Estendendo para o Brasil a teoria desenvolvida nos estudos clássicos de Schultz (1961) e Becker (1964) a respeito da relação entre crescimento econômico de um país e seu contingente de capital humano, Tenani (2003) analisa o período da economia brasileira compreendido entre as décadas de 1950 e 1990, no qual, por diversos momentos, o país buscou empreender políticas ambiciosas de crescimento econômico. O que de comum houve nessas políticas foi, contudo, a utilização de capital físico como basicamente único fator de produção, e por isso as fases de expansão da economia brasileira decorrentes desses investimentos não se constituíram em crescimento sustentado, uma vez que, determinadas pelos rendimentos decrescentes de escala, as produtividades desses investimentos acabaram se exaurindo sucessivamente.
Na primeira fase desse processo, inaugurada na década de 50, a industrialização por meio da substituição de importações34 foi em grande parte financiada pela poupança e investimento domésticos, às custas de menores níveis de consumo. Esse ciclo esgotou-se
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Houve períodos anteriores no país em que ocorreram também processos de substituição de importações, com formação de parques industriais, principalmente em setores tradicionais de atividade, como têxteis e de alimentos. Porém, referidos períodos foram menos resultado de políticas deliberadas do que de imposições de circunstâncias externas, como as guerras mundiais, que bloquearam o comércio internacional.
em 1981, quando o Brasil encerrou período de duas décadas de crescimento médio de 7,4% ao ano e no qual houve também a participação de capitais externos na forma de investimentos produtivos, como na indústria automobilística no fim dos anos 50 e início dos anos 60, e por meio de empréstimos estrangeiros ao Estado no período do “milagre econômico”. Após a recessão dos anos 80 o país entrou, na década seguinte, em nova etapa de investimentos baseados em expansão de capital físico, já no contexto das reformas econômicas liberalizantes sob o amparo do modelo de abertura econômica da globalização. Essa retomada foi financiada basicamente por recursos externos, que entraram no país sob a forma de investimentos produtivos (instalações e aquisições de empresas) e através do mercado financeiro.
Em ambas as etapas não houve portanto investimento em capital humano, e a acumulação do único fator de produção utilizado decretou, após certo tempo, o declínio de sua produtividade - pela lei dos retornos decrescentes de escala - e a conseqüente queda das taxas de crescimento da economia até sua estagnação. As crises que ocorreram nos países emergentes durante os anos 90 contribuíram para prejudicar o desempenho da economia brasileira nesse período devido ao efeito-contágio decorrente da interligação entre os países por meio dos mercados financeiros; mas, essencialmente, para Tenani (2003), mesmo que elas não tivessem ocorrido, o crescimento econômico brasileiro continuaria em desaceleração e estaria condenado devido à deformidade resultante de estar baseado na utilização do capital físico como único fator de produção.
O autor conclui afirmando que a única maneira de um país crescer de forma sustentada é acumulando, conjuntamente, ambos os insumos de produção: capital físico na forma de investimento e capital humano na forma de educação, o que está de acordo com os dados empíricos de Becker (1964) e Schultz (1961), que verificaram taxas de crescimento nas economias de países desenvolvidos bem acima das taxas de investimento em capital físico, porque essas taxas de crescimento econômico estavam resultando também do crescimento dos níveis educacionais desses países, ou seja, de seu capital humano. O crescimento sustentado resultante da acumulação de ambos os fatores de produção resulta, segundo Tenani, da interação entre poupança-investimento e educação, em que a produtividade marginal do capital humano acaba por afetar a do capital físico e vice-versa, prolongando o crescimento econômico.
De nosso ponto de vista, discordaríamos da análise de Tenani ponderando que teria havido sim, no Brasil, durante os anos 90, expansão dos níveis educacionais, o que pode ser caracterizado como investimento em capital humano, quantificado nos dados referentes às taxas de crescimento das matrículas no ensino fundamental e sobretudo no ensino médio apresentados no início de nosso trabalho. Contudo, nossa argumentação pode convergir com a de Tenani no sentido de que referido crescimento dos níveis educacionais do país poderia não estar ainda dando os resultados esperados de investimento em capital humano porque os supostos profissionais mais qualificados não teriam ainda ingressado no mercado de trabalho, conforme sustentamos no início; mas fundamentalmente porque, de acordo com nossa proposição básica, tal expansão nos níveis educacionais não corresponderia a autênticos investimentos em capital humano devido à falta de qualidade dos mesmos.
Investigando a relação entre educação e salários no Brasil, Ramos e Vieira (1996) referem-se a ressalvas à vinculação direta entre produtividade e salários que é feita na teoria do capital humano. Particularmente, esses autores fazem menção à “teoria da sinalização”, segundo a qual a educação formal não influencia diretamente a produtividade dos indivíduos, a qual estaria mais sujeita a características pessoais, como a força de vontade e, principalmente, as habilidades inatas e cognitivas. Considerados em vários estudos, como nos de Boissiere, Knight e Sabot (1985) e de Glewwe (2002)35, esses fatores estão, naturalmente, associados à educação, o que é uma constatação quase intuitiva. O indivíduo que tem maiores habilidades inatas e cognitivas tem também propensão a estudar mais. Para ele, o “custo” de se educar é menor e portanto o retorno ao seu investimento em educação é maior. Estudando mais, o indivíduo se qualifica mais, sinalizando essa qualificação para o mercado e aumentando portanto a probabilidade de obter melhores empregos e salários.
Novamente aqui emerge a questão de se saber se o principal fator determinante da renda salarial é a escolaridade do indivíduo ou se são suas habilidades e talentos, resumidas no conceito de “inteligência”, o qual pode ser ainda desdobrado em inteligência inata e
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O estudo de Glewwe, específico sobre a relação entre educação e habilidades cognitivas, é abordado na seção que trata das questões econométricas, em virtude dos diversos aspectos dessa natureza que o autor levanta.
inteligência cognitiva36. Ora, sabemos que tanto a escolaridade quanto a inteligência são determinantes, estando ambas ligadas numa inter-relação de causa e efeito, e o peso de cada um desses fatores varia em função de uma série de circunstâncias, sendo portanto diferente para cada caso. Se ter um título de graduação escolar é, por exemplo, requisito para se obter um emprego, a ascensão profissional, que eleva os salários, é muitas vezes função do desempenho próprio na profissão, o qual, dependendo das habilidades e da inteligência do indivíduo, não necessariamente ou não totalmente foram adquiridos na escola. Por outro lado, a obtenção de graduação escolar não está sempre diretamente associada, ou pelo menos fortemente determinada, pelas habilidades do indivíduo, mas por sua persistência, determinação, ou até por uma questão de acomodação em continuar estudando, podendo fazer, nesse caso, com que a profissão desse indivíduo seja simplesmente conseqüência do título escolar que alcançou, o que consiste no já mencionado “efeito diploma”, de particular importância na análise de Ramos e Vieira (1996). Cabe salientar, contudo, que a constatação de que a renda salarial não depende apenas da escolaridade, mas também de características pessoais, não invalida a relação entre renda salarial e anos de estudo do modelo de capital humano; ao contrário, contribui com uma forma de tentar explicar porque diferentes indivíduos têm diferentes níveis de escolaridade e diferentes níveis de renda salarial, e porque também há diferenças de renda entre indivíduos com o mesmo nível de escolaridade. Explicita ainda a endogeneidade do fator anos de escolaridade na função de rendimentos salariais do capital humano pela associação positiva que estes têm com as habilidades intrínsecas do indivíduo.
Outra formulação relatada por Ramos e Vieira (1996) é a “teoria credencialista”, de inspiração cepalina37, que a nosso ver se constitui numa radicalização das teorias que enfatizam as condições socioeconômicas como determinantes da escolaridade e portanto da renda salarial. Segundo essa visão, não haveria vínculo entre escolaridade e produtividade,
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A habilidade cognitva mede a capacidade de acumular, manipular, combinar e utilizar informações recebidas, transformando-as em conhecimento. Tal capacidade de desenvolvimento intelectual é tanto maior quanto maior for a habilidade inata do indivíduo para desenvolvê-la. Por essa razão a habilidade cognitiva e a habilidade intelectual inata estão diretamente associadas.
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Referente à Comissão Econômica para América Latina e Caribe - CEPAL, centro de estudos econômicos da América Latina fundado em 1948 no Chile.
não havendo, portanto, também, entre produtividade e salário. No contexto da total imobilidade social, o sistema educacional contribuiria para perpetuá-la, com as escolas prestando-se a reproduzir a formação educacional voltada para cumprir determinado papel dos indivíduos de acordo com os interesses do sistema econômico dominante, possibilitando acesso à maior escolaridade somente às elites, e reservando aos demais apenas a escolaridade básica suficiente para dar-lhes condições de exercerem suas funções menos qualificadas mas necessárias à permanência da ordem vigente, mantendo e reforçando desta forma a estratificação social pré-existente.
As estimações, que utilizaram dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios - PNADs, do IBGE, de quatro anos entre 1976 e 1990, foram montadas de forma a permitir comparar os retornos salariais obtidos conforme o grau de educação. Observou-se que os maiores retornos correspondem ao ensino superior - onde o aumento médio dos salários por ano adicional foi de cerca de 20% -, e que os retornos para os graus inferiores de educação, apesar de menores, estavam aumentando ao longo do tempo. Estes dados estariam dando respaldo ao aumento da importância da educação como fator de rendimento salarial, uma vez que o mesmo teria crescido acompanhando o crescimento dos níveis educacionais38.
O “efeito diploma” apareceu com destaque através da indicação de que o retorno, quando se completava determinado estágio de educação (observável pelo número de anos de escolaridade correspondente à conclusão de cada estágio), era maior do que o referente a ano adicional que não representava conclusão de estágio. Esse efeito também foi bem maior no ensino superior do que nos outros, confirmando o fato de que nesse estágio de educação a instituição de ensino onde o indivíduo se formou tem singular relevância, e para os autores indica também, nesse caso, predomínio do retorno individual da educação sobre o retorno social, pois o aumento salarial seria mais resultado do “efeito diploma” do que da maior produtividade. Mas esse efeito no nível superior caiu no decorrer do período analisado, embora permanecendo elevado, o que pode ser representativo do relativo aumento da oferta da mão-de-obra com diploma de curso superior. Nos estágios inferiores,
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Lembramos que o período coberto pelo estudo de Ramos e Vieira (1996) encerra-se em 1990, anterior portanto ao período que focamos e no qual constatamos ter havido queda na renda salarial apesar da continuidade e aceleração do crescimento dos níveis educacionais do país.
ao contrário, o peso do “efeito diploma” permaneceu mais ou menos estável ou mesmo cresceu, sendo este último comportamento atribuído pelos autores às reformulações havidas na grade escolar, onde o antigo ginásio juntou-se ao antigo primário, formando o primeiro grau, que corresponde hoje ao ensino fundamental.
Os resultados levaram os autores a concluir tanto pela validade da teoria do capital humano no Brasil, dadas as evidências empíricas de que anos adicionais de educação elevam a renda salarial, como pela validade da teoria da sinalização, pelo fato de que conclusões de estágios de escolaridade redundam em aumentos maiores de salários, notadamente no nível superior. Políticas para aumentar a média de escolaridade e também para reduzir a dispersão na distribuição da educação no país - estas em função das flagrantes disparidades regionais existentes também na estrutura educacional -, teriam portanto efeito positivo sobre a renda salarial e daí sobre a distribuição de renda, mas esse alcance poderia ser limitado em se levando em conta o fato de que aumentos mais significativos de salários devem-se a conclusões de estágios de escolaridade, que poderiam continuar sendo afetadas por evasões escolares, uma vez que um dos principais fatores causadores delas é a necessidade imediata de renda por parte do estudante, que assim abandona a escola sem se formar. Referidas políticas educacionais não deveriam também perder de vista objetivos para aumentar a qualificação da força de trabalho, os quais passam, naturalmente, pela qualificação da educação. Finalmente, como os retornos para a educação demonstraram ser mais de caráter privado no nível de ensino superior, os autores defendem que recursos oficiais devem ser realocados deste para os estágios iniciais de educação, demandados predominantemente pelas parcelas mais carentes da população, proporcionando assim, e pelo fato de possibilitar-lhes melhores oportunidades de colocação profissional, maiores retornos sociais para a educação.
Vê-se por esse estudo que os fatores habilidades intrínsecas39 e condições
socioeconômicas, ausentes na equação original de rendimentos salariais em função da
escolaridade do capital humano, gravitam, também no caso do Brasil, a exemplo de como visto nos países desenvolvidos, em torno da questão do nexo causal entre educação e renda.
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Ao utilizarmos o termo “habilidades intrínsecas” estaremos, doravante, englobando nele, por simplificação, outros atributos como motivação e perseverança, bem como a interação entre essas e outras características do indivíduo, que contribuem para que ele seja bem sucedido educacional e profissionalmente.
O segundo desses fatores assume, como já observado, no Brasil, singular relevância. Ressaltando sua força como determinante, no país, da escolaridade do indivíduo, impondo- lhe limites, Ferreira e Veloso (2003) encontraram forte correlação entre escolaridade de pais e filhos. Ficaram também claras em seus estudos as influências da raça e da região onde se vive como causas preponderantes das condições socioeconômicas. 60% dos filhos cujos pais têm escolaridade de terceiro grau, por exemplo, também concluem o ensino superior, enquanto que 34% dos filhos de analfabetos também são analfabetos. Quando o analfabeto é negro ou pardo, as chances de seu filho também se tornar analfabeto são de 42%, percentual que cai para 24,5% no caso de brancos. No ensino superior esses índices correspondem a 40% e 62,5%, respectivamente. Assim sendo, tanto é maior a oportunidade do filho do analfabeto negro ser também analfabeto, quanto é menor a possibilidade de ele concluir o terceiro grau se seu pai o tiver concluído, em relação ao branco. As disparidades regionais são ainda maiores: um filho de analfabeto tem probabilidade de 54% de também ser analfabeto na região Nordeste, mas somente de 21% na região Sudeste.
Os estudos apontaram ainda que essa “herança educacional”, denominada tecnicamente como persistência intergeracional, é alta no Brasil, ao contrário de países desenvolvidos em geral, mas também é maior do que no México e no Peru, por exemplo. Entretanto, os estudos detectaram ainda que a persistência intergeracional brasileira esteve, no período analisado - que cobre a partir da década de 80 com dados de PNAD -, diminuindo, ou, em outras palavras, a mobilidade escolar esteve aumentando, sobretudo nos níveis de ensino fundamental e médio, o que confirma os dados apresentados no início do presente trabalho. Quer dizer, tem se elevado a proporção de filhos que chegam a níveis educacionais superiores aos de seus pais. Ressaltamos no entanto que referidas estatísticas baseiam-se exclusivamente na posse ou não do certificado de conclusão escolar, nada revelando sobre a qualidade do ensino que levou à obtenção desse certificado. Quanto à comparação com os outros países, o indicador de persistência intergeracional é outra forma de comprovação do grau extremo de concentração de renda no Brasil, confirmando também o fato quase paradoxal de esta concentração ser maior inclusive do que em países mais pobres.
Pereira (2001) também avaliou a influência da educação dos pais sobre os rendimentos salariais dos filhos, encontrando para estes contribuição de 11% da educação
do pai e de 3% da educação da mãe. Seu estudo comparou as taxas de retorno da educação entre as regiões Nordeste e Sudeste do Brasil, diferenciadas também por sexo, cor e condição socioeconômica, utilizando dados da pesquisa sobre padrões de vida realizada pelo IBGE no biênio 1996/97. Os resultados encontrados confirmaram que aqueles fatores têm influência decisiva nos rendimentos salariais, contribuindo para que estes sejam mais baixos no meio rural do que no urbano, das mulheres em relação aos homens, dos negros e pardos em relação aos brancos e da região Nordeste em relação à Sudeste. A idade mostrou-se positivamente relacionada com o rendimento salarial, atingindo seu ponto mais alto na faixa entre 52 e 58 anos, passando a partir daí a se relacionar negativamente com ele. Os salários das mulheres revelaram-se em média 25% inferiores aos dos homens apesar de elas apresentarem escolaridade média ligeiramente superior. Mas o resultado geral da influência da escolaridade na renda salarial apresentou acréscimo de 12% a 19% nos salários por ano adicional de estudo.
As disparidades socioeconômicas do país também são relatadas em diversos outros estudos, dentre os quais o do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio- Econômicos - Dieese40, concluindo que elas aumentaram ao longo da década de 90. As transformações por que o país passou no período resultaram em geral numa piora das condições do mercado de trabalho, fruto de modificações na legislação trabalhista que flexibilizaram os mecanismos de proteção ao trabalhador, além do enfraquecimento dos sindicatos. Os ganhos de produtividade obtidos pelas empresas para fazer frente a uma conjuntura de maior competição no mercado não aumentaram a renda do trabalho. Aliás, ao contrário, ocorreu sua redução, o que na visão daquele instituto foi justamente um dos fatores que propiciou os ganhos de produtividade alcançados pelas empresas. Outros indicadores da deterioração a que o mercado de trabalho esteve submetido, ao lado da queda geral do nível de emprego e da renda salarial, foram o aumento do emprego informal, a elevação drástica do desemprego entre os jovens, além de históricas deformidades tais como exploração do trabalhador no campo, trabalho infantil e precárias
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condições de aposentadoria, relações que pioraram numa conjuntura desfavorável ao fator trabalho.
A despeito do possível viés a que essa visão, de caráter sindical, estaria sujeita, para quem as reformas da economia brasileira no período representaram praticamente a degradação das condições da classe trabalhadora, as mudanças no mercado de trabalho ocorreram de fato e os números o demonstram. Como salientamos no início, contudo, essas mudanças poderiam ser, na verdade, resultado da transição pela qual a economia brasileira estaria passando para poder se enquadrar à ordem econômica mundial, materializada na globalização. Por essa ótica, a piora nas condições do fator trabalho seria uma etapa necessária de ajuste, tal qual uma casa que, durante o período de reformas, fica menos confortável devido a materiais de construção espalhados no seu interior, poeira, ruídos etc. É lógico que, terminada a reforma, o conforto é maior do que antes; analogamente, na economia brasileira, as condições do mercado de trabalho tornariam-se melhores após concluída sua reforma, representadas nele por trabalhadores mais qualificados e melhor remunerados, pois seu maior nível de escolaridade faria parte desse conjunto de reformas. Um argumento favorável a essa visão, que difere da ótica sindical por esta considerar que a piora nas condições do mercado de trabalho nos anos 90 seria definitiva, é o fato de que, onde a economia já funciona da forma para qual o Brasil estaria caminhando, as condições do mercado de trabalho são bem superiores, pelo menos nos países desenvolvidos. Quanto ao rendimento salarial, no entanto, constatou-se mais uma vez, pelo estudo do Dieese, a força dos fatores socioeconômicos na sua determinação, e a questão que permanece é a de se saber até que ponto eles prevaleceriam sobre as reformas, impedindo a plena consecução das mudanças buscadas por elas.
Ainda na linha da abordagem do papel das condições socioeconômicas brasileiras na determinação da renda, que nos remete à teoria da não competitividade do mercado de