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Eu com os Profissionais da Saúde e Eles Comigo

No documento Trabalho Completo Final (páginas 73-75)

Beaton e Gupton (1990) verificaram que as mulheres durante a gravidez desenvolvem expectativas acerca dos papéis das figuras de suporte e dos profissionais da saúde, tal como é expresso pelo depoimento de uma das participantes: Também pensei muito nas pessoas que i ia àesta à o igoà … à(E7)

As expectativas em relação aos profissionais da saúde constituem uma subcategoria pela importância atribuída pelas mulheres nos seus discursos, onde se reconhecem alguns aspetos desejáveis. Neste contexto, algumas participantes do estudo evidenciaram a crença na competência e no profissionalismo: … à v oà esta à l à osà p ofissio ais,à ueà s oà elesà ueà entendem mais do que ninguém como me ajudar. E ;à … à eu confiava nos profissionais e portanto não me p eo upavaàeàsa iaà ueàia àfaze àoà elho à ueàpodia à … à(E4); Eu esperava que eles fossem o mais profissionais possível comigo. (E5); Esperava profissionalismo. (E9).

Algumas mulheres focam o respeito pela individualidade, as escolhas e o protagonismo da mulher durante o acontecimento do trabalho de parto: … àeu queria muito que a equipa que me estava a atender colaborasse comigo e que me fosse explicando o que é que acontece, o que é que iria acontecer a seguir, o que é que eu estava a fazer certo e errado, o que é que eu podia fazer mais e melhor. (E2); Euàespe avaà ueà espeitasse àoà euàpla oàdeàpa toà … (E3); Espe avaà … à o p ee s oàeà espeitoàpelasà i hasàde is es,àpelasà i hasàopç es,à … àeà ueàs à intervencionassem aquilo que fosse realmente necessário. (E4).

Uma participante fala sobre o tipo de relação, referindo a importância de uma relação de proximidade entre todos os intervenientes: Não queria muito que houvesse distanciamento ou uma certa frieza na relação entre os profissionais, eu e o meu marido. (E8).

Em relação aos aspetos que devem ser considerados na compreensão das expectativas sobre os profissionais de saúde, os relatos apresentados confirmam o facto de as mulheres valorizarem o conforto físico, o suporte emocional através de um cuidado personalizado, o respeito pela sua privacidade e individualidade, com competência e por uma equipa que seja capaz de reconhecer as suas necessidades, desejos e opções (Domingues, Santos e Leal, 2004).

87 A presença destes profissionais é assim referida como importante, salientando a necessidade na continuidade deste acompanhamento durante todo o processo de gravidez e parto pela mesma pessoa, para que a sensação de segurança necessária a uma experiência positiva do parto seja possível, surgindo no discurso de uma das participantes: Porque no próprio dia do parto, alguns dos profissionais que eu já conhecia esperava que lá estivessem. (E6). A presença do mesmo profissional que acompanhou a gravidez surge como um fator de confiança (Gibbins e Thomson, 2001), apresentando-se este ponto como importante apesar de não nos esclarecer sobre o porquê dessa importância, parecendo estar ligado com a sensação de segurança, pela relação que se estabelece ao longo de um determinado tempo com um profissional que acaba por se traduzir em confiança no desempenho do papel esperado.

As mulheres expressam, também, sentimentos de ansiedade quando antecipam a imagem dos profissionais da saúde: Eu tinha receio do comportamento deles. (E5), mas também referem sentimentos de confiança, salientando a importância da presença de um Enfermeiro Especialista de Saúde Materna e Obstétrica que as acompanhe durante a gravidez e durante o parto (Gibbins e Thomson, 2001; Ayers e Pickering, 2005).

Na perspetiva de algumas participantes do estudo, os próprios profissionais da saúde elaboram expectativas sobre o comportamento e as atitudes da mulher durante o trabalho de parto, embora diferentes profissionais podem significar diferentes perceções, tal como afirma uma das mulheres: As expectativas dos profissionais relativamente ao meu comportamento dependem evidentemente de profissional para profissional. (E6). Duas participantes falam de expectativas relacionadas com a sua capacidade de colaborar com os próprios profissionais da saúde:

(...) eles também esperavam que eu colaborasse com eles e que tivesse a coragem deàpa tilha à o àelesàe à o e tosàdoàt a alhoàdeàpa to,àasà i hasàa gústiasà … à (E2)

Agora, eu achava que os profissionais esperavam de mim, aquilo que eu também esperava dos profissionais que me acompanhassem e que era colaboração e calma. (E4)

Da análise dos relatos das mulheres, constatamos que as expectativas dos profissionais da saúde sobre o seu comportamento durante o trabalho de parto são, por vezes, sustentadas em pré-conceitos. Para duas participantes, os profissionais da saúde constroem expectativas positivas em torno das mulheres que frequentam a preparação para o parto, sentindo-se, por isso, obrigadas a adotar um comportamento adequado: Se quem estivesse comigo soubesse, que eu tinha frequentado os cursos, eu tinha que me portar bem, não é? Eles iam exigir isso de mim. (E1); Eu achava, que como tinha frequentado algumas aulas de preparação para o parto,

88 se calhar poderiam achar que eu ia chegar e ia ser capaz. Aliás, tinha obrigação de ser capaz. (E7). Uma outra participante fala sobre a obrigatoriedade de um comportamento exemplar durante os acontecimentos do trabalho de parto, devido à sua formação académica: … àeuà quando eu vim para cá, tinha aquela sensação de que os profissionais daquela instituição esperavam alguma coisa de mim por ser conhecida, ser profissional de saúde e ser especialista daà eaà eà euà hegueià aà pe sa :à Euà oà possoà po ta -me mal porque eu tenho que dar o exemplo. (E4). A estas considerações se associa a ideia da mulher não desiludir os profissionais da saúde, que entretanto, na sua perspectiva, construíram expectativas elevadas sobre o seu comportamento. Outra participante aborda os juízos de valor de alguns profissionais da saúde em relação à idade precoce, subestimando a sua capacidade de parir e de ser mãe:

Acho que, em alguns profissionais, há algum estigma relativamente a mães mais jovens e subestimam-nas. Pensam que elas não vão ser capazes de atingir aquele momento, de cumprir todas funções para ter um bebé. Então, eu tinha receio que osà p ofissio aisà tivesse àesseà pe sa e toà … .à Julga e -me por eu não estar à altura daquele acontecimento e não ser capaz de assumir as responsabilidades de uma mãe. (E7)

São escassas as investigações que procuram estudar as expectativas dos profissionais da saúde sobre a experiência de trabalho de parto, sob a perspetiva dos próprios profissionais da saúde ou a perspectiva das mulheres.

No documento Trabalho Completo Final (páginas 73-75)