• Nenhum resultado encontrado

Estudos que cruzam stress, coping e turismo

CAPÍTULO V – REVISÃO DE ESTUDOS QUE INTEGRAM AS VARIÁVEIS: STRESS,

5.4 Estudos que cruzam stress, coping e turismo

O estudo das variáveis stress e coping no âmbito do turismo tem atraído a atenção dos investigadores, maioritariamente, através de três abordagens principais: 1) o estudo do stress provocado pelo turismo nos indivíduos ou a análise das situações de stress resultantes da experiência turística; 2) a investigação do stress laboral sentido pelos profissionais de turismo (gestores de hotéis, agentes de viagens, comissários de bordo, estudantes e professores de turismo, entre outros) e a indagação dos instrumentos de coping desenvolvidos por esses profissionais ou das formas de lidar com esse stress laboral; 3) a averiguação da repercussão do stress nas comunidades recetoras de turismo (população local e fauna e flora locais) e o estudo dos recursos de coping utilizados por essas comunidades.

Constata-se, pois, que a perspetiva do turismo como meio de gestão e controlo do stress para os próprios participantes da experiência turística, ou seja, como mecanismo de coping para os turistas, é um campo de investigação praticamente inexplorado. Neste âmbito, encontraram-se apenas dois estudos que comprovam, não só a importância da temática, mas sobretudo a necessidade de maior investigação neste contexto, tal como se pode observar através da Tabela 15, elaborada com base em Prebenson & Foss (2011) e Filep (2014).

Tabela 15 – Levantamento das investigações que cruzam as variáveis stress, coping e turismo

Autores Ano Título Metodologia Objetivos Principais Resultados

Prebenson & Foss

2011 Coping and Co- creating in

Tourist Experiences

Qualitativa: observação direta (introspeção)

Uma das autoras do estudo participou, com os seus três filhos de 11, 13 e 17 anos, num pacote de férias direcionado para famílias e escreveu um diário acerca das experiências vividas, descrevendo os seus pensamentos e sentimentos. Este diário foi o instrumento de análise qualitativa utilizado para o desenvolvimento do estudo.

O principal objetivo deste estudo foi realizar uma exploração em profundidade de como o consumidor lida com o stress durante a viagem turística e co-cria experiências turísticas.

Neste estudo a experiência turística é analisada numa perspetiva social, explorando o contacto e interação

entre o turista, os prestadores de serviços turísticos e os outros consumidores turísticos. Os

resultados revelam exemplos de stress-coping e de estratégias de co-criação para lidar com o turista durante a viagem turística, ou seja, este trabalho sugere, principalmente implicações para a melhoria

da prestação de serviços no setor do turismo.

Assim, os autores frisam a relevância da visão do prestador de serviços como anfitrião e a sua importância como fonte de suporte emocional, denotando que os turistas assumem diferentes papéis consoante as situações, aos quais estes se devem

adaptar e prestar apoio. E, por último, frisam que os

prestadores de serviços turísticos devem ter em mente que o turista deve participar na produção da própria experiência, sendo também função destes profissionais orientar a dinâmica participativa, considerando, primordialmente, as emoções e o bem- estar pessoal e coletivo dos seus clientes.

Tabela 15 – Levantamento das investigações que cruzam as variáveis stress, coping e turismo (continuação)

Autores Ano Título Metodologia Objetivos Principais Resultados

Filep, S. 2014 Consider Prescribing

Tourism

Revisão de Literatura

Neste artigo realiza-se um sucinto levantamento bibliográfico dos estudos que demonstraram os benefícios do turismo para a saúde e bem-estar dos seus participantes, designadamente através dos tópicos de análise: redução do stress, melhoria da qualidade do sono e ganhos para a saúde cardiovascular.

O autor sublinha que não pretendia discutir complicações de saúde relacionadas com as experiências turísticas, que já têm vindo a ser amplamente documentadas, mas antes delinear o potencial dos seus benefícios. Assim, o objetivo deste artigo é chamar a atenção da comunidade médica para o papel do turismo como conjunto diversificado de atividades importantes para a melhoria da saúde e bem-estar dos indivíduos.

Os resultados apontam os seguintes argumentos a

favor da prescrição turística como terapêutica médica: (i) a curto prazo: redução do stress e melhoria da qualidade do sono; (ii) a longo prazo:

melhoria da saúde cardiovascular. De uma forma geral, apura-se que o turismo gera emoções positivas, compromissos, interação, significância e sentimentos de realização pessoal, sendo que diversos estudos correlacionais indicam associações positivas entre turismo e ganhos para a saúde dos seus participantes. Finalmente, Filep (2014) destaca como principais desafios de investigação neste âmbito: 1)

melhor compreensão dos benefícios de turismo

nos vários domínios biológicos, funcionais e subjetivos; 2) maior colaboração interdisciplinar e

integração de conhecimento, sobretudo entre as

áreas de investigação social e médica ou da saúde; 3) a nossa mortalidade relembra que o tempo de prescrever férias/ turismo para nós e/ ou para os pacientes é um direito de “agora” e não de “mais tarde”.

P á g i n a | 149 Para além das investigações apresentadas na Tabela 15, é ainda importante dar conta do estudo empírico desenvolvido por Wang (2010), intitulado “Social Alternative Compensation and Stress- Coping; the Mediating Effect of Tourism”, cujo conteúdo total não foi possível analisar por se encontrar em mandarim, mas cujo resumo permite apurar que os resultados apontam no sentido do turismo ser um mediador entre a perceção de stress e o distanciamento da situação stressante, isto é, o turismo funciona como uma ferramenta de compensação e integração social que ajuda os indivíduos a autorreconstruírem-se ou a autorecomporem-se socialmente. O autor sugere que a prática turística melhora a qualidade laboral e de vida dos sujeitos, expondo a necessidade de exploração mais aprofundada da função social do turismo, como instrumento de melhoria do bem- estar social.

Os estudos analisados robustecem a ideia de que o turismo poderá, de facto, afirmar-se como um importante recurso de stress-coping, propondo a atividade turística como uma alternativa ou instrumento de equilíbrio social (Wang, 2010, Prebenson & Foss, 2011), capaz de contribuir para a harmonia física, psicológica ou emocional, com efeitos comprovados em aspectos específicos da saúde e bem-estar: redução do stress, melhoria do sono e redução de riscos cardiovasculares (Filep, 2014).

As metodologias adotadas nestes estudos dividem-se entre revisão de literatura e análise qualitativa, designadamente por meio de observação direta e introspecção. A observação direta e a introspeção, por um lado, introduzem um novo caminho metodológico, mas, por outro, ainda são consideradas ferramentas frágeis em termos de análise, devido a dificuldades relacionadas com a sistematização da informação, o controlo da subjetividade ou a possibilidade de generalização ou extrapolação para uma população.

Finalmente, é de salientar, a inexistência de evidências empíricas dos efeitos do turismo no stress- coping dos seus participantes, nas suas diversas dimensões ou domínios, tal como frisa Filep (2014), sendo que este autor sublinha ainda a necessidade de maior interdisciplinaridade e integração de conhecimento entre as áreas das ciências sociais e das ciências médicas ou da saúde. Neste contexto, crê-se fortalecida a pertinência e contemporaneidade da temática da presente investigação, destacando-se ainda a especificidade da população em estudo, já que as pesquisas e tentativas de sistematização de estudos que integrassem as variáveis stress, coping, turismo e incapacidade, se revelaram-se infrutíferas. Deste modo, verifica-se que este trabalho responde a questões de investigação inovadoras e favorece a multidisciplinaridade, bem como a integração de conhecimentos.

P á g i n a | 150

5.5 Síntese conclusiva

A revisão dos estudos que cruzam stress, coping, lazer, turismo e incapacidade permitiu perceber que o stress tem um impacte significativo na vida dos indivíduos, principalmente naqueles com incapacidade, já que possibilitou concluir que, estes últimos, poderão apresentar fontes de stress distintas da restante população, especificamente circunstância diretamente relacionadas com a própria incapacidade. Partindo-se deste pressuposto, alguns estudos sugerem também que as respostas de stress-coping desta população particular, poderiam ser também diferentes dos seus pares, variando de acordo com as suas fontes de stress peculiares, por exemplo, consoante o tipo de incapacidade. Assim, vários autores propõem a socialização ou o apoio social como um dos principais apoios para o alívio do stress, sugerindo que os indivíduos com incapacidade terão maior pendor por estratégias de coping interacionistas. Neste sentido, destacam-se diversos estudos que comprovam a importância do lazer como recurso de coping para a população com incapacidade, apurando-se que os benefícios das atividades de lazer compõem uma panóplia de mais valias biológicas, psicológicas e sociais, ou seja, biopsicossociais. De notar são ainda as tentativas de compreensão e organização destes benefícios, sobressaindo neste âmbito os trabalhos de Iwasaki & Mannell, (2000) com a criação das Escalas de Coping através do Lazer, isto é, a Escala de Crenças de Coping através do Lazer e a Escala de Estratégias de Coping através do Lazer. Estes autores, são bastante citados neste âmbito, já que sugerem uma estruturação hierárquica dos benefícios do lazer, que se subdivide em crenças e estratégias de coping, cujos modelos se demonstraram válidos e robustos e, por isso, com interesse de aplicabilidade noutras circunstâncias ou noutras franjas populacionais.

Finalmente, salientam-se os poucos trabalhos investigativos na área do turismo que incidem sobre o stress-coping, na perspetiva de coping do turista, ou seja, do turismo como recurso de stress- coping para os seus participantes. Berno & Ward (2005) frisam que o turismo poderá apresentar- se como uma espécie de “laboratório em ambiente natural” para testar teorias da área da psicologia, designadamente na investigação do stress-coping, da apresendizagem cultural, da identificação social, do relacionamento intergrupal, entre outras. Estes autores sugerem que a experiência turística oferece a oportunidade de aplicar as teorias psicológicas à realidade, promovendo o desenvolvimento de processos inovadores ao nível social, cultural, económico, educacional e da saúde, favorecendo eventuais resultados positivos para os indivíduos (turistas), comunidades acolhedoras e para a própria indústria turística. Neste sentido, afigurou-se pertinente estudar o fenómeno do stress-coping no contexto do turismo, na perspetiva do turista com incapacidade, estreitando pontes entre as áreas de investigação do lazer, da saúde e do turismo.

Em suma, ao longo deste capítulo, frisam-se os variados esforços ao nível da categorização das fontes de stress (por exemplo em micro e macro dimensões ou em stressores discretos e crónicos), da classificação das respostas automáticas às situações de stress (focadas na emoção,

P á g i n a | 151 no problema ou na interação social), da distinção entre crenças de coping e estratégias de coping, e, finalmente, da importância do lazer em qualquer contexto. Todos os trabalhos de investigação enumerados reforçam a ideia de que a maneira e a intensidade como experienciamos o stress e a forma como o gerimos (coping), influencia irremediavelmente a nossa vida (Iwasaki & Schneider, 2003).

Contudo, constata-se que o lazer é sempre abordado na sua generalidade, sem que se compreenda que tipo de atividades de lazer poderia ser mais efetivo para o alívio e controlo do stress. Por exemplo Hull & Michael (1995) no âmbito dos seus estudos, verificaram que as atividades recreativas ao ar livre tinham um impacte positivo no humor dos indivíduos, atenuando o stress, mas admitem não ter conseguido determinar se essas alterações de humor eram consequência das caraterísticas do local, da própria atividade, ou de qualquer outro fator, como as expectativas, crenças, simbolismo, entre outras. Ao mesmo tempo, a maioria dos estudos cuja população alvo é a população com incapacidade, associam a incapacidade à doença, constituindo amostras de indivíduos com osteoartrite, artrite, distrofia muscular, lesões medulares, entre outras. É certo que estas enfermidades crónicas ou degenerativas resultam em incapacidades, todavia, crê-se que faltam mais investigações com enfoque na compreensão do fenómeno do stress- coping para a população com incapacidade permanente, sem interligar incapacidade a doença, até porque já se comprovou, no âmbito do Capítulo II – A Pessoa com Incapacidade Motora e Sensorial, que incapacidade não é sinónimo de doença.

Conclui-se, então, que a presente investigação poderá inovar, apostando na multidisciplinaridade, e colmatar as lacunas identificadas anteriormente, já que se analisará o lazer em contexto de turismo acessível para a população com incapacidade motora e sensorial na sua globalidade.

Por fim, considerando a análise das metodologias utilizadas, tendo em conta os objetivos propostos e principais resultados, conclui-se que o método mais utilizado pelos autores da área em estudo são os quantitativos, através de inquéritos por questionário, designadamente escalas de medição, seguindo-se o método qualitativo, por meio das técnicas de focus groups ou entrevistas em profundidade, com menor expressividade. Desta forma, a revisão dos estudos apresentados permitiu também retirar conclusões acerca da abordagem metodológica mais adequada a utilizar na presente investigação, tal como se espelhará no próximo Capítulo VI – Metodologia.