1.2 BLOCO 1 – TERRAS DE CAMBUQUIRA
1.4 BLOCO 3 – NOS PALCOS
1.4.1 Etiqueta francesa, modelos de feminilidade
A rotina no teatro começa a se desdobrar. Sarah serve um banquete sobre um tapete no chão, como num piquenique à francesa, e convida as três mineiras para cear frutas, vinho e a leitoa assada. Oswalda resiste, com suspeitas, e a atriz a puxa pelo vestido. Francisca, por sua vez, se aproxima com olhar altivo: já se nota que existem resistências das caipiras para com a outra. Após o episódio da dobradura destruída e dos inúmeros rompantes de Vicentine contra as três, aumenta-se a desconfiança e o estranhamento.
Sarah menciona, então, Amélia e as terras de Cambuquira. Conta, oferecendo-lhes pratos e talheres, que sua assistente se recusava a voltar para a fazenda pois queria cuidar dela e auxiliar no teatro. As duas irmãs ouvem com impaciência, sem compreender. Maria Luísa busca decifrar sua fala, respondendo e demonstrando certo interesse.
No momento de servir a comida, Francisca enfia sua mão no porco, estraçalhando- o. Sarah se horroriza, tenta ensinar o uso do garfo com a mão esquerda e da faca com a mão direita, mas Francisca a ignora (Imagens 21 e 22). A atriz tenta argumentar que Amélia adorava os jantares com champanhe e manejava bem os talheres, mas as três mulheres não lhe dão ouvidos. Maria Luísa, com o olhar desafiador, leva um pedaço de carne à boca com uma faca. Francisca se irrita com as intervenções da estrangeira sobre seu prato, declara que não entende nada e que já não se lembravam de Amélia, não mais a reconheciam, mas mesmo morta, estavam em um inferno por causa dela. Orgulhosa, manda que pare de ensinar, tomando-lhe os talheres das mãos. Maria Luísa se inclina com a carne espetada em um garfo, que ergue diante do rosto da francesa. Noutro canto, Oswalda cospe uma semente de atemoia, com as mãos meladas do caldo da fruta.
Imagens 21 e 22: O piquenique
Fonte: Amélia (2000)
Bernhardt tenta continuar a conversa, lembrando de Amélia. Francisca a rejeita, criticando que fala demais: Oswalda grunhe para a atriz, ao passo que Maria Luísa diz “beaucoup!”, displicentemente jogando comida para dentro da boca. Deslocada, ela se levanta para caminhar, enquanto Francisca arrota e cobre a boca com um pano. Em toda a refeição, as três não demonstram constrangimento por seus modos, mesmo diante da imposição da etiqueta francesa. Essa, portanto, é outra forma pela qual o contraste entre a cultura brasileira e a europeia se intensifica, embora, aqui, as caipiras se comportem com demasiada aspereza, de forma caricatural, o que as aproxima da “selvageria” de que são mais tarde acusadas por Bernhardt.
Esse aspecto caricatural será frequentemente enfatizado em relação às personagens caipiras, especialmente no caso de Francisca, o que foi percebido como uma “estética do
excesso”73. Ocorre, frequentemente, a reiteração de comportamentos obtusos, de falas expansivas e de deformações faciais, como se verifica nos gritos, empurrões, palavrões e caretas na personagem de Myrian Muniz, e, em menor escala, nas demais caipiras. Esta opção pelo excesso pode ser resultado da busca pela comicidade daí advinda, o que, em determinados momentos, ocorre – pensemos, por exemplo, na sequência em que as caipiras correm atrás da leitoa em sua chegada ao quarto de hotel. Ao mesmo tempo, intensifica certo caráter “grotesco-carnavalizado”, como observa Guerreiro (2007): a figura caipira ganha uma roupagem marcada pelo ridículo e grosseiro, o que agrava seu caráter “incivilizado” em contraste com a atriz francesa, cujos hábitos enfatizam a elegância, a pompa e o refinamento.
Nesse momento, então, pode-se estabelecer uma crítica à construção das personagens caipiras de Ana Carolina. Embora seus usos da ironia, do excesso, do desconcertante e do grotesco se verifiquem ao longo de sua obra, como analisamos em outra ocasião74, os usos desses aspectos em Amélia incorrem na problemática da estereotipia da figura caipira. É evidente que as personagens Francisca, Maria Luísa e Oswalda apresentam elementos que as enriquecem enquanto figuras fictícias, como lugar de origem, história familiar, hábitos peculiares, temperamentos bem definidos, desenvolvimento de formas de adaptação à nova realidade urbana e aos desafios linguísticos, etc., mas elas ainda assim apresentam marcas do que pode ser considerado uma ideia geral de caipira, e aqui remetemos às noções de sotaque, crendices, falta de traquejo social e comportamentos interpessoais canhestros.
Esse processo, por sua vez, contribui para a construção de uma discrepância entre os modelos de feminilidade apresentados pelas protagonistas: o porte altivo e elegante da francesa e os modos rústicos e grosseiros das caipiras. Quando Bernhardt ensina às caipiras como comer e como pegar nos talheres, deseja adaptá-las para a regra que julga superior e correta. As mineiras, entretanto, rejeitam seus ensinamentos e mantêm seus comportamentos considerados brutos. Entretanto, é falacioso afirmar que Ana Carolina aciona exatamente os mesmos dispositivos de estereotipia para a construção da personagem caipira, tal como Mazzaropi, em razão dos argumentos acima dispostos. Ao mesmo tempo, a reiteração caricatural e excessiva da rusticidade das irmãs, como se fosse um elemento intrínseco às personagens, resvala em clichês semelhantes à representação
73 Resposta do corpo editorial da revista Contracampo à carta de leitor a respeito de Amélia publicada na seção
Plano Geral, Contracampo, janeiro de 2001.
da cultura caipira em outros filmes do cinema brasileiro e até mesmo na literatura, tal como observamos na obra de Monteiro Lobato.
Risonha, com um cigarro na mão, Francisca puxa conversa: diz que, em Cambuquira, gostavam de catar tiririca. Sua fala é lenta e gesticulada, de modo didático, para que a atriz compreenda. Esta repete a palavra curiosa: ti-ri-ri-ca, e pergunta seu significado. Francisca explica que é uma erva daninha, criando formulações visuais para traduzir o sentido. Sarah ri e diz que elas são tiririca. As caipiras, então, mudam de semblante, ofendidas. No momento seguinte, Francisca oferece seu cigarro à atriz.
Bernhardt, por outro lado, não se dispõe a facilitar sua fala nem aprende palavras em português, à exceção de “tiririca”. Em uma única ocasião, em que tem uma conversa sobre momentos íntimos com Maria Luísa no camarote do teatro, Bernhardt tenta se fazer entender utilizando outros idiomas, como o espanhol e o italiano, já que ignora completamente a língua portuguesa. Porém ali, naquele piquenique insólito, com os olhos baixos, a atriz relembra sua mãe, que a veria naquele “fim de mundo”. Francisca a chama novamente, com uma interjeição, e pergunta se ela gosta do que faz, sacudindo os ombros como se dançasse: a atriz, com a feição de espanto, ergue as mãos e olha para cima, e declama que havia conquistado o mundo. Ouve-se o guincho de pássaros, que reforça a incomunicabilidade que se instala entre as personagens.