Obsolescência programada, práticas de consumo e design: uma sondagem sobre bens de consumo
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(3) Lia Assumpção. Obsolescência programada, práticas de consumo e design: uma sondagem sobre bens de consumo. Versão original. Dissertação apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo Área de Concentração: Design e Arquitetura Orientadora: Profa Dra. Denise Dantas. São Paulo | 2017.
(4) Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. e-mail da autora: [email protected]. Catalogação na Publicação | Serviço Técnico de Biblioteca Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. A851o. Assumpção, Lia Obsolescência programada, práticas de consumo e design: uma sondagem sobre bens de consumo / Lia Assumpção; orientador Denise Dantas. - São Paulo, 2017. 228p.. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Área de concentração: Design e Arquitetura. 1. Obsolescência Programada. 2. Design de Produtos. 3. Consumismo. 4. Design Industrial. I. Dantas, Denise, orient. II. Título..
(5) Para Miguel e Felipe.
(6) Agradecimentos Comecei a escrever esta dissertação por aqui. Porque não seria possível imprimir todas as páginas que seguirão não fosse a ajuda de muitas pessoas com as quais tenho o privilégio de conviver ou que tive a oportunidade de conhecer. Um agradecimento inicial ao Rodrigo, que imprimiu o projeto de pesquisa e fez minha inscrição na FAU e viu meu nominho na lista dos aprovados antes de mim. À profa. dra. Denise Dantas, por sua orientação no sentido amplo da palavra, no projeto, no caminho acadêmico e nas conversas. Agradeço a todas as discussões e toda a paciência com as idas e vindas do projeto, do texto e do meu pensamento. Um agradecimento muito especial à minha amiga Mariana Clauzet, que de onde quer que estivesse, leu, opinou, corrigiu e me falou para continuar! Me ajudou com o questionário, com a dissertação final, com as inseguranças todas do percurso e com muitas as dicas para o ingresso nesse “novo mundo” acadêmico. E aqui também um agradecimento à minha amiga Isabel, afinal somos um trio no qual uma sempre ajuda a outra, às vezes de maneiras imperceptíveis. Agradeço a Ricardo Teperman e José Guilherme Pereira Leite, amigos acadêmicos inspiradores. A Carol Vargas e Denio Benfatti, os padrinhos deste trabalho. Agradeço a crítica ao meu projeto inicial e o incentivo a seguir em frente; todas as ajudas durante o período de mestrado e toda a paciência em me ouvir falar desse assunto tantas vezes… À Profa. dra. Daniela Hans, obrigada por me incentivar a prestar o exame de mestrado, quando imaginei que me mandaria pra casa estudar. Ao Prof. dr. Cláudio Portugal, por todas as críticas sinceras na qualificação, espero estar entregando um trabalho à altura delas. Ao prof. dr. Marcos Braga, pelas aulas inspiradoras e esclarecedoras, e pela oportunidade que me deu em seu projeto de publicações sobre a a história do design. À profa. dra. Cristiane Aun e profa. dra. Maria Cecília Loschiavo dos Santos, pelas aulas, pelos textos, pelas reflexões. A André Midoes, companheiro para todos os momentos. A Bruna Montuori, interlocutora atenta e generosa. A Lucia Avelar, pela ajuda fundamental com o questionário e pelos cafés agradáveis. A Eduardo Lazzari, pela ajuda com os dados levantados e por sua paciência para as intermináveis e repetitivas perguntas. Ao revisor Luiz Fukushiro, pela gentileza e rapidez!.
(7) Agradeço aos entrevistados e a todas as pessoas que contribuíram com seus depoimentos no Facebook e no questionário. A Carla Castilho, minha sócia-irmã, pela grande parceria nessa vida; obrigada pelas conversas sobre a obsolescência, pelo moço da bateria, pelo ombro nas horas de desespero, por ter tocado o estúdio praticamente sozinha nesses tempo de mestrado. A Fefa, pelas mesmas conversas sobre o artigo, o projeto, o capítulo, a diagramação, a capa. Nossos almoços fazem parte deste mestrado. A Ciça Pinheiro, por me ajudar a transcender um pouco o agora e o pequeno; por me ajudar a pensar no grande, a pensar no ali, mas ainda daqui. A Flávia Pegorin e a Giuliana Bergamo, minhas jornalistas preferidas, que, além de divulgar com afinco meu questionário, angariando muitas respostas, me auxiliaram muito na escrita, lendo e editando muitas palavras escritas aqui. A Paula Signoreli, minha parceira na redação. Agradeço a minha mãe Cida, ao meu pai Thomaz e ao meu segundo pai Murillo afinal foram vocês que plantaram em mim a semente que semeio aqui; à Sonia Barreira, à minha madrinha Fátima, aos meus sogros Yara e Fonseca. De alguma maneira, todos me ajudaram dizendo que ia dar certo, dizendo “eu pego o Miguel na escola” ou “o Felipe pode ficar aqui em casa hoje”, ou mesmo me dando um abraço quando a culpa de ficar longe dos meninos me pegou… Finalmente, agradeço e dedico esse trabalho aos meus pequenos Miguel e Felipe, que, sem saber, me inspiraram (e inspiram!) e por isso me ajudaram a pesquisar um tema caríssimo a mim. Espero que possam se beneficiar de alguma maneira das coisas que ouviram nos dois anos e meio de mestrado, nas suas futuras vidinhas (Felipe, colega de disciplinas no primeiro ano do mestrado, ainda na minha barriga). Um agradecimento final para o moço que imprimiu meu trabalho e fez a minha inscrição na FAU; viajou com os meninos quando o prazo foi chegando ao fim; me abraçou quando eu achei que não daria certo, não daria tempo ou que não importava mesmo…; que fez o jantar, lavou a louça, fez o pesadelo do sono dormir e ainda leu todas as páginas que seguem. Sem você, meu Lucio, não estava aqui impresso..
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(9) Resumo Esta pesquisa, de caráter qualitativo exploratório, procurou identificar manifestações de obsolescência programada presentes atualmente no mercado brasileiro, assim como os principais produtos relacionados a ela. A maneira como artefatos são produzidos e comercializados desde a implementação da obsolescência programada estão colocando a sociedade frente a uma limitação ambiental no que diz respeito ao esgotamento dos recursos e um crescimento alarmante na geração de lixo eletrônico. Frente a essa limitação, modelos de consumo e fabricação são questionados. Considerando o design como uma atividade engajada intrinsecamente nas questões sociais, ele pode ser uma importante ferramenta para modificar este cenário. A pesquisa baseou-se nas definições de obsolescência programada elaboradas por Packard, Papanek e Slade para definir parâmetros conceituais que possibilitassem a identificação da obsolescência programada por meio de práticas de consumo. Foi usado como método de coleta de dados um questionário para identificar a percepção dos consumidores e entrevistas com designers para tentar estabelecer uma relação entre o fenômeno estudado e o design. Os produtos mais citados foram telefones celulares e computadores. Durabilidade mostrou-se pouco importante para aparelhos com rápida evolução tecnológica como o telefone celular. Para produtos sem essa característica tecnológica, durabilidade mostrou-se rara, pois, de acordo com o resultado da pesquisa, há uma grande associação entre materiais baratos e frágeis, que comprometem a durabilidade dos produtos. Apesar de o resultado permitir identificar os três tipos de obsolescência programada determinados pelos autores — artificial, psicológica e tecnológica —, a pesquisa concluiu que o conceito de obsolescência programada, da maneira como foi criado, está tão assimilado nos dias de hoje que acaba por tornar o termo em si obsoleto. Isso porque hoje produtos não precisam ser feitos para quebrar para que sejam trocados e muitas vezes descartados. Palavras-chave: obsolescência programada; design de produtos; consumismo;. design industrial..
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(11) Abstract This exploratory qualitative research tried to identify planned obsolescence’s manifestations in the Brazilian market, as well as the main products related to it. The way consumer goods have been produced and sold since the planned obsolescence’s implementation is leading society to an environmental limitation in terms of natural resources and alarming growth in the generation of electronic waste. Consumption the way it is and manufacturing are questioned, faced with this limitation. Considering design as an activity intrinsically engaged in social issues, it can be an important tool to modify this scenario. The research was based on planned obsolescence and on conceptual parameters by Packard, Papanek and Slade, which allowed the identification of planned obsolescence through consumption practices. As a method, a questionnaire to identify consumer perception and interviews with designers tried to establish a relationship between the studied phenomenon and the design. The most cited products were cell phones and computers. Durability proved to be unimportant for devices with rapid technological evolution such as cell phones. For products without this technological characteristic, durability proved to be rare, as according to the research results there is a great association between cheap and fragile materials, which compromise the durability of the products. Although the result allows to identify the three types of programmed obsolescence determined by the authors — artificial, psychological and technological —, the research concluded that the concept of programmed obsolescence, in the way it was created, is so assimilated today that it ends up making the term itself obsolete. This is because today products do not have to be made to break to be changed and often discarded. Keywords: programmed obsolescence; product design; consumerism;. industrial design..
(12) Lista de figuras Figura 1. Cell phones, Orlando 2004. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#cellphones%2044x83). p. 14-15. Figura 2. Imagens que ilustram locais de de descarte de lixo eletrônico. (Fonte: http://www.fragmaq.com.br/ p. 21. blog/entenda-conceito-obsolescencia-programada-impactos-meio-ambiente/). Figura 3. Crushed cars #2, Tacoma 2004. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#crushed%20 p. 32-33. cars%202%20%2044x62). Figura 4. Carro da Chrysler em 1957, motrando a roupa que combina com o carro. (Fonte: https://www.hemmings. p. 39. com/blog/2014/02/15/four-links-larry-watsons-rainbow-cars-prop-car-african-americans-in-auto-advertising-geobaker/). Figura 5. Anúncio Chevrolet de 1957, associação do desenho dos carros com os aviões. (Fonte: http://www. p. 39. carrosyclasicos.com/historia/item/525-chevrolet-1955,-casi-60-a%C3%B1os-de-historia). Figura 6. O Model T da Ford. (Fonte: https://carrosantigos.wordpress.com/2008/07/25/100-anos-do-ford-modelo-t/) p. 39 Figura 7. Modelos de carro da GM na década de 1956. (Fonte: http://omnibusofspeed.tumblr.com/post/71571048768/ theniftyfifties-general-motors-1956-models). p. 39. Figura 8. Linha do tempo de acordo com Slade (2007).. p. 47. Figura 9. Anúncio da Ford de 1926. (Fonte: http://www.fordmodelt.net/gallery2/index.php?/category/11). p. 49. Figura 10. Anúncio da Volkswagen de 1963. (Fonte: http://www.plosin.com/beatbegins/projects/haine/volks2.htm). p. 49. Figura 11. Promoção de pasta de dente.. p. 56. Figura 12. Banheiro na década de 1930. (Fonte: Forty, 2007, p. 228). p. 64. Figura 13. Banheiro nos dias de hoje. (Fonte: https://minhacasa.abril.com.br/decoracao/banheiro-elegante-perfeito-para-familia-toda/). p. 64. Figura 14. Imagens extraídas do site da BMW (Fonte: www.bmw.pt). p. 69. Figura 15. Circuit boards #2, New Orleans 2005. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#cirp. 78-79. cuit%20boards%202%2044x60). Figura 16. Cell phone chargers, Atlanta 2004. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#cellphone%20 p. 90-91. chargers%2044x66.5). Figura 17. Fogão da marca Westinghouse (1960).. (Fonte: www.etsy.com/pt/listing/241341195/1960s-westing-. house-range-ad-retro?ref=market.). p. 120. Figura 18. Fogão Brastemp (2016). (Fonte: http://www.econovia.com.br/produtos/forno-fogao/fogao-brastemp-ativetop-glass-maxi-duplo-forno-inox-bfd4var-4-bocas/54483ab6d58f02318600000d.). p. 120. Figura 19. Geladeira Northstar (1950). (Fonte: http://indulgy.com/post/IghIXNcv93/northstar-retro-appliances-ranges-refridgerator.). p. 120. Figura 20. Geladeira Brastemp (2016). (Fonte: http://www.brastemp.com.br/produto/geladeira-brastemp-side-inverse-branca-540l/#cor=cor-inox.). p. 120. Figura 21. Máquina de lavar e de secar da marca Westinghouse (1957). (Fonte: www.flickr.com/photos/peppermint_kiss_kiss/4339679433/in/photostream.). p. 120.
(13) Figura 22. Máquina de lavar e de secar (2016). (Fonte: http://www.tudoconstrucao.com/modelos-de-lavanderp. 120. ias-pequenas-dicas-sugestoes.). Figura 23. Celular Apple (iphone 7S Plus). (Fonte: http://www.infomoney.com.br/minhas-financas/gadgets/noticia/6000081/anos-desde-primeiro-iphone-confira-evolucao-smartphone). p. 135. Figura 24. Celular Samsung Galaxy S8. (Fonte: https://www.magazineluiza.com.br/smartphone-samsung-galaxy-s864gb-preto-dual-chip-4g-cam.-12mp-selfie-8mp-tela-5.8-quad-hd/p/2175625/te/gas8/.). Figura 25. Circuit boards, Atlanta 2004.. p. 135. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits. of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#circuit%20 p. 144-145. boards%2044x64). Figura 26. E-waste, New Orleans 2005. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005. Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#ep. 152-153. waste%2044x57). Lista de gráficos. Gráfico 1: Opções de Pagamento. p. 96. Gráfico 2: Concordância com as frases. p. 97. Gráfico 3: Associação renda familiar mensal e relevância da assistência técnica. p. 105. Gráfico 4: Motivos por não ter sido possível consertar. p. 107. Gráfico 5: Associação do bem adquirido e o motivo da aquisição. p. 113. Gráfico 6: Motivo da compra de produtos novos (399 respondentes). p. 114. Gráfico 7: Motivo da compra de produtos novos relacionado com os tipos de obsolescência programada (295 respondentes). p. 116. Gráfico 8: Motivações para a troca na pesquisa do IDEC Gráfico 9: Setores empresariais associados à obsolescência programada. p. 117 p. 137. Lista de quadros. Quadro 1: Tipos de obsolescência: nomenclatura adotada na pesquisa. p. 53. Quadro 2: Produtos mais citados nas coletas de dados de acordo com categoria. p. 111. Quadro 3: Motivo da compra relacionado com os tipos de obsolescência programada. p. 115.
(14) Sumário. 1. Introdução. 17. 1.1. Contextualização da pesquisa. 17. 1.2. Questão de pesquisa. 25. 1.3. Objetivos da pesquisa. 25. 1.4. Definição dos principais conceitos utilizados na pesquisa. 26. 1.5. Delimitações da pesquisa. 28. 1.6. Justificativas da pesquisa. 28. 1.7. Estrutura da dissertação. 30. 2. Referencial teórico. 35. 2.1. Breve histórico da obsolescência programada. 37. 2.2. Definições de obsolescência programada. 50. 2.3. Práticas de consumo. 53. 2.4. Consumismo (ou danos colaterais). 59. 2.5. A relação entre o design e a obsolescência programada: uma comparação entre a década de 1940 e a década de 1970 e conceitos atuais de design. 62. A relação entre o design e a obsolescência programada: casos contemporâneos. 68. 2.7. Futuros possíveis. 72. 3. Materiais e métodos. 81. 3.1. Caracterização da pesquisa. 81. 3.2. Etapa 1: procedimento para coleta de dados sobre o histórico do fenômeno e definição dos parâmetros conceituais para a identificação da obsolescência programada atualmente. 82. Etapa 2: procedimento para coleta de dados sobre práticas de consumo relacionadas com a obsolescência programada, conhecimento do termo e do fenômeno e principais produtos citados pelos participantes da pesquisa. 83. 2.6. 3.3.
(15) 3.4. Etapa 3: procedimento para coleta de dados sobre o papel do design no desenvolvimento de produtos de larga escala e sua consequente relação com a obsolescência programada. 86. 3.5. Procedimento para análise e tratamento dos dados coletados. 87. 4. Resultados e discussão. 93. 4.1. Práticas de consumo identificadas na pesquisa. 96. 4.1.1. Associação entre o conceitos: novo e bom; velho e ruim; caro e durável; barato e frágil. 97. 4.1.2 Durabilidade. 102. 4.1.3 Assistência técnica. 105. 4.2. Principais produtos citados na coleta de dados e tipos de obsolescência programada identificados 110. 4.2.1 Obsolescência artificial. 117. 4.2.2 Obsolescência psicológica. 121. 4.2.3 Obsolescência tecnológica. 124. 4.2.4 Celular: o produto mais citado. 126. 4.3. O design dentro das empresas estudadas. 129. 4.4. Conhecimento sobre o fenômeno da obsolescência programada. 136. 5. Considerações finais. 147. 5.1. Sugestões para futuras pesquisas. 150. Referências bibliográficas. 155. Apêndice 1 (modelo de questionário). 159. Apêndice 2 (roteiro para entrevistas). 163. Anexo 1 (Relatório CEA-USP). 165. Anexo 2 (Relatório com os dados levantados no questionário). 181.
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(18) < na página anterior Figura 1. Cell phones, Orlando 2004. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005 Disponível emhttp://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#cellphones%2044x83).
(19) 1 Introdução. 1.1 Contextualização da pesquisa Não só tubos retorcidos de pasta de dente, lâmpadas queimadas, jornais, recipientes, materiais de embalagem, mas também aquecedores, enciclopédias, pianos, aparelhos de jantar de porcelana […]. Quanto mais Leônia se supera na arte de fabricar novos materiais, mais substancioso tornase o lixo, resistindo ao tempo, às intempéries, à fermentação e à combustão. É uma fortaleza de rebotalhos indestrutíveis que circunda Leônia, domina-a de todos os lados como uma cadeia de montanhas. (CALVINO, 2000, p. 105-106). A citação acima descreve a cidade fictícia de Leônia. Criada por Ítalo Calvino, a cidade caracteriza-se por refazer-se a si própria todos os dias, tornando descartáveis todos os objetos que circundam a vida de seus habitantes e […] mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas, vendidas e compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem, o prazer das coisas novas e diferentes, e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma pureza recorrente. O certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção, ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas. (CALVINO, 2000, p. 105). 17.
(20) A descrição de Leônia remete a práticas de consumo contemporâneas em que produtos, antes duráveis, passam a ter características mais descartáveis. O maior exemplo disso talvez seja o telefone celular. Para além dos símbolos de status que ele representa atualmente, é curioso pensar que ele reúne, hoje, funções de diversos produtos em um só: telefone e câmera, por exemplo. Esses dois produtos que agora embarcam em um único artefato eram classificados como bens de consumo duráveis. Telefones eram caros, grandes e raros, o mesmo valendo para câmeras. No ano de 2014, pouco mais de 70 milhões de celulares foram comercializados no Brasil, segundo os dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), e até junho de 2017 são aproximadamente 242 milhões de linhas móveis em operação no Brasil, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (BRASIL, 2017). De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor e da Market Analysis (2013), celulares são trocados num intervalo de tempo que varia de um a três anos. A cena inicial da série documental inglesa Reis do consumo (THE MAN, 2014), que trata da obsolescência programada, entre outros assuntos relacionados ao consumo, mostra a fila de pessoas em uma loja da Apple, na véspera do lançamento de um novo modelo de iPhone. O apresentador pergunta aos compradores que dormiram na fila sobre as vantagens do novo modelo, e as respostas são, entre outras, uma melhora sutil na câmera, um design um pouco mais fino. Segundo o apresentador, tendo em vista que as mudanças estruturais não são significativas no funcionamento do aparelho, o que faz com que as pessoas durmam em cadeiras de praia ao relento é o status de ser o primeiro a possuir e exibir o novo iPhone. A cena inicial do documentário Obsolescência programada: comprar, tirar, comprar (2010) retrata a impossibilidade de determinado usuário de imprimir um documento. A falha é esclarecida um pouco mais adiante no documentário e é atribuída a um chip que determina o fim das impressões quando se alcança um determinado número de páginas impressas. Assim como os exemplos acima, muitos outros podem ser citados: liquidificadores que são caros de ser consertados, a peça que fecha a porta do fogão que se quebra e não está mais disponível no mercado por ser um modelo antigo, o computador que não atualiza mais o sistema, a tela quebrada do tablet que caiu no chão e que custa quase o preço de um novo equipamento para ser consertada, o brinquedo que não está alinhado com o último filme lançado no mercado e deixa de ser interessante para as crianças, a máquina de lavar roupa que já foi consertada inúmeras vezes, mas nunca voltou a funcionar direito e até livros didáticos que precisam ser trocados a cada ano, seja pela edição nova lançada, seja pela mudança no acordo ortográfico.. 18.
(21) O exemplo do celular ajuda a compreender as mudanças que ocorreram. Se antes ele era um objeto caro e durável, hoje pode ter preços variáveis se aproximando do conceito de descartável em muitos casos. São diversas marcas e diversos lançamentos por ano. Pequenas melhoras na resolução da câmera, mudanças sutis em seu desenho ou ainda o lançamento de uma nova cor comercializada são atrativos para a troca do aparelho. Por outro lado, impossibilidade ou alto custo de conserto ou mesmo a impossibilidade de atualização de sistema são motivos de troca. Se antes as trocas eram espaçadas, hoje elas são cada vez mais constantes pelos motivos listados acima. Porém, se a troca de celulares ou de outros bens de consumo pode parecer comum ou inevitável hoje, não foi sempre assim, e não foi por acaso. O encorajamento da troca de artefatos passou a vigorar principalmente nos Estados Unidos entre as décadas de 1920 e 1930 para movimentar sua economia, então em crise. Passou-se a reduzir artificialmente o ciclo de vida dos artefatos, valendo-se do que passou a ser chamado de “obsolescência programada”, termo cunhado por Alfred Sloan, presidente da General Motors na década de 1920, que aplicou seus conceitos na produção dos carros, como será explorado mais detalhadamente no capítulo 2 desta dissertação. Obsolescência programada é o nome que se dá à estratégia de mercado que estimula o consumo repetitivo por meio da redução do tempo de vida útil de um produto. De maneira geral, essa redução do tempo de vida do produto pode acontecer de três maneiras: a) pelo lançamento de um produto em uso com uma nova aparência que torna a anterior ultrapassada; b) pela impossibilidade de conserto do produto em uso; c) por sua tecnologia não funcionar mais, tornando lentos alguns dispositivos ou impossibilitando o uso do equipamento em alguns casos. Segundo Bauman (2008), passamos de uma sociedade de produtores para uma sociedade de consumidores; pouco depois, passamos de uma sociedade de consumidores para uma sociedade consumista. Isso porque a produção dos artefatos deixou de estar alinhada com necessidades, passando a incorporar a ideia de excesso quando ocorreu a industrialização para se chegar a um consumo de massas. “A ‘síndrome consumista’ envolve velocidade, excesso e desperdício” (BAUMAN, 2008, p. 112). A prática da obsolescência programada altera não só a produção dos objetos, mas também a maneira de consumi-los, tendo como principal consequência uma grande geração de lixo, devido às trocas frequentes de equipamentos, e no limite afetando também a maneira como vivemos em sociedade, como exposto por Bauman (2008). A Organização das Nações Unidas (ONU), em seu relatório Waste crime – waste risks (RUCEVSKA et al., 2015), divulgou que o lixo eletrônico gerado no mundo em 2014. 19.
(22) foi de 41,8 milhões de toneladas e estimou que esse número deve subir para 50 milhões em 2018. O Brasil foi responsável por 1,4 milhão de toneladas em 2014, aponta outro relatório da mesma entidade, Gestão sustentável de resíduos de equipamentos eléctricos e eletrônicos na América Latina (2015), com dados sobre a gestão do lixo eletrônico na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela. O documento coloca o Brasil em segundo lugar no ranking dos geradores de lixo eletrônico nas Américas, perdendo apenas para os Estados Unidos, que produziu pouco mais de 7 milhões de toneladas de lixo no mesmo ano, segundo o mapeamento feito pela Step (Solving the E-waste Problem), iniciativa da ONU para mapear o lixo eletrônico no mundo. Segundo o projeto suíço ewasteguide, num levantamento feito entre 2003 e 2011, o Brasil é o quinto maior mercado de produtos eletrônicos do mundo, ficando atrás apenas da China, EUA, Japão e Rússia (SWISS E-WASTE PROGRAMME, 2017). Os dados de lixo eletrônico têm relação direta com a obsolescência programada, pois remetem a práticas de consumo e uso dos produtos cuja principal característica é o descarte de materiais. Uma pesquisa sobre ciclo de vida de aparelhos eletrônicos, realizada pelo Idec e pelo instituto de pesquisa Market Analysis (2013),1 demonstrou a satisfação dos consumidores no que diz respeito ao desempenho e durabilidade dos produtos eletroeletrônicos. Os dados obtidos colocaram a durabilidade planejadamente reduzida dos aparelhos como indutor das vendas. Correlacionando o tempo de posse dos aparelhos com o número de problemas relatados no período pesquisado, o resultado é que, em média, a cada cinco anos, 51,6% de todos os computadores e 42,3% de todos os celulares do país apresentaram algum defeito e na maior parte das vezes foram trocados, e não consertados. João Paulo Amaral, pesquisador do Idec, considera que: Existe o que poderíamos qualificar como uma assimilação conformada do consumidor frente às estratégias da indústria e da propaganda, já que ele percebe “em abstrato” que os aparelhos deveriam durar mais, mas está satisfeito com a durabilidade e desempenho de seu aparelho. (IDEC; MARKET ANALYSIS, 2013). Foram entrevistados, por telefone, 806 homens e mulheres, de 18 a 69 anos, de diferentes classes sociais das seguintes cidades: Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP). O número de entrevistados em cada capital foi proporcional à população de cada capital. O levantamento foi feito entre agosto e outubro de 2013. A margem de erro é de 3,5% para mais ou para menos (IDEC; MARKET ANALYSIS, 2013). 1. 20.
(23) Figura 2: Imagens que ilustram locais de de descarte de lixo eletrônico. (Fonte: http://www.fragmaq.com.br/ blog/entenda-conceito-obsolescencia-programada-impactos-meio-ambiente/). A pesquisa concluiu que, apesar da prática da obsolescência programada ser identificada nas empresas e produtos pelos consumidores, isso não muda sua vontade de ter sempre o produto mais atual em mãos, ou seja, os brasileiros naturalizaram a obsolescência, rebaixando a vida útil de um produto, pela obsolescência psicológica, e não pela obsolescência tecnológica ou funcional (ECHEGARAY, 2016).2 Voltando um pouco à citação inicial deste capítulo, ao pesquisar no Google o termo “obsolescência programada”, obtemos imagens como a da figura 1 (acima). A imagem poderia ilustrar a descrição das montanhas de lixo que circundam a cidade fictícia de Leônia, mas também ajudam a ilustrar os números de geração de lixo eletrônico, assim como os de uso e fabricação de celulares, expostos anteriormente. Nesse contexto, também o design é afetado pelas práticas de consumo relacionadas com a obsolescência programada, pois passa-se a procurar maneiras econômicas de produ-. Obsolescência psicológica refere-se à aparência do produto, conforme item a da definição de obsolescência, descrita no início do capítulo, ou seja, pelo lançamento de um produto em uso com uma nova aparência que torna a anterior ultrapassada. A obsolescência tecnológica diz respeito aos itens b e c, ou seja, pela impossibilidade de conserto do produto ou pela tecnologia não funcionar mais, tornando lentos alguns dispositivos ou impossibilitando o uso do equipamento em alguns casos. As definições detalhadas dos tipos de obsolescência programada serão melhor exploradas no capítulo 2. 2. 21.
(24) ção, sem, contudo, preocupar-se com sua durabilidade, criando assim produtos cujo foco principal está na venda, e não no produto em si ou nas necessidades do consumidor. Whiteley (1993) afirma que passamos de um design focado no produto (product-lead) para um design focado no consumo (consumer-led ou market-led), que não surgiu espontaneamente, mas “como uma consequência quase inevitável de uma sociedade de consumo avançada e uma economia de mercado” (WHITELEY, 1993, p. 29).3 Dessa maneira, o design perde o que Papanek (1971) define como uma de suas principais funções: o design tem que ter significado, tem que ser significativo. “E significativo substitui expressões como belo, feio, fofo, diferenciado, glamoroso, realista, obscuro, abstrato e agradável de grande peso semântico […] o modo de ação pelo qual um design cumpre esse propósito é sua função”.4 Para ele, as funções que circundam um projeto de design são método, associação, estética, necessidade, uso e telesis (propósito de uso de processos naturais e sociais para obter objetivos sociais específicos). Vale destacar a ressalva que o autor faz na necessidade: “recentemente o design satisfaz apenas a desejos efêmeros, negligenciando, assim, necessidades genuínas.”5 Em 2010, entrou em vigor no Brasil a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei determina diretrizes para a gestão integrada e o gerenciamento de resíduos sólidos no país, responsabilizando produtores e consumidores pelos materiais produzidos e descartados. Merecem destaque algumas definições e determinações tratadas no capítulo 2 deste documento: q EFTUJOB¾PͥOBMBNCJFOUBMNFOUFBEFRVBEB reutilização, reciclagem, compostagem, recuperação e aproveitamento energético de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais; q MPHÈTUJDBSFWFSTB instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada; q QBESÐFTTVTUFOU¼WFJTEFQSPEV¾PFDPOTVNP produção e consumo de bens e serviços de forma a atender as necessidades das atuais gerações e permitir melhores condições de vida, sem comprometer a qualidade ambiental e o atendimento das necessidades das gerações futuras; . “Consumer-led design has not emerged spontaneously from our ‘enterprise culture’, but has evolved as an almost inevitable consequence of an advanced consumer society and a market economy.” (WHITELEY, 1993, p. 29) 3. “Design must be meaningful. And meaningful replaces such semantically loaded expressions as beautiful, ugly, cute, distinguish, glamorous, realistic, obscure, abstract, and nice […] the mode of action by which a design fulfills its purpose is its function.” (PAPANEK, 1971, p. 6) 4. Much recent design has satisfied only evanescent wants and desires, while the genuine needs of man have often been neglected.” (PAPANEK, 1971, p. 15) 5. 22.
(25) q SFTQPOTBCJMJEBEFDPNQBSUJMIBEBQFMPDJDMPEFWJEBEPTQSPEVUPT conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, para minimizar o volume de resíduos sólidos e rejeitos gerados, bem como para reduzir os impactos causados à saúde humana e à qualidade ambiental decorrentes do ciclo de vida dos produtos, nos termos desta Lei. (BRASIL, 2010). Para contemplar a lei, o projeto do produto precisa ser pensado levando em consideração todas as etapas do seu ciclo de vida. Se as etapas iniciais do desenvolvimento de um produto estiverem alinhadas com a parte final de seu ciclo, mais fácil será cumprir as responsabilidades listadas na lei. Papanek (2014) propunha já na década de 1970 produtos para a desmontagem ou produtos de uso compartilhado. O design para a desmontagem, como o próprio nome diz, parte da premissa de que um produto pode ser desmontado. Isso tem implicações no seu desenho inicial e na maneira como é fabricado, pois, para que isso aconteça, peças devem ser justapostas e parafusadas, ao invés de serem soldadas ou fundidas juntas, por exemplo. Para Papanek, são muitas as vantagens de produtos desenvolvidos com essa premissa: eliminando a linha de montagem do processo produtivo, há uma redução em seu custo; a participação do usuário na montagem do equipamento o torna mais consciente do processo construtivo, possibilitando seu conserto e fazendo também com que “se torne mais crítico na distinção entre o que é necessário e o que é superficial” (PAPANEK, 2014, p. 226); e o serviço de montagem pode ser contratado à parte, no caso de usuários que não se interessem nas características descritas anteriormente. Para Manzini (2008), a etapa de desenvolvimento de produtos de design deve promover uma abordagem sistêmica que considere planejamento, produção execução, uso e descarte final. O World Design Organization (WDO) — antigo ICSID — define design “como o estratégico processo de resolução de problemas que impulsiona a inovação, constrói o sucesso de um negócio e leva a uma melhor qualidade de vida através de produtos, sistemas, serviços e experiências inovadoras”.6 Os designers “valorizam o impacto econômico, social e ambiental do seu trabalho e contribuem para a criação coletiva de uma melhor qualidade de vida.”7. “Industrial Design is a strategic problem-solving process that drives innovation, builds business success, and leads to a better quality of life through innovative products, systems, services, and experiences.” (WDO, 2016). 6. “They value the economic, social, and environmental impact of their work and their contribution towards co-creating a better quality of life.” (WDO, 2016) 7. 23.
(26) No mesmo sentido, Braga introduz o livro O papel social do design gráfico com a ideia de que “em teoria, todo profissional consciente de seu papel ao exercer sua função social de maneira ética e de modo eficaz contribui para que a sociedade de que faz parte se desenvolva em harmonia” (BRAGA, 2011, p. 10-11). Para Redig não existe design que não seja social, uma vez que ele é sempre feito para a sociedade. “O que seria design social? Design comercial? Design comercial que não for dirigido às necessidades da sociedade não é design” (REDIG, 2001, p. 92-93). No mesmo sentido, Manzini acredita que “a qualidade de um determinado contexto é o resultado do cuidado de todas as pessoas que ali vivem” (MANZINI, 2008, p. 53). Para Sevcenko, vivemos um período em que as inovações modificam o aparato tecnológico em períodos cada vez mais curtos, reconfigurando o universo de possibilidades e de expectativas, “tornando-o cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível” (SEVCENKO, 2001, p. 16). Numa sociedade marcada pela velocidade (de transformações e de troca de informações), a questão que se coloca diz respeito às consequências que estas transformações acarretam para a sociedade e ao papel do design na melhoria deste cenário. “A crítica, portanto, é o modo de a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobramentos” (SEVCENKO, 2001, p. 17). No mesmo sentido, Forty (2007, p. 19) afirma que “a ideia de progresso, inclui todas as mudanças, tanto desejáveis como indesejáveis”. No meio industrial de hoje, a maioria das pesquisas não se preocupa em produzir para necessidades reais, mas em fazer com que as pessoas apenas desejem o que já foi produzido. Se a indústria em todos os países produzisse apenas para necessidades reais, o futuro seria brilhante. (PAPANEK, 1971, p. 333)8. Há na citação de Papanek um questionamento na maneira como os artefatos são produzidos e para quem. Enquadrando-se na lógica da obsolescência programada, há sempre o enfoque nas vendas e na concorrência, assim produtos se repetem pois não há pesquisas que apontem para necessidades reais, mas para necessidades induzidas. Nesse sentido, uma tomada de consciência dos consumidores ou uma legislação que imponha responsabilidades à indústria podem colaborar em uma mudança de cenário, porém também o design tem, ou deveria ter, papel fundamental nesta mudança.. “In industrial circles today, most major research concerns itself not with producing for actual needs, but rather propagandizes people to only desire what has been produced. If industry in all countries were to produce only what is needed, the future would look bright indeed.” (PAPANEK, 1971, p. 333) 8. 24.
(27) Partindo das definições de obsolescência programada elaboradas por Packard (1965), Papanek (1971) e Slade (2007) e considerando o design como uma atividade engajada intrinsecamente nas questões sociais — como exemplificado na definição da WDO, nas palavras de Papanek (1971), Whiteley (1993), Manzini (2008), Braga (2011) e Redig (2011) —, esta pesquisa procurou definir parâmetros conceituais que permitissem identificar manifestações de obsolescência programada presentes no mercado brasileiro de produtos de larga escala, traçando um panorama do fenômeno no contexto atual, identificando produtos e propondo uma reflexão sobre sua relação com o design e suas possíveis contribuições para a redução dos danos causados por ela.. 1.2 Questão da pesquisa. Esta dissertação se desenvolveu a partir da pergunta: Quais manifestações de obsolescência programada podem ser identificadas por meio de um estudo qualitativo exploratório no mercado brasileiro de produtos de larga escala com base nos conceitos de Vance Packard (1965), Victor Papanek (1971) e Giles Slade (2007) e que relação pode ser estabelecida entre o fenômeno estudado e o design a partir da percepção dos consumidores e dos designers envolvidos com a produção industrial no país?. 1.3 Objetivos da pesquisa. O objetivo geral da pesquisa foi o de identificar os tipos de obsolescência programada existentes no mercado brasileiro no que diz respeito aos diferentes tipos de obsolescência, bem como aos produtos identificados com cada tipo, para então discutir sua relação com o design. Sendo assim, os objetivos específicos da pesquisa são: a) Definir os parâmetros conceituais para a identificação dos tipos de obsolescência programada. b) Identificar as práticas de consumo relacionadas com a obsolescência programada, que permitem inferir sua existência. c) Identificar as manifestações de obsolescência programada no mercado, de acordo com os parâmetros conceituais definidos e as práticas de consumo pesquisadas. d) Identificar os produtos relacionados a cada um dos tipos de obsolescência programada, listando os produtos mais citados. e) Averiguar o conhecimento dos consumidores do fenômeno, dando especial atenção ao fato de identificarem essa prática no seu cotidiano, mais do que o conhecimento do nome que se dá a ela.. 25.
(28) f) Investigar de que maneira o design atua em relação ao fenômeno estudado. g) Investigar de que maneira o design pode contribuir para a melhora das consequências da obsolescência programada.. 1.4 Definição dos principais conceitos utilizados na pesquisa. Como apontado por Valquíria Padilha (2016), a obsolescência programada se enquadra dentro de uma das estratégias para a manutenção do sistema capitalista vigente, que se apoia num crescimento constante, do qual fazem parte também o conceito de excesso, de consumo de massa e de publicidade: O capitalismo precisou desenvolver o que chamamos de “sociedade de consumo”, em que as necessidades e os desejos são costurados numa trama confusa e complexa. Fica cada dia mais difícil escrevermos uma lista de coisas essenciais para nossas vidas. Há 80 anos era mais fácil. Precisamos de comida tanto quanto de um celular? Que tipo de comida? Tudo se mistura em nossa mente. Isso se agravou a partir dos anos 1930, com o desenvolvimento do fordismo, sistema de produção e de consumo de massa. A intenção da sociedade de consumo é essa mesma: confundir-nos, nos fazer crer que não podemos viver sem o último celular lançado, o último carro com GPS (Global Positioning System), a roupa que a atriz famosa usa na novela, o notebook ultrafino que se converte em tablet e por aí vai. […] Juntos, publicidade e obsolescência programada são combustíveis essenciais para manter funcionando o ciclo de produção-consumo-mais produção-mais consumo de nossa atual sociedade capitalista. Podemos acrescentar, ainda, para formar um tripé, o sistema de créditos, que estimula a compra parcelada com base na propagação da lógica do “satisfaça agora os teus desejos e pague depois”. (PADILHA, 2016, p. 46-47). O conceito de obsolescência programada e suas diferentes manifestações baseia-se nas definições de Packard (1965), Papanek (1971) e Slade (2007). O tema desta pesquisa supõe o estabelecimento de uma data de morte do produto no momento de sua fabricação, informação de difícil acesso e que não faz parte dos objetivos deste trabalho. Por essa razão, optou-se por abordar o conceito de práticas de consumo, pois, por meio delas, é possível aferir a existência da obsolescência programada. O conceito de práticas de consumo diz respeito à vida prática das pessoas, na maneira como se relacionam com os produtos consumidos: se há o hábito de mandar consertar ao invés de trocar um produto; se nessa busca pela manutenção dos equipamentos há dificuldade de encontrá-la e realizá-la ou se isso é mais oneroso do que a compra de um novo equipamento; se as compras são realizadas a crédito ou à vista, entre outras que serão melhor detalhadas no capítulo 2 desta dissertação. É importante fazer aqui uma pequena distinção entre o efêmero e o descartável. A ob-. 26.
(29) solescência programada, como veremos no capítulo 2, precisou da ideia de descartável para se desenvolver, porém nem tudo que é descartável se enquadra no fenômeno estudado. Mas foi preciso que a ideia do descartável fosse introduzida no cotidiano das pessoas para tornar obsoletos (e muitas vezes descartáveis) produtos antes entendidos como duráveis. Procurou-se tratar de produtos que não são originalmente descartáveis, como copos plásticos ou embalagens — e que muitas vezes são associados com o fenômeno estudado —, mas que ganham características descartáveis por seu uso. Um celular não é necessariamente feito para ser jogado fora após um curto período de uso, porém, ao ser descartado dessa maneira com frequência, ele pode ser considerado descartável. Em outras palavras, foi preciso naturalizar a ideia de descartável — entre outras — para que as pessoas fossem capazes de trocar seus carros não porque estivessem quebrados, mas porque estavam fora de moda. A esta pesquisa interessou somente produtos diretamente relacionados à obsolescência programada, portanto, não serão estudados os produtos naturalmente descartáveis ou que tenham impacto na geração de lixo, como embalagens. Ao falar de práticas de consumo e de consumo de massa, fala-se do consumo repetitivo, conceito muito próximo à obsolescência programada e que leva ao consumismo, conceito que será abordado também de maneira breve usando como base teórica as ideias de Bauman (2008). Para entrarmos no discurso do design, será também tratado o aspecto de projeto de produto em design relacionado com a obsolescência dos artefatos, tendo como principal base teórica autores como Manzini (2008) e Papanek (1971). Procurou-se tratar de práticas de projeto que contemplem um ciclo completo dos produtos, tais como logística reversa e upcycling.9 Muitos deles contemplam também requisitos de produtos sustentáveis, porém não é intenção desta pesquisa tratar o tema da sustentabilidade em profundidade.. Upcycling trata da reutilização de resíduos sólidos, ou materiais descartados, em sua forma original e transformando-os em novos produtos. 9. 27.
(30) 1.5 Delimitações da pesquisa. Conforme exposto anteriormente, as delimitações teóricas da pesquisa estão restritas às práticas de consumo, não cabendo no recorte da pesquisa temas pertinentes também relacionados à obsolescência programada, tais como sustentabilidade, reciclagem e o conceito de descartável. Ao tratarmos de projeto de produto, o foco da pesquisa está, de novo, em compreender as consequências da obsolescência programada, assim como exemplos de bom uso dos recursos naturais e da não geração de resíduos. Há uma delimitação territorial na pesquisa, que se propunha inicialmente a tratar do mercado brasileiro. Porém, devido à falta de recursos pessoais e de tempo hábil, as respostas recebidas pelo questionário acabaram se concentrando no mercado paulista, que, contudo, é o maior mercado consumidor do Brasil, dado relevante para pesquisa.. 1.6 Justificativas da pesquisa. Esta pesquisa decorre diretamente do estudo, iniciado na graduação da pesquisadora, sobre a substituição da mídia vinil pela mídia CD. Essa evolução tecnológica, que fez com que muitas pessoas jogassem fora sua coleção de vinis para iniciar uma nova coleção de CDs, foi o primeiro contato com a obsolescência programada e a motivação para a criação de uma vitrola como projeto de conclusão de curso de desenho industrial com habilitação em projeto de produto. Um interesse que só se intensificou com a prática de trabalho como designer gráfica, principalmente por conviver no campo com muito poucas iniciativas que dialoguem de maneira contrária às práticas de consumo relacionadas à obsolescência programada. Ainda que seja possível perceber iniciativas que caminhem no sentido contrário à lógica da obsolescência programada, na prática de trabalho, proposições nesse sentido nem sempre são bem-vindas, por sugerirem um modelo de trabalho que muitas vezes não condiz com o que já está estabelecido. A aceleração das inovações tecnológicas se dá agora, numa escala multiplicativa, uma autêntica reação em cadeia, de modo que, em curtos intervalos de tempo, o conjunto do aparato tecnológico vigente passa por saltos qualitativos em que a ampliação, a condensação e a miniaturização de seus potenciais reconfiguram completamente o universo de possibilidades e expectativas tornando-o cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível. Sendo assim, sentindonos incapazes de prever, resistir ou entender o rumo que as coisas tomam, tendemos a adotar a tradicional estratégia de relaxar e gozar. Deixamos para pensar nos prejuízos depois, quando. 28.
(31) pudermos. Mas o problema é exatamente esse; no ritmo em que as mudanças ocorrem, provavelmente nunca teremos tempo para refletir, nem mesmo para reconhecer o momento em que já for tarde demais. A intenção deste texto é tentar contribuir para que isso não ocorra, ou seja, para que, aturdidos por esse efeito desorientador de aceleração extrema, não nos sintamos dispostos a ceder, desistir e nos conformar com o que vier. […] A crítica, portanto, é o modo de a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobramentos. (SEVECENKO, 2001, p. 16-17). De acordo com Sevcenko, a característica principal da nossa sociedade atual é a velocidade com que novas tecnologias são inventadas. Forty (2007) afirma que todo progresso traz consigo mudanças desejáveis e indesejáveis. Estamos diante de um momento de mudança, pois a maneira como artefatos são produzidos e comercializados desde a implementação da obsolescência programada estão colocando a sociedade frente a uma limitação ambiental no que diz respeito ao esgotamento dos recursos e um crescimento alarmante na geração de lixo eletrônico. Frente a essa limitação, modelos de consumo e fabricação são questionados. O design é uma importante ferramenta para modificar este cenário uma vez que, como enfatiza Forty (2007), quase todos os objetos que usamos, a maioria das roupas que vestimos e muitos dos nossos alimentos foram desenhados. Em torno da busca por um mundo sustentável, o design e sua função social são extremamente importantes de ser avaliados e revistos, pois têm relação direta com o consumismo e o impacto ambiental negativo de extração incessante e acelerada de recursos naturais. Como destacou Sevcenko, o “já é tarde” pode estar chegando, e a sociedade precisa tomar consciência das consequências negativas de práticas de consumo e descarte sem limites e romper este ciclo vicioso. A quantidade de artigos sobre a obsolescência programada nos periódicos brasileiros é bastante reduzida, portanto trata-se de um tema a ser explorado pelas comunidades acadêmicas. Nas buscas realizadas nos bancos de dissertações e teses das principais universidades brasileiras,10 além dos periódicos da Capes, foi encontrado um número reduzido de pesquisas relacionadas ao tema, sendo encontrada apenas uma pesquisa de mestrado sobre o tema na área de design. Por esta razão, não se pretende com esta pesquisa esgotar o tema, mas lançar luz a ele de maneira ampla, gerando dados e materiais que possam ser explorados por pesquisas futuras.. Os termos “obsolescência programada” e “obsolescência planejada” foram pesquisados nos periódicos da Capes e nos bancos de dissertações e teses das seguintes universidades: Unesp, Unicamp, FEA, UFRGS, UFPR, UFPE e Unisinos. 10. 29.
(32) 1.7 Estrutura da dissertação. A dissertação é composta de cinco capítulos: introdução, referencial teórico, método, resultados e considerações finais. O presente capítulo 1, denominado “Introdução”, como visto, apresentou a caracterização geral, questão e objetivos da pesquisa, as definições dos principais conceitos abordados, justificativa e delimitações para o seu desenvolvimento. O “Referencial teórico”, apresentado no capítulo 2, trata das principais definições de obsolescência programada, um breve histórico e temas diretamente relacionados a ela, como práticas de consumo e consumismo. Neste capítulo também são expostas iniciativas que caminham na direção oposta da obsolescência programada, ilustrando brevemente o momento atual, bem como o papel do design nos diferentes contextos. O capítulo 3, denominado “Método de pesquisa”, exibe a caracterização geral da pesquisa, assim como os procedimentos para coleta tratamento dos dados coletados com o questionário e com as entrevistas realizadas. O capítulo 4, denominado “Resultados” apresenta os dados levantados pelo questionário no que diz respeito às práticas de consumo identificadas no mercado brasileiro, os produtos mais citados, a percepção do fenômeno por parte dos consumidores. Também mostra o cruzamento dos dados coletados com o questionário e os levantados na revisão da literatura, assim como o resultado das entrevistas realizadas e da sondagem feita na rede social Facebook a respeito do tema, propondo uma reflexão sobre a relação do design com a obsolescência programada. O capítulo 5, denominado “Considerações finais”, propõe uma reflexão sobre o problema geral da pesquisa, sugerindo caminhos para futuras pesquisa nesse tema ainda pouco documentado.. 30.
(33)
(34)
(35)
(36) < na página anterior Figura 3. Crushed cars #2, Tacoma 2004. (Fonte: Ensaio fotográfico de Chris Jordan Intolerable Beauty: Portraits of American Mass Consumption 2003 - 2005 Disponível em http://www.chrisjordan.com/gallery/intolerable/#crushed%20cars%202%20%2044x62).
(37) 2 Referencial teórico. O termo obsolescência é empregado desde o final do século XIX, sinalizando a troca de ferro por aço em diversos utilitários (SLADE, 2007), e a própria chegada da energia elétrica ocasionou uma grande troca de equipamentos que pode ser classificada como um dos primeiros exemplos de obsolescência tecnológica, ainda que não tenha sido programada. “As inovações técnicas não acontecem espontaneamente, mas apenas quando alguém vê que há algo a ganhar com elas, e são aplicadas somente quando é interesse de alguém fazê-lo” (FORTY, 2007, p. 248). A luz foi inventada para a iluminação noturna das ruas, mas sua produção era contínua e tinha muito pouco uso diurno. Para aumentar seu consumo também durante o dia, deveria ser usada nas casas, pelo uso de aparelhos elétricos. Havia três empecilhos para a adoção da luz elétrica nas casas, segundo Forty (2007): seu custo para os consumidores era inicialmente muito alto (porém, se tornaria mais barato com o aumento da demanda), sua distribuição e ligação eram onerosas para a indústria de fornecimento e, por último, as pessoas sentiam medo da eletricidade — “nos Estados Unidos noticiou-se nos anos 1930 o caso de uma mulher que se recusava a usar o fogão elétrico moderno dizendo que era ‘mal-assombrado demais’ e preferia seu fogão a lenha” (FORTY, 2007, p. 260).. 35.
(38) Dessa maneira, segundo Forty (2007), novas demandas de consumo foram criadas para que ela fosse consumida também durante o dia: produtos elétricos foram inventados para substituir seus antecessores a gás, e o design, juntamente com a propaganda, deveria então contribuir em fazer as pessoas “precisarem” dela e de produtos elétricos que, até então (1895), viviam muito bem sem. O alto custo da eletricidade e o fato de ela não ser mais eficiente do que o gás para cozinhar e aquecer significavam que os consumidores que a escolhiam deviam estar sob a influência de outras razões, além do valor do dinheiro. Uma dessas razões era que se dizia que a eletricidade era uma fonte de energia progressista e libertadora, com um potencial futuro ilimitado. Em última análise, dar ou não crédito a essas afirmações dependia do que as pessoas pensavam dos aparelhos que utilizavam a energia. O futuro da eletricidade, portanto, dependia da melhoria do design dos eletrodomésticos. (FORTY, 2007, p. 260). Aquecedores, chaleiras, torradeiras, máquinas de lavar pratos, ferros de passar roupa, aspiradores de pó e batedeiras, antes manuais ou a gás, deram lugar a equipamentos elétricos comprados e foram os primeiros produtos a serem comprados em massa na Inglaterra, nos anos 1920. O termo obsolescência programada foi divulgado pela primeira vez numa versão impressa por um corretor imobiliário de Nova York, Bernard London, que em 1932 escreveu um panfleto intitulado “Ending the depression through planned obsolescence”,11 no qual propunha que um alto volume de vendas ajudasse os Estados Unidos a sair da crise. Para tanto, London acreditava que o governo deveria, por meio de pesquisas dos materiais envolvidos na produção dos bens de consumo, definir um prazo “legal” da duração dos produtos; deveria também obrigar algumas empresas a pegar de volta os objetos descartados ou, ainda, gerenciar locais onde artefatos, como móveis, pudessem ser descartados, ajudando, com isso, o pagamento da compra de novos produtos (SLADE, 2007, p. 73-75). Na imprensa, a primeira vez que o termo obsolescência programada surgiu foi no artigo do industrial americano Brooks Stevens intitulado “The desire of the new”,12 publicado em 1953. O artigo ilustra essa mudança no comportamento das pessoas, pois para Stevens o importante era a obsolescência psicológica, e não a data de morte de um produto, ou seja, importava o tempo para se enjoar de algo, não o tempo para que ele quebrasse. Seu artigo ajudou a desenvolver esse “desejo por algo um pouco mais novo, um pouco melhor e um pouco mais moderno do que o necessário” (SLADE, 2007, p. 153)13. 11. Numa tradução livre, “acabar com a depressão (ou crise) por meio da obsolescência programada”,. 12. Numa tradução livre, “o desejo do novo”,. “Planned obsolescence for Stevens, was simply psychological obsolescence, not product death dating. It grew out of ‘the desire to own something a little newer, a little better, a little sooner than its necessary’”. (SLADE, 2007, p. 153) 13. 36.
(39) Porém, a criação e a aplicação do conceito de obsolescência programada na indústria é anterior e atribuída a Alfred Sloan, presidente da General Motors na década de 1920. Segundo Slade (2007), a implementação desse conceito se deu graças à concorrência entre Ford e GM, líderes de mercado do segmento de automóveis da época, como será visto a seguir. São três os principais tipos de obsolescência descritos na revisão da literatura, como será visto de maneira mais detalhada no tópico “Definições de obsolescência programada”. Slade os divide como etapas de seu desenvolvimento (SLADE, 2007, p. 4), sendo a primeira etapa iniciada no final do século XIX com o surgimento da obsolescência tecnológica (“obsolescence due to technological innovation”); a segunda etapa desenvolvida na década de 1920 com a obsolescência psicológica (estilística ou de desejabilidade); e por fim a obsolescência artificial, passando a vigorar desde meados de 1930 e na qual componentes passaram a ser acrescentados aos produtos para que eles tivessem seu tempo de vida reduzido. Apesar de Slade assumir que o primeiro tipo de obsolescência identificada foi a tecnológica, não é possível dizer que ela foi programada. De fato, houve a primeira grande troca de equipamentos, graças a chegada de uma nova tecnologia (a energia elétrica), e os esforços necessários para que essa grande troca ocorresse se assemelham aos esforços feitos a partir da década de 1920, com o desdobramento da obsolescência psicológica. Porém, como veremos a seguir, a obsolescência tecnológica, como a definimos hoje, apesar de ter semelhanças, possui características diferentes do primeiro caso descrito.. 2.1 Breve histórico da obsolescência programada. Segundo Lippincott (1947), os EUA aprenderam duas grandes lições com as Guerras Mundiais: sua grande capacidade de produção, que sozinha quase se igualou à produção industrial do resto do mundo combinado no período da Segunda Guerra Mundial, e o poder da pesquisa, também fortalecida nesse período. Nesse contexto, e graças às lições aprendidas pelos EUA, a obsolescência programada surge com a intenção de salvar a economia americana que, depois da grande crise de 1929, assim como muitos mercados mundiais, tinha de um lado uma grande capacidade industrial e de outro um povo sem poder de compra. Os estoques das lojas eram grandes e era preciso aumentar o consumo, “o meio de acabar com o excesso de comida era produzir comilões” (PACKARD, 1965, p. 27). Vender mais significava também gerar mais empregos, pois levaria a um aumento maior da produção.. 37.
(40) No caso dos eletrodomésticos, citados no início deste capítulo, uma nova tecnologia nos produtos tornou obsoleta a anterior. Porém, a prática de deliberadamente encorajar a obsolescência do produto surgiu efetivamente com a indústria automobilística pouco menos de uma década depois, valendo-se da obsolescência psicológica. Adaptou-se aos carros o conceito original da moda e seu nicho de mercado, em que coleções são lançadas a cada estação, pois o crescimento em suas vendas não poderia depender somente dos avanços tecnológicos, por serem caros e demorados. É interessante observar a mudança no pensamento de negócio que se deu naquela época e que propiciou o surgimento não só do termo, mas também da prática da obsolescência programada. Slade reproduz em seu livro o trecho de uma entrevista com Henry Ford — então presidente da Ford — no início da década de 1920 em que ele declara que, ainda que soubesse que muitas empresas considerassem boa prática, e não uma falta de ética, a implementação de pequenas mudanças no design dos carros para aumentar suas vendas, seu pensamento de negócio era precisamente contrário, e ele não poderia conceber servir ao consumidor de outra maneira que não fornecendo algo que durasse para sempre (SLADE, 2007, p. 32). No mesmo sentido, Packard afirma, no que diz respeito aos carros, que “toda mudança, seja aparentemente sensata ou aparentemente insensata, ajuda a criar obsolescência. O que importa é a mudança” (PACKARD, 1965, p. 82). Nessa época, Alfred Sloan estava à frente da GM e pregava que o dinamismo do capitalismo tornava a obsolescência tecnológica quase inevitável (SLADE, 2007, p. 33). Para concorrer com a Ford, então líder de mercado, desenvolveu uma maneira de criar cinco modelos diferentes de carro no mesmo formato de chassi, ou seja, por meio de mudanças que não demandavam grandes investimentos em seu maquinário, mas apenas colocavam “adereços” nos carros, a GM conseguiu superar as vendas de sua maior concorrente. Os detalhes, quase sempre só estéticos, tornavam os carros mais atrativos. As mudanças foram implementadas graças a pesquisas de mercado realizadas pela GM que apontaram para uma diversificação de seus compradores, atraindo também o público feminino, por exemplo. Dessa maneira, o que ficou conhecido como o modelo anual de carro passou a ser uma prática na indústria automotiva, na qual pequenas mudanças anuais nos modelos tornavam antiquados os modelos anteriores, atraindo novos compradores. Segundo o documentário The man who made us spend (2014), Sloan percebeu que poderia segmentar o mercado apresentando opções de cor e de modelos de carro, em contraposição à Ford, que era líder de mercado com apenas um, o Model T, cujo slogan era “você pode ter ele em qualquer cor, desde que seja preto”.14. 14. “You can have any color, as long as it’s black.” (THE MAN, 2014). 38.
(41) 4. 5. 7. 6. Figura 4: Carro da Chrysler em 1957, motrando a roupa que combina com o carro. (Fonte: https://www.hemmings.com/blog/2014/02/15/four-links-larry-watsons-rainbow-cars-prop-car-african-americans-in-auto-advertising-geobaker/). Figura 5: Anúncio Chevrolet de 1957, associação do desenho dos carros com os aviões. (Fonte: http://www.carrosyclasicos.com/historia/item/525-chevrolet-1955,-casi-60-a%C3%B1os-de-historia). Figura 6: O Model T da Ford. (Fonte: https://carrosantigos.wordpress.com/2008/07/25/100-anos-do-ford-modelo-t/). Figura 7: Modelos de carro da GM na década de 1956. F (Fonte: http://omnibusofspeed.tumblr.com/post/71571048768/theniftyfifties-general-motors-1956-models). 39.
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