Materiais e métodos
3.3 Etapa 2: procedimento para coleta de dados
sobre práticas de consumo relacionadas com a obsolescência programada, conhecimento do termo e do fenômeno e principais
produtos citados pelos participantes da pesquisa
A segunda etapa da pesquisa teve, num primeiro momento, uma sondagem feita por
meio da página do Facebook intitulada “Feitos para Quebrar”.45 A página teve o intuito
de abrir um espaço para que o maior número de pessoas compartilhasse experiências e ideias sobre os hábitos de consumo e o conhecimento sobre a obsolescência pro- gramada, de maneira indireta. As publicações diziam respeito a produtos e hábitos de consumo específicos, intercaladas com posts sobre a prática em si. A página serviu como uma sondagem para o questionário, que possui perguntas algumas semelhantes aos posts, porém de maneira mais espontânea e com estímulos diferentes do que o questionário, uma vez que é possível visualizar os demais comentários, estimulando assuntos e produtos. A página foi posta no ar no dia 16 de novembro de 2016 e, até o encerramento da coleta de respostas do questionário, no dia 02 de junho de 2017, foram realizadas 32 publicações.
A etapa do questionário contou com a colaboração da equipe do Centro de Estatística Aplicada (CEA–USP). Após reunião realizada com as professoras Lúcia Pereira Bar- roso e Viviana Giampaoli e com os alunos Laryssa Del Corso Costa e Diego Ribeiro Marcondes, foi solicitada uma análise da pertinência do método de pesquisa adotado, assim como uma avaliação do questionário elaborado. No relatório, elaborado pelo centro, a aplicação do questionário foi validada por ter como objetivo
[…] realizar uma sondagem da população de interesse, com o intuito não de fazer inferências sobre tal população e obter conclusões válidas para ela como um todo, mas de observar tendências e casos particulares que possam servir como base para estudos futuros sobre características mais específi- cas da obsolescência programada e suas particularidades na sociedade brasileira. (ANEXO 1, p. 4)
O questionário foi elaborado a partir da revisão bibliográfica, baseando-se nos parâ- metros de práticas de consumo listados por Packard (1965) e Slade (2007), e teve um intuito eminentemente descritivo — por essa razão foi composto por perguntas aber- tas e fechadas. Ele foi submetido à análise dos alunos do CEA presentes na reunião, e todas as sugestões contidas no relatório elaborado por eles foram acatadas no ins- trumento final de coleta aplicado. As perguntas do questionário foram divididas em quatro grandes blocos, com o intuito de identificar:
O respondente. Neste bloco os campos relacionados ao nome, idade, profissão e nú-
mero de pessoas na casa dos respondentes eram abertos e deveriam ser respondidos individualmente; as demais, a respeito de gênero, escolaridade, estado onde mora e
renda continham campos de múltipla escolha.46
Suas práticas de consumo. Neste bloco de perguntas, os campos eram de múltipla
escolha, mas continham espaços opcionais para comentários a respeito dos itens assi- nalados. Procurou-se respostas a respeito de hábitos de consumo, como: utilização de produtos por muito tempo ou troca frequente; preocupação com a assistência técnica e durabilidade na hora da compra; compra de produtos novos e usados; motivação para a compra (aparência, tecnologia); formas de pagamento; opinião a respeito das frases “o que é novo é bom, e o que é velho é ruim” e “se um produto é barato, pode durar pouco; se é caro, deve durar muito”.
Os produtos mais citados. Neste bloco de perguntas, também os campos eram de
múltipla escolha, mas continham espaços opcionais para comentários a respeito dos itens assinalados. Indagou-se sobre produtos específicos adquiridos. O intuito era que produtos variados pudessem ser citados. Por essa razão, este bloco de pergun-
tas continha um texto inicial explicativo47 que sugeria os tipos de produtos pergunta-
dos, sem limitá-los. Os respondentes assinalavam inicialmente um grupo de produtos mais geral num campo de múltipla escolha, para a seguir especificá-los em um campo aberto. Neste bloco os respondentes também foram indagados a respeito do motivo da compra (quebra, troca, lançamento, tecnologia ultrapassada) e, no caso de o mo- tivo assinalado ter sido o fato de o produto anterior ter quebrado, um detalhamento a respeito do ocorrido era também perguntado: por exemplo, se houve tentativa de conserto e quais foram os problemas ou soluções encontradas nesse caso. Havia tam- bém perguntas a respeito da satisfação com o tempo que o produto durou e da troca constante de produtos (e quais foram os produtos), assim como produtos antigos em
uso pelos respondentes.48
46 As perguntas sobre o respondente basearam-se em dados do IBGE e em pesquisa do Idec para definição dos parâmetros colo-
cados e seguiram as recomendações sugeridas pelo CEA (2017, p. 5), tais como deixar um campo aberto para o preenchimento da idade do respondente, para que as faixas etárias pudessem ser definidas posteriormente.
47 As perguntas a seguir referem-se aos produtos que, ainda que não rigorosamente considerados bens de consumo duráveis pelo
mercado, exigem certo planejamento antes da sua compra e, assim, espera-se que durem. São bons exemplos desses produtos: automóvel ou moto, celular, computador, móveis, DVD player, câmera fotográfica, televisor, micro-ondas, impressora, geladeira, freezer, lavadora ou secadora de roupas, fogão, aparelho de ar condicionado, aparelho de som, cafeteira, torradeira, entre outros de que você pode se lembrar.
48 O bloco de perguntas sobre práticas de consumo e os produtos mais citados baseou-se em Packard (1965) e Slade (2007), que
0DPOIFDJNFOUPEPTSFTQPOEFOUFTTPCSFBPCTPMFTDÅODJBQSPHSBNBEB Neste
bloco a primeira pergunta referia-se ao conhecimento do termo, apenas com “sim” e “não” como alternativa de resposta. Em seguida era apresentada uma definição do termo, e o respondente era indagado novamente a respeito da identificação, ou não, desta prática no seu cotidiano, assim como os departamentos de uma empresa que estariam associados a ela, e um incômodo, ou não, com a prática no seu cotidiano. Como nos outros blocos, as respostas tinham campos de múltipla escolha e abertos opcionais para justificativa das opções selecionadas.
O questionário foi aplicado com o intuito de realizar uma sondagem com amostragem não probabilística, pois a intenção da pesquisa foi a de realizar um estudo explorató- rio preliminar sobre o fenômeno, levantando temas que possam ser explorados em estudos futuros.
Por ser uma sondagem, procurou-se obter o maior número possível de respostas no período determinado para a coleta de dados, não estipulando anteriormente o tama- nho da amostra, apenas uma população-alvo. Dessa maneira, procurou-se estudar os consumidores brasileiros com acesso ao Facebook — recorte também sugerido pelo CEA (ANEXO 1, p. 7) — e observar tendências e casos particulares, sem fazer infe- rências, além de conseguir exemplos de produtos relacionados com a obsolescência. Assim, as conclusões partem dos dados observados e
servem apenas como evidências sobre os hábitos de consumo da população-alvo e inferências para toda a população não devem ser tomadas a partir desses dados. De fato, as conclusões po- derão servir de diretrizes para estudos futuros mais detalhados. (ANEXO 1, p. 7)
O questionário foi construído com base na estrutura disponibilizada pelo serviço
Google Forms49 e disponibilizado por meio de um link divulgado por rede social em 29
de abril de 2017. Os dados obtidos foram consolidados em 2 de junho de 2017, tendo ao todo, 444 participantes.
Por meio deste método foi possível alcançar quatro dos objetivos deste estudo, lista- dos no capítulo 1: identificar as práticas de consumo relacionadas com a obsolescên- cia programada, que permitem inferir sua existência; identificar as manifestações de obsolescência programada no mercado, de acordo com os parâmetros conceituais de- finidos e as práticas de consumo pesquisadas; identificar os produtos relacionados a cada um dos tipos de obsolescência programada, listando os produtos mais citados; e
49 Google Forms são formulários eletrônicos disponibilizados pela empresa de tecnologia Google para uso gratuito por usuários
averiguar o conhecimento dos consumidores a respeito do fenômeno, dando especial atenção ao fato de identificarem essa prática no seu cotidiano, mais do que o conheci- mento do nome que se dá a ela.
3.4 Etapa 3: procedimento para coleta de dados sobre o papel do design