Capítulo I. Comunicação Intercultural
1.3. Evolução da disciplina Comunicação Intercultural
1.3.2. Evolução conceptual e disciplinar no contexto ocidental
No contexto epistemológico ocidental, se se considerar a comunicação uma componente indispensável da cultura em que se insere e ocorre e a indissociabilidade inerente entre a língua e a cultura, o retrato do estado da arte da comunicação, neste sentido, também se reveste com traços caraterísticos com perspetivas ocidentais. No que concerne ao desenvolvimento da comunicação na cultura ocidental, pode admitir- se que os estudos remontam a 2.500 anos atrás, com A Retórica de Aristóteles10, que descreve o processo de comunicação envolvendo um orador, o ato de discurso, um interlocutor e um propósito e que argumenta que toda a comunicação se trata de uma persuasão (Jandt, 2010). Desde então, o trajeto percorrido até a teorização do século XX, marcado pelas reflexões sobre a comunicação e o uso de língua de Saussurre (1916), que vai ter eco em autores posteriores, entre eles, David Berlo (1960) conceptualiza o processo de comunicação e o divulga, demonstra o reflexo de cultura a ela ligada. Berlo (1960) enfatiza a comunicação como um processo dinâmico, uma vez que as variáveis contextuais no processo estão inter-relacionadas entre si e se influenciam mutuamente. Embora seja uma conceptualização que posteriormente tem sido criticada muitas vezes por ser mecânica, de cima para baixo, e só ser adequada para os meios de transmissão, a contribuição dela em identificar as componentes de comunicação e em integrar a cultura no próprio processo de comunicação, é verdadeiramente inegável. Na contextualização teórica da comunicação, na década 60 e por diante, é imprescindível também, mencionar o conceito de competências
10 Versão com tradução em português: Aristóteles (2010), Obras completas de Aristóteles – Retórica, Editora INCM
comunicativas de Hymes (1972) e de linguística interacional de Gumperz (1986), que estes sociolinguistas desenvolveram sob uma nova perspetiva de observação e da função de comunicação, ou, nas suas palavras, a etnografia de comunicação. Hymes (1972), ao apontar o relacionamento indissociável entre a língua a cultura, afirma que toda a língua está profundamente vinculada à cultura. E a partir desta perspetiva sociolinguística interacional, o discurso constrói-se na comunicação entre os indivíduos vindos de culturas, geralmente pertencentes a categorias superordenadas (Scollon, Scollon & Jones, 2001), nomeadamente “a different level of logical analysis from the individual members of cultures” (p. 138).
Destacamos aqui, no contexto americano, o Decreto de Serviço Exterior, aprovado em 1946 pelo Congresso, que estabeleceu o Instituto de Serviço Exterior com o intuito de oferecer treino linguístico e cultural antropológico (Leeds-Hurwitz, 1990). Na visão do autor (1990), tratava-se de uma (sub)disciplina que se desenvolveu como resultado da colaboração com linguistas e antropólogos, e tendo a ênfase no público-alvo dos diplomatas ou comerciantes no estrangeiro, no decorrer de reconstrução pós-guerra (Kitao, 1989; Rogers & Hart, 2002; Rogers, Hart & Miike, 2002). Além desse treino formal, entre muitos autores, destaca-se o já referido antropólogo americano Edward T. Hall, com o seu livro The Silent Language (1959), geralmente, reconhecido como a obra fundadora da disciplina (Hu & Jia, 2006). Hall aplicou os conceitos antropológicos abstratos no mundo prático de serviço exterior, ampliando a visão antropológica de cultura e largando a perceção sobre a comunicação. Mais tarde, Hall define a cultura como basicamente um processo de comunicação (Leeds-Hurwitz, 1990). A criação do Corpo de Paz, pelo Presidente John F. Kennedy, no início da década sessenta, fez aumentar o interesse em saber mais sobre como as pessoas de culturas diversas poderiam comunicar de forma mais eficaz, o que levou à promoção dos estudos na comunicação intercultural, recorrendo as ferramentas políticas. Pode assim descrever- se, em primeira instância, os primeiros esforços interdisciplinares, como foi reconhecido por muitos estudiosos, pelo que nenhuma disciplina sozinha conseguia
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explorar, explicar, prever a área e até treinar pessoas para interagir efetivamente em contextos interculturais (Carbaugh, Nakayama & Martin, 2012). Assim, a investigação em volta da comunicação intercultural convergia em dois pontos, o primeiro na perspetiva do antropólogo que se concentrava no macro-nível – investigações em práticas económicas, governamentais, religiosas, etc., e o segundo mais linguístico, em que ocorriam análises linguísticas, sendo, como tal, um micro-nível.
A década sessenta também testemunha a teorização sistemática dos estudos, a propósito disto, o positivismo, baseado nas experiências, advogado por Robert Merton era largamente apoiado e simultaneamente complementado por autores como Gudykunst e Halsall, ao mesmo tempo, Sarbaugh, Gudykunst, Dayey eram os representantes que defendiam a combinação interdisciplinar tomando sempre como essencial a comunicação intercultural. Os autores, acima de tudo americanos (Merton, Gudykunst, Sarbaugh), tentaram relacionar a independência disciplinar da comunicação intercultural com os cenários dos EUA, domesticamente marcados por alterações circunstanciais. Em suma, são prevenientes de origens variadas os elementos facilitadores que potenciavam a força centrípeta dos temas de estudos. Por um lado, a aproximação temporal e espacial graças à tecnologia avançada faz com que, inevitavelmente, tenha emergido uma nova consciência global, a consciência que posteriormente se transfiguravam como a procura de construção de uma identidade americana, dotada de competências globais. Por outro lado, a sociedade da época também foi assinalada fundamentalmente com a diversidade cultural, constituída por comunidades que interagiam de forma constante. A vitalidade que tem vindo a captar a comunicação intercultural, com o estatuto cada vez mais estruturado, é justamente fomentada por contributos que tinham como propósito atacar problemas concretos. Na exemplificação de Jia (1992), neste caso os mais influentes são as instituições governamentais, o Conselho de Estado, as Nações Unidas e os ciclos sociais mais diversos possíveis, comercial, educacional, bancário, entre muitos outros.
setenta nos Estados Unidos, a disciplina chegou a ser formalizada principalmente nos departamentos de comunicação dentro de esfera académica universitária. Por conseguinte, saíram os primeiros manuais didáticos da área, exemplos dos quais são
Intercultural Communication. A Reader (Samovar & Porter, 1972), Intercultural Communication (Harms, 1973), e An Introduction to Intercultural Communication
(Condon & Yousef, 1975). A proliferação de cursos universitários na área da Comunicação Intercultural levou a que, na década oitenta, o curso estivesse presente em cerca de 60 universidades americanas na licenciatura e em mais de 200 no mestrado (Kitao, 1989).
As abordagens da década noventa tornam-se mais interpretativas no contexto americano (Carbaugh, Nakayama & Martin, 2012), algo que se assemelha com o que ocorreu na Europa naquela altura. A emergência de estudos da comunicação intercultural na Europa também coincide com a época e o contexto; a sua caraterização será mais abordada mais adiante nesta subseção.
No campo das publicações académicas, as revistas científicas no contexto americano, geralmente noticiando novas pesquisas da área, formam um corpo de referências internacionalmente reconhecidas, entre elas destacam-se a International
and Intercultural Annual, International Journal of Intercultural Relations, Jounal of Cross-cultural psychology, Speech and Communication, Western Journal of Speech Communication, Communication Quarterly e Human Communication Research. Um
outro aspecto importante no desenvolvimento da área passou pela criação de organizações profissionais. Fantini (2012) dá como exemplo a sociedade SIETAR (the
Society for Intercultural Education, Training, and Research), que, através de
conferências e publicações, apoia uma rede em que se partilham os trabalhos de educadores, formadores, autores, etc.
De forma a simplificar a história de evolução da comunicação intercultural como uma disciplina, Baldwin (2017) propôs uma divisão em seis etapas. A sua estruturação de etapas cronológicas marca cada década da segunda metade do século XX com uma
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palavra-chave que melhor contextualiza o estado de arte da época. A partir da sua perceção, vemos o nascimento de comunicação intercultural como uma disciplina científica nas décadas 40 e 50, o silêncio na década 60, a investigação na década 70, a teorização na década 80, o debate na década 90 e a desintegração, a desconstrução e o diálogo no novo milénio do século XXI. Especialmente nesta nova fase do século XXI, os estudos tornam-se mais críticos e muito orientados para a promoção de políticas intranacionais e internacionais. Ao mesmo tempo, os autores, conscientes dos novos cenários circunstanciais, começaram a misturar perspetivas de áreas diversas e a produzir os trabalhos em cooperação. Desta forma, um entendimento multifacetado será mais aceite pelo público ao abordar os temas de comunicação intercultural. Neste aspeto, “whiteness”, “postcolonialism”, “critical race theory (CRT)”, “postmodernism” são exemplos de muitos desses temas que suscitam o interesse dos estudos nesta altura e nesta disciplina.
Ainda no contexto ocidental, cabe-nos rever a literatura que diz respeito à evolução da comunicação intercultural no contexto europeu. Segundo Carbaugh, Nakayama & Martin (2012), os estudos da disciplina na Europa diferem dos que foram feitos no contexto americano em quatro aspetos, designadamente: a motivação para estabelecer o estudo; a focagem; a fundamentação disciplinar e a preferência de paradigma de investigação. Apesar de haver uma história mais recente no assunto, é certo que, a orientação dos estudos, desde o princípio, estava voltada para a questão de língua (Corbett, 2009; Dahl, 1995; Kramsch, 2001). Neste sentido, o papel de língua em encontros interculturais e o papel de comunicação intercultural na educação linguística são uns dos temas preferidos por autores europeus. Para ilustrar a situação, o QECR (Quadro Europeu Comum de Referência para as línguas) (2001), quadro para orientar os trabalhos de ensino, aprendizagem e avaliação de línguas, é fundamentado numa abordagem sociocultural reconhecendo a importância de dimensão de cultura e do objetivo enfatizado de CI (Byram, 1997; 2003; Zarate, 2003). O recém publicado CEFR.
mesma orientação, apresentando descritores diretamente relacionados com a mediação intercultural e enfatizando a ideia de plurilinguismo e de competências pluriculturais.
Se considerarmos as disciplinas como Linguística, Linguística Aplicada, Educação e Formação Linguística, entre outras, percebemos que no contexto europeu, os autores que mais destaque têm na comunicação intercultural emergem essencialmente dessas disciplinas mencionadas. Concentrando-se nas competências comunicativas em LE, a proposta de Byram e Feng (2004) aponta a abordagem da questão de uma outra perspetiva, “resulted in reassessment and redefinition of many common sense assumptions, with respect to notions such as native speakers, standard language, national identities, homogenous target cultures” (p.158). Esta posição coloca a comunicação intercultural em contextos mais alargados, de maneira que a disciplina se reveste de grande importância, na Europa, no campo de estudo de LE e no ensino- aprendizagem de LE.