4. O DESIGN ADOTADO PARA CONSTRUÇÃO DO MAP: fases de desenvolvimento
4.2 ETAPA 2: O MONITORAMENTO PARTICIPATIVO DA PESCA
A Etapa 2 do MAP está relacionada ao desdobramento do monitoramento da pesca, que iniciou com um grupo de pescadores que se voluntariaram a participar do projeto e foi desenvolvido em quatro fases:
1. Programa piloto (3 meses), que teve a finalidade de testar os cartões de desembarque;
2. Revisão dos instrumentos de coleta de dados (5 meses), que teve o objetivo de adequar os cartões de desembarque para a realidade local;
3. Devolutivas parciais dos resultados (2 meses), que sistematizou os resultados alcançados durante a fase piloto para reavaliar a metodologia.
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4. Consolidação metodológica e construção de um banco de dados (4 meses), onde foi aglutinado as considerações das revisões das coletas de variáveis, padronizado o cartão de desembarque de acordo com as especificidades locais e desenvolvido um Software para armazenar o banco de dados do MAP, o Sistema de Integrado de Estatística Pesqueira (SIEPE).
4.2.1 Programa Piloto do monitoramento
Definido os instrumentos de coleta de dados e as variáveis que seriam pesquisadas em setembro de 2016, após 21 meses desde o planejamento do MAP, iniciamos o monitoramento da pesca utilizando os cartões de desembarque, que foram preenchidos pelos próprios pescadores, dando um caráter de automonitoramento. Um total de 29 pescadores se voluntariaram para realizar o monitoramento.
A fase piloto foi desenvolvida entre outubro de 2016 a fevereiro de 2017. Sendo esse o período da piracema na bacia Araguaia-Tocantins, portanto, só é permitida a pesca de subsistência com capturas de até 5kg e mais um exemplar no rio Tocantins, e 3kg e mais um exemplar no rio Araguaia, de acordo com as Instruções Normativas nº 12 e 13 (MPA/MMA, 2011a, b). Por termos iniciado a fase piloto durante a piracema, nem todos os pescadores voluntários iniciaram o automonitoramento neste período. Nesta etapa, 13 pescadores receberam os kits para o monitoramento participativo e, posteriormente ao período defeso, outros 16 pescadores se voluntariaram. Posteriormente, 3 pescadores desistiram de participar do projeto e no total de 25 pescadores participaram do automonitoramento entre setembro de 2016 a novembro de 2017.
Dos voluntários, 9 pescadores são das comunidades Ilha de Campo e Santa Cruz e 16 das comunidades de Tauiry e Santo Antonino. O cartão de desembarque utilizado durante a fase piloto continha 28 questões que eram preenchidas com informações de uma pescaria (Apêndice 3), que passou por modificações posteriores.
O monitoramento da pesca seguiu a seguinte dinâmica durante todas as suas fases: 1.
Os pescadores voluntários receberam o kit de monitoramento da pesca; 2. Cada pescador voluntário anotou as informações de suas pescarias; 3. Os cartões foram corrigidos em campo com os pescadores e depois de recolhidos as informações, elas foram tabuladas em planilha Excel, posteriormente ao desenvolvimento do SIEPE, os dados foram importados para o Software; 4. As informações foram organizadas em formato de relatórios que foram discutidos em grupos para acordar as modificações necessárias no cartão de desembarque; 5. Novos ciclos
de monitoramento foram sendo realizados a partir das contribuições discutidas nas comunidades (Figura 12).
Figura 12: Organização do monitoramento Participativo da Pesca na média bacia Araguaia-Tocantins, Pará, Brasil.
4.2.2 Revisão dos instrumentos de coleta de dados
A grande quantidade de informações nos cartões de desembarque utilizado na fase piloto inviabilizou o preenchimento das informações pelos pescadores que, na maioria das vezes, têm pouco grau de escolaridade. Mediante este fato, foi realizada de forma colaborativa a revisão dos cartões de desembarque e por sugestões dos participantes, foram retiradas as informações relacionadas ao tamanho dos peixes, pois, segundo eles, não tinham tempo para a anotação detalhada destas informações (Apêndice 4). Os espaços para revisão das variáveis coletadas também foram utilizados para avaliação coletiva das atividades realizadas desde o início do MAP, que se mostrou promissor para alinhar a pesquisa e construir confiança junto aos pescadores e às comunidades.
4.2.3 Devolutivas parciais
O conjunto de metodologias aplicadas durante os 29 meses iniciais do Propesca favoreceu não apenas o levantamento de dados científicos, mas também, proporcionou a
construção de materiais alternativos, sendo que esta foi uma demanda das comunidades a partir de acordos realizados no início do projeto, ainda nas primeiras reuniões.
Dentre os materiais construídos, fizemos a devolutiva de um Curta Metragem (3 minutos) “O Pedral do Lourenção”24 e a apresentação da terceira versão dos cadernos pedagógicos: “A pesca e os pescadores de vila Tauiry e Santo Antonino” e “A pesca e os pescadores de Ilha de Campo e Santa Cruz” (Apêndices 6 e 7). As reuniões e a divulgação dos resultados preliminares melhoraram a integração entre pesquisador e comunidade, aumentando o grau de confiança entre ambos.
Nesta fase, também discutimos sobre os resultados preliminares do monitoramento, tais como: quantos kg de peixes foram capturados, quais os locais com maior produção de pescado, o rendimento médio das pescarias; os custos associados a atividade de pesca, os possíveis impactos da construção da hidrovia sobre os locais de pesca. Foi enfatizado a importância do preenchimento correto de todos os campos do cartão de desembarque, sobretudo as informações sobre a quantidade de pescadores que participam da pescaria, a data, a duração da pescaria em horas e a quantidade em kg de peixes capturados.
4.2.4 Consolidação metodológica e construção do banco de dados
Com o conjunto de metodologias adotadas nesta pesquisa, foi possível realizar as primeiras análises qualitativas e quantitativas e consolidá-las como estruturantes para a continuação da pesquisa. Em observância as análises preliminares e com o objetivo de simplificar ainda mais o questionário de desembarque, fizemos novas modificações (Apêndices 5). Estas modificações se fizeram necessárias para reduzir a complexidade e garantir que os pescadores e pescadoras pudessem realizar o preenchimento com maior facilidade. Importante enfatizar que tais modificações não implicam em mudanças para futuras análises estatísticas do desembarque pesqueiro, que para a produção da pesca foi considerado o índice da Captura por Unidade de Esforço. Consideramos, neste estudo, o esforço calculado em horas pescando, a quantidade de pescadores na atividade e a quantidade em kg de pescado capturado. A coleta dessas informações se mantiveram mesmo depois das adaptações nos cartões de desembarque.
No LCC da Unifesspa, os cartões foram usados como parâmetros para a construção de Software para armazenamento de banco de dados. Dessa forma, o SIEPE foi desenvolvido a partir do Edital nº 28/2017 – PROPIT/LCC/Unifesspa - “Seleção de proposta para uso da
24 Disponível em: https://www.facebook.com/cristiane.vieiradacunha/videos/1093964693968900/
infraestrutura computacional do Laboratório de Computação Científica”. Para o desenvolvimento do Software, pesquisadores, que desenvolvem pesquisas por meio do monitoramento da pesca na Ufopa, UFRGS, IFTO (Colinas) e Embrapa Pesca e Aquicultura/TO, foram consultados via e-mail a respeito das variáveis que poderiam ser inseridas no SIEPE. Os feedbacks entre os pesquisadores consultados foram aderidos para o desenvolvimento do sistema. Posterior à conclusão, os dados coletados no monitoramento da pesca foram importados para o Software.
O SIEPE visa armazenar os dados coletados no âmbito do monitoramento da pesca para produzir banco de dados relacional e com menor espaço de armazenamento de informações.
Permite o trabalho em rede e descentraliza a entrada de informações. Com a finalidade de orientar sobre a metodologia do programa e capacitar os pescadores para o correto preenchimento dos cartões de desembarque, foram realizadas novas capacitações metodológicas em cada uma das comunidades durante a etapa do MAP.
Foi adotado como método para medir o esforço e a produção da pesca durante o monitoramento, o cálculo do índice da Captura por Unidade de Esforço (CPUE). A CPUE tem como objetivo quantificar um indicador do rendimento da pesca, conforme maior a CPUE, espera-se maior rendimento da pescaria, que poderá também indicar áreas e espécies mais produtivas. Essas informações podem ser adotadas como instrumento para o manejo e gestão da pesca.
O uso de cálculos matemáticos representa uma simplificação da realidade, uma vez que é difícil determinar o estoque de determinada espécie de peixes e, desta forma, avaliar qual a produção máxima sustentável. Mesmo assim, a CPUE tem sido a medida mais comumente utilizada na avaliação da pesca (FREITAS; NASCIMENTO; SOUZA, 2007). Para o cálculo da CPUE, neste experimento, foi considerando a produção em (quilos)/número de pescadores*tempo gasto pescando em (h), adaptado da proposição de Petrere Jr. (1978).
Detalhes sobre o SIEPE e dos resultados gerados por esta ferramenta podem ser consultados no capitulo 3; produto 1.
4.3 ETAPA 3: CONSOLIDAÇÃO DO PROGRAMA DE MONITORAMENTO