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PARTE IV – FIZEMOS ALGO?

4.1 Eu, caminhante-voyer Ouro Preto: olhares (im)possíveis

O caminhante voyer que pretendo tratar aqui, a partir dos conceitos apresentados por Michel de Certeau (2008), ainda não está muito claro. Ele não tem traços definidos. Pode ser eu mesmo, pode ser o turista, o/a estudante que realizou a oficina, as diretoras das escolas, as professoras, ou mesmo a população. A cidade, posso dizer, de Ouro Preto. A proposta, então, seria de que no contato com os dispositivos utilizados na intervenção fosse evidenciada essa ponte que existe entre a Ouro Preto turística, cidade cartão-postal, e a Ouro Preto ordinária, com seus diversos planos, camadas e estruturas que existem para além do centro histórico, da Praça Tiradentes.

Para Michel de Certeau (2008), quem olha do topo do prédio é o voyer, sujeito que pratica a cidade sem o envolvimento concreto com a experiência dela. Seu corpo não está mais no emaranhado das ruas. “Aquele que sobe até lá no alto foge a massa que carrega e tritura em si mesma toda identidade de autores ou de espectadores.” (p. 158). O caminhante, por sua vez, praticaria a cidade de forma efetiva. Se lançaria do topo do prédio rumo à experiência com seu corpo-linguagem nas ruas. Estão mais abaixo, são os praticantes ordinários da cidade. “Forma elementar dessa experiência, eles são caminhantes, pedestres.” (p. 159).

Mas por que trato do caminhante-voyer?! Porque no contexto de Ouro Preto, um dos grandes destinos turísticos do Brasil, o turista até caminha, experimenta no corpo as sensações que a cidade provoca, mas a questão é que na maioria das vezes ele experimenta apenas o contexto do casco histórico, seu percurso respeita os mapas turísticos, os pontos atrativos da cidade. Cidade cenário, cartão-postal, experiência forjada e cultivada pelo comércio e administração pública. Seus/as moradores/as nem sempre se arriscam pelos becos do centro histórico, principalmente quando suas residências estão localizadas em bairros mais afastados.

Dessa maneira, apenas o fato de caminhar, enquanto ação, pode não gerar a experiência concreta e ordinária da cidade. Quem caminha pelo centro histórico, e não se atreve a cruzar os becos e vielas, subir e descer seus morros, se conecta apenas com a

experiência de uma Ouro Preto cenário barroco. O que muitos não sabem, nem percebem, é que estão diante de apenas uma parte da cidade, que isso é, de fato, um simulacro de uma Ouro Preto do passado, tempo que já passou. Uma Ouro Preto para movimentar a economia e que o ouro-pretano dos bairros periféricos pensa nem poder frequentar. Uma cidade linda, mas que segrega corpos e não está acessível para sua própria gente.

Certeau (2008) parte do lugar de quem observa do topo do World Trade Center. Eu partirei da minha casa, no terceiro andar do bairro Antônio Dias. De cada uma das minhas 4 janelas vejo um recorte do casco histórico de Ouro Preto: tenho enquadramentos da igreja da Mercês de Baixo, Matriz da Nossa Senhora da Conceição, do Museu da Inconfidência, do pico do Itacolomy e da igreja do bairro Padre Faria. Mas, como não estou tão alto, também posso ver o bairro Cabeças, as casas aglomeradas da Ladeira de Santa Efigênia e o início das casas do Morro do Gambá, que dá acesso a parte mais nova da cidade. Além disso, eu caminho pela cidade e, entre os becos labirínticos do bairro onde vivo, me deparo com imagens que os turistas acostumados com os circuitos tradicionais não veem, tampouco os moradores que não frequentam as fissuras do centro histórico. Essas imagens também se repetem em bairros como o Nossa Senhora do Carmo (conhecido popularmente como Pocinho). É nesse espaço que está a escola onde realizamos as oficinas Ouro preto: olhares

(im)possíveis.

As oficinas foram realizadas na Escola Municipal Professor Adhalmir Santos Maia, em parceria com o Programa Sentidos Urbanos: patrimônio e cidadania , e os 10 membros 34 35 da equipe foram peças fundamentais para a realização da ação. O olhar e a percepção de cada um foi fundamental para esta pesquisa, não tendo como mensurar a importância e o engajamento, tanto do Programa Sentidos Urbanos como dos seus membros. Para mim, foram grandes parceiros e parceiras, colaboradores e colaboradoras (no sentido mais amplo do

O Programa “Sentidos Urbanos: patrimônio e cidadania” desenvolve, desde 2009, em Ouro Preto, ações que 34

abordam os conceitos de memória, identidade e patrimônio. As atividades, voltadas a grupos específicos, também buscam reconhecer a atuação dos moradores no espaço em que circulam. Para isso, é usada uma metodologia de forma ampla, com jogos teatrais e lúdicos, além de exercícios sensoriais e roteiros.

Coordenação: Simone Fernandes - Coordenação Executiva – IPHAN; Juca Villaschi - Coordenação

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Pedagógica - DETUR - UFOP; Cláudia Itaborahy - Coordenação Pedagógica - SMP / PMOP; Arthur Medrado - Coordenação de equipe; Emerson Pereira - Coordenação de equipe. Mediadores: Angélica Lacerda (estudante de Museologia), Bárbara Henriques (Mestranda PEP/IPHAN)), André Nascimento (estudante de Jornalismo), Isabella Mayrink (estudante de Artes Cênicas), Karen Nunes (estudante de Artes Cênicas), Raíssa Fagundes (estudante de Turismo). Na atividade analisada nesta pesquisa, a partir do segundo encontro, mantivemos a mesma equipe que era composta por mim, Raquel Salazar (estudante de Turismo), Adriano Soares (jornalista e estudante de Artes Cênicas) e Emerson Pereira (mestrando em Artes Cênicas).

termo). As contribuições, reflexões e questões desses sujeitos certamente foram tangenciadas na análise e descrição dessa experiência. Com esse auxílio foi possível a articulação com a Secretaria Municipal de Educação, que nos cedeu o transporte para a realização das atividades e facilitou muito a nossa entrada nas escolas. A intervenção desta pesquisa seria um trabalho praticamente impossível de se realizar sozinho.

Também é importante pontuar que a Escola Estadual Cônego Mauro de Faria , Escola 36 Municipal Professora Juventina Drummond e a Escola Municipal Monsenhor Castilho Barbosa receberam as oficinas. Além disso, realizamos a oficina “olhares impossíveis” com estudantes da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), no Simpósio Internacional de Artes, Urbanidades e Sustentabilidade (SIAUS, 2017), em São João Del Rei, e no festival de inverno de Ouro Preto e Mariana - Fórum das artes 2017 . Mesmo esta pesquisa não abarcando a 37 investigação da intervenção que ocorreu nessas escolas e eventos, as vivências realizadas nesses outros espaços e contextos, ao meu ver, foram de fundamental importância como testes e experiências piloto para que tudo ocorresse bem na escola analisada. A intenção é que todo esse material seja posteriormente trabalhado em artigos e publicações.