detalhes sobre contexto no capítulo 3). As duas organizações foram escolhidas considerando atuarem com produtos/serviços de software, já consolidadas no mercado (com mais de 10 anos de atuação), uma delas é referência em sua região de atuação como desenvolvedora de software de gestão, outra é uma das pioneiras no Estado na atuação com produtos e serviços de software baseados na internet. Estão localizadas em diferentes regiões do estado do Rio Grande do Sul (uma na região metropolitana de Porto Alegre e outra no interior do Estado). O fácil acesso às organizações foi importante para que se pudesse ter uma maior abertura para discussão com os entrevistados a respeito da base conceitual utilizada, com o objetivo de verificar sua aplicabilidade e possível aperfeiçoamento, bem como buscando obter evidências prévias sobre a prática da OE nessas organizações.

Os dados foram coletados a partir de entrevista em profundidade com executivos, um de cada organização, em ambos os casos, o sócio majoritário, gestor da organização.

A entrevista em profundidade encoraja os respondentes a compartilhar o máximo de informações, em um ambiente sem constrangimento, guiada por algumas questões de orientação (COOPER; SCHINDLER, 2003).

As entrevistas foram conduzidas pela pesquisadora de forma bastante livre, orientadas pelo protocolo de coleta de dados (MISHLER, 1986; CRESWELL, 1998). Tiveram duração de cerca de uma hora e trinta minutos cada, tendo sido gravadas e depois transcritas para a realização da análise. A transcrição das duas entrevistas totalizou 34 páginas, tendo uma delas 15 e outra 19 páginas. Todas as dimensões foram abordadas pela entrevistadora e desenvolvidas pelo entrevistado de maneira satisfatória.

A análise dos dados do estudo piloto baseou-se na interpretação dos dados obtidos, que foram agrupados segundo as dimensões e elementos da base conceitual de OE, a fim de explorar satisfatoriamente os dados apontados pelos entrevistados. Utilizou-se assim a estratégia de análise baseada em proposições

teóricas proposta por Yin (2005), com técnicas de análise qualitativa

(MASON, 1996).

Ao realizar as entrevistas, com base em elementos de cada uma das dimensões da OE, identificou-se certa similaridade entre alguns elementos, o que resultou em respostas idênticas por parte dos executivos. Essa constatação remeteu à necessidade de agrupar os elementos de acordo com sua similaridade, criando, assim, categorias de elementos dentro de cada dimensão da OE. Esse reagrupamento dos elementos também permitiu melhor situá-los no contexto organizacional, bem como facilitar a análise das futuras entrevistas. A partir do estudo piloto, pôde ser feita a primeira melhoria na base conceitual, com a proposição de categorias agregadoras.

O uso da base conceitual na realização das entrevistas do estudo piloto permitiu identificar (obter informações sobre) a maior parte dos elementos a partir da interação com cada executivo. Os itens que geraram alguma dúvida durante as entrevistas foram trabalhados na seqüência, sofrendo os ajustes necessários. Trataram-se de poucos itens, o que resultou em pequenos ajustes na base conceitual por meio de revisão da redação de alguns elementos, eventual problema de tradução ou interpretação de outros, onde se recorreu à literatura de base para elucidar tais situações.

Assim, o estudo piloto proporcionou algumas adequações na base conceitual de OE, sendo sua versão final apresentada no Quadro 13, na seção 2.5.1, e no protocolo de coleta de dados, com sua versão final apresentada no Apêndice A, bem como permitiu verificar a aderência ou aplicabilidade da base conceitual.

O estudo piloto também permitiu identificar a presença ou ausência das dimensões e dos elementos da OE, bem como obter resultados prévios sobre a OE nas 2 organizações e a busca por esse comportamento nas organizações em questão, conforme relatado no trabalho MARTENS; FREITAS; ANDRES (2008). Posto que as 2 entrevistas se mostraram adequadas, e que não houve alteração substancial do protocolo de coleta de dados, tais dados poderiam ter sido agregados

aos dados coletados na pesquisa completa, para análise em conjunto no capítulo de análise de resultados. Contudo, para valorizar o fato de as outras entrevistas terem sido oriundas de pessoas criteriosamente indicadas, preferiu-se não considerá-las.

4.4 RECONHECIMENTO DO SETOR E SELEÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES

Como já explicitado no capítulo 3, o setor de software foi o contexto de aplicação deste estudo, mais especificamente organizações de software do estado do Rio Grande do Sul, consideradas empreendedoras.

Alguns aspectos, entre outros, que contribuíram para a escolha deste setor são: a característica inovativa como fator crítico (ROSELINO, 2007); um dos setores considerados prioritários pela política industrial brasileira, além de haver crescente interesse nacional na produção de software (DESENVOLVIMENTO, 2006); setor alvo de interesse por parte de entidades e instituições de ensino e pesquisa no que se refere ao desenvolvimento das organizações e ao desenvolvimento do empreendedorismo.

Nessa etapa da pesquisa, buscou-se reconhecer o setor, com o intuito de contextualizar o meio em que se pretendia realizar o estudo. Também nessa etapa da pesquisa foram identificadas e selecionadas as organizações a serem pesquisadas na seqüência.

Foram de fato realizadas 3 atividades distintas: na primeira, foram buscados dados secundários sobre o setor, busca na internet, etc.; na segunda, foram buscados dados primários em contato direto com especialistas de entidades representativas do setor; na terceira, foram escolhidas as organizações alvo da pesquisa.

4.4.1 Coleta de dados secundários: pesquisa bibliográfica e na web

Inicialmente, buscaram-se dados secundários sobre o setor de software, por meio de pesquisa bibliográfica e de pesquisa na Web. Foram analisados artigos científicos que tratam do setor, documentos técnicos sobre o setor, dados disponíveis em sites Web de entidades setoriais, pesquisas realizadas por entidades, entre outros.

Esses dados permitiram fazer uma caracterização do setor de software, dos aspectos de mercado, de características e peculiaridades das organizações de software, bem como apresentar dados numéricos sobre a indústria de software e o setor de TI no Brasil e no Rio Grande do Sul, aspectos sobre a constituição do setor no Estado, a presença de Polos de TI, dados do Censo das Empresas de TI, entre outros. Essa visão do setor de software é apresentada no capítulo 3.

4.4.2 Coleta de dados primários: entrevista com especialistas

Num segundo momento, buscaram-se dados primários, por meio de entrevistas com especialistas do setor de software, com o intuito de obter de dirigentes de entidades representativas do setor uma percepção sobre o empreendedorismo no setor e a indicação de organizações de software que se destacam – pela visão e experiência dos entrevistados – como empreendedoras. Cooper e Schindler (2003) sinalizam a entrevista com especialistas como adequada no escopo de pesquisa qualitativa exploratória para se obter informações de pessoas influentes ou bem informadas a respeito de um determinado contexto. Para isso foi feito contato com as 3 principais entidades representativas do setor no Rio Grande do Sul e com uma entidade empresarial que tem desenvolvido um conjunto de projetos e ações no setor de software, tendo sido possível realizar 3 entrevistas.

No contato com as entidades, inicialmente por telefone, com o dirigente principal, foi feita uma breve explanação a respeito do estudo e o agendamento da entrevista.

As entrevistas foram realizadas entre os meses de setembro e outubro de 2007, com três profissionais considerados qualificados para os objetivos que se pretendia, ou seja, uma visão sobre o empreendedorismo no setor e a indicação de organizações consideradas empreendedoras, tendo em vista seu envolvimento diário com organizações de software e longa experiência à frente do setor.

Para conduzir as entrevistas, foi utilizado um roteiro explicativo dos conceitos do estudo, das dimensões da orientação empreendedora e dos aspectos que se pretendia buscar para identificar organizações empreendedoras (Apêndice B). Inicialmente, questionava-se o especialista a respeito da sua visão da indústria de software no RS considerando o conceito de orientação empreendedora, e, na seqüência, que indicasse organizações empreendedoras segundo o conceito adotado.

A conversa com cada um dos entrevistados foi conduzida de forma bastante livre. As entrevistas foram gravadas e a pesquisadora fazia anotações sobre o que ía sendo conversado. As entrevistas tiveram duração de cerca de 1 hora cada uma.

A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa. Passou pela escuta atenta das entrevistas gravadas, pela leitura da transcrição, bem como pela identificação dos pontos importantes abordados na conversa, sempre considerando a literatura de base. Como resultado, obteve-se um panorama geral do empreendedorismo no setor, construído a partir da visão dos 3 especialistas, apresentado no capítulo de análise de resultados, na seção 5.1.1. Foram identificadas organizações de software do estado do RS apontadas como empreendedoras, que serviram de base para a realização da continuidade da pesquisa.

4.4.3 Seleção das organizações a serem pesquisadas

Para a identificação de organizações de software empreendedoras que serviriam de base para a realização da pesquisa, solicitou-se a cada um dos especialistas que, a partir de seu conhecimento do setor e com base no conceito de

orientação empreendedora e suas dimensões, apontassem organizações de software do Estado que se destacavam como empreendedoras.

À medida que o entrevistado citava uma organização, também lhe era solicitado que desse uma breve explicação do motivo que o levara a sugerir tal organização, bem como informasse quem seria a pessoa mais adequada para a entrevista.

Também se procurou obter do especialista sua percepção das 5 dimensões da orientação empreendedora em cada uma das organizações elencadas por ele, bem como informações relativas ao porte das organizações; o tempo de atuação; se participa ou não de algum polo tecnológico, incubadora ou grupo setorial; o que a diferencia das demais organizações e que a define como orientada para a ação empreendedora.

Na seção 5.1.2 são apresentadas informações sobre as organizações indicadas pelos especialistas, e suas percepções a respeito. Considerou-se que essas organizações do setor, cuja legitimidade de escolha é atribuída aos especialistas, possibilitariam ter uma representação fidedigna do setor, no que tange à questão de OE, e, por isso, tais organizações foram adotadas para a realização da pesquisa.