3.1 – O bairro rural como espaço de sociabilidade.
A discussão sobre o processo colonizador do interior da América Portuguesa e a entrada das tropas de mula na vida cotidiana do Brasil a partir do século XVIII passam por uma questão necessária: quais eram e que grau de relevância tinham os espaços onde as relações de sociabilidade se davam? Apresentam-se os bairros rurais como locais privilegiados para o florescimento de núcleos populacionais sólidos, em grande medida fundados a partir dos ranchos de tropa e facilitadores das comunicações e transações comerciais no interior do território, sendo assim de vital importância para a vida brasileira.
Os bairros rurais, no escopo deste trabalho, serão tratados também pelo viés da geografia agrária que, de acordo com Larissa Bombardi (2004), são unidades territoriais criadas a partir da noção de identidade que manifestam os membros do grupo, em relação à porção territorial que ocupam, sendo o território, ainda segundo a autora, fruto da relação entre espaço, tempo e relações sociais estabelecidas entre os indivíduos.
A academia, até meados dos anos 1960, realizou estudos sobre o meio rural observando uma perspectiva de cunho majoritariamente antropológico, destacando-se alguns trabalhos de referência, como as pesquisas de Nice Lecocq Muller, Maria Isaura Pereira de Queiroz e Antonio Cândido. Outros trabalhos também foram desenvolvidos, alguns dos quais, buscavam analisar a “civilização” do interior através de um olhar voltado ao folclore.
Nice Lecocq Muller, em suas pesquisas sobre a situação dos sitiantes em algumas regiões do estado de São Paulo, dentre as quais o Vale do Paraíba, definiu os bairros rurais como um conjunto de residências dispersas, mas com relativa proximidade, possibilitando que houvesse relações periódicas entre seus habitantes. De acordo com a autora, não se trata de uma unidade morfológica, mas uma manifestação de comunidade, onde surgem alguns elementos que favorecem as relações sociais, como parentesco ou vizinhança, além dos espaços de sociabilidade, como a igreja, o armazém, a escola, pois, embora seu povoamento fosse aparentemente esparso, o bairro representa um elemento de unidade entre os moradores da região.
A contribuição de Maria Isaura Pereira de Queiroz foi dar a esses estudos uma amplitude diferenciada, problematizando as dinâmicas sociais nas quais estão inseridos esses habitantes do meio rural. A figura do caipira11 e do matuto12 são emblemáticas e, em seus trabalhos, encontramos outros personagens que se colocam como sendo de suma importância à compreensão do universo retratado. Esse é o caso do tropeiro – que nos interessa nesta pesquisa, mas também de outras figuras do meio rural que participam das relações sociais estabelecidas nos bairros rurais, como fazendeiros, sitiantes, vendeiros, agregados e camaradas, ou seja, homens livres numa ordem escravocrata13.
No cenário contemporâneo, alguns desses tipos deixam a cena nos bairros rurais, como é o caso dos agregados e camaradas, figuras que deixaram a região buscando melhores condições de vida, pois não conseguiram adquirir sua própria morada no meio rural. Foram esses, sobretudo, os migrantes da região para os centros maiores a partir da metade dos anos 1960, com o processo de industrialização no Vale do Paraíba.
As populações tradicionais brasileiras têm seus modos de vida, valores e crenças permeados pela influência indígena, africana e portuguesa, manifestas na culinária, na religiosidade, nas formas de morar e em sua organização social. O tipo mais alinhado ao tropeiro é o caipira, pela sua própria composição étnica, pois é desse agente social que as vilas e cidades nascidas e desenvolvidas em torno do ciclo do tropeirismo receberam sua influência majoritária. Por isso, nos detemos a analisá-lo, para compreender as dinâmicas sociais da gente interiorana, fornecendo, assim, grandes subsídios para estudos sobre os tropeiros.
A forma de organização da sociedade dita rural produz um caminho privilegiado de observação do que seriam as marcas culturais profundas trazidas por esse habitante do universo rural. Nessa ótica, os tipos de povoamento se consolidaram de tal forma que, ainda hoje, encontramos lugares que reproduzem o estilo de vida genuinamente caipira, quanto à religiosidade e as relações comerciais.
11 Indivíduo natural de parte das regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, especialmente no
estado de São Paulo e áreas com influência paulista. De origem rural, cujo grupo caracterizava-se por desempenhar agricultura de subsistência em caráter itinerante, por não terem a posse das áreas cultivadas. (Fonte: Dicionário Houaiss 2012)
12 Expressão derivada do termo “caipira”, simbolizando o habitante do interior do país, de
hábitos rústicos, cujos costumes são próprios de áreas rurais pouco desenvolvidas. (Fonte:Dicionário Houaiss 2012).
De acordo com Antonio Candido (1972), apoiado em leituras de Rubens Borba de Moraes, a fixação do homem paulista ao solo advém da descoberta das jazidas de ouro e, por consequência, do interesse em explorar a terra, sendo que a criação das vilas obedeceu a algumas correntes principais: a partir de desbravadores; resquícios de aldeias indígenas, sesmarias14, instalação de capelas, pouso de tropas e viajantes ou por fundação deliberada. Esse modelo pautou as relações de sociabilidade da população, pois era o núcleo populacional o ponto de conexão da dinâmica rural que se fazia dispersa através do comércio e dos serviços, sendo esse espaço, para onde os moradores se dirigiam, algumas vezes por ano, o local onde se concentrava, ainda que rarefeita, a influência metropolitana.
Por terem uma relativa dificuldade geográfica em acessar a vila, a partir de localidades geralmente longínquas, criou-se no interior uma rede de solidariedade entre os vizinhos, indistintamente da classe a que pertenciam. Assim, características do modo de vida caipira são as relações de cooperação entre a vizinhança, o poder calcado na figura do chefe da família e o instituto do compadrio para consolidá-los.
Essa relação de solidariedade, contudo, não isenta os moradores da comunidade de possuírem entre si ou com vizinhos do mesmo núcleo ou mesmo entre núcleos vizinhos rusgas e pontos de conflito. Uma outra marca da sociabilidade dos habitantes da zona rural, fora a cooperação, é a questão da violência. São frequentes as disputas por terras, direitos de herança, rivalidades familiares que, por vezes, terminam com mortes ou grandes prejuízos financeiros. Esse traço acompanha as relações sociais desde o período colonial e perdura até os dias atuais, sendo que há nas estradas pequenas cruzes ou mesmo capelas que sinalizam o local onde o confronto ou a morte transcorreram.
Dentro do estado de São Paulo e da região historicamente consolidada pelos paulistas, a partir das bandeiras (Paraná, Minas Gerais e Goiás sobretudo), há diferentes populações rurais em estágios distintos de sedimentação e adaptabilidade, conforme a região geográfica em que se estabeleceram. De acordo com Maria Isaura Pereira de Queiroz (1973), decorrem disso as grandes transformações pelas quais passaram as terras paulistas e demais regiões por eles influenciadas. Somaram-se aos caboclos da roça as grandes levas de imigrantes, que se concentraram especialmente no espaço geográfico mencionado para o cultivo de café, trazendo consigo novos elementos para a vida sociocultural no meio rural.
14 Porções de lotes de terra que os reis de Portugal cediam aos colonizadores que povoaram o
Para Antonio Cândido, o bairro rural constituiu-se como a menor divisão administrativa da freguesia ou da vila à qual se encontrava subordinado no período colonial e imperial;
A Freguesia supunha um núcleo de habitação compacta e uma igreja provida de sacerdote, normalmente coadjutor do vigário da paróquia; o bairro era divisão que abrangia os moradores esparsos, não raro com sua capelinha e às vezes cemitério. (CANDIDO, 1972. p. 45)
Essa denominação (bairro rural), nas palavras do autor, é típica das regiões de São Paulo e Minas Gerais, embora seja produto de um fenômeno característico do processo colonizador do Brasil.
As características mais marcantes dessa forma de agrupamento social surgem da forma dispersa de seu povoamento no território, em contraste com uma noção de pertencimento existente no seio do grupo. O forte sentimento de localidade é salutar para a construção de sua identidade e para o estabelecimento do grupo, tanto no plano social, quanto geográfico:
Tradicionalmente, uma capela marcava o núcleo central, e a festa do padroeiro constituía um dos momentos mais importantes de reunião para os componentes dispersos pelas cercanias – momento em que se afirmava a personalidade do bairro em relação aos bairros vizinhos. (PEREIRA DE QUEIROZ, 1973. p. 04).
Além das missas, novenas e ocasiões festivas, o outro grande acontecimento que reunia os membros dos bairros rurais era a organização de mutirões. Dada a precariedade dos recursos disponíveis, era bastante comum o sentimento de solidariedade entre os vizinhos. Nas palavras de Candido (1972), o mutirão era a manifestação mais importante do universo caipira, pois tinha a dupla função de resolver o problema da escassez de mão de obra disponível e também o de reforçar os vínculos de amizade e religiosidade da comunidade. Uns doavam seus dias de trabalho e de sua família aos outros com a finalidade de desempenhar ações como roçar pasto, plantar, colher e construir moradias, afirmando-se essas ocasiões como importantes pontos da vida cultural dessas localidades.
Nas localidades onde ainda há ocorrência de atividade tropeira, a realização de mutirões foi prática constante. As famílias se organizavam em grandes grupos, o dono do mutirão saía pela região convidando os vizinhos e oferecia a alimentação aos participantes, no dia da ação. Geralmente matava-se um porco ou alguns frangos, dependendo da quantidade de componentes, e serviam-se também broas de fubá e café como acompanhamento. A esposa do dono do mutirão se encarregava de preparar a refeição, junto com as esposas de outros participantes que viessem junto.
As crianças eram divididas conforme a idade e a atividade do pai e da mãe, para os acompanhar.
É no bairro rural que se dão, de maneira original, as relações de sociabilidade do homem simples, pois este se desloca da propriedade rural apenas esporadicamente, por motivo religioso ou para comprar aquilo que não produz. O tropeiro, mesmo nos dias atuais, em certa medida mantém essa função. A autora cita as escalas em que as relações ocorrem pelo seguinte viés: a) relações familiares, b) relações de vizinhança, c) relações dos bairros entre si, d) relações com a região, e) relações com grupos externos à região.
O bairro rural, enquanto unidade mínima de povoamento, concentrava as relações mais íntimas entre os indivíduos e as interações fruto do cotidiano. Entretanto, eles estavam subordinados politicamente ou religiosamente a uma freguesia ou cidade maior, que reunia diversos outros adensamentos na mesma condição, sob sua administração.
Outra marca da vida nessas localidades era a homogeneidade social presente entre as famílias. De acordo com Antônio Candido, por participarem das mesmas festas e atividades, por compartilharem o mesmo credo religioso, os mesmos hábitos e possuírem um rol de atividades laborais restrito, não havia grandes discrepâncias no usufruto de recursos. As relações se davam a partir da cooperação entre os indivíduos, o que inviabilizava o surgimento de lideranças ou prevalência de grupos.
Essa relação, no entanto, não inviabilizou o surgimento de lideranças políticas ou mesmo de relações de poder. Como já tratamos, o Vale do Paraíba e a Serra da Mantiqueira concentraram, a partir do século XIX, as principais forças políticas e econômicas do período imperial e da primeira fase republicana, o que repercutiu fortemente nas relações de poder. Não nos debruçamos especificamente sobre as relações de poder na região, mas consideramos a dimensão do debate e a sua relevância para a compreensão do papel do tropeiro. Segundo Franco (1983), o tropeiro gozou de situação privilegiada nessa dinâmica, conquanto não existissem as estradas de ferro na região. Sob o lombo de suas mulas, toda a produção de café da região seguia para o litoral, garantindo a riqueza regional e a autonomia do tropeiro, que negociava com os grandes fazendeiros de uma forma mais isonômica do que os demais homens remediados.
O desenvolvimento da vida cotidiana e das relações sociais no Planalto Paulista representou um processo diverso do observado no nordeste açucareiro ou na
região litorânea do Rio de Janeiro – áreas mais densamente povoadas. Os paulistas, de acordo com Darcy Ribeiro e Antonio Candido, tiveram como grande traço cultural a mobilidade em meio ao vasto território e a provisoriedade, quanto à sua fixação. Se, por um lado, as frequentes incursões bandeirantes representaram um importante fator da expansão geográfica brasileira, por outro demarcaram um certo modo de vida e de sociabilidade que influenciou fortemente a região das terras de serra acima por, ao menos, dois séculos.
A sociedade caipira, criada em torno desse legado, modelou-se com base no nomadismo característico do estilo de vida sertanista e disponibilidade de recursos naturais à beira dos caminhos exploratórios, pois;
A combinação dos traços culturais indígenas e portugueses obedeceu ao ritmo nômade do Bandeirante e do povoador, conservando as características de uma economia largamente permeada pelas práticas de presa e coleta, cuja estrutura instável dependia da mobilidade dos indivíduos e dos grupos. Por isso, na habitação, na dieta, no caráter do caipira, gravou-se para sempre o provisório da aventura. (CANDIDO, op.cit., p.37)
A cultura caipira é fruto dessa provisoriedade, relacionada à subsistência e à forma de vida baseada no minimalismo, sendo os adensamentos populacionais dispostos de forma dispersa e dotados de pouco mais do que o suficiente para a manutenção da vida, da ínfima estrutura administrativa e do acesso facilitado ao sertão em épocas de expedições.
Outra marca desse estilo de vida planaltino aparece quanto ao estilo de moradia de seus habitantes: em textos, referiam-se aos ranchos como local de pouso. Aqui se apresenta a primeira semelhança entre o bandeirantismo, a sociedade caipira e os tropeiros, igualmente descendentes dos desbravadores do sertão. O estilo de construção dessas paradas era o mesmo: feito de armação de bambu, taipa e coberto com palha entrelaçada. Essa forma de construção de habitação, herdada dos bandeirantes, predominou na zona paulista pelo menos até o século XVIII, quando começaram a surgir edifícios públicos construídos com pedra, cal e madeiramento, que se disseminaram posteriormente. Entretanto, o caipira manteve seu estilo próprio, nos moldes ancestrais, em regiões mais afastadas.
A vida do caipira tradicional assentava-se sobre um modo de vida em que dispunha, na sua propriedade, de quase tudo que necessitava para a manutenção de sua vida. Pode-se considerar, sem prejuízo, que se refere a um modo de vida sustentável, já que dispõe dos elementos necessários à construção de sua moradia (de pau a pique ou taipa de pilão e de mão), mantém um roçado que garante sua base
alimentar, caso do milho e da mandioca, além de pequenas criações de galinhas, porcos e esporádicas caçadas e pescarias, que lhe garantem o complemento da alimentação e, assim, seu deslocamento se restringe às celebrações e festividades religiosas e á compra de sal, pois o querosene é substituído pelo azeite de mamona, que o rurícola extrai na própria residência, a partir da fervura das sementes de mamona, que liberam na água um conteúdo oleoso, que abastece lamparinas e candeeiros.
Nos bairros rurais de outrora, nos locais de residência e nas relações sociais do caipira, tudo o que se utilizava e se consumia no cotidiano provinha da produção caseira, desde as vestimentas e calçados, simbolizados pela alpercata15 (precata) até os utensílios do dia a dia ou, mesmo, para defesa, como a fabricação de arapucas.
Em determinadas épocas do ano eram organizadas nas vilas algumas feiras16, onde a população poderia adquirir as poucas coisas que não produziam, simbolizadas pela literatura através do sal e da pólvora. Além disso, outros pertences que não mais servissem a eles poderiam ser trocados pelo que necessitavam com os demais moradores.
Consideremos que, a partir dessa estrutura, despontaram na região paulista as primeiras vilas e fazendas mais abastadas, ligadas à produção açucareira, gozando de melhores condições materiais e inserindo-se na vida econômica colonial. Antonio Candido (1972) afirma que esses fazendeiros e, posteriormente, os de gado e de café adentraram à lógica de mercado e os sitiantes se dividiram em dois grupos: os que aderiram a essa mesma prática, em menor escala, e os que se mantiveram apegados à excepcionalidade na comercialização do que produziam, pois estavam sujeitos ainda ao sistema de trocas, fator determinante para a manutenção da cultura caipira e de suas particularidades.
Tanto os pequenos proprietários rurais quanto os grandes latifundiários descendem, na origem, dos mesmos troncos familiares, tendo suas terras inclusive dimensões similares. Entretanto, o elemento que determinou o sucesso de uns em detrimento dos outros foi o emprego da mão de obra servil, primeiramente assentada no trabalho escravo e em um segundo momento nos trabalhadores imigrantes. Tal fato
15 Sandália de fibra de sisal que se prende ao pé por tiras de pano ou couro (fonte: Dicionário
Houaiss 2012)
16Na Região do Vale do Paraíba, esse costume de se organizarem feiras para “breganha” ou
troca de mercadorias é algo tão enraizado, que até os nossos dias acontecem tais eventos, simbolizados pela Feira da” Breganha” de Taubaté, que acontece aos domingos, em frente ao Mercado Municipal da cidade. Pode-se considerar, sem embargo, que essas feiras são um traço constitutivo da identidade dos valeparaibanos.
marcou, em essência, a diferença entre o sítio e a fazenda e o declínio da cooperação e do mutirão, em favor da acumulação de capital, a partir da exploração da força de trabalho de outrem.
O homem livre e remediado, ao não se submeter ao sistema do latifúndio, rejeitando tanto a escravidão quanto o colonato, perdeu espaço no processo de desenvolvimento econômico, mas manteve a cultura caipira em seus hábitos e crenças. Enquanto isso, seu congênere latifundiário acompanhou o processo de modernização e de urbanização, transformando-se em membro da elite capitalista e, posteriormente, em dirigente. Quanto ao caipira, ao não se adaptar a essa nova lógica, foi classificado como figura marginal, como um ser indolente, pouco afeito ao trabalho, estereotipado na figura do Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.
Essa inadaptabilidade, ao contrario do que se considera, é fruto de uma resistência por parte do caipira quanto à forma que o processo de modernidade avançou sobre o campo a partir do último quartel do século XIX, impondo um estilo de vida voltado ao desenvolvimento de caráter urbanizador, que influenciou o imaginário social da época. Porém, trata-se sobretudo da valorização, por parte dessa figura típica paulista, de sua independência, ainda que levasse uma vida de privações.
O escravo e o colono europeu foram chamados, sucessivamente, a desempenhar o papel que ele não pode, não soube ou não quis encarnar. E, quando não se fez citadino, foi progressivamente marginalizado, sem renunciar aos fundamentos da sua vida econômica e social. (CANDIDO, 1972, p. 82)
Pereira de Queiroz (1973) refuta a tese de que os caipiras tenham que ser observados apenas enquanto marginalizados. É preciso considerar que o elemento que os forçam a essa situação é o desaparecimento das relações sociais anteriores que mantinham, pois, quando o mutirão e a camaradagem cedem lugar à servidão e ao colonato, há um empobrecimento sociocultural que desconstrói o modo de vida das populações tradicionais.
O fenômeno do tropeirismo segue trajetória similar. Surgido como resposta a uma demanda de transporte no período em que a circulação pelo interior do território se dava de forma precária, ele se torna secundário à medida que avançam a modernidade e o modo de produção capitalista.
A leitura sobre o significado do bairro rural no contexto do desenvolvimento brasileiro, particularmente quanto ao recorte que nos interessa nesta investigação, parte do princípio de Maria Isaura Pereira de Queiroz, que, ao analisar os adensamentos populacionais de mesmas dimensões em diversas regiões paulistas,
propunha que se considerassem os núcleos populacionais quanto à sua composição interna, mas também quanto as relações entre estes e o bairro com o meio externo, considerando os bairros vizinhos, a sede municipal à qual o bairro pertence e cidades maiores, de referência regional.
As povoações estudadas se converteram em cidades tradicionais da região de