P RIMEIRA P ARTE – F UNDAMENTAÇÃO T EÓRICA
2. I NDÚSTRIAS C RIATIVAS E
2.1.3. Eventos de moda
A moda ao longo do seu percurso histórico de reinvenções e novos contextos associados, em particular o contexto de consumidor veio trazer inovações ao nível de comunicação da moda.
Como principal formato de divulgação temos os desfiles de moda, estes não tendo sido originalmente criados, foram impulsionados e inovados pelo Mestre Coiffeur6 Le Gros, tendo este um papel fundamental tal como Baldini (2006, p.
130) descreve:
“Os desfiles foram inventados pelo mestre coiffeur Le Gros que mandava, manequins com os seus últimos penteados, passear nas avenidas mais bem frequentadas de Paris. Os seus desfiles eram autênticos desfiles on the road. O primeiro que mandou manequins, “sósias” – na verdade, tratava-se da sua mulher e das suas empregadas mais graciosas –, desfilar com as suas roupas, ainda que no interior da sua maison, foi Worth.”
Poiret pensou numa nova perspetiva do conceito “desfile”, realizando-o de uma forma mais teatral em diversos locais, não só na própria casa como também
6 Coiffeur |cuàfêur| - (palavra francesa) - substantivo masculino: Cabeleireiro in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
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noutras cidades, tornando os desfiles em eventos dedicados à moda e à sua promoção.
“(…) o certo é que Paul Poiret deu à moda um
«impulso» teatral, ao organizar sumptuosas festas na sua casa de costura (…). De um dia para o outro, os trajes usados nas suas festas tornavam-se moda.
E foi esta nova dimensão que ele acrescentou à história: a exibição de manequins com modelos seus nos jardins de sua casa, nos hipódromos e mesmo em apresentações pela Europa e pelos Estados Unidos da América.” (Duarte, 2004, p.28) Saber a origem na história dos desfiles como os conhecemos hoje é algo que não é possível comprovar, tal como afirma Michetti (2012). Não é possível concluir como os desfiles de moda evoluíram até o formato dos desfiles que atualmente conhecemos, devido às inconstâncias e interrupções desses eventos, há controvérsias sobre seus históricos.
Segundo Gilbert (2006), foi em 1910 que existiu uma regularização dos primeiros desfiles de moda, com o estabelecimento da Câmara Sindical de Alta Costura Parisiense. Nos formatos atuais podemos assumir que as semanas internacionais foram iniciadas pelo Council of Fashion Designers of America, em Nova Iorque, em 1993 (posteriormente gerido pelo grupo MG); British Council, em Londres, em 1983; Camera Nazionale della Moda Italiana, em Milão; e Fédération française de la couture, em Paris (Rantisi, 2004; Godart, 2010; Michetti, 2012).
As semanas da moda mundiais são caracterizadas por dois desfiles anuais de modo, a apresentarem as coleções das estações Outono/Inverno e Primavera/Verão. No entanto há designers que apresentam coleções de meia estação que se caracterizam por coleção Resort ou Cruise.
Atualmente na semana de moda de Paris, considerada a principal semana da moda mundial, os designers permanentes são aqueles que o governo francês considera membros oficiais, os restantes estilistas que divulgam as duas coleções são convidados ocasionais. Neste contexto, podemos compreender que existe uma pré-seleção já pensada, não só em Paris, mas em muitas outras semanas da moda, existindo muitas vezes pouca abertura para os novos
Figura IV - Ilustrações de Paul Poiret
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talentos. Em Portugal temos plataformas para os novos designers como o
“Bloom” no Portugal Fashion e o “Sangue Novo” na Moda Lisboa.
Na atualidade existem centros urbanos que são reconhecidos pela sua produção de moda, como Paris, Milão, Londres e Nova Iorque, este reconhecimento está em grande parte ligado à institucionalização e ao sucesso das suas semanas da moda. Os desfiles de Paris sempre foram e continuam a ser foco de atenção no mundo da moda. A cidade é reconhecida por centralizar os principais designers da atualidade.
É fundamental compreender que estes eventos estão intimamente ligados à existência de um sistema eurocêntrico de moda e de toda a organização da Indústria Criativa da Moda. Considera-se que estes eventos são essenciais por variados motivos, entre eles:
- Regulação do calendário de produção das coleções de inverno e verão (Kontic, 2007, p.21), permitindo assim a renovação das tendências e a apresentação da narrativa dos criadores duas vezes ao ano, propiciando a promoção do trabalho dos estilistas tanto aos consumidores como aos meios de comunicação internacional;
- Garantir a contínua produção da Indústria Criativa da Moda e contínua promoção à carreira dos profissionais da área;
- As semanas de moda, como espaços sociais, têm um papel fundamental na promoção de contacto entre os diferentes agentes (estilistas, críticos de moda, compradores, estilistas, patrocinadores, influencers7, entre outros) permitindo a materialização da área da moda (Entwistle e Rocamora, 2006, p.
735, 736) e assim possibilitando a validação dos profissionais e suas produções.
Estes eventos são responsáveis em grande parte, pela legitimação da criatividade dos profissionais, valorização dos trabalhos e construção da reputação dentro da indústria (Kawamura, 2005);
7 “someone who affects or changes the way that other people behave, for example
through their use of social media” in: -
https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/influencer
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- Este tipo de eventos para além de potenciarem a produção da indústria, o reconhecimento da mesma e do próprio país, são responsáveis pelo fomento da cultura de consumo, atraindo turistas e tendo impacto no desenvolvimento econômico das cidades (Gilbert, 2006);
Para um criador de moda é fundamental a divulgação da marca e do seu trabalho à imprensa e potenciais clientes. Segundo especialistas da área da moda, é relevante o criador estar presente, de uma forma constante e ao longo de um determinado tempo, nos principais eventos de moda e feiras internacionais. Com objetivo, de ser visível para a imprensa e possíveis clientes , a solidez da marca, permitindo assim uma avaliação da sua evolução (Sorger &
Udale, 2006).
Segundo a missão da Moda Lisboa podemos compreender quais os principais objetivos deste tipo de eventos de moda:
• Apoiar, promover e incentivar a criação do vestuário de autor, com vista à sua integração e competitividade no mercado global;
• Potenciar a criação de competências criativas e empresariais dos criadores e das empresas, contribuindo para o desenvolvimento, sustentabilidade e competitividade da indústria da moda;
• Desenvolver ações que visem a criação de sistemas organizativos de divulgação, promoção e comercialização da indústria da moda nacional;
• Inscrever o país no mapa internacional da moda, enquanto país com grande capital criativo e capacidade de inovação.
Segundo Skov (2006,
Figura V - Desfile Outono/Inverno da Chanel, 2010, Paris
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surpreendeu os espectadores com a intervenção de teatralidade, colocando no Grand Palais, um iceberg de 265 toneladas do norte da Suécia. O objetivo aqui foi transcender a moda, surpreendendo com cenários originais onde o contributo do design e da criatividade se revelaram essenciais para tornar o evento memorável (Berridge, 2007)
2.2.