As mulheres tendem espontaneamente a falar mais da gravidez do que do trabalho de parto, embora o momento do nascimento seja muito significativo do ponto de vista emocional para a maior parte delas (Figueiredo, Costa e Pacheco, 2002). O momento do nascimento tem
110 um efeito marcante na experiência do trabalho de parto, pela possibilidade de proporcionar o primeiro confronto da mulher com o seu filho.
O nascimento é um momento rico em emoções porque possibilita o primeiro contato com a criança, sem ter o abdómen da mãe como barreira física (Tomeleri [et al.], 2007). De facto, as emoções são elementos essenciais que exprimem uma vivência interna e resultam da tentativa de dar estrutura e sentido à experiência vivenciada. Quase todas as mulheres entrevistadas descreveram o momento do nascimento como uma experiência memorável, à qual associam uma elevada carga emotiva, um acontecimento único, que despertou sensações e emoções muito fortes que, por vezes, tiveram dificuldade em expressá-las:
O momento do parto é avassalador. Transcende-nos completamente. É muito de se ti à … .àEuàat àsouàdeàpalav asàeàdeàes eve àso eàse ti e to,à asàdestaàvezà tenho sentido muito dificuldade em falar sobre isso. (E1)
São momentos que são difíceis de explicar. Mas senti de uma forma muito intensa, muito intensa mesmo. É mesmo muito importante o momento em que a bebé nasce. (E2)
Aquele momento é assim um turbilhão de emoções, que eu nem sei bem definir: é uma alegria, é um alívio, é uma sensação de missão cumprida. (E4)
São os momentos que levamos connosco um dia, mais tarde: sentir ela a sair de mim, olhar para ela e sentir os braços do Adérito à minha volta é lindo...É lindo! “e tià ueàte osàoà ossoà o aç oàfo aàdasà osà … (E6)
Quando ela nasceu quase que só chorava. Foi um momento muito intenso. Acho que nunca me senti assim. (E9)
Perante o momento do nascimento, a generalidade das mulheres entrevistadas relata emoções positivas, como a felicidade, a tranquilidade e o alívio, fazendo esquecer as situações mais difíceis que foram experimentadas ao longo do trabalho de parto. Duas das participantes afirmam: O resto fica para trás. Esquece-se a dor, esquece-se aqueles meses de preocupações, esquece-seà uitasà oisas.à … .Éà es o esse o momento auge do trabalho de parto. (E2); As dores de parto ficaram para trás. Quando ela nasceu foi tão bom, que nós esquecemos tudo. (E9)
Todavia, os momentos de interação entre mãe e filho não se verificaram somente após o momento do nascimento. Uma das participantes relata uma experiência espiritual com o seu
Subcategoria a): O nascimento como um momento de felicidade
Categoria 4: Eu e o Primeiro Confronto com o meu Filho
111 filho, ainda durante o trabalho de parto: Sem dúvida um dos momentos mais significativos foi naquela altura em que os picos das contrações começam a aumentar e a minha mãe estava a dormir e eu estava sossegada e foi um momento de diálogo muito grande entre mim e o bebé e com a música do Zeca Afonso. Foi um momento muito, mas muito intenso. (E3) Alguns estudos concluíram que algumas mulheres, tendencialmente, descrevem a sua experiência de trabalho de parto como um momento de grande importância espiritual (Simkin, 2006; Remer, 2008).
Para todas as mulheres existem situações particulares associadas ao trabalho de parto, que a ajudarão a entrar na nova etapa – a maternidade. O primeiro choro, o primeiro olhar, o contacto pele-a-pele e a primeira mamada são eventos que ocorrem imediatamente após o nascimento e são fundamentais para que a mulher desenvolva em si o sentido da maternidade (Stern, Bruschweiller-Stern e Freeland, 2005). O primeiro confronto da mulher com o bebé real impulsiona, também, a descoberta das suas características físicas, como as seguintes unidades de registro o comprovam: Va osàve àseà àloi a,àseà à o e a,àseà àpa e idaà o àaà eàouà o à oàpai,àseà espi aà … à(E2); Queria, real e te,àve à … àseàelaàti haàosà i oàdedosàe à adaà oàeà e à adaàp ,àasào elhas,àaà o aà … (E2); … àve àseàestavaàtudoàdi eiti ho,àseàti haàosàdedi hosà todos (E8).
De acordo com Mercer, Hackley e Bostrom (1983), as mulheres que apresentaram um contacto precoce com o seu bebé saudável logo após o nascimento, manifestaram impressões mais positivas da experiência de trabalho de parto. Os seguintes fragmentos das entrevistas confirmam a satisfação das mulheres perante a oportunidade de experienciar momentos de interação com o seu filho, imediatamente após o nascimento:
Depois quando tive oportunidade de pegar, cheirar é um momento de felicidade t oàg a deà ueà sàp e isa osà ueà osà elis ue à … à E
Agora, aquela sensação quando ouvimos o choro dela pela primeira vez, depois o nosso próprio choro quando a vemos pela primeira vez e quando é pousada sobre oà ossoàpeito…à eal e teàse saç esàs oài dis itíveis. (E3)
Colocaram-na aqui em cima de mim e puseram-na a mamar e ela agarrou praticamente logo, agarrou a mama esquerda. (E5)
Só o facto de ele estar ali, a chorar, a tocar na minha pele porque uma coisa que ele fez quando o encostaram a mim, que eu achava que isso não era possível, mas ele veio à procura do meu peito e começou logo a mamar … (E7)
Windstrom [et al.] (1990) concluíram que determinadas condições relativas à experiência de trabalho de parto favorecem o estabelecimento de interações mais adequadas entre a mãe e o bebé, nomeadamente, o contacto precoce mãe-bebé estabelecido através da amamentação e do contacto pele-a-pele mãe-filho nos trinta minutos pós-parto. Para Kitzinger (1984), a amamentação nas primeiras horas de vida permite um prolongamento da relação
112 afetiva que durante a gravidez foi de sangue e que, após o nascimento, é de leite. De acordo com as recomendações do Instituto Internacional de Lamaze (2007), o recém-nascido saudável deve ser colocado pele-com-pele no abdómen ou peito da mãe, e ambos devem ser tapados com um lençol. Desta forma, os bebés mantêm-se quentes e choram menos, e a amamentação usufrui de um bom começo, quando mães e bebés ficam juntos desde o nascimento.
No discurso das participantes parece haver um destaque preponderante em relação ao choro do filho recém-nascido. Percebe-se, que a para a maior parte das mulheres, o primeiro choro representa uma manifestação de vida, uma representação associada ao bem-estar da criança recém-nascida:
Qua doàelaàsaiuà oà ho ouàlogoà … (E2)
ágo a,àa uelaàse saç oà ua doàouvi osàoà ho oàdelaàpelaàp i ei aàvezà … (E3) Quando olhei, a e fe ei aà … à estavaà aà exte io iza à oà o poà pa aà aixoà eà elaà chorou logo. (E4)
Oà ho oàdelaàe aàt oàlevezi hoà … à(E5)
Quando o Mateus nasceu, ouvi logo o primeiro chorinho dele. (E8) Quando ela nasceu, chorou logo e chorou muito. (E9)
No entanto, ao mesmo tempo em que algumas participantes consideraram o primeiro choro como um momento de intensa alegria associado ao nascimento, outras mulheres do estudo demonstraram tensões, ainda que passageiras, até experimentarem uma sensação de alívio: No momento em que a ouvi chorar, porque eu fiquei um bocado tensa por não a ter ouvido de imediato a chorar, e comecei a chorar porque pensei que alguma coisa não estaria bem. No momento em que a ouvi a chorar foi uma tal sensação de alívio. (E2)
A propósito da importância dos primeiros momentos de interação entre mãe e filho, após o nascimento, uma das participantes reconhece no parto normal uma oportunidade ótima para assegurar as condições facilitadoras para o primeiro contacto entre a mãe e o filho recém-nascido: … àacho que é mesmo muito bonito e tenho pena que muitas mulheres, façam com que o seu rumo vá diretamente para uma cesariana e não tenham a oportunidade de passar pela experiência de um trabalho de parto normal porque acho que a nível de vinculação entre mãe eàfilhoà à ual ue à oisaàdeàext ao di io… àu à o e toà es oàú i o. (E2)