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CONSTRUÇÃO DO ESPAÇO

O ensino de História possui interesses maiores do que apenas recontar o passado. Ensinar ou estudar a História pela História, no sentido de retirar dela apenas acontecimentos inusitados, pitorescos, como mera guardiã de informações, sem a reflexão da utilidade social desse conhecimento, rebaixa o sentido desta disciplina. Por mais que hajam visões diversas sobre a utilidade da História e de seu ensino escolar, há a necessidade da criação de um significado para justificar seu ensino. Esse significado se cria no processo de questionamento do estudante sobre as coisas que lhe são mais próximas, no questionamento das estruturas, das ações, das relações, das instituições, dos padrões morais e de cultura. A História deve estar ligada ao exercício da reflexão, do questionamento, da crítica, contra o projeto de criação de indivíduos autômatos e alienados, que o sistema capitalista tanto se esforça em produzir.

Uma das tarefas da aula de História é a de possibilitar que o aluno se interrogue sobre sua própria historicidade, inserida aí sua estrutura familiar, a sociedade ao qual pertence, o país, o estado, etc. Podemos afirmar que a aprendizagem mais significativa produzida pelo ensino de História, na escola fundamental, é fazer com que o aluno se capacite a realizar uma reflexão de natureza histórica acerca de si e do mundo que o rodeia. Este conhecimento acerca do mundo, que a reflexão histórica produz, é fundamental para a vida do homem em sociedade, e , também, pressuposto para qualquer outro raciocínio de natureza crítica e emancipatória. (SEFFNER, 2013, p.32)

Essa História viva e pulsante, que leve a uma aprendizagem significativa, deve recusar ao que Seffner conceitua como, o “ensinar degradado”, que objetiva a adestração, instrução, treinamento, amestração e doutrinação, e sua correlata aplicação, que está representada no “aprender rebaixado”, através do decorar, gravar, absorver, reter, assimilar, fixar e

memorizar141. Seffner apresenta estas ideias na mesma linha de Freire (2000), que concebia que devia se superar a educação tradicional, marcada por uma compreensão bancária de depositar, transferir, transmitir valores e conhecimentos. Em seu lugar, estabelecer um conhecimento “nobre” que leve ao pensar crítico, trocar o automatismo pela autonomia, pelo diálogo. Não se trata de uma tarefa simples, mas, sem dúvida, recompensadora.

Nesse sentido a compreensão do espaço onde se vive, o estudo do bairro e o estudo da cidade, levando em consideração seus aspectos espaciais e históricos potencializa o desenvolvimento de habilidades caras ao estudo da História, possibilita as tão necessárias conexões entre o geral e o local, possibilita a internalização de conceitos, cria condições para constatação das necessidades da comunidade onde esta inserido, bem como na necessidade de mobilizar e lutar por essas causas, possibilitando aproximação, sentimento de pertencimento bem como de desenvolvimento de atitudes cidadãs, é aliar o conhecimento a ação e a

transformação, levar o indivíduo a compreender-se como agente histórico142.

Como é a história desse local? Como é a história do outro local? Então eu acho que o professor, ele tem que ter sensibilidade pra perceber quem são os seus alunos, que realidade eles trazem pra esse contexto de sala de aula, e como é que eu posso tornar significativo que ele seja identificado com o lugar em que ele vive e com o espaço que ele ocupa. Essa coisa toda, que todas as escolas... Nossa, eu acho que seria muito interessante a gente mapear projetos político pedagógicos das escolas, todas elas dizem que tem como missão, né, o intuito de produzir espaço pro exercício da cidadania. Mas isso...isso pode ser um discurso vazio se a gente não tiver práticas que sejam sensibilizadas pra olhar. Qual a minha responsabilidade sobre esse espaço que eu ocupo? Como é que ele se constituiu desse modo? Esse espaço, ele é dinâmico assim como os seus processos humanos e culturais. Como é que nós conseguimos interferir nisso na nossa ação no dia a dia? Então, eles se responsabilizarem, né? Claro, eu acho que, o centro da cidade, eles conhecerem, né, esses pontos de referência, a prefeitura, os espaços de referência, que são representativos do ponto de vista religioso e fazer comparativos, e do ponto de vista cultural, os próprios museus, os arquivos... Nossa, isso não é tão difícil assim. ( LUCCHESE, 2016)

O estudo espacial da cidade permite a compreensão de conceitos de modo dinâmico. A partir do mapeamento do espaço, da localização dessas divisões espaciais, podemos questionar desde o mais simples – onde estão localizadas as fábricas, os comércios, as

141 Seffner (2013) faz algumas considerações sobre o memorizar e o treinar. O autor reconhece que o memorizar

é uma habilidade importante no processo de aprendizagem, mas ressalta que “o aprender é algo mais 'elevado' do que memorizar”. Sobre o treinar, relata que pode fazer parte de uma estratégia de ensino, como no modo de execução de algo, mas “ensinar é percebido socialmente como superior ao simples treinamento”. Seffner, crítica as simplificações que pretendem dar um caráter informativo e esquemático da História retirando muitas vezes o sentido do ensino. (SEFFNER, 2013, p. 29-30)

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A educação sobre um ponto de vista de transformação nega o cárater do determinado, do sempre foi assim/sempre será assim. A sociedade tem caráter histórico, suas estruturas são transitórias. Educar nesse contexto, principalmente, em um sistema econômico agonizante, também é instrumentalizar para a mudança (FREIRE, 2000)

residências, os bairros operários e pobres, os bairros ricos, as áreas de interesse do governo, as vias mais importantes, os espaços turísticos – e ir aumentando a complexidade – o porquê da existência dos bairros ricos e pobres; o porquê da localização destes e a relação da localização com a classe social que o habita; a relação da indústria com o espaço; o porquê da existência

ou ausência em determinadas regiões de serviços e estrutura pública143; se o espaço é

segregado, e qual a funcionalidade dessa segregação. Constrói-se assim a noção que a cidade é um espaço intencionalmente construído e nada está ao acaso em seu determinado lugar e em sua determinada condição.

O estudo da cidade passa a fazer sentido se ela é reconhecida como o local privilegiado onde essas transformações têm tido lugar. A população, enquanto conjunto de pessoas concretas, divididas em classes sociais, é quem vai, ao mesmo tempo produzir e sofrer as transformações espaciais, de acordo com a ação dos diversos agentes políticos (RUA, 1991, p. 87)

No estudo específico de Caxias do Sul e, mais ainda, no processo de surgimento de loteamentos clandestinos entre 1972 a 1988, a indústria tem o papel de principal ordenadora do espaço, no sentido, que sua construção, logo era seguida da abertura de loteamentos, que ela própria não tinha responsabilidade sobre estes, porém dado ao fato da valorização das terras pela sua presença no local, impulsionava a especulação imobiliária. Logicamente, devemos ressaltar que ao mesmo tempo essa indústria não era culpada pelo processo, mas, ao mesmo tempo, se beneficiava dele, tendo mão de obra próxima e barata, já que estes operários tinham seu terreno, sua moradia, a preços bem menores do que o praticado no loteamento regular e por isso se sujeitavam a trabalhar com salários ainda mais oprimidos, que muito possivelmente não garantiriam sobras salariais caso estes vivessem de aluguel em um bairro regular.

Pensar a aplicação de projetos sobre história do bairro, dentro do contexto da cidade, necessita pensar uma metodologia de pesquisa, que ao mesmo tempo possa levar a uma reconstrução com dados confiáveis e que possa ser flexível, para ser aplicada a bairros novos ou que se caracteriza por uma população em constante migração.

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A construção do espaço é dinâmica, os interesses dos moradores da periferia, dos loteamentos clandestinos, também podem ser concretizados, nessa batalha pelo espaço urbano e pelos serviços públicos básicos que garantam qualidade de vida, através luta e da pressão popular, como afirma Carlos. “O espaço não se constrói apenas em função do processo de produção, distribuição e troca de bens e mercadoria. Produz-se também na luta por rede de água, luz, esgoto, transporte coletivo, por regularização de loteamentos, pela criação de infraestrutura de lazer, pela luta por creches, espaços de cultura, por uma lei de zoneamento. A luta emerge da consciência do cidadão como manifestação pelo direito à cidade e à cidadania”. (CARLOS, 2006, p.88)

A história da grande maioria dos bairros de Caxias do Sul, ainda não está escrita, esse esforço se reveste de uma necessidade, ampliar os atores sociais, incluir uma população que não está representada no mito fundador da cidade, registrar o ponto de partida, desses imensos fragmentos da cidade não oficial, que também estão fora da história oficial. Mesmo que essas produções não se tornem obras conhecidas por toda a cidade, o processo de ensino ligado a pesquisa, tende criar uma relação ímpar do estudante participante com o aprendizado sobre sua história e de sua comunidade, sem dúvida um saber significativo.

Neste sentido, a sistematização da pesquisa poderia seguir por alguns dados lançados por esta dissertação:

- Se o loteamento foi ou não regularizado, se regularizado, provavelmente possui planta e aprovação na prefeitura, se não, dependendo do momento histórico, sua particularidade pode estar discutida na lei n° 453 de 1952 ou na lei nº 3292 de 1988;

- analisar em qual momento há a inclusão do bairro no mapa oficial da cidade;

- mapear o bairro, indicando espaços e serviços públicos, obras mais antigas e espaços onde hajam acontecimentos relevantes na história do bairro;

- averiguar quando houve a construção de obras básicas, como: rede de água, esgoto pluvial e cloacal, calçamento, rede elétrica e iluminação pública;

- averiguar quando houve a instalação de serviços públicos básicos, como: educação (escolas infantis, de ensino fundamental, médio ou profissionalizante), saúde (unidades básicas de saúde – UBS, hospitais, hospitais psiquiátricos, clínicas de desintoxicação...), esporte e lazer (praças, centros comunitários, escolinhas de futebol, pontos de cultura, academias infantis e da melhor idade, bibliotecas comunitárias...), segurança (posto da brigada militar, batalhão de bombeiros), comunicações (redes de telefone, antenas de telefonia e internet móvel), recolhimento de lixo, transporte coletivo entre outros. No caso de prédios de instituições públicas, investigar a origem dos nomes homenageados e a relação destes com o bairro; - realizar entrevistas com moradores antigos e lideranças comunitárias;

- consultar em jornais os acontecimentos relatados como importantes para o bairro; - Analisar a relação de comércios e indústrias com a história do Bairro;

- averiguar qual o tipo cobertura das ruas, qual o fluxo, quais as ligações viárias. Ainda sobre as ruas, pesquisar a origem do nome das ruas, quem homenageiam e por quê;

- analisar fotografias antigas de posse das instituições e dos estudantes (de preferência que sejam digitalizadas, para garantir sua preservação);

- Fazer pesquisas de opinião, podendo ser sobre características sociais, culturais, comportamentais e opinião sobre o bairro.

A História molda o espaço em seus mínimos detalhes, desenvolver essa curiosidade, a indagação sobre o porquê de um quebra-molas, uma lombada em determinada rua, ou uma escadaria, um capitel, uma caixa d'água pública, uma casa ou empresa abandonada, a percepção de que alguns acontecimentos podem gerar lembranças de mudanças no espaço.

O desenvolvimento dessas pesquisas podem ter seus níveis de complexidade aumentados ou diminuídos, conforme a idade e disponibilidade de fontes a serem consultadas. Uma grande quantidade de dados, informações, mapas, imagens de satélites, levantamentos aerofotogramétricos e outras fontes, podem ser conseguidos pela internet, no site da Prefeitura

Municipal de Caxias do Sul144, da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul145 e do Instituto

Brasileiro de Geografia e Estatística146. Outra parte considerável pode se dar com visita aos

locais ou convite para que representantes desses locais visitem a escola. Da mesma forma, a entrevista a moradores antigos e/ou lideranças comunitárias, podendo ser mais interessante a presença destes no espaço escolar, como forma de reconhecimento e de valorização. O professor deve ter um pouco de cuidado ao propor que os estudantes façam a pesquisa de campo, dividindo a operação em grupos, nunca estudantes solitários e se possível com a presença de um adulto responsável.

O professor de História, assim como o de Geografia, é fundamental no desenvolvimento da pesquisa, mas um projeto como esses, tem um grande potencial interdisciplinar, podendo ser desenvolvido como projeto da escola para o ano.

A forma de divulgação da pesquisa, como já escrito anteriormente, tem vazão ilimitada, podendo ser produzidos páginas wicks, blogs, páginas nas redes sociais, jornal escolar, informativo comunitário, cartaz, placa, panfletos, maquete, esquetes e peças teatrais, intervenção em rádio comunitária, palestras, reuniões com a comunidade, produção de espaço permanente de divulgação na escola (podendo ser na biblioteca, no saguão de entrada da escola...), na UBS, no Centro Comunitário, entre outras possibilidades.

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http://geopublico.caxias.rs.gov.br:8814/geocaxias/login – mapa digital - digeo

145 http://liquid.camaracaxias.rs.gov.br/portalliquid 146