5. Revisão Bibliográfica, Discussões Conceituais e Definições
5.4. Classificações Conflitantes ou Complementares?
5.4.2. Eventos Extremos e Anomalias
Para suportar adequadamente as análises de variabilidade climática seriam necessárias longas séries de registros; entretanto, as mais antigas séries datam da virada do século XVII ao XVIII, o que evidencia limitações no estudo histórico do clima. Reconstruções do passado climático do planeta são possíveis com técnicas especiais, como análises de seções de árvores centenárias ou datação do decaimento de isótopos radioativos em bolhas de ar e poeira presas em gelo soterrado há milênios.
Esses registros climáticos permitiram o estabelecimento de séries históricas como base para o estudo moderno do clima. Valores médios de uma dada área de mensuração definem as normais climatológicas, estabelecidas pela OMM como períodos de 30 anos de dados contínuos compilados a partir do primeiro ano da década (AYOADE, 1996). No Brasil, contudo, há apenas dois períodos de normais completos (1931-1960 e 1961-1991) e um em curso, iniciado em 1991; com este conjunto de dados é possível apontar desvios nos valores médios, isto é, eles balizam as análises de variabilidade, fornecendo um quadro do ritmo climático em uma determinada área56. Deste modo, a partir desses dados médios são definidos os extremos e anomalias, os quais configuram desvios ao padrão habitual.
Anomalias são oscilações periódicas que interferem nos padrões meteorológicos habituais, como o El Niño; algumas anomalias, com o tempo, podem tornar-se um novo padrão; Hansen et al. (2012) demonstraram que o aumento na frequência de estações "quentes" é resultado do aquecimento global e recordaram de que os gases de efeito estufa são apontados como causa nos estudos relatados pelo IPCC (2007, 2014b); segundo os autores, essas afirmações são importantes porque permitem inferir que a área coberta por anomalias quentes continuará a aumentar nas próximas décadas e que valores ainda mais extremos deverão ocorrer. Os autores foram motivados a pesquisar a variabilidade sobre extremos nos Estados Unidos em virtude da falha na cobertura da mídia norte-americana, que não cogitou o aquecimento global como razão das fortes ondas de calor, da seca generalizada e dos intensos incêndios florestais. Após calcularem o desvio padrão
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para identificar anomalias sobre as temperaturas médias no verão em ambos os hemisférios, os autores identificaram um progressivo deslocamento da curva normal, para valores de desvio acima da média, significando mais verões com temperaturas acima dos valores médios (Figura 14).
Figura 14. Deslocamento da distribuição normal das anomalias de temperatura do verão no
Hemisfério Norte; no eixo vertical, a frequência de ocorrência local das anomalias de junho a agosto, relativas à média de 1951-1980; no eixo horizontal, o desvio padrão por unidade de área naquele
Hemisfério.
Fonte: Hansen et al., 2012.
Nota-se que a distribuição das anomalias no período-padrão (1951-1980) é compatível a curva de distribuição normal (em verde); esta curva é dividida pelos 33,3% de probabilidade de cada terço, definindo verões frescos em azul, típicos em branco, e quentes em vermelho; assim, nas últimas três décadas houve um deslocamento de apenas uma das partes, em vermelho, de modo que a frequência dos verões frescos e típicos diminuiu e os verões quentes e extremos, em vermelho- escuro, passaram a cobrir uma área maior.
Para os fins deste trabalho, eventos climáticos extremos são aqueles que se distanciam das condições habituais delineadas pelas normais climatológicas para o município. Pela infinitude de combinações entre fenômenos que influem no sistema climático, a utilização de valores médios no ajuste de sistemas sociais ao ambiente físico é superficial; a natureza nos recorda de que não é tão linearmente previsível.
Os eventos climáticos extremos figuram entre as principais causas deflagradoras de catástrofes naturais que atingem o homem, pois a forma como as sociedades têm se organizado desconsidera o ritmo e a variabilidade do sistema atmosférico, tomando como parâmetro apenas seu estado médio. Essas diretrizes refletem-se de maneira mais contumaz na organização do espaço urbano, onde as cidades estendem-se sobre bacias inundáveis e sobem os morros, aumentando fortemente a probabilidade de desastres relacionados aos fenômenos de tempo atmosférico. (VICENTE, 2005, p. 3)
O menor recorte cronológico contemplado nas normais são valores médios mensais, tal que registros de menor abrangência, como os diários, devem ser comparados aos mensais; assim, o comportamento térmico ou pluviométrico muito aquém ou além desses limites pode ser considerado extremo. Quanto maior for o período-base abarcado, mais diluídos na média serão esses extremos. Araki (2007) lembra que extremos podem atuar de forma direta ou indireta, de modo que a deflagração de transtornos nos sistemas sociais caracteriza o último caso; extremos de temperatura atuam tanto diretamente sobre os organismos como indiretamente, influenciando, por exemplo, na demanda por energia elétrica, em virtude da necessidade de resfriamento dos ambientes internos. Os registros independem de impactos associados aos fenômenos; isto é, ainda que um evento seja caracterizado como extremo, não necessariamente atinge sistemas sociais, situação que caracteriza um desastre, quando incorre em transtornos e perdas vitais e materiais. Neste sentido, Gutjahr (2007, p. 5) destaca o antropocentrismo do conceito e sua relação com a variabilidade natural, apontando que "um extremo climático é um distanciamento significante do estado normal do sistema climático, sem ligação com o impacto real na vida ou na ecologia do planeta".
Há outras ressalvas em relação ao estudo da variabilidade climática natural: os extremos registrados podem integrar mecanismos cíclicos maiores que as normais ou mesmo padrões internos a elas, não configurando anomalias, de sorte que "em algumas partes do mundo desastres climáticos ocorrem tão freqüentemente que podem até ser considerado normal [sic]" (GUTJAHR, 2007, s.p.). Existe a possibilidade de que determinados eventos recaiam dentro da normalidade dos parâmetros estatísticos, isto é, não sejam extremos nem anomalias, mas causem grandes transtornos, podendo configurar infortúnios e desastres. Isto se deve ao espalhamento horizontal das cidades e às alterações nos arranjos urbanos, que induzem a modificações na dinâmica local dos eventos; a capacidade dos objetos técnicos de absorver os impactos e o grau de vulnerabilidade das pessoas que vivem e circulam nesses espaços, determinarão se os eventos, extremos ou não, se transformarão em desastres. Isso depende não apenas de técnicas, planos e condutas de enfrentamento, mas também de uma cultura de prevenção (KOBIYAMA et al., 2006).