Para avaliar o impacte ambiental de uma descarga poluente, é necessário conhecer a descarga, os organismos e plantas que podem ser afectados, o volume e características dos contaminantes e as características de atenuação dos percursos percorridos. O risco de contaminação das águas subterrâneas é controlável através de medidas baseadas em estudos geológicos, geográficos e hidrogeológicos prévios à implantação de UC. Deve-se recorrer a técnicas de construção modernas e às melhores tecnologias disponíveis. Não existem duas propostas ou dois locais idênticos e é importante que sejam considerados os factores específicos para determinar a vulnerabilidade de cada local.
Onde os riscos aparentes se consideram baixos, um controlo pragmático baseado em guias de boas práticas deverá ser suficiente para proteger o ambiente. Se o estudo inicial sugerir que o risco não é certo ou que pode ser elevado, devem ser feitos estudos mais detalhados. Na maioria dos casos deve ser possível encontrar medidas apropriadas para prevenir a poluição do ambiente. No entanto, em qualquer fase dos estudos deve ser possível rejeitar a proposta se os riscos forem inaceitáveis. É importante notar que a natureza e extensão de informação requerida em qualquer fase da avaliação do risco é específica a cada local individual (Young et al., 1999).
Os principais parâmetros a considerar na avaliação de terrenos para a instalação de uma nova unidade são (Rodrigues, 2002) e (Silva, 2005):
• Descargas e poluentes
1. Composição da carga poluente; 2. Frequência e variação,
3. Volume;
4. Carácter de intensidade do efeito;
5. Possíveis interacções com a zona saturada e zona não saturada do solo; 6. Ciclo do contaminante: advecção, difusão, adsorção, desadsorção,
degradação química e decaimento, volatilização, hidrólise, fotólise, oxidação, permuta catiónica, complexação, especiação, transformação biológica e microbiológica, adsorção/absorção pelas plantas, bioacumulação.
• Geologia do local
1. Características físicas:
• Estrutura geológica: diáclases, dobras, falhas, fracturas, entre outros; • Características de litologia, topografia, textura, granulometria, massa
volúmica, porosidade, permeabilidade e estrutura do solo; • Capacidade de drenagem, infiltração e percolação da água; • Profundidade radicular efectiva.
2. Características químicas e mineralógicas:
• Minerais argilosos, carbono orgânico e óxidos metálicos; • Potencial para desenvolvimento mineralógico;
• Capacidade de permuta catiónica e concentração de catiões permutáveis; • Acidez;
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• Teor de matéria orgânica.
3. Estabilidade do terreno onde vão ser feitas as escavações;
4. Profundidade e características da rocha-mãe ou de blocos rochosos; 5. Resistência à compressão simples;
6. Adequação para instalações subterrâneas, deposição de resíduos e construções pesadas.
• Hidrogeologia do local
1. Drenagem superficial e subterrânea;
2. Qualidade e características químicas da água do aquífero; 3. Características litológicas dos aquíferos
• Tipo (rocha fracturada, calcário, areia); • Propriedades de transmissividade; • Porosidade (primária e secundária);
• Coeficiente de armazenamento ou cedência específica; • Espessura (total e saturada);
• Características da camada confinante (aquicludo); • Profundidade.
4. Características hidráulicas dos aquíferos • Profundidade do nível freático; • Flutuações sazonais;
• Aquíferos suspensos;
• Nascentes e cursos de água superficiais; • Características do fluxo de base;
• Níveis estáticos representados num mapa de pressões; • Ascensão da franja capilar;
• Fontes de recarga (afloramentos e infiltração); • Direcção de fluxo;
• Velocidade de fluxo. • Uso da terra no local:
1. Proximidade de furos, poços e locais de injecção de água ao local em estudo e informação das suas características de construção e da qualidade de base da água;
2. Actividades existentes relacionadas com a acumulação e tratamento de resíduos e outras fontes de contaminação naturais ou antropogénicas.
• Características meteorológicas do local e suas possíveis variações.
Para o desenho de um sistema de monitorização das águas subterrâneas adequado é necessário o conhecimento (Silva, 2005):
• Da mecânica e dinâmica de propagação do contaminante; • Das propriedades do aquífero: permeabilidade e porosidade; • Da natureza do mecanismo controlador do fluxo subterrâneo.
Os objectivos do programa de monitorização são (Silva, 2005):
• Obter e registar dados para efectuar avaliações durante períodos longos de modo a certificar-nos que se verificam os padrões de qualidade exigidos;
• Detectar variações sazonais;
• Detectar variações de fundo (monitorização a montante);
• Detectar e alertar sobre o movimento de contaminantes para zonas de risco; • Determinar a natureza, grau e extensão da contaminação;
• Determinar os mecanismos de propagação e os parâmetros hidrológicos, de modo que se possam accionar medidas de remediação;
• Determinar a eficácia das medidas de remediação accionadas;
• Verificar os modelos nos quais se baseiam as medidas minimizadoras.
A construção de piezómetros para monitorização deve atender aos seguintes factores (Silva, 2005):
• A profundidade e o diâmetro dependem da função;
• Deve ser construído em material não reactivo com a água;
• Devem ser estrategicamente localizados e em número que permita dar uma noção da extensão, configuração e concentração da pluma de contaminação; • Devem ser construídos 2 a 3 piezómetros associados a diferentes profundidades; • Os piezómetros devem ser colocados na direcção do fluxo subterrâneo, a diferentes distâncias da fonte poluidora para determinar a propagação da pluma de contaminação. Devem ser instalados também a montante da fonte de contaminação para detectar alterações de fundo.
14.
Contaminação das águas subterrâneas por unidades cemiteriais
Em 1998, a OMS elaborou uma pequena revisão do estado de conhecimento actual relativamente à presença, ou ausência, de contaminação do solo ou água subterrânea devido a UC, com o intuito de avaliar o seu impacte no ambiente e na saúde pública. Este estudo mostra preocupação com o impacte que as UC poderão causar nas águas subterrâneas através do aumento da concentração de substâncias orgânicas e inorgânicas e eventual presença de microrganismos patogénicos, devido à infiltração dos produtos da decomposição de cadáveres e materiais utilizados nas práticas funerárias. Se a UC estiver num solo vulnerável, o movimento da água pode ser rápido, podendo misturar-se com a água subterrânea. Conceptualmente isto pode ser a causa de epidemias locais causadas por veiculação hídrica onde a água subterrânea é utilizada como fonte de água de abastecimento (Üçisik e Rushbrook, 1998).
O termo risco de contaminação define-se como a probabilidade das águas subterrâneas se tornarem contaminadas e apresentarem, em resultado disso, concentrações acima dos valores recomendados para a qualidade de água para o uso pretendido. A interacção entre a carga contaminante e a vulnerabilidade do aquífero determinam o risco de contaminação do aquífero. Assim, pode ser obtida uma vulnerabilidade sem risco de contaminação, pela ausência de uma carga significativa de contaminantes, e vice-versa.
O grau de vulnerabilidade de um aquífero depende, fundamentalmente, das características litológicas, hidrogeológicas, sanitárias, profundidade a que se encontra o nível da água e ainda da disponibilidade e actividade de vectores de contaminação. Dependendo do tipo de solo e, em especial, da sua permeabilidade e do nível freático, a carga contaminante do miasma poderá ou não ser eliminada. Sob determinadas condições geológicas, como solos muito permeáveis, rochas fracturadas ou com canais de dissolução, o miasma poderá atingir o aquífero, com as suas cargas químicas e biológicas praticamente inalteradas (Rodrigues, 2002).
No meio poroso não saturado ocorrem acções naturais de defesa, em especial na zona activa do solo. Essas acções são atribuídas a interacções físicas com o solo que retardam o processo de contaminação e reacções químicas que podem reduzir a concentração de contaminantes. As interacções físicas devem-se a fenómenos de filtração mecânica, adsorção e permuta iónica, enquanto que as principais reacções químicas são de hidrólise, precipitação e complexação e transformações bioquímicas. Em condições desfavoráveis, os efeitos estabilizadores do solo podem ser insuficientes para eliminação dos contaminantes oriundos da decomposição.
No solo que envolve a sepultura ocorrem intensas reacções bioquímicas e processos físicos e químicos que são importantes na atenuação da contaminação. Os sedimentos ou rochas que formam a zona não saturada abaixo da sepultura são menos activas biológica e quimicamente do que a camada superior e a taxa de arejamento é menor, podendo formar- se condições anóxicas (Young et al., 1999).
Estas interacções também ocorrem na zona saturada mas a uma taxa muito menor, sendo esta mais eficiente na redução da concentração dos contaminantes através da diluição e dispersão. A extensão da filtração depende da natureza do aquífero e as reacções químicas dependem da qualidade química da água subterrânea (Environment Agency, 2004).
As sepulturas confinam os produtos de decomposição a uma área e tempo específicos, não sendo a libertação constante e a urna retém os produtos até a sua estrutura colapsar (Dent e Knight, 2007).
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Entre 1970 e 1995 foram analisadas 600 UC no Brasil, das quais 15 a 20 % revelaram contaminação e poluição do solo (Campos, 2007).
A utilização indiscriminada de óxido de cálcio (cal) contribui para o aumento da concentração de sólidos totais e cálcio. As partes metálicas das urnas, como alças e adereços e as tintas e vernizes utilizados, são consideradas as principais fontes de contaminação pelos metais zinco, cobre, ferro, manganês, cobre, prata, crómio, níquel e alumínio (Barros et al., 2008).
A decomposição dos cadáveres eleva a concentração de nutrientes, compostos azotados e microrganismos nas águas subterrânea. Os contaminantes persistentes, como os compostos azotados, são muito solúveis na água e não interagem com o complexo de adsorção do solo, sendo arrastados para as camadas mais profundas do solo pelas águas de percolação (Campos, 2007).
Contaminantes químicos, como arsénico e mercúrio, usados em antigas práticas de embalsamento, podem ter sido responsáveis pela contaminação do solo e da água em UC. Actualmente, os processos artificiais de conservação recorrem a soluções de formaldeído que é um composto volátil e de rápida degradação na presença de matéria orgânica, devendo a sua presença ficar restrita à área da sepultura (Barros et al., 2008).
Os trabalhos publicados sobre contaminação de águas subterrâneas por UC confirmam que a decomposição produz localmente uma pluma salina de contaminação. Admitindo que a pluma flui da área interna da UC para a área externa, as captações de água subterrânea para consumo humano podem levar a riscos de saúde pública.
Nos cadáveres mumificados naturalmente estão presentes fungos que, em forma de esporo, sobrevivem muitos anos, o mesmo acontecendo no caso de vírus que estão em estado inactivo. Os cadáveres saponificados podem ocorrer em qualquer UC e a sua constituição é essencialmente à base de lípidos e líquidos, ambiente no qual os vírus sobrevivem. Normalmente quando ocorre este tipo de fenómeno, e no final do período mínimo de inumação, colocam-se produtos que aceleram a decomposição ou o cadáver é transladado (Pacheco e Saraiva, 2005).
As UC verdes geralmente têm taxas de decomposição mais aceleradas devido à reduzida profundidade a que são feitas as inumações, à natureza biodegradável das urnas e tecidos utilizados e à ausência de embalsamento. Nestas zonas a taxa de infiltração pode ser menor devido à evapotranspiração das árvores e arbustos. A decomposição será principalmente aeróbia, produzindo dióxido de carbono, água, nitrato e enxofre, que são menos poluentes do que os produtos de decomposição anaeróbia (www.ecofunerals.co.nz).
Por vezes as UC são tratadas como um tipo especial de aterro sanitário. Contudo, existem várias diferenças derivadas do facto de nas UC existir essencialmente matéria orgânica em decomposição. O teor em água de um cadáver humano é cerca de duas vezes superior ao dos resíduos sólidos urbanos e a falta de humidade pode inibir as reacções aeróbias e anaeróbias que ocorrem nos aterros sanitários, ao passo que o conteúdo elevado em humidade constituinte do corpo humano pode levar a um rápido processo de decomposição. Por outro lado, a razão C:N:P dos cadáveres é cerca de 30:3:1 e possibilita um balanço adequado entre os nutrientes microbianos mais importantes. Para os resíduos de aterro a razão é 2000:20:1, ou seja, é extremamente deficiente em fósforo e azoto. Ambos factores contribuem para a rápida e completa decomposição de cadáveres, quando comparado com resíduos domésticos. A proporção de cálcio, sódio e potássio é semelhante nos cadáveres e nos resíduos sólidos urbanos, mas estes últimos contêm uma percentagem muito elevada de ferro e magnésio. O lixiviado resultante de aterros sanitário tem um
efeito bactericida adicional (devido ao pH, condutividade eléctrica e presença de antagonistas químicos), diminuindo os riscos microbiológicos.
O efluente de fossas sépticas é semelhante aos lixiviados das UC. Nas fossas sépticas predominam as condições anaeróbias, pelo que o efluente resultante contém, principalmente, azoto amoniacal e orgânico. Caso se trate de fossas aeróbias, prevalece o azoto sob a forma de nitrato. Relativamente aos microrganismos, encontram-se índices elevados de coliformes totais e fecais, estreptococos fecais e Pseudomonas aeruginosa. As bactérias presentes nas fossas sépticas formam uma cápsula que, ao cobrir o fundo da fossa, leva à redução do diâmetro dos poros do solo e restringe o movimento do efluente para o solo, o que diminui o impacte dos lixiviados nas águas subterrâneas. Estes fenómenos vêm acrescentar-se aos outros mecanismos que ocorrem no solo e que contribuem para a remoção dos compostos orgânicos, nomeadamente, a filtração, a decomposição e a incorporação nas células microbianas (Rodrigues, 2002).
Os animais têm características de decomposição semelhantes aos cadáveres humanos ou com proporções aumentadas de tecidos de decomposição moderada. A contaminação gerada por UC animais pode levar a riscos epidemiológicos acrescidos devido à introdução de uma fauna de microrganismos que estão presentes apenas nos animais. Os patogénicos encontrados são mais preocupantes pois revelam a presença de organismos esporolantes que resistem às condições ambientais após a morte do animal, o que indica a presença de uma fauna diferente da encontrada nas UC de humanos. É necessário investigar e identificar o grau de patogenicidade desses microrganismos, bem como a sua diversidade. Na maior parte dos casos, as causas da morte dos animais são desconhecidas, aumentando a dimensão do problema. A inumação a menor profundidade, a utilização de urnas de fácil degradação e a ausência de fluidos de embalsamento aceleram a decomposição (www.usp.br).
Muitos países têm preocupações com a utilização de água subterrânea e estabelecem distâncias mínimas entre UC e poços de abastecimento de água potável. Assim, na França a distância mínima é de 100 m e na Holanda e Inglaterra é de 150 m (Campos, 2007).