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2. A PESQUISA E OS RESULTADOS

2.7 Piquenique Poético

2.7.3 Eu

A canção “Eu”, da Palavra Cantada, é uma canção biográfica que nos convida a refletir sobre a nossa ancestralidade, de onde vem a linhagem dos nossos pais, a pensar sobre situações que permitiram a chegada de cada um à vida e, de forma bem humorada, a canção mostra que, por causa de uma barata, o eu do texto teve oportunidade de existir. Iniciamos a aula com a audição da canção “Eu”, da Palavra Cantada, fizemos a leitura silenciosa e apreciamos a canção melódica. Após a leitura silenciosa e audição, realizamos a leitura coletiva da letra da canção.

EU

Perguntei pra minha mãe: "Mãe, onde é que ocê nasceu?"

Ela então me respondeu que nasceu em Curitiba Mas que sua mãe que é minha avó

Era filha de um gaúcho que gostava de churrasco E andava de bombacha e trabalhava no rancho E um dia bem cedinho foi caçar atrás do morro Quando ouviu alguém gritando: "Socorro, socorro!"

Era uma voz de mulher

Então o meu bisavô, um gaúcho destemido Foi correndo, galopando, imaginando o inimigo E chegando no ranchinho, já entrou de supetão Derrubando tudo em volta, com o seu facão na mão Para o alívio da donzela, que apontava estupefata, Para o saco de batata, onde havia uma barata E ele então se apaixonou

E marcaram casamento com churrasco e chimarrão E tiveram seus três filhos, minha avó e seus irmãos E eu fico imaginando, fico mesmo intrigado Se não fosse uma barata ninguém teria gritado Meu bisavô nada ouviria e seguiria na caçada

Eu não teria bisavô, bisavó, avô, avó, pai, mãe, não teria nada Nem sequer existiria

Perguntei para o meu pai: "Pai, onde é que ocê nasceu?"

Ele então me respondeu que nasceu lá em Recife Mas seu pai que é o meu avô

Era filho de um baiano que viajava no sertão E vendia coisas como roupa, panela e sabão E que um dia foi caçado pelo bando do Lampião Que achava que ele era da polícia um espião E se fez a confusão

E amarraram ele num pau pra matar depois do almoço E ele então desesperado gritava: "Socorro!"

E uma moça apareceu bem no último instante

E gritou pra aquele bando: "Esse rapaz é comerciante!"

E com muita habilidade ela desfez a confusão

E ele então deu-lhe um presente, um vestido de algodão E ela então se apaixonou

Se aquela moça esperta não tivesse ali passado Ou se não se apaixonasse por aquele condenado

Eu não teria bisavô, nem bisavó, nem avô, nem avó, nem pai pra casar com a

Conversamos sobre a história familiar da pessoa citada na canção. Comentamos que em cada um de nós existe um pouco das pessoas da nossa família. Que para nos conhecermos precisamos conhecer a nossa história e a dos nossos pais, de nossos ancestrais. E para que as crianças pudessem perceber a ideia da característica familiar, propusemos brincar com massinha e construir os pais e a própria criança. Esse plano de ensino foi desenvolvido em duas aulas de 60 minutos cada, e apresentado no Apêndice 14 da dissertação.

Disponibilizamos duas massinhas de modelar de cores diferentes e solicitamos que tirassem aproximadamente um quarto de cada massinha e misturassem bem, pois essa mistura representariam os filhos. Com a parte que sobrou eles deveriam construir com uma cor o pai e a outra cor a mãe e a parte misturada seriam eles. E assim eles fizeram e, a partir de um dálogo sobre as características físicas e de personalidade, as crianças foram percebendo que os traços físicos e até comportamentais vêm da mistura do papai e da mamãe. Em seguida colaram em uma folha de papel A4, ilustraram com canetinha hidrocor e pintaram.

Figura 5: Mosaico de desenhos que representavam a familia com massinha

Fonte: dados da pesquisa.

Passamos então para a atividade escrita e solicitamos que eles escrevessem sobre os sentimentos provocados pela canção. E (E11) registrou: “Esa música provocou em mi alegria porque fala como e a istoria do pai do avô e fala como agumas coisas são rui e muito triste”.

(E20) escreveu: “Essa música me fez sentir alegria, felicidade, animação e me lembrou da minha família”. Debatemos sobre os diferentes tipos de família, que existem relações familiares boas, mas também ruins, e que nem todas as famílias vivem em completa harmonia e paz. Para nos relacionarmos bem com os familiares, podemos agir sempre respeitando a diferença do outro, tratando com educação e carinho, pois cada integrante da família é único assim como nós, e a partir de relações e diálogos respeitosos que conseguimos viver em harmônia com aquele que é diferente de nós.

Ao passar para a segunda questão perguntamos: “O que você sabe sobre a sua história familiar? Nome de seus pais, avós maternos e paternos, cidade em que nasceram,?” Essas foram algumas respostas: (E10) “O nome dos meus pais é Divino e Luciana, o nome dos pais do meu pai eu não sei porque a mãe dele morreu e o pai dele não conhecemos, o nome dos pais da minha mãe a mãe é Maria Joze e o pai é amiltom [...].” (E14) “O pai do meu pai ele nasceu em Piaui e a minha avó é Recife minha mãe o mesmo avô e avó Carneirinho e avó Maria da mãe e pai Maria Gorete pai Luiz [...].”

Foi muito bom conversar sobre a história familiar, pois as crianças puderam resgatar a sua origem, de modo que a maioria soube dizer o nome dos pais, dos avós maternos e paternos, mas alguns disseram não saber e não ter contato com o pai e seus familiares.

Explicamos que isso também acontecia em várias famílias e que estava tudo bem, que o importante mesmo é estar vivo, com saúde e mesmo que por diversas circunstâncias da vida, alguns familiares estejam afastados de nós, fazem parte da nossa família, e de alguma maneira da nossa história. Alguns comentaram sobre a origem indígena e que nasceram em diferentes regiões brasileiras (E19) “Eu nasci em Goiania em 2010, minha mãe si chama Marilene Lisboa dos satos, e meu pai se chama Fracisco Roberto da Silva oliveira mas todo mundo chama ele de Roberto e minha família intera e decendende de indio.”

Em seguida perguntamos: Construir o seu papai, a sua mamãe e você, trouxe algum sentimento que você ainda não tinha percebido? Conte como foi.

(E5) - “Eu senti felisidade. Porque meus pais são muto legais e bons comigo”.

(12) - “Alegria. Porque guando eu fui começar a construir sente muita alegria”.

(E14) - “Bem legal gostei de construir eles e vontade de ficar perto deles”.

(E16) - “Eu senti saudade de quado agete bainhava na suva la no quintal”.

(E23) - “Eu gostei de construi a nosa familia porque deu uma saudadi de esta perto eu costei muito”.

Envolver a arte e cantar essa canção contribuiu no desenvolvimento da criatividade e despertou na criança o sentimento de pertencimento, próprio do ser humano, trazendo à tona reflexões sobre as relações familiares, de afastamento, carinho e felicidade que a família proporciona, e de como momentos simples como fato de “banhar na chuva” pode marcar a memória como um momento especial em família, que desperta o sentimento de ser e pertencer ao núcleo social que é a família. Acreditamos que essa se tratou de uma aula que despertou a imaginação e a memória das crianças, que recorreram a momentos significativos vividos no seio familiar e à importância dessa relação.