Se de início as plantações tinham formato de produção para subsistência, com o tempo, o melhor conhecimento do solo, do clima, das variedades de cultivo adaptados a região, fez com que a produção fosse aumentando. Em 1900, através do incentivo do governo do estado, no desenvolvimento da lavoura tritícola, incrementou-se o cultivo de frutas de clima temperado, como a uva, o marmelo, a maçã e a pêra. Nessa época, também, destaca-se o extrativismo, através das madeireiras, e as manufaturas paralelas a ela, que se desenvolveram (HERÉDIA, 1997).
Com a implantação das vinhas, o progresso da viticultura caracterizou a economia local, como fonte de lucros, perpassando o consumo doméstico para se caracterizar como uma das principais culturas permanentes da região e como principal produto comercial. (HERÉDIA, 1997, p. 56)
No plano social, do espaço rural, a figura predominante é o agricultor, que possui o conhecimento da terra, da plantação à colheita e desenvolve na grande maioria das vezes seu trabalho utilizando a mão de obra familiar, muitas vezes também se dedica ao artesanato, mas como atividade complementar. No espaço urbano, as figuras principais serão o artesão, o
operário e o comerciante. O artesão estará envolvido com atividades de suporte ao desenvolvimento da agricultura ou desenvolvendo trabalhos de consertos de máquinas e carroças. O operariado, composto por agricultores expulsos da terra, estará como mão de obra disponível aos mais diversos ofícios, já na segunda década da cidade. O comerciante, figura emblemática no processo de desenvolvimento econômico, comporá a classe dirigente e influenciara os rumos econômicos e políticos, em várias administrações, através da defesa de seus interesses.
Os comerciantes de vila, tiveram grande participação no desenvolvimento econômico nos primórdios da cidade, eram eles que recebiam os excedentes dos agricultores e trocavam por outros produtos úteis a estes. O comerciante juntava a produção da colônia e a revendia nas aglomerações urbanas que se formavam.
A acumulação gerada tornou possível aplicar parte do capital comercial no financeiro, formando assim as primeiras Casas de Comércio, centralizando ainda mais o capital no comerciante, que já detinha poder na produção, por causa do transporte e, em parte, também pelo crédito, se tornando ainda mais senhor do mercado (HERÉDIA, 1998).
Nas Casas de Comércio recebia-se a produção agrícola, que era estocada e revendida em épocas vantajosas, dando pequenos juros aos produtores. A acumulação gerada permitiu a diversificação da aplicação: dos produtos hortifrutigranjeiros, as inversões passaram para o vinho e depois para a indústria. O capital comercial sustentou a formação e aumento da produção industrial (HERÉDIA, 1998).
Fonte: Vista parcial da zona urbana de Caxias do Sul, Fotógrafo: Domingos Mancuso, 1910, Acervo AHMJSA. A forma de urbanização realizada em Caxias do Sul, como a representada na fotografia de Domingo Mancuso acima, obedecia ao traçado xadrez original
O estabelecimento da estação férrea, em 191023, com a consequente elevação da vila Santa Tereza de Caxias a categoria de cidade e a chegada da luz, em 1913, impulsionaram a industrialização, que terá como maior influenciadora, em princípios, a indústria alimentícia, a do vestuário e, posteriormente, a metalúrgica.
Na primeira metade do século XX, três eventos marcantes alteraram a divisão internacional do trabalho: a 1º Guerra Mundial (1914-1918), a Crise de 29 (iniciada em 1929, mas em muitos países, não resolvida até o início da 2º Guerra Mundial) e a 2º Guerra Mundial (1939-1945). Até então, poucas condições havia para o desenvolvimento da indústria nacional, o que fortalecia a tese da vocação agrícola do Brasil. Porém, com esses eventos, a dificuldade de produção e exportação dos países desenvolvidos para o abastecimento do mercado brasileiro deu condições para o fortalecimento da indústria local, dando fôlego para a industrialização de substituição de importações.
Conforme Herédia (1992), a industrialização da zona colonial italiana não surgiu apenas como resposta a substituição às importações, se dá antes de 1930, como uma “extensão da agricultura local”
Os primeiros setores a se desenvolver foram a indústria alimentícia (os moinhos, as cantinas) e a indústria extrativa (madeira). A partir das necessidades de aperfeiçoar a produção agrícola, foram produzidos artefatos manufaturados que abasteceram o mercado local, o mercado das colônias e mais tarde o nacional. Observa-se que a medida que cresceu o mercado local, houve um aumento de estabelecimentos que se dedicaram ao beneficiamento da matéria-prima agrícola, como o caso da uva, do vinho, da banha, da aveia, do feijão. Pode-se dizer que a agroindústria se expandiu de forma vertical, seja pela produção, seja pelo consumo. (HERÉDIA, 1998, p. 69)
No início do século XX, com o crescimento das famílias, o fracionamento da terra e a baixa valorização dos produtos agrícolas se dá o primeiro processo de expulsão da terra e proletarização do agricultor e artesão, criando um contingente de mão de obra a ser utilizado pelas indústrias em seus primeiros momentos.
Enquanto os donos das casas comerciais incrementaram seus negócios (...), os colonos viviam uma situação de maior dependência, proletarizando-se. Isso significou, no passar dos anos, o aumento do excedente de mão de obra canalizado para a indústria regional, fruto, portanto da desvalorização da produção agrícola, da subordinação do colono ao capital. O fracionamento da propriedade, a política agrícola, o baixo preço dos produtos agrícolas, a evasão e o êxodo rural foram
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Permitiu um estabelecimento direto de comercialização com o comércio de Porto Alegre, sem a intermediação dos comerciantes das colônias alemãs dos vales (HERÉDIA, 1997). A rede ferroviária realizou transporte de passageiros até 1976, quando passou a uso exclusivo de transporte de cargas (BRASIL, 19--). O transporte ferroviário foi desativado em 1986.
reflexo desses processos. (...) O novo operário era filho do velho colono imigrante, do pequeno produtor que, se conseguia manter suas terras como empresas rurais baseadas no trabalho familiar, não conseguiam solucionar o problema de seus filhos que se obrigaram a se vender como mão de obra na indústria da zona urbana, ou migrar na busca de novas terras (HERÉDIA, 1997, p. 62 - 63)
A indústria metalúrgica, em Caxias do Sul, tornou-se um dos principais sinônimos da modernidade e evolução, bem como transformou-se em sonho de ocupação de trabalho de uma massa migrante, que atraiu-se pelo mito da ascensão social criado por algumas empresas locais, que vendiam a ideia, de que lá o operário “subiria” nas suas condições de vida, que a fábrica seria sua segunda casa, onde após aprender o ofício trabalharia até aposentar-se, quando então, receberia seu relógio de ouro, como materialização simbólica do tempo de vida de dedicação ao trabalho e a empresa.
A metalúrgica soube aproveitar a expulsão do campo que sofria o camponês e forjou- se como um pólo de atração sustentando uma migração constante que não veio melhorar sua situação (...) A evolução da Metalúrgica Eberle, como toda e qualquer empresa capitalista dos países subdesenvolvidos, tem bases na visão política de seus dirigentes, na oportunidade histórica que o momento nos oferece, mas que principalmente aproveita uma mão de obra economicamente disponível (LAZZAROTO, 1981, p.192)
Como uma verdadeira roda em que ora o crescimento urbano serve ao crescimento econômico, outra o crescimento econômico influencia o crescimento urbano, dependendo da
expansão de cada um fará por vezes sobrar ou faltar mão de obra24. A sobra ocasiona a
diminuição dos salários do operariado, pela influência do “exército industrial de reserva”, já quando da falta, logo se buscará formas de influenciar a vinda de novas populações ou a proletarização de novos segmentos da população (podendo ser o artesão, o agricultor, a
mulher, o idoso e o adolescente).
Com a 2ª Guerra Mundial, diversas indústrias, entre elas as metalúrgicas Eberle e Gazola e o Lanifício São Pedro tem suas produções aumentadas, por serem consideradas, pelo governo federal, como “empresas de interesse militar”, passando a fabricar armamento,
24 A expansão econômica e urbana são dois fenômenos aparentemente casados, porém, não podem ser
automaticamente determinados como causa e consequência um do outro. Um bom exemplo é que o simples crescimento populacional em circunstâncias específicas pode não resultar em crescimento econômico. Entre outros casos a citar, muitas vezes o migrante envia parte de sua renda para a família que ainda se encontra na cidade de origem, esse envio tira a possibilidade de emprego desses recursos no mercado local, o que desaquece a economia. Por outras vezes, pela falta de qualificação, o migrante não consegue se integrar a economia, e para manter a sobrevivência passa a dar-lhe traços de subsistência, de autonomia, fomentando o comércio ambulante e formas de “deseconomia”. Ou arranjam-se os “falsos empregos”, como exemplo, as domésticas, as babás, os vigilantes, que não geram produto. Em síntese, o que desenvolve a economia urbana, o mercado local, é a renda que circula e não a quantidade populacional (SINGER, 1997).
munição e cobertores para o exército brasileiro (MACHADO, 2001). O aumento de produção se dá pelo uso total da planta produtiva das fábricas, trabalhando com capacidade plena e pelo aumento de horas de trabalho com serões, aos quais os operários eram forçados a fazer. Segundo Machado (2001), os trabalhadores destas empresas “tinham o mesmo compromisso com a pátria que os militares, o que os impedia de abandonar seus postos de trabalho, sob pena de serem considerados desertores” (MACHADO, 2001, p. 109). Isso aumentou o poder de compra, fomentando a criação de pequenas unidades de produção para atendimento do mercado.
Quadro 2: Composição da atividade industrial em Caxias do Sul Quadro econômico da produção industrial - 1948
Estabelecimentos Nº Capital aplicado em Cr$
Força motriz Funcionários Valor de produção em Cr$ Ind. da alimentação 88 34.311.182 1.857 1.425 130.744.193 Ind. da borracha e do couro 35 3.677.643 752 491 13.963.043 Calcáreos 31 2.616.055 378 329 5.218.853
Ind. das construções 11 243.862 46 186 7.126.852
Ind. da eletricidade 12 4.519.048 2.912 75 1.492.914 Ind. da madeira 61 10.309.818 588 550 22.648.472 Ind. metalúrgica 70 10.524.900 3.017 1.556 42.258.398 Ind. química 07 1.887.917 402 86 5.639.398 Ind. têxtil 16 16.010.441 2.290 1.131 39.714.115 Ind. do vestuário 31 1.206.108 22 204 16.297.808 Ind. diversas 51 2.053.758 84 252 6.138.416 Total 413 87.360.732 12.348 6.275 291.242.423
Fonte: Caxias do Sul, Esboço histórico da colonização. Álbum comemorativo do 75º aniversário da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1950, p. 165. In: HEREDIA, V.B.M. Processo de Industrialização na Zona Colonial Italiana. Caxias do Sul: Educs, 1997.
A partir do quadro 2, é possível observar que nos setores industriais da alimentação, metalúrgica e madeira, concentram-se metade dos estabelecimentos industriais da cidade. As indústrias alimentícias continuam tendo forte importância, sendo as que mais possuem estabelecimentos industriais, capital aplicado, valor de produção e as segundas com maior número de operários. As indústrias metalúrgicas, por sua vez, já despontam como as que mais empregam, e que possuem maior consumo de energia elétrica. Embora as metalúrgicas, hoje, constituam-se como símbolos da evolução industrial da cidade, mesmo com presença e tamanho relativamente grande na década de 1940, com algumas empresas de grande porte,
como a Eberle e a Triches, seu maior desenvolvimento se dará nas décadas seguintes (DALLA VECCHIA, HERÉDIA, RAMOS, 1998).
Assim, as indústrias de alimentos e vestuário foram os ramos mais incentivados na região até, aproximadamente, 1950, quando a metalúrgica e mecânica começaram a ultrapassá-las. Isso não quer dizer que não foram criadas novas empresas dentro daqueles ramos após essa data, mas a indústria metal-mecânica expandiu-se mais, seja pelo acúmulo de capital, seja pelo volume de empregos gerados (DALLA VECCHIA, HERÉDIA, RAMOS, 1998, p. 57)
A indústria têxtil, no período analisado, apresenta a maior média de trabalhadores por estabelecimento (16 estabelecimentos, para 1131 operários), o que demonstra, em parte, que este era um setor que necessitava de capitais maiores e por isso, há uma maior centralização de capital aplicado e funcionários em poucas fábricas. A mostra disso, é que mesmo desconsiderando a Companhia Lanifício São Pedro, que em 1948, empregava 642 operários (HERÉDIA, 1997), as demais 15 fábricas, empregavam 489 operários, uma média de 32,6 por estabelecimento, em nível de comparação com o segundo ramo com maior média de trabalhadores por estabelecimento, o metalúrgico possuía média de 22,2 operários por fábrica.
Com os investimentos do governo federal, no próximo período, marcado por uma orientação de substituição de importações e estímulo a produção metalúrgica nascem diversas empresas que em poucas décadas tornaram-se muito influentes e poderíamos dizer, que para muitos, verdadeiros símbolos da cidade, como: Dambroz S/A (1946), Intral S/A (1950), Madal S/A (1946), Marcopolo S/A (1949), Randon S/A (1952) , Frasle S/A (1954), entre outras.