• Nenhum resultado encontrado

EUTERPE OLERÁCEA MART: MANEJO E DIVERSIDADE DE PRODUTOS

No documento O espaço geográfico amazônico em debate (páginas 197-200)

Pollyanna Coêlho de SOUSA Vanda Maria Sales de ANDRADE Oriana Trindade de ALMEIDA Ana Karolina Lima PEDRADA INTRODUÇÃO

A espécie Euterpe oleracea Mart (açaí) é uma palmeira do trópico brasileiro, típica da paisagem florestal da Amazônia. Seu desenvolvimento ocorre, tanto em terras firmes como em várzeas, sujeitas a inundações periódicas. Os frutos dessas palmeiras são muito procurados, sendo consumidos, basicamente, sob a forma de suco. Historicamente, a maior parte da produção era destinada à comercialização, realizada, geralmente, em pequenos portos, e a outra parte era, comumente, reservada para o consumo local, já que o vinho é um dos componentes básicos da dieta regional (OLIVEIRA et al., 2002).

A exploração do açaí sempre foi essencial para as economias dos estados do Pará, do Maranhão, do Amapá, do Acre e de Rondônia, sendo que, para os paraenses e para os amapaenses, soma-se, ainda, a importância de sustentar a economia das populações ribeirinhas (HOMMA, 2006). A partir da década de 1990, a descoberta dos benefícios proporcionados pela composição nutricional e energética do açaí e a busca de alimentação saudável e com apelo ecológico provocou um aumento no seu consumo (PENA et al., 2011). O que levou a sua popularidade fora do Brasil foi a descoberta de que possuía a maior capacidade antioxidante, quando comparada a outros alimentos. A mídia o classificou como um "superalimento", e suas propriedades passaram a ser discutidas na televisão, no rádio e na mídia impressa. Para se ter uma ideia, em 2008, o suco de açaí já era o terceiro produto de frutas mais popular nos EUA, comercializado em

supermercados e em lojas de produtos naturais, perdendo, apenas, para os sucos de laranja e de romã (SCHAUSS, 2010).

Essa mudança, decorrente de demandas de mercado interno e externo, modificou intensamente os modos de produção e de comércio tradicionais do fruto, fazendo-se necessária a aplicação de técnicas de manejo de açaizais nativos, a elaboração dos primeiros planos de uso comunitário e a formação de plantios homogêneos da espécie (PENA et al., 2011).

Este trabalho teve, como objetivo, apresentar a versatilidade de usos da espécie açaí (Euterpe olerácea Mart.), suas contribuições para os produtores da região amazônica e sua importância, no contexto da pesquisa e de desenvolvimento de produtos, a partir de matérias-primas da floresta.

CARACTERIZAÇÃO DA ESPÉCIE EUTERPE OLERACEA MART.

Aspectos botânicos, biologia floral e fenologia

A espécie Euterpe oleracea Mart.34 é predominante na região do estuário Amazônico e importantíssima para o meio de vida da população rural dessa várzea.

As flores são do tipo unissexuais, masculinas e femininas, dispostas em tríades, espalhadas, ao longo de ráquilas (VENTURIERI, 2006) (Figura 1). As características florais indicam que a espécie é monoica, dicógama, protândrica (JARDIM; MACAMBIRA, 1995). As flores e frutos daE. oleracea têm ocorrência anual, porém o vegetal frutifica em diferentes épocas do ano, na Amazônia (SHANLEY; MEDINA, 2005). No entanto, Venturieri et al. (2014) relataram que, na região de Belém, nos meses de maior incidência de chuvas, ocorrem a floração e a frutificação.

34 Classificação de Cronquist (1981): Divisão Magnoliophyta (=Angiospermae); Classe:

Liliopsidae (=Monocotyledonae); Família: Arecaceae (=Palmae); Gênero: Euterpe na família Arecaceae (=Palmae), Gênero: Euterpe.

Figura 1 – Açaizeiro (A: abertura da espata; B: inflorescência; C: cachos

formados; D: açaizeiros manejados)

Fonte: Sousa (2019)

Quanto ao aspecto morfológico, essa palmeira apresenta caule do tipo estipe, preferencialmente, multicaule, na fase adulta, apresentando até 25 estipes por touceira, sendo, as estipes longas, de até 30 metros de altura e de 12 a 18 cm de diâmetro, sem ramificações. Suas raízes são encontradas nos primeiros 30 cm do solo (OLIVEIRA et al., 2002). Trata-se de uma espécie altamente dependente de agentes polinizadores, podendo ser polinizado por uma grande diversidade de insetos, especialmente, abelhas e moscas (VENTURIERI et al., 2014).

Distribuição geográfica

O açaí é umas das palmeiras típicas da região amazônica, cujo potencial ornamental é apenas um de seus diversos usos, servindo de subsistência para famílias, em áreas rurais, com marcante ocorrência no estuário do rio Amazonas, atingindo o Baixo Amazonas (Pará), o Maranhão, o Tocantins e o Amapá, avançando até as Guianas e a Venezuela (CALZAVARA, 1972). A maior concentração, no entanto, é no estuário amazônico, tendo uma área estimada de um milhão de hectares (VASCONCELOS et al., 2019). Na Colômbia, o açaí, conhecido como “naidí”, é visto

como uma espécie promissora, cujo fomento tecnológico e industrial poderá fortalecer a segurança alimentar, especialmente, nas áreas de maior produção (MONTENEGRO-GÓMEZ; ROSALES-ESCARRIA, 2015).

Aptidão pedoclimática

Considerando o clima da área de ocorrência natural da espécie – o estuário amazônico, o clima favorável para a disseminação do açaí é o tropical, com épocas de cheia e de estiagem. Necessita de solos alagados, mas, graças a características de suas raízes, consegue preservar a umidade, resistindo a intensas estiagens. De acordo com a classificação de Koeppen, os tipos climáticos compatíveis são: Af; Aw; Am (CALZAVARA, 1987).

Em decorrência de uma estratégia adaptativa, a abertura dos estômatos está sujeita à radiação solar, mais que do ao déficit de pressão de vapor, ou seja, o processo de absorção de água pelas raízes é preservado, na estiagem ou em inundações. Este fato proporciona, ao produtor, o cultivo, tanto em solos de várzea, ricos em matéria orgânica (eutróficos), como em terra firme (distróficos), os quais são porosos, com boa drenagem, ácidos e de baixa fertilidade, sendo responsivos à adubação (OLIVEIRA et al., 2002). No entanto, Calzavara (1987) ressalta que, mesmo se desenvolvendo bem, em solos inundáveis, é necessário compreender que há resistências, em locais permanentemente alagados.

Sistemas de manejo de açaizais nativos e plantados em quintais

Tanto para os açaizais naturais, manejados e não manejados, quanto para os pomares de tipo poliespecíficos são utilizados os mesmos sistemas de produção, quais sejam: 1) coleta dos frutos; 2) transporte; 3) comercialização. Pode-se conceber, também, que o sistema de produção seja uma combinação, que segue uma determinada lógica, contemplando diversos subsistemas

No documento O espaço geográfico amazônico em debate (páginas 197-200)