Capítulo 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.3. EVENTUAIS CONSEQUÊNCIAS ECONÓMICAS DE UMA
O Banco Mundial (2006), perspectivando a economia mundial afirma que “... mesmo a ocorrência de um surto de gripe sazonal, pelo seu grau de propagação e sua taxa de mortalidade poderá ter consequências pesadas para a economia global se a população tiver uma imunidade limitada”. Segundo as estimativas da OMS, uma pandemia gripal, poderá afectar até 35% da população, podendo propagar-se a todo o
planeta em menos de 10 dias. Comparada com uma gripe sazonal, que acarreta a morte de 0,2 a 1,5 milhões de pessoas (OMS, 2003)1, os óbitos consequentes a um novo surto de gripe, mesmo benigna poderiam incluir 1,4 milhões de pessoas a mais, a nível mundial. Uma forma mais virulenta, idêntica à da gripe de 1918-1919, caracterizada por ser mais mortal para os adultos do que uma gripe sazonal, poderia ter consequências mais graves, matando uma pessoa por cada 40 infectadas (Barry, 2005), ou seja aproximadamente 71 milhões. Alguns autores estimam que a doença poderia dizimar 180 a 260 milhões de pessoas num cenário pessimista (Osterholm, 2005).
A Tabela 2.10., apresenta os resultados de três simulações distintas das consequências económicas de uma pandemia (McKibbin e Sidorenko, 2006). O primeiro cenário (gripe de nível ligeiro) é inspirado na gripe de Hong Kong de 1968- 1969; o cenário moderado apresenta o caso de uma gripe nas mesmas características que a gripe asiática de 1957; e o cenário mais grave é baseado sobre a gripe espanhola de 1918-1919. Cada um destes cenários parte do principio que os esforços desenvolvidos pelos particulares e os organismos públicos para limitar a propagação da doença não são mais eficazes que aqueles que foram observados nas epidemias precedentes e traduzem as diferenças em matéria de densidade da população, de pobreza e de qualidade de cuidados de saúde disponíveis.
Ligeiro Moderado Grave
Mundo -0,7 -2 -4,8
Países de rendimento elevado -0,7 -2 -4,7 Países em desenvolvimento -0,6 -2,1 -5,3 Ásia de Este e Pacifico -0,8 -3,5 -8,7 Europa e Ásia Central -2,1 -4,8 -9,9 Médio Oriente e África do Norte -0,7 -2,8 -7 Ásia do Sul -0,6 -2,1 -4,9 Óbitos (milhões) 1,4 14,2 71,1
Fonte: Estimativas do Banco Mundial a partir dos dados de McKibbin e Sidorenko (2006)
Tabela 2.10. Impacto económico potencial de uma pandemia de gripe aviária
(% de variação do PIB)
1A Organização Mundial de Saúde (2003) estima o número de mortos entre 200.000 e 500.000 por ano.
Osterholm (2005) faz referência a um número mais elevado, situado entre 1 milhão e 1,5 milhões de mortos por ano, a nível mundial, em consequência das infecções gripais ou das complicações conexas, o que a torna na terceira doença infecciosa mais mortal após a sida e a tuberculose, mas antes do paludismo.
Para o mundo considerado no seu conjunto, uma pandemia de nível ligeiro reduziria a produção em menos de 1% do PIB, um ataque moderado mais de 2% e uma pandemia grave aproximadamente 5%, o que constituiria uma recessão maior à escala mundial. Em regra geral, os países em desenvolvimento seriam os mais afectados, em consequências das fortes densidades populacionais, da pobreza e de infra-estruturas de saúde mais enfraquecidas.
A Tabela 2.11., apresenta a modelização da pandemia, elaborada pelo Banco Mundial em 2006. Fundamenta-se numa pandemia similar, em termos de mortalidade, à pandemia da gripe asiática de 1958. Este cenário visa, fazer compreender os factores determinantes dos resultados globais nas simulações. A primeira coluna mostra a incidência em termos de perda de PIB no primeiro ano da pandemia, imputável puramente às mortes suplementares (o número aqui é similar ao descrito no cenário grave de McKibbin e Sidorenko, 2006). A segunda coluna introduz a incidência sobre a produtividade global imputável à infecção de 35% da população. Se bem que as pessoas afectadas só estejam temporariamente indisponíveis para o trabalho, o Banco Mundial, estima que a incidência sobre a produção seja cerca de duas vezes superior à incidência das mortes, porque a população afectada é consideravelmente mais numerosa. A terceira coluna apresenta a incidência mais importante.
Parte-se aqui do principio que face à pandemia, a população modifica o seu comportamento, limitando as viagens aéreas, ou evitando os destinos afectados, reduzindo o número de serviços, tais como refeições em restaurantes, o turismo, os transportes comuns e o consumo de produtos não essenciais.
Neste cenário, supõe-se que no conjunto do ano as viagens aéreas diminuam 20% e que o turismo e a restauração e a utilização dos serviços de transporte em comum diminuam igualmente 20%.
Estas ordens de grandeza são de comparar à queda vertiginosa de 75% das viagens aéreas com destino a Hong Kong durante a epidemia de SARS e uma baixa de 50% a 60% em média durante os quatro meses em que a epidemia esteve activa. O comércio retalhista caiu 15% no pico da epidemia e perto de 9% no período de quatro meses, o que implica uma baixa na ordem dos 15%, tendo em consideração a tendência (Siu e Wong, 2004).
No total, a incidência de um choque combinado de todos estes elementos é de 3,1% para a economia mundial, e situa-se entre os 4,4% para a região da América Latina e Caraíbas e 2,6% para Ásia de Este e Pacífico. Este resultado traduz a
importância relativa e a intensidade da mão de obra do turismo e de outros serviços em cada região.
Segundo os autores, os resultados tentaram ter em conta as possibilidades que os efeitos económicos de uma pandemia sejam os mais marcados nos países de onde provem o vírus de transmissão inter humana; o principal factor neste contexto é constituído pelos esforços públicos desenvolvidos para isolar e conter a doença, evitando viajar e impondo algumas medidas de quarentena. Assume-se que a possibilidade e o carácter definitivo de uma pandemia são muito incertos. Elas dão um sentido de amplitude global dos custos potenciais. É fortemente provável que os custos reais, em termos tanto de vidas humanas como de perdas económicas sejam diferentes.
Factores de impacto TOTAL
Mortalidade (a) Doença e absentismo (b) Esforços p/ evitar a infecção (c) Total (USD 106) (% do PIB) Mundo -0,4 -0,9 -1,9 -3,1 -965,4 Países de rendimento elevado -0,3 -0,9 -1,8 -3 -744,9 Países de rendimento fraco/intermédio -0,6 -0,9 -2,1 -3,6 -220,4 Ásia de Este e Pacifico -0,7 -0,7 -1,2 -2,6 -44,8 Europa e Ásia Central -0,4 -0,7 -2,3 -3,4 -21,7 América latina e Caraíbas -0,5 -0,9 -2,9 -4,4 -87,3 Médio Oriente e África do Norte -0,7 -1,2 -1,8 -3,7 -32,2 Ásia do Sul -0,6 -0,8 -2,2 -3,6 -22,7 África Subsariana -0,6 -0,9 -2,2 -3,7 -11,8
Notas:
a) A hipótese abordada é o de uma pandemia similar á gripe asiática de 1958: á escala mundial matou 1,08% da população; ao nível regional, as taxas de mortalidade oscilaram entre os 0,3% nos Estados Unidos e mais de 2% em alguns países em desenvolvimento
b) As hipóteses abordadas são as seguintes: a cada óbito corresponde três casos graves, necessitando de um hospitalização de uma semana e um restabelecimento da doença de duas semanas, e quatro casos necessitando de um tratamento médico e de um restabelecimento de uma semana, para 27 % da população, o episódio gripal é moderado e necessita de dois dias de restabelecimento da doença; por outro, por cada restabelecimento de doença incluídos nesta hipótese é preciso contar com um outro dia de ausência para tratamento do seu familiar.
c) O modelo inclui uma quebra na procura relacionada com a redução das deslocações, refeições em restaurantes, permanências em hotéis, actividades turísticas ou saídas aos cinemas ou aos teatros, para evitar ao máximo os contactos.
Fonte: Banco Mundial, Perspectivas para a economia mundial, 2006.
As simulações permitem sublinhar que é importante mobilizar os esforços a nível mundial para fazer face a esta crise potencial. A vigilância da transmissão entre humanos, entre as aves e os humanos e a eliminação das aves infectadas parecem constituir estratégias eficazes para reduzir a transmissão das aves para o homem e para limitar os riscos da mutação numa forma facilmente transmissível ao homem. O facto de nenhum caso com gripe aviaria ter sido assinalado no Vietname durante a época de 2005-2006, sugere que tais acções de prevenção podem ser eficazes.
Contudo, e apesar de tais acções, uma eventual pandemia humana, num momento imprevisível de aparecimento é praticamente inevitável (OMS, 2004).
É um dado certo, que uma tal pandemia se propagará rapidamente, deste modo, torna-se necessário operacionalizar recursos consideráveis para elaborar as estratégias eficazes e os dispositivos de intervenção para serem activados num breve espaço de tempo.
Segundo as estimativas do Oxford Economic Forecasting Group (2007) em consequência do surto de SARS, Singapura pagou um tributo elevado, com uma perda de 9% da sua riqueza nacional. Entre as quedas das actividades turísticas, os meios relacionados coma exportação e o consumo, Hong Kong e a China perderam respectivamente 12 e 17,9 milhões de dólares. No sector da diversão, o vírus propaga-se a grande velocidade. No pico da crise de SARS na Ásia, cada milhar de novos casos de infecção, reduziram a turismo em cerca de 20% e o PIB em 0,2%. Nestas condições, os resultados das companhias aéreas tendem rapidamente para zero, e a economia entra em recessão. A província de Ontário, igualmente afectada em 2003, estima em 2 milhões de dólares canadianos (1,4 milhões de Euros) as suas perdas no sector do turismo.
O escritório canadiano de estudos financeiros BMO Nesguit Burns avança com uma taxa de absentismo de 25% se uma pandemia ocorrer no continente americano, (L’Expansion, 26/10/2005).
No âmbito da prevenção e controlo da doença provocada pelo vírus da gripe aviária, o planeamento das acções a desenvolver é de fulcral importância para fazer face às previsíveis consequências económicas devastadoras. A elaboração de um plano de contingência, com a finalidade de possibilitar, de forma abrangente, organizada e eficiente, que cada nação, região ou instituição se prepare para a resposta a um alerta pandémico, e que responda com eficácia à sua eclosão, torna-se, então uma prioridade.