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5. Revisão Bibliográfica, Discussões Conceituais e Definições

5.4. Classificações Conflitantes ou Complementares?

5.4.3. Ondas de Calor

Para o CPTEC e o Inmet57 uma onda de calor é um "período de tempo desconfortável e excessivamente quente. Pode durar vários dias ou várias semanas"; o Inmet cita o The Weather Channel (sem explicar a menção), segundo o qual "a temperatura deve estar acima de 90F (32ºC) em pelo menos 10 estados e, ao menos, cinco graus acima do normal em partes daquela área durante pelo menos dois dias, ou mais". Para a Redemet, uma onda de calor é um "período de tempo excessivamente quente, resultando em desconforto ou danos à saúde. Pode durar vários dias ou várias semanas. Ocorre em áreas extensas, em escala sinótica"; o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (Ipma)58 usa a definição da OMM59: "ocorre uma onda de calor quando num período de 6 dias consecutivos, a temperatura máxima do ar é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias no período de referência (1961-1990)", mas as limitações da definição formal são alvo de prudente ponderação:

De realçar, no entanto, que esta definição está mais relacionada com o estudo e análise da variabilidade climática (em termos de tendências) do que propriamente com os impactos na saúde pública de temperaturas extremas que possam observar-se num período mais curto. Por exemplo, a ocorrência de 3 dias em que a temperatura seja 10°C acima da média terá certamente mais impacto na saúde que 7 dias com temperatura 5°C acima da média.

No site da OMM, uma definição mais geral pontua que uma onda de calor é definida pelo "notável aquecimento do ar, ou a invasão de ar muito quente, sobre uma ampla área; normalmente persiste por alguns dias ou algumas semanas"60.

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Inmet - Glossário. Disponível em: <http://bit.ly/1MsFYHm> e Inpe - Glossário. Disponível em: <http://bit.ly/1JqNl0X>. Acessos em 04.09.2014.

58

Portugal é um dos países europeus que esteve sob intensas ondas de calor nos últimos anos: em 2013, classificado pela OMM como o 6º ano mais quente da história, o país teve duas ondas entre junho e julho, vitimando quase 1.700 pessoas; anteriormente, em 2003, foram registrados 1.953 óbitos, em 1991 foram 1.000 e em 1981, primeira das ondas recentes mais significativas, foram 1.900 pessoas. BORJA-SANTOS, R. Onda de calor no verão fez quase 1.700 mortos em Portugal. Público. (04.11.2013). Disponível em: <http://bit.ly/1JMleFm>. Acesso em 01.08.2014.

VISÃO. 2014 pode ser ainda mais quente que o ano passado. (05.02.2014). Disponível em: <http://bit.ly/1HWiozy>. Acesso em 01.08.2014.

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OMM ou WMO (World Meteorological Organization).

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Traduzido da plataforma Meteoterm, disponível no site da OMM: "Marked warming of the air, or the invasion of very warm air, over a large area; it usually lasts from a few days to a few weeks." [fonte: International Meteorological Vocabulary, WMO - nº. 182].

O EM-DAT classifica onda de calor como um desastre natural climatológico do subtipo de temperaturas extremas, exemplificando o evento de 2003: "a heat wave is a prolonged period of excessively hot and sometimes also humid weather relative to normal climate patterns of a certain region. Heat waves like in Central Europe 2003". Para Allaby (2007), "a heat wave is a period of at least one day, but more usually lasting several days or weeks, during which the weather is unusually hot for the time of year. Blocking is often the cause of heat waves in middle latitudes" e a National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) considera como "a period of abnormally and uncomfortably hot and unusually humid weather. Typically a heat wave lasts two or more days" – provavelmente a fonte utilizada pelo CPTEC e o Inmet.

O governo indiano usa mais critérios, distinguindo entre áreas de planície, costeiras e montanhosas e especificando uma série de condições para a definição de extremos de temperatura no país; por ser um país tropical e sujeito ao regime de monções, a Índia também tem população melhor adaptada ao calor intenso; entretanto, em razão de sua alta densidade populacional61, quando ocorrem ondas de calor, os registros de óbitos decorrentes são vultosos. O Departamento Meteorológico indiano usa a definição de "dia quente"62 para dias em que a temperatura foi alta, mas não o suficiente para caracterizar uma onda de calor, o que exige a persistência da anomalia:

Heat wave need not be considered till maximum temperature of a station reaches at least 40ºC for plains and at least 30ºC for hilly regions. When actual maximum temperature remains 45ºC or more irrespective of normal maximum temperature, heat wave should be declared. In the northern plains of the country, dust in suspension occurs in many years for several days, bringing minimum temperature much higher than normal and keeping the maximum temperature around or slightly above normal. Sometimes increase in humidity also adds to this discomfort. Nights do not get cooled and become uncomfortable. To cover this situation, hot day concept has been introduced. Whenever the maximum temperature remains 40ºC or more and minimum temperature is 5ºC or more above normal, it may be defined as Hot Day, provided it is not satisfying the heat wave criteria given above.

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A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, com quase 1,2 bilhão de habitantes. Fonte: Worldometers. Disponível em: <http://bit.ly/1D6Z7we>. Acesso em 20.11.2014.

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Glossário disponível no Departamento Meteorológico da Índia: <http://bit.ly/1IMmkom>. Acesso em 05.08.2014. No glossário são detalhadas as condições de partida para que o registro da estação seja considerado como "dia quente" – que contabiliza a temperatura mínima diária como referência – ou "onda de calor severa" – que usa 40ºC como base para definir entre 5ºC e 7ºC de variação, conforme o valor de referência mensurado na estação.

Em outros dicionários ou enciclopédias de ciências atmosféricas sequer há menção de ondas de calor (ou heat waves), a saber: Maunder (1994), Holton et al., (2003) – esse, uma enciclopédia com 6 volumes – Oliver (2005) e Graffon et al. (2012). Cumpre lembrar que o termo Indian Summer, que em nações de língua inglesa é também usado, também foi procurado, não constando em nenhuma dessas obras.

Castro (2003) fornece uma explicação possível para a formação de ondas de calor: "originam-se quando frentes de alta pressão, formadas em regiões quentes, áridas ou semi-áridas, deslocam-se, invadindo regiões de climas mais amenos, onde se estabilizam por alguns dias", definindo um bloqueio atmosférico ao avanço de outras frentes. O fenômeno atinge mais fortemente o Hemisfério Norte, em razão de sua ampla massa continental (2/3 das terras emersas do planeta), que acentua extremos de temperatura positiva e negativa em função das diferenças físicas de calor específico entre os materiais componentes da litosfera e oceano. Um parêntese sobre a obra de Castro: Antônio Luiz Coimbra de Castro63 foi general das forças armadas, falecido em 2004. Seu esforço de catalogação dos desastres em nível nacional sem precedentes no País rendeu-lhe posição de referência, sendo idealizador da Política Nacional de Defesa Civil. Tratou-se de louvável empreendimento técnico; entretanto, tendo por base o conhecimento empírico afixado pelo general, pode-se dizer que seus trabalhos carecem de aportes científicos – o que se aplica às documentações técnicas atuais da Defesa Civil neles embasadas sem suporte científico.

Ayoade (1996) aponta que a temperatura média no verão do Hemisfério Norte é de 22,4ºC e no Sul, 17,1ºC, enquanto no inverno, a temperatura média no Hemisfério Sul é de 9,7ºC e no Norte, 8,1ºC, ou seja, do lado de lá os invernos são mais frios e os verões mais quentes. Como a maior parte das terras emersas do Hemisfério Norte está além da faixa intertropical, entre as médias e altas latitudes, o padrão climático geral é mais variável em torno das temperaturas mais baixas ao longo do ano, sendo que oscilações próximas a extremos mais altos são mais nocivas aos seus habitantes, não aclimatizados ao calor intenso.

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Defesa Civil. Dr. Antônio Luiz Coimbra de Castro. Disponível em: <http://bit.ly/1h7ltUz>. Acesso em: 12.06.2015.

A associação de ondas de calor com baixa umidade relativa do ar pode induzir ao aumento das ocorrências de incêndios florestais, de doenças respiratórias, estresse hídrico de culturas e interrupções no fornecimento de energia. Quando esses períodos quentes e secos ocorrem durante estações predominantemente úmidas ou mais frias – notadamente nas porções meridionais do País – ocorre o fenômeno denominado "veranico". Os franceses utilizam o termo

canicule64 para designar essas ondas, que no evento de 2003 levaram a óbito cerca de 15 mil pessoas no país65. Segundo Castro (2003), crianças, idosos, portadores de afecções cardiorrespiratórias e estrangeiros pouco adaptados às condições climáticas tropicais são mais afetados pelos efeitos adversos; o autor menciona a onda de calor norte-americana no verão de 1995, episódio no qual "morreram mais de 700 pessoas" (CASTRO, 2003, p. 38) em cidades da Geórgia, Kansas, em Chicago, Nova Iorque e Filadélfia. A OMM cita em suas publicações nº. 1.119 (WMO, 2013) e nº. 1.123 (WMO, 2014) outros eventos:

Two severe heatwaves in India in 2002 and 2003, which each killed over 1.000 people; the 2003 summer heatwave over much of Europe, which caused more than 66.000 deaths; and the exceptionally intense and long- lasting heatwave that struck the Russian Federation in July/August 2010, causing over 55.000 deaths.

Durante a feitura deste trabalho os países do centro-leste europeu passavam por uma onda de calor com potencial para ser uma das piores já registradas. Alguns meses antes, em maio de 2015, mais de 1.100 indianos morreram em decorrência de uma onda de calor no sudeste do país66. Contrapondo o caso indiano, onde apenas 400 milhões de habitantes (1/3 de 1,2 bilhão) têm acesso à eletricidade para tentar enfrentar o calor, e o exemplo europeu, onde os países bem providos de infraestruturas estavam no nível mais alto de emergência nacional de seus respectivos planos de enfrentamento, questiona-se: estamos preparados?

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Embora faltem fontes sobre a origem da palavra, atribuem-na ao latim caniculares dies, advindo da crença romana de que a estrela Sirius, conhecida como "estrela canina", somava-se ao calor recebido do Sol (ALLABY, 2007, p. 543), tendo passado primeiro pelo vernáculo italiano (canicula), significando "pequeno cão", que seria relacionada à trajetória do disco solar cruzando as imediações da constelação Canis Minor. Os portugueses também utilizam canícula, ou tempo de canícula, expressão que seria traduzida para o português brasileiro como "calor do cão" – mesmo figurativamente talvez represente bem o que significa experimentar um dia de calor infernal...

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République Française. Plan National Canicule. 2014. Disponível em: <http://bit.ly/1HWhxia>. Acesso em: 03.09.2014.

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SINGH, H. S. Heat wave kills more than 1,100 in India. CNN. (28.05.2015). Disponível em: <http://cnn.it/1LOBZUS>. Acesso em 01.06.2015.

O exemplo indiano nos mostra que a questão de aclimatização tropical da população não é suficiente para livrá-la dos efeitos das ondas de calor. É importante lembrar que o fato de se estar acostumado a um determinado regime climático não torna alguém mais ou menos humano; isto é, a homeostase corporal ainda nos unifica enquanto espécie, impondo-nos limites à sobrevivência em qualquer lugar do mundo. Estaríamos diante da constatação da nossa incapacidade de gerenciar risco e desastre? Se não se pode evitar as ondas de calor, como pensar no enfrentamento coletivo desse tipo de evento? Por que as inundações – e agora as secas, incluídas nas preocupações governamentais depois do evento de 2013/2014 no sudeste paulista – são tratadas como problemas de segurança e saúde pública, mas os extremos de temperatura são relegados às medidas combativas restritas às ações de cada um? Induzir transformações nos espaços urbanos com a prática de princípios sustentáveis pode alterar atual padrão em que se prioriza o enfrentamento individual dos efeitos?

O fato de que grande parte das terras do Brasil distribui-se na faixa intertropical colabora na aclimatização de seus habitantes a condições mais cálidas, ampliando sua resistência aos extremos de temperatura mais alta, como afirma Castro (2003). Em razão do alto gradiente de pressão na faixa de transição climática próxima aos 30º de latitude (AYOADE, 1996), representada pelo Trópico de Capricórnio, pouco mais ao sul de Campinas, rumo à capital do estado, o município tem importante contribuição das contínuas correntes de vento decorrentes para amenizar os dias mais quentes, mas essas correntes são influenciadas e até suprimidas por fatores intra-urbanos (TAVARES, 1974). A calmaria predominante sob altas temperaturas eleva o desconforto térmico, mas é preciso ressalvar que a temperatura é um dos elementos que influenciam no conforto humano, "determinado mais pela umidade que pela temperatura" (AYOADE, 1996, p. 59).

Precisar um conceito para onda de calor não parece factível diante das particularidades de cada lugar; por mais que mecanismos atmosféricos de grande escala definam a circulação no panorama geral, a atuação de centros de pressão regionais e a influência do albedo67 e das rugosidades68 na escala local atribuem

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Segundo o Inpe, o albedo é dado pela razão entre a quantidade de radiação refletida pela superfície da Terra e a radiação proveniente do Sol.

uma minúcia distintiva a este fenômeno, que pode ser sentido diferentemente em cada lugar, por cada pessoa. Assim, considera-se (arbitrariamente, até certo ponto) que no caso campineiro, três dias sob calor intenso é suficiente para definir uma onda de calor.

Deste modo, para os fins deste trabalho definiu-se que uma onda de calor em Campinas é caracterizada se, pelo menos, por três dias seguidos a temperatura média máxima esteve ao menos 5ºC acima do esperado médio para o período – em consonância com o estipulado na Cobrade.