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Resultados e Discussão

5.6.1 Evento Extremo de 18/04/1999

As Figuras 5.6.1 (a) a (c) mostram a evolução e trajetória de um sistema de baixa pressão acompanhando uma frente fria que se desloca em direção às baixas latitudes sobre a região oceânica de estudo. A região de alta pressão sobre o continente representa o anticiclone polar migratório, atravessando a costa oeste da América do Sul, tornando-se predominante no norte da Argentina, Uruguai e sul do Brasil. Segundo OLIVEIRA (1986) os anticiclones que atravessam a costa leste, em torno de 40°S, apresentam uma trajetória predominantemente zonal. Observa-se em (a) o ciclone, próximo à costa, com centro de aproximadamente 1000 hPa em 35°S / 47°W. A Figura (b) mostra que no dia 17 o sistema se intensificou, com centro entre 1000 e 996 hPa.

Nos pontos P1 (35°S/50°W) e P2 (30°S/45°W), os valores mínimos foram de 1001.1 e 1004.5 hPa, respectivamente. A Figura (b) mostra um aumento no gradiente de pressão ao longo da costa com permanência da baixa nos dias que antecederam ao surge em Cananéia e Ponta da Armação. A Figura (c) mostra a situação do sistema no dia da

ocorrência do surge máximo, com o ciclone deslocando-se na direção SE. Verifica-se na região de estudo, do norte da Argentina ao sudeste do Brasil, que os valores de pressão aumentaram ao longo da costa, alcançando 1020 hPa.

(a)

(b)

(c) Figura 5.6.1: Campos de pressão atmosférica ao nível do mar (hPa), gerados com dados

de reanálise para os dias (a) 16, (b) 17 e (c) 18 de abril de 1999 às 12 UTC.

O intervalo de contorno é de 4 hPa e a barra de cores ao lado de cada figura indica os valores de pressão em hPa.

As Figuras 5.6.2 (a) a (c) mostram as linhas de corrente com ventos de quadrante sul, na direção SW, da costa norte da Argentina ao sudeste do Brasil, caracterizando a passagem de um sistema frontal na região. A Figura (b) mostra uma intensificação dos ventos com valores em torno de 22 m/s (~ 80 km/h), próximo à costa. Nessa região situam-se os pontos V1 (35°14’S/50°38’W) e V2 (29°31’S/45°W) com valores de velocidade máxima em torno de 22.0 (80 km/h) e 19.7 m/s (72 km/h), respectivamente.

Observa-se, na Figura (a), que na região oceânica, próxima à estação maregráfica, as linhas de corrente indicam ventos fracos com velocidade de 4 a 2 m/s (15 a 10 km/h), como mostrado na barra de cores. Em (b) e (c) observa-se uma intensificação dos ventos na região sudeste do Brasil com velocidade em torno de 8 m/s (30 km/h). A Figura (c) mostra o sistema se deslocando na direção leste com diminuição dos extremos do vento na área de estudo.

(a)

(b)

(c) Figura 5.6.2 (a), (b) e (c): Linhas de corrente geradas com dados de vento de reanálises

a 10 m de altura, mostrando a direção dos ventos nos dias 16 (a), 17 (b) e 18 (c) de abril de 1999 das 12 UTC. A barra de cores indica a velocidade do vento em m/s.

A imagem de satélite da Figura 5.6.3 mostra a situação sinótica no dia 17 com a localização da frente fria e o sistema de baixa pressão próximo à costa sul, conforme indicado nos mapas de reanálises.

Figura 5.6.3: Imagem do satélite GOES, no canal infravermelho, referente ao dia 17 de abril de 1999 das 12 UTC. Fonte: INPE/CPTEC.

As Figuras 5.6.4 (a) e (b) mostram a variabilidade do nível do mar em relação à PM em Cananéia e Ponta da Armação devido à ocorrência de tempestade no período de 16 a 20/04/1999. A PM foi utilizada como Datum de referência. Observa-se em (a) que a partir do dia 16 o nível observado começa a se elevar em relação ao previsto com a curva do surge acompanhando essa elevação, atingindo o pico máximo observado no dia 18. A partir do dia 20 as curvas do nível observado e previsto novamente se juntam, oscilando em torno do nível médio do período. Verificou-se que a alteração no nível do mar teve um período de, aproximadamente, 4 dias. Na Figura (b) é mostrada a variabilidade ocorrida em Ponta da Armação, onde se observa um atraso em relação à Cananéia no levantamento do nível do mar, que ocorreu no dia 17, com queda a partir do dia 21. Verificou-se também que a série do storm surge foi mais ruidosa do que em Cananéia. O valor do nível observado alcançou 101 e 61 cm acima da PM em Cananéia e Ponta da Armação, respectivamente.

(a)

(b)

Figura 5.6.4: (a) Curvas do nível do mar observado, previsto e o storm surge do período de 16 a 22/04/1999 em Cananéia e (b) Ponta da Armação.

Os gráficos da Figura 5.6.5 (a) a (c) mostram a variabilidade conjunta das séries meteorológicas extremas diárias nos pontos de pressão (P1 e P2), vento (V1 e V2) e nas estações maregráficas, onde se verificaram os picos máximos no dia 18, com máximo de 321 cm em Cananéia e 283 cm na Ponta da Armação. Houve registro, nessa data, de ocorrência de ressaca com danos no litoral sul e sudeste.

(a)

(b)

(c)

Figura 5.6.5: (a) Mínimos diários da pressão em P1 e P2; (b) Máximos diários do vento em V1 e V2; (c) Máximos diários do nível do mar em Cananéia e Ponta da Armação de fevereiro a junho de 1999.

Analisando o comportamento do nível do mar e as linhas de corrente da Figura 5.6.2, verificou-se que o levantamento começou, em ambas as estações, quando houve uma intensificação dos ventos de SW próximo à costa do Rio Grande do Sul no dia 17.

A queda do nível do mar começa a ocorrer quando a tempestade se moveu para leste com ventos soprando na direção de W, na linha de costa, totalizando um período de, aproximadamente, 4 dias para o evento. A Figura 5.6.6 (a) e (b) mostra a série horária do nível observado e previsto para as duas localidades com o surge após o pico da maré de sizígia prevista no modelo harmônico. Na série do nível observado de Cananéia verificou-se um levantamento gradual no dia 17 com queda brusca no dia 19, após o pico máximo registrado no dia 18. Em Ponta da Armação, verificou-se que após o pico máximo ocorreu uma queda, seguida de um segundo pico, após algumas horas.

Normalmente, esse segundo pico tende a ter altura inferior ao primeiro, mas pode resultar em altos surges quando combinados com as marés astronômicas. Esses dois padrões foram verificados por PORE (1964) em Chesapeake Bay e segundo o autor, as causas devem ser investigadas para cada local, pois às vezes não são explicadas da mesma forma para todos os casos.

(a)

(b)

Figura 5.6.6: Séries horárias do nível do mar observado e previsto em Cananéia (a) e Ponta da Armação (b) no mês de abril de 1999.