2. METODOLOGIA
3.1 Pescadores
3.1.1 Os pescadores em uma matriz espaço-temporal complexa
Foram entrevistados 30 pescadores, destes (n=14) nasceram em outros estados (Maranhão: n=7; Tocantins: n= 5; e Goiás: n=2) e 16 nasceram no Pará. Dos entrevistados, apenas oito moram há menos de 20 anos na região. Os pescadores encontram-se na faixa etária entre 26 a 66 anos de idade (média de 49 anos) e o tempo de experiência na pesca varia entre 5 a 49 anos (média de 27 anos) (Tabela 2).
Tabela 2: Perfil dos pescadores entrevistados por comunidade durante o Monitoramento Adaptativo da Pesca na média bacia Araguaia-Tocantins, Pará, Brasil. Idade média e tempo médio do exercício da atividade de pesca.
Comunidade Número de
entrevistados
Idade média dos pescadores
Tempo médio de experiência na pesca (anos)
Tauiry (Itupiranga) 9 44.6 26.9
Santo Antonino (Itupiranga) 4 56.8 26.8
Ilha de Campo (São Geraldo do Araguaia) 7 45.7 27.9
Santa Cruz (São Geraldo do Araguaia) 10 52.5 27.3
Total 30 49.1 27.1
A motivação dos pescadores migrantes a vir morar na região está relacionada a necessidade de acompanhar a família em processos migratórios, anteriores e recentes, bem como, oportunidades de moradia e acesso às áreas de pesca, terra para cultivo e oportunidades de trabalho. Jailson, um pescador 27 anos de experiência na pesca, relata que “saí por aí e encontrei este lugar”58. Aprendeu a pescar aos 20 anos de idade, quando aprendeu a interagir com a natureza em um processo continuo de produzir sua própria existência no local onde escolheu para ser seu.
Na fronteira Amazônica59 há muitos Jailsons, que se forjaram na profissão, não como uma herança de família, mas como uma necessidade de sobrevivência, como relata o seu Luiz Caxias60 em que “a família perdeu o lote que nós morava na transamazônica [...] então tirei uma carteira de pescador e vim morar na beirada para ganhar a vida e sustentar a família”. Seu Caxias tem 55 anos e mora há 26 anos na beira do rio Tocantins, nas proximidades do lago da UHE de Tucuruí. É pescador, agricultor, torrador de farinha, entre outras profissões que a vida lhe encarregou de apresentar. Vivenciou desde novo os conflitos e dificuldades em viver em uma região de disputa que foi motivada pela instalação de grandes projetos na Amazônia, com a abertura da Transamazônica na década de 70, que contribuiu para ampliar a frente agropecuária e expulsar pequenos colonos de seus lotes, os impulsionando a migrarem.
Os pescadores na fronteira da Amazônia são migrantes, mas também nativos, como seu Moacir61 que nasceu e se criou na beira do Araguaia, tem 51 anos e declara que é pescador há 49 anos e desde pequeno já acompanhava os pais na atividade de pesca. Seu Moacir e sua esposa, pescam diariamente e são um dos poucos pescadores do Araguaia capazes de enfrentar a Cachoeira de Santa Isabel62, conhecida como perigosa e traiçoeira. Seu José Nicolau63, também pescador nativo no rio Tocantins, foi morar na comunidade de Tauiry ainda quando criança, quando os pais deixaram a cidade de Marabá e migraram para Itupiranga em busca de
58 Jailson Ferreira de Araújo, vila Ilha de Campo, São Geraldo do Araguaia, 19 de março de 2017, entrevistado por Cristiane Vieira da Cunha, migrou de São João dos Patos (MA) - (caderno de campo).
59 O conceito de fronteira aqui apresentado é o de Martins (2018). A fronteira é o lugar dos encontros e desencontros, de temporalidades que forçam ajustes e acordos que resultam em uma nova identidade, é o lugar do confronto e dos conflitos. O que há mais relevante para definir a fronteira é a situação de conflito social (p.133), onde os sujeitos da fronteira têm um modo de viver no limite, na fronteira, onde há multiplicidades de disputas.
60 Luiz Barbosa Vieira (Luiz Caxias), 1 de novembro de 2016, entrevistado por Cristiane Vieira da Cunha. Migrou de lote na Transamazônica para a beira do lago da hidrelétrica de Tucuruí, região de Santo Antonino, Itupiranga (caderno de campo).
61 Moacir Gomes do Santos, vila Santa Cruz, São Geraldo do Araguaia, 16 de dezembro de 2016, entrevistado por Cristiane Vieira da Cunha. Nasceu e vive até hoje na mesma comunidade (caderno de campo).
62 Cachoeira de Santa Isabel: grande extensão de pedral e corredeiras que fica localizada no baixo rio Araguaia com declive de aproximadamente 13 m.
63 José Nicolau, vila Tauiry, Itupiranga, 01 de novembro de 2016, entrevistado por Cristiane Vieira da Cunha.
Nasceu em Marabá e migrou para a vila Tauiry aos 10 anos de idade (caderno de campo). Em dezembro de 2017 o seu Nicolau faleceu em decorrência de enfermidade.
uma vida melhor. Na época da entrevista, seu Nicolau tinha 55 anos de idade e declarava 45 anos de experiência na atividade de pesca. Em sua trajetória de vida também foi mariscador e coletor de castanha, mas, tinha a pesca como sua principal atividade profissional, sendo exímio conhecedor do pedral do Lourenção, dos ambientes de pesca de sua região e dos peixes.
Essa miscigenação de história, de pessoas e de trabalho é um reflexo dos processos migratórios da região Sul e Sudeste do Pará, que refletem na variabilidade da diversidade cultural regional, que se caracteriza pela heterogeneidade e alargamento das fronteiras culturais (SILVA, 2006), sendo essa uma característica da adaptabilidade humana, em que os agentes sociais são impulsionados a trocar experiências por meio da aprendizagem coletiva para responder aos desafios impostos (BENNETT et al., 2014), neste caso, pelos processos migratórios intensos na fronteira da Amazônia (MARTINS, 2018).
Amanajás (2019), em estudo realizado no Amapá, também constatou forte migração entre os pescadores no Oiapoque, como perfil de migrações temporárias e de longo prazo, em distâncias curtas e longas, movimento esse, que se reproduz por várias gerações. No contexto de um sistema socioecológico complexo e da diversidade entre migrantes e nativos, cria-se condições que proporcionam espaços para a aprendizagem coletiva. Os nativos, por terem memória ecológica mais detalhada do ambiente e dos processos e funções do ecossistema, funcionam como uma reserva da memória ecológica que pode ser usada pelos migrantes como fonte de aprendizado, seja nos espaços de diálogos e trocas de experiências, ou seja nos processos de observação (FOLKE; COLDING; BERKES, 2003).
O processo da aprendizagem humana, ou da construção do conhecimento, acontece mediada por uma matriz espaço-temporal, em que os atores sociais dentro de seus territórios e ao longo dos dias, dos meses e dos anos, constroem saberes a partir de suas vivências e experiências, que são compartilhadas no grupo social em que estão inseridos, para o uso dos recursos naturais disponíveis. Neste sentido, o uso dos recursos naturais pelos agentes sociais, nativos ou migrantes, ocorre em uma variedade de escalas (espaciais e temporais) dentro de um sistema socioecológico (DAVIDSON-HUNT; BERKES, 2003). Essa construção direta e permanente é o que dá sentido à existência e a identidade cultural (TOLEDO; BARRERA-BASSOLS, 2009). Portanto, os pescadores na média bacia Araguaia-Tocantins vêm de diversos espaços territoriais e formam-se em múltiplas profissões a cada dia, moldados pelo sistema socioecológico e político que os cerca, onde são produzidos saberes que dão significados a vida e a dignidade humana, mesmo em condições adversas de restrição de direitos. Os agentes sociais estão em constante processo de aprendizagem e adaptação.