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Segurança alimentar na perspectiva do autoconsumo

2.2 Revisão de literatura

2.2.4 Segurança alimentar na perspectiva do autoconsumo

Segundo Dombek, Tereso e Bergamasco (2003), a segurança alimentar é um tema transversal, que abarca diversos contextos, tanto para as ciências sociais quanto para as biológicas e físicas. Nesse contexto, o autoconsumo torna-se um elemento importante para a manutenção dessa segurança.

Quanto aos programas de governo que atuam nessa área, pode-se destacar o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), idealizado no bojo de iniciativas do Programa Fome Zero (PFZ), iniciativa do Governo Federal que visa ao combate da pobreza no Brasil. O combate à pobreza e, mais especificamente, à fome, mesmo que seja um problema antigo no país, somente a partir dos anos 90 é que ganhou notoriedade, com ações lideradas pelo sociólogo Herbert de Souza6 (Betinho), o que apenas a partir do governo Lula, em 2002, passa a se tornar programa de governo. O programa foi concebido em dois níveis, um emergencial e outro estrutural, neste último o PAA, com duplo propósito, de combate à fome e fortalecimento da agricultura familiar (MATTEI, 2007).

O PAA foi instituído pela Lei nº 10.696, de 2 de julho de 2003, juntamente com o Programa Bolsa Família, desburocratizando a aquisição de alimentos oriundos da agricultura familiar pela dispensa de licitação (Lei nº 8.666/1993). Além de fortalecer a agricultura familiar, ele garante a segurança alimentar de vários segmentos7.

6 Herbert José de Souza (1935-1997), mais conhecido como Betinho, foi um sociólogo e ativista dos direitos humanos brasileiro. Seu trabalho mais importante foi o projeto da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Mobilizou várias campanhas para arrecadar mantimentos em favor dos pobres e excluídos (BIOGRAFIAS, 2011).

7 O PAA, em suas diversas modalidades, visa a garantir o direito básico à alimentação para as pessoas que vivem socialmente em situação de insegurança alimentar e nutricional, destinando os produtos adquiridos para diferentes segmentos sociais (alimentação escolar nos municípios; alimentação em creches, abrigos, albergues, asilos e hospitais públicos; formação de bancos de alimentos; utilização em restaurantes populares e em cozinhas comunitárias) (MATTEI, 2007).

A “merenda escolar”, oficializada ainda no governo Vargas, em 1955, atualmente sob a denominação Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) (Lei nº 11.947, de 16 junho de 2009), é o mais antigo programa alimentar brasileiro. A partir dessa lei, passou a ter mais uma função social de apoio à agricultura familiar, destinando, em seu Art. 14, no mínimo 30% dos recursos para aquisição de produtos oriundos da agricultura familiar. Inicialmente dependente de doações, possui orçamento próprio. Em 2008, tornou-se o maior programa do gênero no mundo (35 milhões de refeições), aumentando ainda mais em 2009, com cerca de 47 milhões de refeições e um orçamento de cerca de 2,5 bilhões (MALUF, 2009a).

Portanto, são em torno de 750 milhões, entre recursos federais e locais, para compras de produtos oriundos da agricultura familiar de forma direta do agricultor e através de grupos formais ou informais por este formados. Existe uma série de regras a serem obedecidas. Entre elas, dispensa de licitação, preço médio regional, preço maior que o preço mínimo, máximo anual em reais de 9 mil para agricultores individuais e de 100 mil para grupos informais e observação da sazonalidade da produção e das peculiaridades regionais de alimentação (MALUF, 2009b).

Anjos, Del Grossi e Caldas (2010), ao analisar dados da Pnad (IBGE, 2006) no que se refere à análise da insegurança alimentar, constataram que 13,0% e 6,9% da população urbana brasileira estava classificada como moderada e grave, respectivamente, em 2004. No âmbito rural, os mesmos índices atingiam 19,5% e 11,1%, respectivamente. Os autores buscaram demonstrar que o espaço rural em transformação há de prover não somente renda e ocupação para as famílias rurais, mas também condições para a reprodução social dos indivíduos, com as necessidades alimentares atendidas pelas práticas de autoconsumo, seja de forma parcial, seja total.

Para Anjos e Burlandy (2010), o campo de conhecimento de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) vem se desenvolvendo no Brasil de forma muito ampla, englobando vários segmentos, não somente o acadêmico. Os autores identificam três diferentes temáticas de pesquisa: “(1) segurança do alimento no que se refere à qualidade sanitária; (2) alimentação saudável e estado nutricional de diferentes segmentos populacionais; e (3) direito humano à alimentação adequada e análise de macropolíticas.” Nesta última, vislumbra-se a presença das atividades de autoconsumo e seus excedentes como objeto de estudo do SAN.

Segundo Paulillo e Almeida (2005), as grandes cadeias produtivas mundiais de alimentos, com uma produção média diária estimada de três quilos de alimentos per capita,

poderiam eliminar a fome no mundo. No entanto, não surtem tal efeito. Os autores sugerem que somente uma construção social de baixo para cima, através da promoção de inclusão social e de redes locais de produção e comercialização, aliada a uma série de fatores geradores de renda e desenvolvimento, é que poderia amenizar ou eliminar a fome. Os autores concluem que o caminho mais adequado para a mais justa e democrática distribuição alimentar não é o incentivo a agroindústrias nacionais ou globais, mas sim políticas públicas direcionadas para organizações locais.

A segurança alimentar de um país continental como o Brasil passa, seguramente, pelo atendimento de diversas peculiaridades regionais e sua diversidade de hábitos de consumo através do fornecimento de alimentos de qualidade. Pode-se reforçar a ideia de que o autoconsumo é um assunto transversal, conforme os seguintes argumentos: possui grande potencial de abrangência em uma estratégia de fortalecimento da autonomia do agricultor familiar, contribui para a segurança alimentar, internaliza recursos e tarefas, permite economizar recursos financeiros e potencializar recursos ociosos, constitui uma fonte de renda alternativa direta ou indireta, promove a sociabilidade e retomada da identidade do agricultor. Dessa forma, o autoconsumo torna-se um tema relevante para a manutenção e o fortalecimento da agricultura familiar (GRISA, 2007a).

Grisa (2007a) relata, em suas considerações finais, a comprovação de que as atividades de autoconsumo não são uma mera lembrança, mas sim estão presentes no momento atual, talvez não com a predominância de outrora. Todavia, ainda possuem um papel fundamental na manutenção das famílias rurais sob vários aspectos, como, por exemplo: na segurança alimentar, com consequências na formação de renda, pela “economização”, com maior aproveitamento da mão de obra e redução de despesas com aquisição de alimentos; minimiza a vulnerabilidade; as adversidades econômicas e ambientais propiciam a maior aproximação e o consequente estreitamento dos laços sociais; e, principalmente, confere ao agricultor a preservação de sua identidade, enquanto produtor de alimentos, elevando, dessa forma, sua autoestima. A autora cita a possível influência dessas atividades no desenvolvimento rural. No entanto, não contempla o desenvolvimento integrado rural/urbano de pequenos aglomerados urbanos, no que se refere à importância da comercialização informal do excedente do autoconsumo através de cadeias curtas de comercialização como uma ligação entre o rural e o urbano, propiciando esse desenvolvimento integrado.

A produção familiar esteve presente de forma predominante no contexto da produção de alimentos. Todavia, no decorrer do século passado, com o processo de industrialização e a

migração de mão de obra para a cidade, ela perdeu espaço para a agricultura não familiar (empresarial), mesmo assim o autor se refere à importância atual dessa forma de produção de alimentos:

Considera-se a agricultura de base familiar como a forma mais conveniente de ocupação social do espaço agrário. A promoção dos pequenos produtores de alimentos promove a equidade e a inclusão social em simultâneo a uma maior e mais diversificada oferta de alimentos à população produzidos sob formas sustentáveis. (MALUF, 2004, p. 310).

Em tempos em que a padronização dos produtos é quase uma regra, a agricultura familiar permanece com sua produção, caracteristicamente sem um padrão definido. Assim, ela pode justamente nesse quesito encontrar o seu diferencial em relação ao alimento padronizado, como forma de se inserir no mercado, principalmente em se tratando de mercados locais, favorecendo os agricultores familiares de médio e pequeno porte. Maluf (2004) reitera que esse acesso ao mercado na busca de sua construção passa pela união com outros segmentos econômicos, como o de transporte, comércio e finanças, além, é claro, da união entre os próprios agricultores. O autor se refere à agricultura familiar comercial, mas pode-se estender o seu relato ao excedente do autoconsumo.

Maluf (2004) se refere a cadeias integradas como de abrangência nacional e internacional, com acesso a empresas de maior porte, dificilmente acessadas pela agricultura familiar. Denominou-as como circuitos regionais de produção, distribuição e consumo de alimentos que, segundo ele, formam-se no entorno de pequenos e médios núcleos (aglomerados) urbanos, constituídos também por outros segmentos complementares ligados ao segmento. A formação é ligada à forma de ocupação do território, ao tipo de produção predominante, à cultura dos agricultores etc., e está suscetível à ação das cadeias integradas, sendo necessário, muitas vezes, o apoio institucional.

Os bens típicos dos circuitos regionais são as carnes diferenciadas (como a galinha caipira), derivados de carne (embutidos), farinhas (mandioca, milho, trigo colonial, etc.), queijos típicos e requeijões, frutas (frescas ou em polpa), hortaliças, pescados frescos, conservas e doces em geral, condimentos, etc. Esses produtos são, na maioria das vezes, expressões de diversidade por uma ou mais das seguintes razões: são de cultivo tradicional de uma região, refletem hábitos de consumo peculiares, guardam relação com uma dada base de recursos naturais, preservam as características da produção artesanal. O horizonte dos agentes envolvidos nos referidos circuitos são os mercados local e regional, apesar de serem cada vez mais frequentes as iniciativas voltadas para destinar a mercados distantes os produtos diferenciados oriundos da agricultura familiar (artesanais, com identificação de origem ou orgânicos). (MALUF, 2004, p. 310).

Como relatado, esses são tipicamente produtos familiares de autoconsumo, os quais, frequentemente, tornam-se comerciais. Esse fenômeno ocorre devido à pressão sofrida pelo agricultor familiar na busca de competitividade com segmentos de produção comercial existentes, que, possuindo escalas de produção diferenciadas, conseguem obter um custo de produção menor, a consequente vantagem na margem de comercialização e lucros maiores. Segundo Maluf (2004), projetos de agregação de valor, seja individual, seja integrada, podem vir a evitar essa tendência de especialização da agricultura familiar.

Souza, Almeida e Souza (2009), referindo-se ao mercado de frutas, legumes e verduras (FLV), constatam que a expansão mundial das grandes cadeias de supermercados na década de 90 afetou esse segmento, exigindo a profissionalização e especialização dos produtores, fato que prejudicou o segmento familiar envolvido. No entanto, os autores citam vários estudiosos do assunto para referenciar que o segmento de redes de pequeno varejo, no âmbito regional e local, persiste crescendo no período compreendido entre 1994 e 2000.

Na pesquisa realizada por Anjos, Caldas e Hirai (2008), foi analisada a importância do autoconsumo na segurança alimentar, sendo constatada sua importância nessa finalidade em 238 municípios no estado do Rio Grande do Sul. Contudo, percebeu-se a dificuldade em quantificar esses dados:

A grande maioria dos produtores desconhece a quantidade de frutas e hortaliças, assim como os produtos oriundos da chamada „indústria doméstica familiar‟ (embutidos, conservas, compotas, etc.) cuja produção se destina essencialmente ao autoconsumo familiar. Igualmente complexos são os critérios a serem adotados na atribuição do preço a estes artigos. O fato é que, ao não serem dirigidos à venda, invariavelmente os agricultores têm a tendência de infravalorar o papel que assumem enquanto fonte indireta de renda. (ANJOS; CALDAS; HIRAI, 2008).