III – “MALDITOS” & MARGINAIS
B: Eu quero é botar meu bloco na rua/ Brincar, botar pra gemer/ Eu quero
é botar meu bloco na rua/ Gingar, pra dar e vender.
A: Eu, por mim, queria isso e aquilo/ Um quilo mais daquilo, um grilo me- nos nisso/ É disso que eu preciso ou não é nada disso/ Eu quero é todo mun- do nesse carnaval.
“Eu quero é botar meu bloco na rua” parecia retomar a ideia-força do nacional-popular, já que em canções da década de 1960 o carnaval foi recorrentemente acionado, como metáfo- ra, para anunciar um projeto de nação, um novo porvir ou propriamente a revolução. O carna- val na “canção engajada” era índice daquilo que Walnice Nogueira Galvão chamou de “ensaio geral de socialização da cultura”, termo com o qual procurava denominar o forte ideal moder- nizador, a valorização do “povo brasileiro” como agente transformador da história, o intenso
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Cf. Sérgio Sampaio. Compacto simples. Phonogram/Philips, 1972 (Lado único: “Eu quero é botar meu bloco na rua”).
florescimento político-revolucionário e a tentativa de democratizar o acesso à cultura (cf. GAVÃO, 1994: 186). Um conjunto de horizontes de expectativas ou de coordenadas sócio- históricas que marcaram boa parcela das artes no pré-68, e cujo epílogo, para muitos, teria sido o Tropicalismo48. Antes dele, porém, Gil, por exemplo, dizia em seu “Ensaio geral”: “Tá na hora, vamos lá/ Carnaval é pra valer/ Nossa turma é da verdade/ E a verdade vai vencer”. Sérgio Sampaio, naqueles “anos de chumbo”, deu à metáfora outro significado. Festa popular, o carnaval era a ocasião propícia para desprezar pudores e recalques e, sobretudo, para exor- cizar a dor e a angústia. O fotógrafo, artista visual, poeta, letrista e parceiro de Jards Macalé, Xico Chaves – os dois fundariam, depois, o bloco Sovaco de Cristo –, conta que, no Rio Ja- neiro, “o carnaval de rua foi praticamente extinto no período da ditadura. Apenas alguns blo- cos resistiram, como a Banda de Ipanema, Chave de Ouro (no subúrbio), Cordão do Bola Pre- ta (no Centro) e o emblemático Charme da Simpatia, nascido no começo dos anos 1970”49.
“Eu quero é botar meu bloco na rua” estava afinada com as políticas do cotidiano, pois, não obstante a repressão à direita e eventuais críticas à esquerda, recusava-se a atrofiar o cor- po. Era ao mesmo tempo Política, já que denunciava, nas entrelinhas, o cerceamento do espa- ço público. E, além disso, confessional, característica que perpassa quase todo o repertório de Sérgio. “Botar o bloco na rua” apontava para o seu desejo de ser reconhecido. O músico, diga- se de passagem, almejava ouvir uma de suas composições na voz de seu conterrâneo de Ca- choeiro de Itapemirim, Roberto Carlos, o que nunca ocorreu. Em 1974, na irônica “Meu pobre blues”, Sérgio, mesmo afirmando o oposto, desprezaria tal aval. A canção recorre proposital- mente a clichês do rock-blues, parodiando os trejeitos e o “canto-falado” daquele ao qual en- dereçava: “Meu amigo/ Um dia ouvi maravilhado no „radim‟ do meu „vizim‟ seu „roquizim‟ antigo/ Foi como se alguma pomba houvesse explodido no ar/ Todo o povo brasileiro nunca mais deixou de dançar/ E desde aquele instante nunca mais parei de tentar/ Mostrar meu blues „procê‟ cantar/ Foi inútil/ Juro que tentei compor uma canção de amor, mas tudo pare- ceu tão fútil [...]”50.
Em 1973, ainda ligado à Phonogram, Sérgio Sampaio participou do Phono 73, “festival- feira” promovido pela gravadora, no Centro de Convenções do Parque Anhembi, São Paulo,
48 Ver, por exemplo, RIDENTI, 2002.
49 Cf. Xico Chaves. Entrevista a Fátima Pinheiro, “O artista por ele mesmo”, Subversos, Livraria e Editora, set.
2016. Disponível em: http://subversos.com.br/o-artista-por-ele-mesmo-xico-chaves/. Acesso: 10 out. 2016. O mineiro Francisco de Assis Chaves Bastos, Xico Chaves, estava entre os estudantes presos no Congresso de Ibiúna, da UNE, em 1968. Após viver por um tempo autoexilado no Chile, retorna à Brasília, onde estudava, e, na sequência, segue para o Rio de Janeiro, quando auxiliará Jards Macalé, em 1973, a organizar o show O ban- quete dos Mendigos.
50 Cf. Sérgio Sampaio. “Meu pobre blues”. Compacto simples. Phonogram/Philips, 1974. De Raul Sampaio
entre os dias 10 e 13 de maio daquele ano. O evento reuniu praticamente todos os músicos da Phonogram, e ficou marcado, sobretudo, pela apresentação de Gilberto Gil e Chico Buarque em “Cálice”: mesmo informados da censura prévia à canção, os dois arriscaram interpretá-la, tendo seus microfones, principalmente o de Chico, desligados51. Para Sérgio, o Phono poderia ter sido a oportunidade que lhe faltava para impulsionar sua carreira. A plateia, porém, com a qual o músico pouco se interagiu, permaneceu um tanto quanto apática com exceção ao argen- tino Fernando Noy, que aparece na filmagem dançando e gesticulando. Drop-out e homosse- xual assumido, Noy integrava a equipe de divulgação de shows de Caetano Veloso e era figu- ra conhecida na vila hippie da Bahia, Arembepe.
Sérgio Sampaio no Phono 73 (na segunda foto, de costas para o público) e Fernando Noy dançando ao som de “botar, botar, botar, botar...”.
Sérgio, que em seu semblante desvenda cansaço, repete o verbo “botar” inúmeras vezes, e com ênfases diferentes, enquanto, de costas para a plateia, movimenta os quadris sugerindo o ato da penetração sexual. Atração esperada, já que o seu “Bloco” caíra no gosto popular, o músico e compositor desestabilizou o previsível. Nas palavras de Roberto Menescal, na época produtor artístico da Phonogram, “Sérgio cantou „O bloco‟ de uma maneira que ninguém con- seguia cantar junto, quer dizer, „derrubou‟ o público, que foi parando de cantar até ele ficar sozinho. [...] Entrou debaixo de muito aplauso, e, depois de duas ou três músicas, deixou o palco debaixo de pouco aplauso” (apud MOREIRA, 2017: 84)52.
O impasse entre automarginalização e o desejo por reconhecimento, que se verifica em versos como “Eu, por mim, queria isso e aquilo/ Um quilo mais daquilo, um grilo menos nis- so”, de “Eu quero é botar meu bloco na rua”, pode ser percebido em outras canções do mesmo LP. “Viajei de trem”, uma delas, versa, bem ao gosto das abordagens contraculturais, sobre a atitude drop-out, sobre as viagens subjetivas sob efeito de drogas alucinógenas e sobre o ma- rasmo do cotidiano e da família pequeno-burguesa:
51 Retornarei a comentar sobre esse episódio num dos tópicos do último capítulo, dedicado ao show realizado por
Gilberto Gil na USP, no mesmo ano de 1973.
52 Para as filmagens, conferir: Phono 73: o canto de um povo. DVD, 35 min. Universal, 2005. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=30rpKA_MK-4. Acesso: 10 dez. 2015.
A: Fugir pela porta do apartamento/ Nas ruas estátuas e monumentos/ O sol