FEIÇÕES DEPOSICIONAIS COM SIGNIFICADO GEOMORFOLÓGICO.
3.5. NEOTECTÔNICA E OS ESTUDOS GEOMORFOLÓGICOS
3.5.1. EVIDENCIAS NEOTECTÔNICAS NO MODELADO DO RELEVO.
As alterações neotectônicas ocorridas no relevo podem abranger vários processos diretos e associados a esses movimentos que causam alterações na conformação do relevo.
Dessa forma, um dos principais entraves aos estudos das formas/processos relacionados à neotectônica vinculam-se as dificuldades de distinção entre os eventos neotectônicos e os tectônicos mais antigos. Assim, o que proporcionaria uma maior
possibilidade de obtenção de uma resposta positiva aos eventos neotectônicos, seria a verificação de tais movimentos em camadas rochosas mais jovens.
Outros problemas a serem levados em conta, seriam àqueles referentes à distinção entre a geração de relevos deposicionais vinculados a tectônicos ou por eventos climáticos ou até mesmo pela atuação de ambos.
GOY et. al. (1991) propõe em seu modelo de mapa morfotectônico uma divisão das anomalias geomorfológicas, indicadoras da ação neotectônica em cinco grupos temáticos, vinculados: à escarpas de falha e lineamento; depósitos superficiais
deformados; interflúvios e vertentes; rede de drenagem; e disposição
geométrica/espacial dos depósitos superficiais (figura 18).
Figura 18- Feições Morfotectônicas, adaptado de BURBANK & ANDERSON(2001).
Em associação aos eventos diretos provocados pela atuação da neotectônica têm-se várias feições geomorfológicas, tabela V.
Tabela V – Feições geomorfológicas provocadas por eventos neotectônicos diretos.
FEIÇÕES MORFOLÓGICAS AUTOR(ES)
Shutter ridge COTTON 1948
Escarpas WALLACE,1978;STEWART &
HANCOCK,1990,1991;STEWART,1996 Facetas triangulares e trapezoidais WALLACE, 1978 Mudanças em superfícies de erosão
MELO et. al. 1993; CAMPANHA et. al., 1994; SANT’ANNA et. al.,1997
.
Os colúvios também podem ser elementos viáveis à avaliação de ocorrência de movimentos tectônicos, pois, a partir de tais movimentos podem ocorrem eventos formadores de depósitos coluvionares. AMIT et. al. (1995) esclarece que unidades coluvionares são formadas em resposta à agitações topográficas criadas por falhamentos, podendo assim, serem usados para distinguir eventos tectônicos. Contudo a estratigrafia dos depósitos próximos da escarpa são muito complexas, devido: a diversidade de padrões da superfície de ruptura; a fragmentariedade dos depósitos e seu truncamento com depósitos de outras origens; a insuficiência de informações sobre os processos e estratigrafia dos colúvios e a pouca relação com eventos não tectônicos de coluviação.
NELSON (1992) em seu trabalho sobre os terremotos utiliza os depósitos coluviais como referência à magnitude e freqüência dos tremores passados.
TURNER e MAKHALOUF (2002) estudando colúvios observaram a interdigitação de eventos coluviais climáticos e tectônicos, onde, o material coluvial formado por neotectônica apresentaria um modelado deposicional, similar ao de avalanches de frentes rochosas, o que acaba dificultando sua identificação devido à variedade de elementos em comum com os elementos climáticos. Para os autores op.cit. a formação
merece grande significado como indicadores geológicos dos processos coluviais tectônicos.
Sendo assim, não se pode descartar a possibilidade de avaliar a formação dos materiais colúviais apresentados na bacia do ribeirão dos Poncianos, de estarem associados a processos tectônicos, sendo a área de estudo uma localidade com certa instabilidade tectônica, como vimos anteriormente.
Outros exemplos de unidades da paisagem sensíveis a tectonismo seria aquelas relacionadas à rede de drenagem, podendo esta, preservar importantes indícios tectônicos como pode ser analisado nos dados contidos na tabela VI.
Tabela VI-Feições tectônicas associadas à drenagem.
FEIÇÕES MORFOLÓGICAS AUTOR (ES)
Migração do canal, e variações na espessura dos sedimentos aluviais.
KRZYSZOWSKI & STACHURA, 1993
Deformação do terraço MELO et. al.,1990
Captura de drenagem BIANCOTTI, 1979
Formação de lagos COTTON, 1948
Anomalias de densidade de Drenagem DEFFONTAINES, 1991; DEROIN e DEFFONTAINES, 1995.
Anomalias no perfil longitudinal do curso e na relação declividade/extensão do curso
BURNETT e SCHUMM (1983) e ETCHEBEHERE (2000)
SUGUIO (2001) discute alguns modelos que têm norteado as interpretações de diversos pesquisadores em trabalhos de campo. Entre os modelos mais utilizados estão as feições de relevo em compartimentos deformados por falhas, como àqueles encontrados no setor de contato entre o “gráben” do Médio Curso do Paraíba do Sul e Serra do Mar.
Segundo o autor (op. cit.), a escarpa de falha constitui-se numa das manifestações superficiais de falhas que afetam uma região, podendo desencadear anomalias de relevo, sendo que, em seguida a movimentação da falha a superfície do terreno submetida aos processos erosivos, resulta, na desconfiguração da forma original, principalmente em ambientes quentes e úmidos.
Outros exemplos de processos de alterações morfológicas provenientes de eventos tectônicos podem ser observados nos trabalhos de OLLIER (1981) VERSTAPPEN (1983), COOKE & DOORNKAMP (1990) e BURBANK e ANDERSON (2001).
Quanto aos estudos voltados à temática da neotectônica no Brasil, trabalhos como os realizados por SAADI(1992), e também por RICCOMINI e ASSUNÇÃO (1999), fazem um apanhado sobre os modelos e elementos relacionados aos processos neotectônicos encontrados no território brasileiro durante o período o Quaternário. RICCOMINI e ASSUNÇÃO (1999), nos últimos concluem que, quase todas as províncias geológicas do território nacional apresentam evidências de tais processos durante o período e mais particularmente no Holoceno.
Pode-se ainda, citar alguns dos trabalhos que foram realizados na região sudeste que fazem referência a tais processos;
SALVADOR e RICCOMINI (1995), na análise do Alto Estrutural de Queluz, utilizaram vários métodos: estratigrafia, análise estrutural, interpretação de mapas morfométricos e dados de campo, com o objetivo de caracterizar elementos da atuação da tectônica na área. Através desse conjunto de procedimentos puderam atribuir tais significados ao modelado ali observado.
HIRUMA (1999) em sua pesquisa sobre o Planalto de Campos do Jordão, emprega técnicas morfométricas aplicadas à identificação de eventos anômalos que denotem a ação de neotectônica. O autor divide o planalto em compartimento onde, a atuação da tectônica seria mais proeminente, além do possível atrelamento dessas anomalias na ocorrência de depósitos.
SANTOS (1999), no estudo sobre a bacia de Aiuruoca, a partir das feições da rede de drenagem, feições geomorfológicas e de levantamento dos depósitos sedimentares localizados na bacia comprova a neotectônica atuante na região.
GONTIJO (1999), voltando-se para o mesmo panorama, identifica anomalias provocadas por eventos neotectônicos na região da Serra da Bocaina (SP/RJ), onde se utilizam de parâmetros geomorfológicos, geológicos e morfométricos para identificar eventos neotectônicos naquela área.
ETCHEBEHERE (2000), em seu trabalho sobre o rio do Peixe, trabalhando com índices morfométricos sobre a drenagem e análise estratigráfica, dentre outros métodos, comprovou a atuação da tectônica na alteração da drenagem.
BISTRICHI (2001) utilizou-se dos mesmos índices morfométricos de ETCHEBEHERE (2000), que também caracterizou o desempenho da tectônica no controle da drenagem na região de Atibaia-Bragança Paulista.
Os trabalhos realizados por MISSURA (2003) utilizando esses mesmos índices morfométricos, comprovaram o controle de certos setores da drenagem do Maciço Alcalino do Passa Quatro e a atuação de tais controles nos processos de sedimentação que ocorrem na área.
DORANTI (2004) utilizou-se das mesmas técnicas na área do planalto de Monte Verde, e observou alguns processos de alteração na drenagem influenciada pelo controle tectônico influente na paisagem.
Muitas são as possibilidades de se obter elementos que comprovam a atuação da neotectônica na formação de processos deposicionais, devido a este motivo, se atribui uma grande importância aos efeitos que estes eventos proporcionam. No capítulo sobre técnicas, algumas delas, que são utilizadas nesta pesquisa e buscam elementos sobre a atuação desses fenômenos, serão melhores explicadas.