3.1 Método de estudo e análise do papel da agricultura familiar na informalidade no
3.1.6 Etapa III – Pesquisa nos estabelecimentos comerciais
Prosseguindo-se com a coleta de dados primários, o foco passa a ser o comércio urbano local. Nessa etapa, existe mais de uma possibilidade para que se dê sequência ao estudo: uma delas é a possibilidade de se entrevistar somente os comerciantes citados nas entrevistas nos domicílios − os quais, naturalmente, deverão ser intermediários dos produtos informais oriundos da agricultura familiar local; outra possibilidade é a determinação de uma amostra que seja estatisticamente significativa para aplicação dos formulários − limitada pelo conhecimento sobre o número efetivo de estabelecimentos que possam realizar esse tipo de intermediação; por fim, realiza-se de um censo no comércio local. Acredita-se que esta última opção seja a mais adequada. No entanto, a opção deve ser escolhida somente quando atendidas algumas condições, tais como um número relativamente possível de ser visitado, tendo-se em vista os recursos humanos, logísticos e financeiros para sua realização.
Após a escolha do procedimento ideal para a situação, o próximo passo é a aplicação das entrevistas com o uso do formulário pré-elaborado. Da mesma forma como a fase anterior, essa etapa também é fundamental no processo geral de aplicação e eficiência do método em aplicação. Os dados obtidos nessa etapa, além da importância para os resultados finais, também são essenciais para a operacionalidade da etapa seguinte junto aos produtores agrícolas familiares do município. A partir desses dados, também são obtidos os produtores que fazem parte do rol que participa dessa forma de comércio.
O questionário a ser aplicado aos comerciantes é bem mais compacto, visto que esses formulários normalmente são aplicados em horário de trabalho; caso fossem mais extensos, poderiam se tornar um transtorno. O formulário está dividido em três eixos: identificação do estabelecimento comercial, identificação e quantificação proporcional dos produtos comercializados e percepções sobre produtores e produtos informais.
3.1.6.1 Identificação do estabelecimento comercial
A identificação do estabelecimento comercial é uma fase extremamente rápida, pois o nome fantasia, geralmente, está em uma placa ou escrito na fachada, podendo ser somente
anotado, sem a necessidade de se perguntar ao comerciante. Marca-se no próprio formulário se o estabelecimento é rural ou urbano. Essa pergunta torna-se relevante principalmente em municípios pequenos onde é comum a existência de comércio no rural e se se fizer a opção por estender a pesquisa ao meio rural.
Eventualmente, podem existir alguns estabelecimentos que não possuam formalização. Sugere-se ser bastante cauteloso na forma de abordagem, tendo-se em vista que o entrevistado que atua na informalidade não se sente seguro em dar essa resposta. Entretanto, mesmo sendo possível ter-se algum caso nessas condições, observa-se que a fiscalização é cada vez mais eficiente, em se tratando de um comércio local, fato que dificulta a atuação informal.
Existe uma série de possibilidades quanto ao tipo de estabelecimento. Algumas são oferecidas no formulário-base, mas, de forma semelhante a outras questões, há a possibilidade de se marcar “outra” e citá-la quando for o caso. Essas informações servem para a análise de quais os tipos de intermediários preferenciais desse tipo de comércio.
Por fim, nessa fase, deve-se questionar o tempo de existência do estabelecimento. Na resposta, podem surgir algumas dúvidas, como, por exemplo, se o comerciante adquiriu de outro, se considera o tempo em sua propriedade; se trabalhava em outro município ou no meio rural e mudou-se para o urbano, considera-se o tempo em que está nesse local; se apenas trocou o endereço no meio urbano, considera-se todo o tempo. Essas informações servem para analisar a estabilidade e o nível de renovação dos diferentes tipos de estabelecimento envolvidos ou não com esse tipo de comércio.
3.1.6.2 Identificação e quantificação proporcional dos produtos comercializados
Essa fase da etapa III é caracterizada pela apresentação da lista de produtos possíveis de serem produzidos pela agricultura familiar local que, normalmente, são comercializados informalmente. Essa lista é a mesma apresentada os domicílios, com o acréscimo de produtos que não faziam parte da anterior e que foram citados como adquiridos, ganhos ou produzidos nos domicílios.
Quando o pesquisador for preencher o formulário, apenas uma lacuna deve ser completada, a exemplo do formulário dos domicílios, entretanto a forma de preenchimento é diferente. Neste caso, se o comerciante não vende o produto, coloca-se apenas um traço na célula em branco; caso ele o comercialize, preenche-se um número que se estende de 0 a 10, sendo que 0 corresponde à resposta de que o produto é 100% formal, ou seja, seus
fornecedores são formalizados e nada tem origem na agricultura familiar informal; e 10 corresponde aos casos em que o produto é 100% informal. Mais especificamente, quando um produto for comercializado e existir algum percentual com fornecimento pela agricultura familiar informal, utiliza-se a numeração de 1 a 10, sendo que o número 1 indica que 10% dos produtos são da agricultura familiar informal, e assim consecutivamente, até o 10, que representa 100% com essa origem informal.
Durante o preenchimento dessa tabela, que se constitui na principal etapa junto aos comerciantes, deve-se proceder com muita paciência, respeitar eventuais interrupções para este atender a seus consumidores, bem como outras atividades que este esteja desenvolvendo em horário de trabalho. Possivelmente, encontra-se algum comerciante que se recuse a admitir que existam fornecedores informais, temendo eventuais ligações com a fiscalização realizada pelo poder público. Nesses momentos, deve-se explicar claramente o teor exclusivamente científico, ou outro que seja o caso, do estudo que está sendo realizado. Caso a explicação não seja aceita, pode-se tentar outros recursos, como falar da entidade em que o pesquisador trabalha, argumentar que o estabelecimento foi citado nos domicílios etc. Em casos extremos, aceita-se seu posicionamento e avança-se, normalmente realizando todos os demais questionamentos, exatamente como os demais comerciantes que admitiram intermediar esses produtos informais.
Durante o preenchimento dessa tabela, ainda podem surgir outras situações inusitadas, como, por exemplo, o comerciante pode ser o produtor de um ou mais produtos ou ele próprio comercializa produtos produzidos por algum parente. Nesses casos, sugere-se fazer uma observação explicando cada episódio.
Os dados fornecidos por essa tabela servem para analisar o conjunto de produtos comercializados no comércio local e, principalmente, qual a proporção da participação dos produtos agrícolas familiares informais nesse nível varejista de intermediação. A partir dela também se obtêm informações sobre a proporção de estabelecimentos que realizam esse tipo de intermediação (quando a opção do pesquisador for a realização do censo). Em qualquer das hipóteses escolhidas, a análise dessas informações é fundamental para se entender como funciona o comércio informal de alimentos e bebidas informais da agricultura familiar local.
Pode-se estabelecer vários tipos de análises sobre essa base de dados, inclusive estabelecer relações com a lista de fornecedores para os domicílios, determinando sobreposições, bem como delinear os fornecedores que são exclusivos de domicílios e do comércio. A frequência com que aparecem os produtos e seus produtores gera outra forma de
análise importante para se determinar a natureza comercial ou de autoconsumo dessas produções. Destaca-se que esses são apenas alguns exemplos de possíveis formas de análise e várias outras podem ser realizadas, dependendo dos recursos utilizados e da necessidade do estudo.
3.1.6.3 Percepções sobre produtores e produtos informais
Nessa última fase dessa etapa com os comerciantes, são efetuados seis questionamentos aos possíveis intermediários, procurando-se abstrair suas percepções sobre os produtores familiares e seus produtos informais. Através das respostas, é possível traçar o perfil desses fornecedores informais na opinião dos comerciantes. O primeiro questionamento está constituído por respostas fechadas limitadas a sim e não sobre a compra permanente de produtos de fornecedores informais. A análise é muito simples e tem-se a informação sobre a proporção de comerciantes que mantêm esse hábito ao longo do tempo.
Os próximos dois questionamentos estão interligados: pergunta-se o número de fornecedores informais que o comerciante possui e, na sequência, solicita-se que o respondente relacione todos que ele lembra. Essa situação é semelhante à dos domicílios, sendo que os dados coletados devem ser organizados de forma que facilitem sua posterior utilização. Torna-se importante que se relacionem, claramente, o nome do produtor (ou outra forma de identificação, como apelido, parentesco, veículo utilizado etc.), os produtos que o comerciante adquire desse produtor e o local em que esse fornecedor tem seu estabelecimento ou qualquer outro dado que venha a facilitar sua localização.
Após a tabulação dos dados, deve-se imprimir uma relação dos fornecedores citados e novamente recorrer aos informantes qualificados, à semelhança dos fornecedores para os domicílios. O objetivo desse procedimento está em esses informantes esclarecerem eventuais dúvidas e/ou apontarem equívocos cometidos, como membros de uma mesma família cotada como fornecedores diferentes, repetição de fornecedores citados de forma diferente, entre outros. Sugere-se também, quando o tempo for um fator limitador, realizar de uma única vez esse trabalho, reunindo as citações dos dois segmentos (domicílios e comerciantes) em uma lista única. Esta última sugestão deve ser utilizada somente como uma opção secundária, pois é interessante o contato com pessoas da comunidade, devido ao fato de se poder obter novas informações não acessíveis com o público entrevistado. Caso se opte pelas duas revisões,
nesta segunda oportunidade podem ser esclarecidas pendências da lista de fornecedores para os domicílios.
Em relação à análise desses dados, pode-se traçar comparações entre o número de fornecedores declarados e o número de fornecedores lembrados para citar e, dessa forma, pode-se deduzir o número de fornecedores efetivos e o de eventuais. Nessa etapa, também se determina o total de fornecedores presentes no município, cuja listagem pode ser completada através das informações obtidas junto aos informantes qualificados, que devem ser tratadas em separado, para não poluir os dados originais obtidos junto aos domicílios e ao comércio. A utilidade dessas informações será discutida na etapa seguinte, quando se torna necessário determinar a amostra de produtores e localizar esses estabelecimentos distribuídos pela zona rural.
É necessário cautela com o questionamento sobre qual a forma com que esses comerciantes realizam o pagamento pelos produtos informais − entre as opções, troca, compra ou ambas −, para que se obtenha uma resposta verdadeira. Os dados gerados e a sua interpretação podem promover uma análise interessante sobre o poder desses fornecedores em utilizar, da forma que mais lhes beneficie, os recursos monetários obtidos na transação, no caso de venda, ou ficar atrelado ao comerciante, no caso de troca.
Duas outras questões abertas, ambas a respeito dos produtos informais, encerram a entrevista junto aos comerciantes. A primeira questiona a opinião deles em relação a esses produtos e a segunda, a opinião de seus consumidores em relação a esses produtos.
O banco de dados gerado pode ser analisado em conjunto ou de forma separada. Todavia, a forma de análise é semelhante, uma vez que, em ambos os casos, as opiniões devem ser agrupadas por similaridade e por diferença. Dentro desses grupos, também podem existir divisões com opiniões ou justificativas diferentes para opiniões similares. Toda essa diversidade deve ser analisada e comentada, conforme apresentarem novidades ou repetições significativas.