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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Filipe Cordeiro de Souza ALGATÃO “Os tropeiros no século XXI e o sentido contemporâneo dessa atividade: estudos

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

Filipe Cordeiro de Souza ALGATÃO

“Os tropeiros no século XXI e o sentido contemporâneo dessa atividade: estudos de caso em duas localidades no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira”

MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

São Paulo

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP

Filipe Cordeiro de Souza ALGATÃO

“Os tropeiros no século XXI e o sentido contemporâneo dessa atividade: estudos de caso em duas localidades no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira”

MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Ciências Sociais, sob orientação da Profª. Drª. Rosemary Segurado.

São Paulo

2015

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BANCA EXAMINADORA

___________________________________

___________________________________

______________________________________   

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente, agradeço a Deus, por me conceder sabedoria, discernimento e sensibilidade, para que pudesse chegar ao dia de hoje com a convicção de que esses anos de estrada até aqui, em que sigo estudando o tema tropeirismo em seus vários aspectos, tenham me possibilitado uma aprendizagem imensa, não apenas do ponto de vista do formalismo escolar, como lições preciosas sobre a vida.

Agradeço à minha família, especialmente ao meu pai e à minha mãe pelo apoio para que fosse possível prosseguir meus estudos em nível de mestrado, pela compreensão de minhas ausências nos momentos em que foi necessário estar em campo e pela ajuda de sempre durante a minha caminhada.

Registro aqui meu reconhecimento e minha gratidão à Profª. Drª. Rosemary Segurado, minha orientadora, pela paciência, segurança e direcionamento, nessa nossa parceria que já dura há alguns anos, cuja relação de troca de experiências foi sempre tão rica.

Agradeço à minha namorada, Emili, pela parceria, pelo apoio incondicional e por todo o amor e carinho.

Aos amigos da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, companheiro(a)s de caminhada, pelo privilégio de termos começado juntos nossa trajetória profissional, pelas discussões desde a época do abacateiro, que o tempo proporcionou que continuássemos juntos, dessa vez no Mestrado, na PUC, e mais uma vez juntos!

Destaco nestas linhas meu carinho e reconhecimento às minhas amigas e companheiras intelectuais Natalia Negretti, Tathiana Senne Chicarino e Christina Marchiori Borges, pelo apoio, carinho e torcida mútuos, o que nos permitiu chegar juntos ao término desta etapa. Também dedico aos meus amigos muito queridos Lilian Severo, Regina Barbosa e Washington Oliveira – ainda que não estejamos tão próximos, raras vezes a vida nos concede amizades tão enriquecedoras.

À minha grande amiga, Profª. Drª. Irene Maria Ferreira Barbosa, a quem devo tanto do ponto de vista intelectual, pela amizade e paciência com que tem estado comigo, acompanhando e vibrando a cada nova conquista.

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pertinentes nos meus trabalhos, além do incondicional apoio para que o campo na região de Visconde de Mauá (RJ) fosse realizado a contento.

Ao meu amigo José Adão, aquele que, mesmo na brincadeira, sempre me incentivou e deixou claro o quanto valorizava a minha trajetória de pesquisa e apreciava o amadurecimento deste trabalho.

Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão da bolsa de mestrado, cujo apoio financeiro possibilitou a execução da pesquisa.

Agradeço à Profª Kely Muller Ledoino, pelo auxílio na realização da pesquisa de campo em Campos Novos de Cunha, juntamente com Sr. Jair de Amorim, Prof. Márcio Muller e Prof. Gilson Alves Bernardino.

Aos tropeiros Jair, Paulo, Gezuel e Natal, grandes amigos que fiz nessa pesquisa, onde foi possível observar que a cultura caipira resiste, embora esteja cada vez mais circunscrita aos lugares mais afastados do interior.

Ao Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas, pelo apoio quanto à utilização da metodologia História Oral.

Deixo meu carinho, consideração e reconhecimento às vinte e duas pessoas que se dispuseram a, pacientemente, doar um pouco do seu tempo para contar um pouco de suas experiências e reflexões sobre esse mundo fascinante que circula o assunto tropeirismo, que tanto enriqueceram os dados desta pesquisa quanto a minha formação enquanto pesquisador.

Por fim, dedico esta pesquisa à minha avó Maria de Lourdes e à minha mãezinha do coração Georgina, ambas falecidas no ano de 2013, época em que esta pesquisa já se encontrava em curso e, infelizmente, não foi possível que assistissem ao seu final.

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RESUMO

Esta pesquisa tem o objetivo de analisar a atividade tropeira nos dias atuais, na região do Vale do Paraíba, levantando uma reflexão sobre o sentido contemporâneo de se desempenhar, em pleno século XXI, um ofício usualmente vinculado a um tempo em que não havia grande disponibilidade de recursos e outros meios de transportes, como ocorre atualmente.

Partindo de referenciais teóricos, aliados a estudo etnográfico e entrevistas com informantes selecionados em campo, à luz do método biográfico da história oral, pelo qual coletamos depoimentos de pessoas que ainda desempenham atividade tropeira e de ex-tropeiros, além de seus descendentes diretos, buscamos analisar a influência das tropas nas dinâmicas sociais das comunidades retratadas, sua importância para a economia local e suas perspectivas de continuidade.

Palavras – Chave: Tropeirismo, Vale do Paraíba, Oralidade, História Oral, Cultura.

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ABSTRACT

This research has the goal to analyze the tropeira activity on current days in the region of Vale do Paraíba (Paraíba Valley), guided by the contemporary sense of having an occupation in the 21st Century that is linked to a time that there was not great resources available and other means of transportation, like today.

Coming from theoretical references, allied with an ethnographic study and interviews with informers selected in the field, on the light of the biographical method – Oral History, where we collected testimonials of people that still do the tropeira activity,

ex-tropeiros that perform this occupation and changed their field of work, and also

direct descendants of the tropeiros, seeking to analyze the influence of the troops on social dynamics of the communities pictured, as well as its importance to local economy and its perspectives of continuity. 

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 9

1. Dos tropeiros históricos aos tropeiros contemporâneos: teoria e método para investigação... 17

1.1 - Contribuições metodológicas qualitativas... 17

1.2 - História oral: percursos e contribuições para pesquisas sociológicas... 26

1.3 - Do processo colonizador surge o tropeiro... 34

1.4 - Portrait dos entrevistados... 44

2. Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira: regiões de tropa arreada... 50

2.1 - Influências histórica e cultural das tropas de mula na zona Valeparaibana... 50

2.2 - O Tropeirismo e o Ciclo do Café no cenário regional... 58

2.3 - O ocaso do Tropeirismo clássico: a estrada de rodagem... 67

3. Evolução dos espaços de morada no interior do Brasil: do bairro rural ao rancho de tropa... 76

3.1 - O bairro rural como espaço de sociabilidade... 76

3.2 – Campos Novos de Cunha... 85

3.3 – Fragária e Serra Negra... 94

4. Reflexões sobre a importância da atividade tropeira remanescente nos dias atuais... 102

4.1 - A noção de espaço e tempo e o cotidiano da tropa nos dias atuais... 102

4.2 - Percepções sobre a influência tropeira remanescente nos dias atuais... 120

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 139

BIBLIOGRAFIA... 144

ANEXO I – Tópicos – Guia norteadores das entrevistas... 148 ANEXO II – Arquivo em mídia digital contendo o áudio de todas

as entrevistas e a transcrição na íntegra das entrevistas utilizadas na pesquisa...

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INTRODUÇÃO

A ideia desta pesquisa surgiu ainda durante a graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, quando detinha uma bolsa de iniciação científica da FAPESP para investigar a presença histórica do fenômeno tropeirismo na região do Vale do Paraíba Histórico, com foco na cidade de Silveiras. Nessa pesquisa, busquei articular a evidência histórica com a investigação empírica, com a finalidade de observar em hábitos, valores e crenças, se havia uma herança manifesta do ciclo das tropas na cultura local e se essa era objeto de orgulho ou de vergonha para os moradores.

Como consequência, partimos para outras cidades onde a atividade tropeira foi desempenhada como parte importante do desenvolvimento econômico regional, caso da região do Vale Histórico compreendendo cidades que outrora foram o berço da cafeicultura paulista, conheceram o fausto e a opulência, graças aos milhares de cafeeiros cuja produção era transportada em lombo de mulas pela Serra do Mar rumo à exportação e que sucumbiram graças a marcha do fruto em busca de novas terras no Oeste Paulista.

Essas localidades, Bananal, Areias, São José do Barreiro, Silveiras e Queluz, foram profundamente marcadas em suas relações sociais pela presença das tropas de mula que garantiam o sucesso do ciclo do café e a prosperidade dos barões. Quando cessou a produção, a região mergulhou em um ciclo de declínio econômico e populacional, descrito por Monteiro Lobato na obra “Cidades Mortas”, escrita quando de sua passagem por Areias, exercendo o cargo de Promotor da Comarca.

A partir desse exercício, uma segunda etapa daquela pesquisa envolveu atividades de campo em localidades históricas identificadas com o tropeirismo nos estados do Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, onde pudemos coletar em campo dados de cenários diversos para observar semelhanças e disparidades no tratamento dado aos vestígios materiais e imateriais legados pelos tropeiros às cidades por onde passavam. Nessa etapa, surgiu a questão que originou a pesquisa ora apresentada.

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utilização de meios de produção e de transporte típicos de épocas passadas, quando a disponibilidade de tecnologias era precária.

O início do processo que levou à pesquisa ora apresentada se deu com as incursões a campo, para identificar localidades onde fosse possível observar a recorrência da atividade tropeira. Para isso, recuperamos dados da pesquisa anterior e aprofundamos os exercícios de campo na região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira, espaço originalmente delimitado para o estudo. Chamou-nos a atenção, já no primeiro momento, que houvesse essa ocorrência na região teoricamente mais bem servida de modernos meios de transporte do país, considerando que ela está geograficamente localizada entre os dois principais centros urbanos e entre os três estados com a maior concentração de desenvolvimento socioeconômico no País: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Na abordagem do tema, há que se considerar, primeiramente, o processo histórico regional. As correntes povoadoras que se estabeleceram no Vale do Paraíba buscaram sempre a proximidade com o Rio Paraíba do Sul, determinando, assim, o itinerário do desenvolvimento. Na Serra da Mantiqueira, os adensamentos populacionais mais antigos estabeleceram-se à beira dos caminhos que ligavam São Paulo às jazidas de ouro mineiras. Com o advento das tropas e a necessidade surgida a partir da instalação de paradas para pouso das diligências, é que se observou o início do processo de consolidação de núcleos populacionais em localidades mais afastadas dos eixos São Paulo/Minas acima mencionados.

Com exceção feita a Cunha, cidade localizada no caminho do porto de Paraty, buscando a boca do Sertão, em uma antiga via de penetração, utilizada pelas antigas tribos indígenas para comunicação do litoral com o planalto, as outras localidades situadas fora do traçado do rio surgiram a partir do século XVIII. Nesse momento, o tropeirismo na região vivia sua fase de maior sucesso, pois, com o declínio da produção de minerais preciosos nas Minas Gerais, as tropas se concentraram na realização de jornadas menores, abastecendo as cidades do Vale do Paraíba e, assim, seus proprietários conheceram período de grande sucesso econômico a reboque da primeira fase do ciclo do café em terras paulistas, pois faziam o transporte da produção regional para os portos de Paraty e Mambucaba.

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Com a decadência da produção de café, a região do Vale do Paraíba passou por um processo de retração econômica, que afetou não apenas a geração de riquezas, como determinou um fluxo migratório das famílias da região para cidades maiores, marcando, assim, o início do esvaziamento das cidades mais afastadas. Posteriormente, já no século XX, há a abertura da estrada de rodagem entre São Paulo e Rio de Janeiro, com ela surgiram na região os automóveis e pequenos caminhões, ligando outra rede de cidades não contempladas pelo trem, que passaram a ser servidas por linhas de ônibus. Assim se acentuou o processo de decadência, que teria sua coroação com a abertura da Rodovia Presidente Dutra, já com pista dupla, nos anos 1950.

As tropas de mula sobreviveram a todos esses acontecimentos históricos, graças às condições particulares que as localidades pesquisadas guardaram em relação ao contexto mais amplo em que estão inseridas. São localidades que, embora estejam bastante próximas aos polos de desenvolvimento regional, como São José dos Campos, Taubaté, Guaratinguetá, Lorena e Resende, permaneceram, em seus aspectos culturais, mais voltadas aos antigos hábitos típicos da cultura caipira. Ainda preservam manifestações culturais, artísticas e laborais herdadas de seus ancestrais, porém, observam a gradativa entrada de novos elementos da cena contemporânea na vida dos seus habitantes.

Esta pesquisa, inicialmente desenvolvida no campo da Sociologia, mostrou-se, ao longo do tempo, também multidisciplinar, envolvendo discussões não apenas sociológicas, como alcançando a Historiografia, a Antropologia, a Geografia e, em menor escala, a Literatura. Todas essas influências foram contribuições muito positivas, visto que, para melhor apreensão dos argumentos apresentados, tais ligações permitem que o cenário, os atores e as regras se evidenciem de forma quase tangível, para maior fruição do leitor.

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compreender como se dá essa transferência de conhecimento, em que ambiente ela acontece e com quais recursos os mais velhos transmitem aos jovens a sabedoria adquirida ao longo do tempo de exercícios desse ofício. E, por fim, buscaremos analisar se há, por parte dos descendentes desses tropeiros, o desejo ou necessidade de continuar com essa prática, tomando novamente os recursos disponíveis na região como base e observando a disponibilidade que demonstram para aprender e para desempenhar a mesma função de seus pais e avós.

Dividimos as etapas do processo investigativo em três: a primeira delas, quando realizamos uma pesquisa bibliográfica em que levantamos as obras de referência a respeito do assunto tropeirismo, seguida de articulações com leituras históricas, teóricas e metodológicas que fornecessem subsídios para a compreensão do tema. Para isso incorporamos trabalhos sobre a história da região do Vale do Paraíba, abordagens teórico-metodológicas e obras clássicas da Sociologia Brasileira que tratam, em maior ou menor grau, da abordagem da cultura caipira que nos interessa.

Em seguida, incorporamos ao material bibliográfico algumas informações coletadas a partir de fontes primárias (registros cartoriais, eclesiásticos e documentação institucional) sob custódia do Instituto de Estudos Valeparaibanos (Lorena/SP), do Museu Frei Galvão (Guaratinguetá/SP), da Biblioteca Municipal Oracy Nogueira (Cunha/SP) e do Arquivo Histórico Municipal de Resende/RJ. Limitamo-nos a agregar à pesquisa apenas material relativo aos traçados percorridos entre as regiões de Campos Novos de Cunha, Fragária, Serra Negra e Visconde de Mauá, que nos interessa nesta etapa.

Depois de reunir esse capital prévio de informações, partimos para a fase de pesquisa de campo, com a finalidade de observar a ocorrência de atividade tropeira nos dias atuais, e para a realização de entrevistas com pessoas que ainda desempenham essa função ou com pessoas que foram tropeiros e mudaram de ofício, além de descendentes de tropeiros. O intuito era de captar, a partir de seus depoimentos, como cada um desses grupos reflete a presença das tropas no cotidiano; se há um “imperativo geográfico” nessa sobrevivência ou se há desejo de continuidade dessa prática.

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industrializada e chegavam às cidades mais afastadas algumas melhorias, como a abertura de estradas e a eletricidade, ambos argumentos facilitadores no processo de migração para as cidades maiores.

Privilegiamos a escolha de pessoas que, desde essa época, já lidavam com tropas ou cuja dinâmica familiar incluía tal aspecto, devido a algum parente próximo, como pai ou tio, exercer esse ofício. Buscamos, também, entrevistar pessoas que exerceram anteriormente atividade tropeira e mudaram de ofício ou, ainda, descendentes de tropeiros, captando, assim, suas opiniões e reflexões acerca da profissão dos seus ancestrais.

Como aporte metodológico, nos apoiamos na construção teórica da pesquisa dos recursos acima mencionados e, em campo, realizamos etnografias em localidades onde a utilização de tropas ainda se mostra frequente, para captar as dinâmicas sociais presentes, observar o impacto que a atividade tropeira produz nessas comunidades e observar se há diferenças entre o tropeirismo de outrora e o praticado atualmente.

Para a realização das entrevistas, aplicamos as técnicas inerentes à história oral, para a coleta de depoimentos, tanto dos mais velhos, como dos mais jovens, captando suas percepções quanto à presença do tropeirismo na formação cultural da localidade em que vivem e o determinismo dessa influência na manutenção da atividade tropeira, para, assim, dimensionarmos a centralidade, nos dias atuais, dessa atividade para as comunidades selecionadas.

Os locais eleitos como casos paradigmáticos à compreensão do tema são os bairros rurais de Campos Novos, no município de Cunha/SP, e Fragária e Serra Negra, ambos pertencentes ao município de Itamonte/MG. Essa escolha se deu a partir da avaliação de alguns elementos, como o fato de ambas as regiões apresentarem relevo bastante escarpado, o que dificulta o acesso de veículos automotores, principalmente os de grande porte, como caminhões. Elas são redutos históricos do tropeirismo na região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira, devendo à atividade tropeira grande parte do desenvolvimento local. Todas pertencem administrativamente a municípios que possuem acesso à Via Dutra, mas tais povoações ainda permaneceram marginais à onda de desenvolvimento econômico da região.

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Parques Nacionais: Parque Nacional da Serra da Bocaina, em Campos Novos, e Parque Nacional do Itatiaia, em Fragária e Serra Negra, cuja legislação proíbe a realização de obras de infraestrutura viária e novas construções de moradia, forçando os moradores a conviverem apenas com as estradas e as residências já existentes, sendo permitido apenas reparos, vetando-se, inclusive, o exercício de atividades econômicas mais sofisticadas.

O primeiro capítulo está estruturado em quatro partes; a primeira trata da questão do tropeirismo em uma perspectiva histórica mais ampla, recuperando as circunstâncias de seu aparecimento no Brasil, sua relevância para a atividade comercial colonial e posteriormente para a nação já independente, assim como as principais contribuições teóricas sobre o assunto e sua contribuição para a história econômica do país.

A segunda parte apresenta-se como uma reflexão necessária a respeito da metodologia e das estratégias utilizadas na investigação. Há um especial destaque para o papel das etnografias, visto que, por abordarmos regiões periféricas, dentro do universo rural do Vale do Paraíba, há pouca disponibilidade bibliográfica específica sobre a história e o desenvolvimento desses bairros, ou mesmo sobre a própria cidade que os abriga. Campos Novos de Cunha possui pequena bibliografia que trata de sua criação e da importância de sua existência, dentro de trabalhos maiores, visto que o município de Cunha foi bastante estudado em trabalhos acadêmicos no âmbito das ciências humanas. Entretanto, quase nada foi escrito sobre a região de Fragária e Serra Negra, não havendo bibliografia disponível sobre a região, por isso as descrições etnográficas constituirão importante parte do trabalho.

A terceira parte é dedicada à discussão das contribuições da história oral para a pesquisa e os limites de sua aplicação. Em perspectiva mais ampla, observamos o emprego dessa metodologia em outras pesquisas que esbarrem na falta de documentação disponível ou de uma bibliografia já sistematizada. Portanto, a valorização do relato oral tem-se como indispensável para a recuperação histórica das localidades selecionadas, considerando-se também a percepção dos moradores em relação à dinâmica social em que vivem.

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O segundo capítulo dedica-se a uma abordagem mais específica da presença histórica das tropas no Vale do Paraíba. Delimitamos alguns aspectos para complementar a parte do capitulo anterior que trata da história do tropeirismo, tratando, na primeira parte do capítulo em questão, de sua influência no cenário regional mais amplo. Por ser uma zona cuja tropa tinha por característica ser “arreada”, ou, em outras palavras, as mulas eram o meio de transporte, não o produto a ser transportado, como ocorria na região sul do país, iniciamos o capítulo tratando dessa diferenciação e privilegiando, na abordagem, a tropa arreada, objeto da presente pesquisa.

O capítulo também está estruturado em três partes; na primeira delas nos dedicamos em compreender a influência cultural das tropas na região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira, mencionado contribuições históricas e culturais à vida sociocultural do Vale do Paraíba legadas pelos tropeiros. Na segunda parte, propomos uma discussão específica sobre a relação do tropeirismo com o ciclo do café, considerando que essa foi a fase de maior esplendor e opulência regional, quando houve grande alteração no modo de vida nessas cidades, e nos detivemos sobre a participação dos tropeiros nesse contexto. Tratamos, na terceira parte, do declínio da atividade tropeira após a disseminação das estradas de rodagem e sua sobrevivência nas localidades mais afastadas. A bibliografia proposta para esse capítulo privilegia abordagens de cunho mais especificamente valeparaibano, além de obras de referência que tratem do tema.

O terceiro capítulo versa sobre a formação dos bairros rurais enquanto espaços de preservação da cultura caipira e da influência que a manutenção dessa cultura tradicional exibe nas localidades onde ainda hoje se pratica atividade tropeira. A partir da bibliografia utilizada, que leva em conta trabalhos clássicos da Sociologia sobre tais espaços, como os de Antonio Candido e Maria Isaura Pereira de Queiroz, pois os ranchos de tropa, surgidos entre os séculos XVIII e XIX e que ainda sobrevivem em localidades afastadas, possuem características que nos permitem considerá-los bairros rurais. A intenção da primeira parte do capítulo é refletir sobre o bairro rural enquanto espaço de sociabilidade, considerando as circunstâncias de surgimento, as relações com demais bairros vizinhos e explicitando a necessidade da atividade tropeira, enquanto forma de abastecimento e de comunicação entre esses locais e entre eles e os centros maiores da região.

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Negra, considerando as particularidades de ambos os casos. Pontuamos as semelhanças e as diferenças entre eles, com o intuito de verificar se há homogeneidade no exercício da prática tropeira, na forma como foi transmitido esse ofício, quanto ao material transportado, a finalidade do transporte e as jornadas percorridas.

Nossa percepção, em campo, é objeto de discussão no quarto e último capítulo da dissertação, cuja proposta se inicia a partir da discussão sobre a questão do espaço e do tempo para o cotidiano das tropas, considerando que essa relação permeia toda a prática da atividade tropeira, mencionando reflexões a partir das entrevistas, bem como descrições etnográficas sobre o caminho percorrido pelas tropas contemporaneamente e abordando o contexto de algumas entrevistas, com informantes que tiveram destacado papel durante o processo investigativo.

Analisamos as informações extraídas das entrevistas, divididas por eixos temáticos e por falas-síntese mencionadas no texto. Apontamos, dentre as entrevistas, algumas questões que serviram como objeto de análise, tendo por principal tema a questão central desta investigação: o sentido contemporâneo de desempenhar atividade tropeira, relativo a suas causas e impactos produzidos.

Discutiremos também o papel que alguns entrevistados tiveram diretamente para que a pesquisa lograsse êxito, abordando o percurso desempenhado pelos tropeiros para que conseguissem comercializar o material transportado e, por fim, discutiremos a perspectiva de continuidade na utilização das tropas para o transporte de mercadorias e as prováveis novas formas de utilização desse modal, notadamente quanto à exploração de sua vocação turística.

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1. DOS TROPEIROS HISTÓRICOS AOS TROPEIROS CONTEMPORÂNEOS: TEORIA E MÉTODO PARA INVESTIGAÇÃO.

1.1 - Considerações metodológicas fundamentais.

A questão metodológica da pesquisa foi objeto de reflexão constante em todas as fases de seu desenvolvimento. Pela abordagem proposta, que o próprio título do trabalho sugere, apoiamo-nos em um viés qualitativo quanto à investigação sociológica e tomamos como premissa as proposições de autores que dialogam com as técnicas de investigação que privilegiam as atividades e os dados coletados em campo acerca das comunidades retratadas.

De acordo com Teresa Haguette (1987), as teorias devem ser empregadas como forma de explicar determinados aspectos da realidade, considerando que não há uma única capaz de explicar todos os prismas da vida social e que o papel do pesquisador reside em analisar a vida e as interações sociais dos indivíduos, os verdadeiros protagonistas das transformações estudadas.

Para fugir de uma leitura estrutural e mecânica dos grupos sociais, geralmente vinculados a uma visão quantitativa, imprimimos uma abordagem que reconheça a sociedade como multiplicadora de processos sociais que constituem os alicerces para orientar as ações sociais. Infere-se disso que metodologias qualitativas se prestam à análise de questões sociais com base na urgência de refleti-las como algo dinâmico, pois não há dúvida de que as estruturas existem e devem ser conhecidas, mas é a

ação humana, a interação social, que constitui o motor da história”. (HAGUETTE,

1987, p.17)

Os métodos qualitativos são empregados em situações cuja especificidade de fenômenos seja manifesta. Há algumas situações em que seu emprego se faz mais indicado;

Situações nas quais a evidência qualitativa substitui a simples informação estatística [...], situações nas quais a evidência qualitativa é usada para captar dados psicológicos que são reprimidos ou não facilmente articulados [...] ou situações nas quais simples observações qualitativas são usadas como indicadores do funcionamento complexo de estruturas e organizações que são difíceis de submeter a observação direta. (HAGUETTE, op.cit. p.55-56).

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complexidade nas relações sociais se mostra evidente e, por isso, não seria possível, sem prejuízo, um estudo que captasse a realidade e o contexto da comunidade através de uma estrutura estanque e meramente estatística.

As metodologias qualitativas nas Ciências Sociais derivam da noção de que o indivíduo é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto das ações sociais. Os trabalhos que levavam em conta esse pressuposto despontaram no cenário acadêmico, conforme Miriam Goldemberg (2001), entre o final do século XIX e início do século XX, na Universidade de Chicago (EUA), primeiro centro de pesquisas voltado à investigação empírica. Esse estudo parte da leitura de que o indivíduo, enquanto agente social, reproduz signos e significados dos grupos com os quais se relaciona e, através dessas reproduções, observam-se as transformações sociais. Ainda segundo a autora mencionada, com os trabalhos desenvolvidos em Chicago e sua orientação empiricista, surgiram novas formas de pesquisa qualitativa, incorporando fontes primárias para a compreensão da vida social e as pesquisas de campo passaram a ser desenvolvidas mais frequentemente no âmbito da Sociologia.

Outra contribuição que consideramos relevante à construção da pesquisa vem da noção fenomenológica, ao preconizar que os indivíduos constroem seu universo de relações de acordo com as experiências vividas no grupo que as estabelece. As pessoas partem do mundo em que vivem como algo dado. Disso decorre uma visão interpretativa quanto aos costumes e às normas do contexto em que se encontra inserido. Alfred Schutz (1979), ao deter-se sobre essa questão, considera que “o mundo da vida” deve ser visto através da análise do cotidiano em que os Homens se firmam e como suas atitudes refletem a realidade.

Em sua perspectiva, o mundo da vida cotidiana é, antes de tudo, um mundo organizado anterior ao nascimento dos indivíduos, no entanto, presta-se a constante interpretação, por parte dos que nele habitam. Toda essa análise é feita a partir do acúmulo que representa a vida vivida das pessoas, derivada do conhecimento que reúnem e de suas experiências de vida, além daquilo que é transmitido pela família, pela escola, o que representa a formação desse mesmo indivíduo.

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diretamente ligada à ancestralidade dos indivíduos, por isso a tropa imprime grandes marcas na cultura local, seja pelos hábitos, valores e crenças já mencionados, seja pela própria frequência com que cruzam as comunidades.

O tropeiro, nesse caso, seria um arquétipo desse homem do cotidiano, pois a partir do cabedal de conhecimentos que reúne de sua experiência, reelabora seu papel na dinâmica social, considerando eventuais contradições de acordo com a vida que leva, as influências externas que recebe, sua posição social e seus interesses. Para tanto, faz-se necessário considerar os indivíduos em seus próprios termos e observar o nível de envolvimento que possuem nas comunidades e qual a importância real de sua atuação contemporaneamente.

No processo investigativo, por ser uma pesquisa de campo, realizamos etnografias para compreender as dinâmicas sociais presentes nas comunidades retratadas. De acordo com Michael Angrosino (2009), a Etnografia representa a descrição de um povo, uma forma de estudar indivíduos em relação a grupos sociais que podem ser comunidades ou sociedades, considerando as particularidades constitutivas de sua cultura, instituições, hábitos e crenças.

Conforme Angrosino (2009), a Etnografia, enquanto método, concentra-se na coleta de dados sobre a vida vivida das comunidades baseada na pesquisa em campo, envolvendo pesquisador e pesquisados em relação direta com o dia a dia de ambos, buscando compreender, no máximo possível, traços culturais dos grupos retratados, e pode ser aliada com outras técnicas de investigação. Dentro desse universo qualitativo, despontam estratégias de investigação que auxiliam a constante revisão bibliográfica que fazemos, ao processo que leva à execução das atividades de campo, à forma como coletamos os dados e ao tratamento que damos a eles posteriormente.

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As entrevistas nos servem para compreender o processo de interações sociais na qual os agentes retratados estão inseridos. Elaboramos um roteiro de questões que previam a participação de depoentes em três níveis: tropeiros contemporâneos, ex-tropeiros e descendentes de ex-tropeiros que podem guardar alguma memória da tropa, não sendo requisito ter tido uma vivência direta do assunto. Atribuir relevância ao depoimento oral, segundo Jean-Claude Kauffman (2013), é uma tendência dos pesquisadores no campo das Humanidades e, no caso desta investigação, o esforço se dá à medida que extraímos da fala dos entrevistados percepções muito ricas sobre o que o fenômeno tropeirismo representa para o universo em que vivem.

Durante a entrevista, as fontes de informação se mostram presentes não apenas na fala do depoente, mas também em fatores externos, como o próprio roteiro de questões ou na relação entre pesquisador e pesquisado. Tudo isso interfere na obtenção dos dados e na forma como eles serão interpretados posteriormente. De acordo com Haguette (1987), o pesquisador deve diferenciar as informações obtidas em caráter objetivo das subjetivas. Há que se reconhecer a relevância de ambas, embora se lembre de que a fala do depoente corresponde à forma como ele elabora aquilo que apreende de sua própria vida e rede de relações.

As afirmações subjetivas devem ser interpretadas considerando a pertinência da questão que se busca conhecer, o sentimento que o entrevistado esboça ao tratar do tema proposto, a forma como reage ao refletir sobre a questão e a eventualidade de conflitos nas falas dos depoentes, durante a sistematização das mesmas. Para a realização das entrevistas que compõem os dados dessa pesquisa, procuramos fazer um levantamento prévio da condição sócio-histórica regional, para que esse conhecimento facilitasse a interlocução com os entrevistados e, assim, melhor compreender as informações fornecidas.

O conjunto de dados obtidos em campo produz, assim, um estudo de caso sobre a realidade retratada. Apoiando-nos em Goldemberg (2001), tomamos essa modalidade como sendo uma análise que considera o grupo social estudado em sua totalidade, sendo possível captar suas interações coletando a maior quantidade de informações disponíveis.

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ou pelo fato de questões que se supunham centrais se tornarem secundárias ou deixarem até de ser relevantes para a pesquisa.

Escolhemos a metodologia utilizada nesta pesquisa considerando reflexões com base na leitura de Maria Isaura Pereira de Queiroz ao apontar que a seleção das técnicas de coleta e interpretação do material levam sempre em conta as questões nas quais o pesquisador se baseou para estudar o objeto da pesquisa, considerando que os indivíduos interpretam e dão significado aos seus valores e crenças com base no grupo social. Todo indivíduo encerra uma parte que é particularmente sua e uma parte que foi insuflada pelo seu meio: partes que se interpenetram, mas que ora estão

em harmonia, ora em oposição. (PEREIRA de QUEIROZ, In: LUCENA et al, 2008, p.

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Tal reflexão admite que o objetivo de interesse do pesquisador, embora se concentre em uma questão presente no imaginário coletivo, não será uma regra de que haja consenso entre os entrevistados, quanto à questão que se pretenda esclarecer.

Nesta pesquisa, nos apoiamos no princípio defendido por Pereira de Queiroz (2008) em que a metodologia qualitativa tem por função evidenciar os traços culturais de uma sociedade, expondo pontos de conflito ou coesão, possibilitando estudos de natureza comparativa que permitam verificar intercorrências. Nossa contribuição se concentra em averiguar, em campo, a ocorrência de tais fenômenos e considerarmos se as semelhanças ou diferenças em relação ao histórico de ocupação territorial, de localização geográfica e de formação cultural decorrentes produziu um tropeirismo residual, com características comuns ou se cada localidade representa um particularismo em si.

Um estudo qualitativo foi condição, de primeira hora, no desenvolvimento da investigação. Entendemos que o recorte proposto atinge relevância, ao abordar o universo dos praticantes da atividade tropeira e de seus familiares ou demais membros do grupo em que convivem em seus aspectos socioculturais, captando, dessa forma, o papel da referida profissão na economia local com base na fala desses indivíduos e na produção de etnografias das localidades onde residem e praticam relações comerciais.

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Novos de Cunha, região da Serra da Bocaina, área do município de Cunha, São Paulo. As comunidades apresentam alguns elementos comuns, como o relevo escarpado, que inviabiliza em várias áreas a chegada de veículos automotores; a existência em suas franjas de dois parques nacionais, que vetam a construção de estradas ou propriedades novas, exigindo de seus residentes que apenas façam algumas manutenções nos caminhos já consolidados, em grande medida as mesmas picadas na mata utilizadas desde o ciclo do ouro e a localização geográfica dos bairros, todos eles em região de divisa interestadual entre Minas Gerais e Rio de Janeiro ou entre este e São Paulo.

Todas as localidades são remanescentes históricas do tropeirismo na região do Vale do Paraíba. A ocupação territorial de Fragária e Serra Negra têm raízes no século XVII. As Bandeiras paulistas com destino a Minas Gerais, após cruzarem a Mantiqueira, na Garganta do Embaú, seguiam por trilha até as margens do Rio Aiuruoca, cujas nascentes ficam no bairro Serra Negra, e percorriam caminhos junto ao curso d’água em direção às jazidas de minério.

A ocupação territorial de Cunha, onde se insere Campos Novos, tem roteiro semelhante ao anterior, pois, com a descoberta do ouro nas Minas, consolidou-se um antigo caminho indígena que foi autorizado pela coroa portuguesa para o transporte do material até o porto mais viável onde fosse possível embarcar os minerais para o Rio de Janeiro e, posteriormente, para a metrópole lusitana. No mesmo século, foi aberto o referido caminho, ligando Vila Rica (atual Ouro Preto) ao porto de Paraty, criando paradas de tropa que deram origem a bairros rurais e, posteriormente, a novas cidades, consolidando os adensamentos populacionais já existentes que estivessem às suas margens, dentre eles a antiga vila do Facão, atual município de Cunha. Campos Novos de Cunha começaria a surgir nos registros de época apenas no início do século XIX; no entanto, já se verificaria no cenário regional uma complexa rede de caminhos que seriam utilizados em larga escala, propiciando o desenvolvimento do Vale do Paraíba posteriormente.

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consumo e gêneros alimentícios, o tropeiro foi indiretamente um dos responsáveis pela viabilidade da vida no interior do território.

Suas paradas de descanso converteram-se em locais propícios à atividade comercial e ao estabelecimento de famílias que buscavam maior contato com as novas tendências. Os latifundiários começaram a residir no adensamento urbano e só retornavam à propriedade rural em épocas específicas, como na colheita, e por ocasião da venda da produção. Várias dessas localidades se tornaram, décadas mais tarde, prósperas cidades.

A região do Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira serve-nos como caso emblemático, pois, através de pesquisa anterior1, observamos que as cidades distam entre si, uma média entre dezoito e vinte e quatro quilômetros, distância que corresponde a uma jornada diária da tropa e perfaz o trajeto que uma tropa aguentava percorrer, variando de acordo com o relevo da região, condições climáticas favoráveis ou quantidade de carga transportada. A cada trecho percorrido, nota-se que, se não há uma cidade, ao menos existe um bairro rural, o que indica indiretamente ser aquele local uma parada para descanso dos tropeiros e viajantes.

A atividade tropeira na região iniciou seu processo de declínio ainda durante o século XIX, com a chegada das estradas de ferro, cuja expansão se deu, paulatinamente, com o leito ferroviário do Vale do Paraíba correndo próximo às margens do rio, atraindo para essa órbita um novo ciclo de desenvolvimento, ao consolidar algumas cidades como importantes entroncamentos ferroviários. Ficou a cargo das tropas, a partir de então, a função de conectar os locais mais longínquos com as estações de trem mais próximas, retomando uma de suas atribuições precípuas de romper o isolamento a que eram submetidas localidades mais afastadas e colocá-las em contato com as tendências vindas das cidades maiores e, no caso da região em questão, da então capital do país.

A entrada do Brasil na era das rodovias, nos anos 1950, marco que a literatura considera como uma das grandes fases do modelo desenvolvimentista, e cujas estradas de rodagem – no caso do Vale do Paraíba, a Via Dutra – são os principais expoentes. Esse desenvolvimento culminou com o encerramento da atividade tropeira em muitas regiões do país, pois tornou possível a chegada de automóveis, pequenos caminhões ou mesmo ônibus a muitos locais que até então só eram servidos por       

1 Pesquisa de iniciação científica intitulada “O culto à memória e a memória negada: um estudo

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diligências em lombo de burro. No entanto, nas regiões mais escarpadas, onde não foi possível a construção de estradas, o tropeirismo sobreviveu como, senão a única, uma das poucas formas de contato entre a zona rural e a cidade, permanecendo em uma relação de dependência entre esse modal considerado “obsoleto” e as comunidades afastadas. Nosso foco de interesse são as características desse tropeirismo sobrevivente na contemporaneidade.

Propomos, para fins elucidativos, um corte cronológico que melhor situe a discussão sobre o tropeirismo, a partir de duas perspectivas: de um lado, o movimento que se iniciou durante o período colonial, exercendo a primazia no transporte de bens e, em menor escala, de pessoas, atravessou o século XIX até meados do século XX como complementar à atividade ferroviária e só sucumbiu às estradas de rodagem – a este chamamos de “tropeirismo clássico”. Em contrapartida, tem-se a atividade tropeira típica de lugares afastados, que a ferrovia não alcançou, e cujas estradas são bastante precárias. Trata-se de uma das hipóteses levantadas neste trabalho, que confirmamos a partir da coleta de dados em campo aliada à compreensão da bibliografia proposta, que diz respeito a um “tropeirismo residual”. É ele que descende do tropeirismo clássico quanto à forma, mas não estabelece dependência quanto a este, visto que o tropeiro contemporâneo, cuja figura o matuto das serras da Mantiqueira e Bocaina seria seu maior expoente, está inserido em uma lógica de mercado, algo inexistente em tempos anteriores. Esse formato é o que permanece até os dias atuais.

Esse homem contemporâneo, que exerce atividade tropeira tal como a consideramos, nos dias atuais, quase sempre herdou a profissão de um familiar próximo ou de alguém com quem conviveu intimamente. Dessa relação surgiu a transferência de conhecimentos básicos para o desenvolvimento dessa prática e a habilidade necessária para atravessar os diversos tipos de caminho por onde trafegavam.

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As cargas transportadas contemporaneamente também não são as mesmas que proporcionaram o sucesso econômico de outrora. Hoje trata-se de uma atividade de subsistência, fruto de um imperativo geográfico e de um grau de desenvolvimento econômico local, em descompasso com relação ao cenário regional. Os minerais preciosos e o café, largamente transportados em lombo de mula pela região, deram lugar a pequenas cargas de madeira, colheitas de milho e feijão, além de materiais de construção, na região da Serra da Bocaina. Em relação à Mantiqueira, somam-se a essas tarefas, o transporte de queijos, mel, geleias e ovos aos turistas e comerciantes do destino turístico de Visconde de Mauá, que aguardam a chegada das tropas, aos sábados, para adquirirem seus produtos.

As comunidades escolhidas como casos paradigmáticos para compreensão do tema proposto foram selecionadas considerando seus aspectos geográficos (localizadas em terrenos escarpados, em meio a região de serra), históricos (bairros cuja história remete ao tráfego intenso de tropas de mulas) e culturais (presença, nos hábitos e costumes das populações, de traços legados pela passagem e instalação de tropeiros na região).

Para a seleção de entrevistados, respeitamos a clivagem temporal e consideramos o período do “tropeirismo residual” a partir do início dos anos 1970, quando as rodovias da região já se encontravam consolidadas e o processo de expansão industrial seguia a todo vapor, atraindo famílias de regiões mais remediadas para as cidades à beira da Via Dutra – onde as indústrias se instalaram. Nos dias atuais, o tropeirismo persiste de modo ressignificado, pois, apesar de se encontrar na zona rural, utilizando-se de tecnologia típica do período colonial, está inserido dentro de uma lógica de mercado, o que difere do tropeirismo dito clássico. Os informantes selecionados em campo obedecem às seguintes categorias: pessoas que exerceram a atividade tropeira e experimentaram as duas lógicas mencionadas; as que ainda praticam essa modalidade nos dias atuais e os descendentes dos dois tipos. O intuito dessa seleção foi identificar como era desempenhada antigamente a atividade tropeira e como ela se transforma ao longo do tempo, captando as reflexões dos pesquisados a respeito da função social desse ofício, tanto para as relações sociais como para o desenvolvimento das localidades retratadas.

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positivamente para as pesquisas no campo das Humanidades. O método empregado em campo para a coleta de depoimentos de tropeiros contemporâneos, ex-tropeiros e descendentes leva em conta a particularidade de que se trata de uma função laboral cuja relação de aprendizagem se dá entre os sujeitos, a partir de conhecimentos empíricos. Tanto para captar o olhar desses sujeitos para a prática desempenhada nas comunidades, quanto à compreensão desse processo de transmissão de conhecimentos entre os sujeitos, que podem ser do mesmo grupo ou não, nosso aporte reside nos recursos metodológicos da história oral, das técnicas aliadas à sua aplicação e ao modo como ela se articula com a Etnografia.

1.2 - História oral: percursos e contribuições para pesquisas sociológicas Esta pesquisa, ao tentar compreender o sentido contemporâneo da atividade tropeira, considerando particularidades como a situação geográfica das comunidades onde tal ofício ainda é praticado, o contexto histórico local baseado na ocupação territorial e os traços culturais presentes nos hábitos, valores e crenças, filia-se em grande medida aos pressupostos presentes na história oral.

Utilizar o método biográfico ou da história oral envolve uma complexa gama de leituras e interpretações. Considerando-a enquanto método de pesquisa, nos baseamos na proposição de Verena Alberti:

A história oral é um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. (ALBERTI, 2004, p.18)

Aplicamos esta influência no trabalho de campo à medida que observamos a realidade vivida das comunidades e entrevistamos informantes selecionados, já de posse das questões previamente elaboradas. Nas entrevistas abertas, o fato de deixarmos os informantes falarem (dando voz e liberdade às suas expressões), levou alguns dos depoentes a nos contar sua história de vida, algo que, por sua espontaneidade e informalidade, emerge e que traz olhares muito ricos, cuja contribuição à elucidação das questões propostas foi indispensável.

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e utilização futura pela comunidade acadêmica, conforme varie o interesse da pesquisa sobre o objeto a ser pesquisado.

De forma complementar a essa abordagem, é a fala de José Carlos Sebe Bom Meihy (1996) que frisa a importante contribuição metodológica da história oral, pela possibilidade de estudar a experiência social de indivíduos ou de comunidades, com base na elaboração de documentos que tenham por objeto sua utilidade prática, ou seja, uma história viva. “Como método, a história oral se ergue segundo alternativas que a privilegiam como atenção central dos estudos. Trata-se de focalizar os depoimentos como ponto central das análises”.(MEIHY, 2000, p. 31)

O que significa dizer, com base na leitura acima, que as fontes orais, enquanto método, devem ser o ponto central da investigação, considerando que os informantes selecionados possuem algum tipo de ligação ou contato, seja pela vivência, seja pela memória afetiva, com a atividade tropeira.

Por ser a história oral uma modalidade que abarca diversas especialidades, de acordo com Thompson (1992), trata-se de uma técnica de pesquisa que advém da História, mas que pode ser empregada em muitas áreas da mesma disciplina, como História Econômica, História Política, História da Religião, História das Ciências ou mesmo em auxílio a profissionais de outros campos do saber como sociólogos, antropólogos, psicólogos ou jornalistas.

A história oral implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado. A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. (MEIHY, op. cit., p. 18)

A história oral presta valorosa contribuição para contar a história de pequenos grupos, corporações e, neste caso, é possível enquadrar a figura dos tropeiros, pois esses personagens, cujos registros escritos são limitados, justificam a aplicação dessa técnica de investigação como estratégia para contar a história do tropeirismo na região selecionada. Ela nos permite sair da posição de “desvantagem”, em relação aos dados que figuram na história oficial e, assim, ampliar o rol de conhecimentos sobre o tema. As evidências orais nos permitem retomar aspectos desses grupos que nem sempre foram registrados, mas que persistem como traços culturais característicos ou que não possuam documentação a respeito. Assim, as evidências orais vêm contribuir para ampliar a discussão sobre suas práticas,

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Retornando a abordagem de Pereira de Queiroz (2008), foi quase sempre uma constante na história da humanidade a utilização de fontes orais para a transmissão de conhecimentos. As ciências modernas apoiaram-se largamente nesse recurso, cuja coleta de depoimentos pode ser feita a partir de alguns modelos como história de vida – que pode ser individual ou de um grupo; biografias ou autobiografias; entrevistas abertas – que podem ou não ser controladas por tópicos-guia; conversas ou bate-papo informal e questionários fechados. Para efeitos didáticos, nos deteremos às três modalidades empregadas com maior recorrência: histórias de vida, entrevistas abertas e conversas informais.

A história de vida, de acordo com Pereira de Queiroz (2008), foi utilizada pela primeira vez, nas ciências modernas, no campo da Psicologia, partindo do social, analisando a personalidade dos indivíduos e como esta é moldada conforme as influências do grupo onde a pessoa se encontra inserida, quais interfaces existem entre o indivíduo e o coletivo e suas reações diante de determinadas situações, se consideramos que suas ações estão carregadas de significados, produzidos no contato com o grupo.

Como na Sociologia, o ponto central é o ser social, que é estudado através dos comportamentos visíveis e nas relações estabelecidas entre o grupo e os que dele participam, assim, o interesse pela história oral só se consagrou quando se admitiu que traços culturais não seriam algo estritamente individuais, mas sim produtos com carga de valor coletivo, algo inerente à vida vivida dos seres humanos.

Os relatos de história de vida sugerem problemas sociológicos ou não. Com o problema de pesquisa formulado, escolhe-se o método mais adequado ao universo da investigação, dentre os quais a história oral e suas várias técnicas. Posterior a isso, quando optamos pela história de vida, podem-se realizar entrevistas com esse caráter e, a partir disso, dissociar o que é experiência coletiva, com base também nas observações do campo e de conhecimentos anteriores sobre o tema.

Uma observação importante, quando se coletam histórias de vida de cunho sociológico, é a formulação prévia de uma ou mais indagações que se quer esclarecer já que, a partir do viés estabelecido entre a narrativa do depoente e a elucidação da questão, é que se orientarão as fases da pesquisa: preparo do pesquisador, escolha dos informantes, entrevistas e análise dos dados extraídos.

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de sentimentos, opiniões e atitudes da pessoa que a relata. (PEREIRA de QUEIRÓZ, op. cit., p. 86)

Ainda segundo Pereira de Queiroz (2008), para o sociólogo, os depoimentos e os fragmentos de história de vida contribuem para o processo de pesquisa, à medida que nos permitem situar as práticas que queremos conhecer, compreender ou analisar, qual a quantidade de material, se é produto de um imaginário coletivo, se há abundância de depoimentos, existência de pontos de conflito nas falas, se as mesmas informações e impressões se repetem, em maior ou menor escala.

A experiência de campo, nesta pesquisa, foi ampliada com algumas entrevistas que seguiram a temática da história de vida, já que, em algumas famílias, avaliamos que falar a respeito do papel do tropeiro tem o mesmo sentido de referir-se à própria história e contexto familiar. Nos bairros rurais que visitamos, a história da tropa se confunde com a própria história local, pois os moradores atribuem o desenvolvimento dos lugarejos ao transporte do que anteriormente era realizado, em lombo de mula.

A fim de que a coleta de dados possa dar conta dessas possibilidades, é bastante recomendável que o problema de pesquisa seja claro e que diga respeito à vida ou às relações sociais presentes na comunidade, até para otimizar a escolha dos informantes e a seleção dos dados. Todo o processo de análise leva em conta as questões levantadas que nortearam a pesquisa. Na análise, procura-se verificar justamente a confiabilidade das informações obtidas, através dos depoimentos e documentos coletados. Isso nos dá a capacidade de crivar a verossimilhança da informação.

De acordo com Pereira de Queiroz (2008), até mesmo a “inverdade” com relação a determinados acontecimentos torna-se um dado relevante, pois pode indicar uma valorização exacerbada ou uma desvalorização social que o indivíduo voluntária ou involuntariamente rejeita, ignora ou contradiz.

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dos entrevistados da Fragária e Serra Negra, em que os tropeiros em atividade atualmente descendem de grandes troncos familiares em que as tropas foram uma constante na manutenção da família, sendo todos os homens praticantes do ofício de tropeiro.

Considerando que nem sempre as condições para a realização dessa modalidade de pesquisa em campo se mostraram ideais, seguimos o que preconiza Pereira de Queiroz (2008), ao levarmos em conta a situação da entrevista, os temperamentos do pesquisador e dos entrevistados e observarmos outros fatores que poderiam influenciar na forma de condução da entrevista, como eventuais inter-relações de um fato relembrado que leva a outro, por parte do depoente. Para evitar essa ocorrência, elaboramos um perfil dos entrevistados, com algumas informações relevantes a respeito dos depoentes, obtidas previamente, buscando pinçar dados para a análise.

A técnica relacionada à história oral que nos dedicamos a analisar, tendo em vista ser a modalidade aplicada na maior parte das entrevistas feitas em campo, são as entrevistas abertas. Sua estrutura caminha no mesmo nível de complexidade das histórias de vida, no entanto o pesquisador as realiza sem preocupação em pautar seu argumento exclusivamente no imaginário coletivo. Nessa categoria, tratamos em conjunto as conversas informais, pois, muitas vezes, surgem como desdobramento de entrevistas, dada a frequência com que somos abordados por pessoas que não necessariamente entrevistaríamos, mas que demonstram algum nível de conhecimento sobre a questão central de nossa investigação e alguma disponibilidade em nos dar informações.

Olhando a aplicação dessa técnica pelo viés sociológico, as primeiras experiências que podemos considerar sobre sua utilização deram-se com os Estudos de Comunidade, iniciados na Universidade de Chicago (EUA) a partir dos anos 1920 (Oliveira & Maio, 2011).O desenvolvimento dessa modalidade de estudo demanda recursos de pesquisa em que o objeto da análise seja a vida social de uma comunidade pesquisada in loco em todos os seus aspectos, social e economicamente, em que o pesquisador estabelece comparações com o universo mais amplo do grupo.

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interesse do primeiro em elucidar questões de sua pesquisa a partir das reflexões do segundo.

Conduzimos as entrevistas a partir de uma sequência de três roteiros de tópicos-guia, elaborados previamente, para que fosse possível extrair informações de tropeiros atuais, ex-tropeiros e descendentes de tropeiros, traçando pontos a serem esclarecidos e nos valemos, também, de depoimentos informais, além das histórias de vida já mencionadas. Nesse caso, há que se ter cuidado redobrado, levando em consideração que as questões problematizadas são do pesquisador e não do depoente, portanto, sem um mínimo direcionamento, corre-se o risco de, ao final da entrevista, não terem sido elucidados os questionamentos que norteiam a pesquisa.

De acordo com Pereira de Queiroz (2008), contribui para a otimização da coleta de dados (entrevistas) em campo o esforço prévio de levantar o histórico da comunidade através, não apenas da historiografia, como também de fontes primárias, como recortes de jornais atuais ou antigos, documentação histórica, estatísticas e dados governamentais que, apesar de terem sido pensados para outra finalidade, representam um ponto de partida seguro para a investigação.

Em determinadas regiões, pode-se observar que a base da aproximação se verifica quando o pesquisador, já na abordagem aos entrevistados, demonstra que conhece minimamente a história do assunto a pesquisar ou da região retratada. Essa estratégia costuma redundar em resultados bastante satisfatórios, principalmente quando se está trabalhando com comunidades cujo acesso não será facilitado por um informante preferencial ou conhecimento da dinâmica local.

O informante preferencial é o entrevistado que usualmente apresenta o campo ou aponta outros depoentes que, no universo retratado, julga serem os portadores de histórias que mais contribuirão com o pesquisador. Seu papel no processo da pesquisa varia de acordo com a inserção que possui no grupo objeto de análise. Há casos em que é um conhecedor tão apurado da realidade local, que a coleta de uma história de vida desse indivíduo surge quase que naturalmente; em outros casos, reúne conhecimentos não tão específicos e é preciso discernir até onde sua participação é imprescindível no processo de investigação.

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conduzir as perguntas de modo a abranger suas hipóteses de trabalho, fazendo perguntas específicas em que o desvio cronológico pouco influirá.

Na coleta de depoimentos, conforme Pereira de Queiroz (2008), devemos nos colocar como coordenadores do processo de entrevista, explicitando nosso objetivo, buscando extrair do narrador os aspectos que contribuem para a pesquisa em curso, evitando digressões desnecessárias e mantendo o depoente na medida do possível dentro das questões que desejamos solucionar. Por termos um roteiro de questões já estabelecido, essa foi a forma mais utilizada de conduzir as entrevistas. No entanto, nas histórias de vida, até por sua característica de dar ao entrevistado o exercício da liberdade da informação, procuramos interferir o mínimo possível na narrativa, dando espaço para as impressões do entrevistado. As oscilações cronológicas se dão de forma espontânea, já que o esforço, por parte do depoente, muitas vezes é revisitar traços de sua memória e recuperar registros que não acessa com frequência, daí a abundância de informações e riqueza de detalhes que se pode captar através dessas informações, fazendo com que a coleta de dados revele traços até então ignorados, como no caso de Fragária e alguns bairros vizinhos que compartilham a mesma origem, tendo sido fundados por irmãos e pertencendo todos a um mesmo tronco familiar.

Com a utilização da metodologia da história oral, pretendemos captar traços da sociabilidade dos bairros rurais de Fragária, Serra Negra e Campos Novos de Cunha, a partir da recuperação dos acontecimentos guardados na memória dos indivíduos. De acordo com Halbwachs (1990), a memória não é algo exclusivamente individual, mas sim um fenômeno coletivo e social. Pollak (1992) considera como elementos constitutivos dessa memória, que pode ser individual ou coletiva, as experiências pessoais e as experiências do grupo, em que também podem se enquadrar outros personagens, de maneira indireta, ou acontecimentos que não necessariamente tenham sido contemporâneos dos narradores do fato, mas que, por sua simbologia, foram incorporados por gerações posteriores.

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O estilo cronológico, para o autor, consiste em pensar-se a si próprio como uma continuidade, pressupondo-se que seja uma narrativa típica de pessoas com alguma escolaridade, mas com elevado grau de inserção política dentro do grupo.

O estilo temático é quando o narrador seleciona os episódios que considera ser mais representativos da história local. É pautado, sobretudo, em narrativas de pessoas com alto grau de escolaridade que fazem uma reflexão apurada do que dirão. Nesses casos, o pesquisador deve ficar atento a incongruências do discurso, que costumam ser seguidas de omissões propositais ou não, eventuais indicativos de pontos nevrálgicos nas relações sociais.

O estilo factual é marcado por ausência de linearidade no discurso. Corresponde à leitura sobre os acontecimentos de pessoas com baixíssimo grau de instrução, que narram fatos a partir de lembranças aparentemente desconexas, mas que expressam grande riqueza de dados, cabendo ao pesquisador pinçar as informações mais relevantes.

Para a realização de entrevistas, deve-se observar a importância do local onde o encontro entre pesquisador e narrador se dá. Nos depoimentos orais, como usualmente serão pautados por questões já delimitadas pelo pesquisador, o ambiente não terá grande influência. No entanto, para a realização de histórias de vida, esta seria quase um condicionante. Entrevistas nessa modalidade, feitas na residência do indivíduo ou em lugares onde este habitualmente frequenta, se o pesquisador se atentar para detalhes do ambiente, muitas vezes encontrará dados valiosos que podem ser elucidativos de uma ou mais questões ou apontar contradições entre o discurso e a forma como realmente se deram os fatos, possibilitando explorar esse “descompasso” posteriormente ou incorporando-o à análise, caso a evidência do local solucione alguma de suas questões.

Procuramos expor o formato metodológico que se revelou mais adequado ao desenvolvimento da pesquisa, com base em leitura prévia do arcabouço teórico sobre o tema e em atividades de campo amparadas por leituras metodológicas que pudessem contribuir para a obtenção de informações. A história oral foi a metodologia que privilegiamos, dada a centralidade que deve ter a fala dos depoentes para a compreensão do objeto proposto, e por utilizarmos suas impressões pessoais em grande medida para o esforço de reconstituição histórica da região.

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comparativo entre as realidades observadas nas três localidades, através da aplicação metodológica da história oral para a coleta de entrevistas e interpretação dos dados obtidos, traz luz à questão principal desta investigação: qual o sentido, em pleno século XXI, com a farta disponibilidade tecnológica presente, de se empregar uma atividade laboral típica de uma época marcada pela precariedade de meios e vias de transporte, utilizando tropas de mulas para o transporte de mercadorias? Dotados do aporte teórico e metodológico expostos é que nos lançamos à coleta, interpretação e análise do material obtido.

1.3 - Do processo colonizador surgem os tropeiros.

A reflexão central contida nesta pesquisa leva em conta o questionamento sobre qual o sentido, em pleno século XXI - época em que a circulação de pessoas e mercadorias constitui um imperativo - de localidades ainda lançarem mão de uma prática de transporte típica do período colonial em regiões próximas aos centros urbanos; qual a importância da atividade tropeira nos dias atuais; qual o sentido de desempenhar essa função presente entre seus praticantes; como descendentes refletem sobre a profissão de seus ancestrais; qual a função social da tropa nas comunidades em que ainda se verifica sua permanência e se entre o grupo pesquisado há o desejo de continuar no exercício da mesma prática, considerando os aspectos geográficos e culturais na contemporaneidade.

Essas questões surgiram a partir de pesquisa anterior de iniciação científica que realizamos sobre a presença histórica do tropeirismo no Vale do Paraíba Paulista, sobretudo na sub-região do Vale Histórico, tendo como foco de análise o município de Silveiras. Nas atividades de campo, havíamos observado que os hábitos e costumes dos tropeiros foram incorporados aos traços culturais da comunidade e sua atividade laboral, considerada imprescindível para o desenvolvimento regional. Dentre os aspectos levantados, háevidências da existência contemporânea de atividade tropeira em regiões próximas, principalmente em bairros rurais encravados nas serras da Bocaina e da Mantiqueira e a investigação de tal ocorrência originou a pesquisa que ora apresentamos.

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consolidou-se o entendimento do tropeiro como um agente social que influenciou fortemente a organização social da zona valeparaibana e possibilitou a emergência de grandes fortunas a ele atreladas, como é o caso dos cafeicultores, tornando a região um eixo econômico dos mais relevantes para o posterior desenvolvimento brasileiro.

O fenômeno do tropeirismo, se considerado enquanto uma categoria de seres organizados socialmente, pode ser analisado a partir de suas ações sociais. Nesse aspecto, sua atividade laboral aparece sendo desempenhada por grupos presentes em regiões brasileiras que tiveram a finalidade de estabelecer um fluxo transportador e comunicador entre os adensamentos populacionais do litoral e as vilas do interior do Brasil, sendo esse um tipo humano que ocupou espaço privilegiado na dinâmica das relações sociais e foi responsável pelo rompimento do isolamento geográfico entre as várias regiões do território que se desenvolveram nos séculos XVIII e XIX.

Uma leitura detida sobre o tema permite a recuperação do tropeiro enquanto agente social, a partir de uma perspectiva histórica, chegando à discussão sociológica do papel por ele exercido. Importantes intelectuais brasileiros dedicaram-se, em certa medida, a temas que chegam próximo à abordagem do tema do tropeirismo, embora não tenham por finalidade analisá-lo isoladamente do processo sócio histórico mais amplo.

O primeiro ponto a ser considerado diz respeito ao modo particular de povoamento e ocupação territorial da América Portuguesa, ao sabor da natureza, evitando-se, conforme Caio Prado Júnior (2004), o estabelecimento de núcleos povoadores em locais cujas condições geográficas fossem desfavoráveis à efetiva comunicação entre as terras além-mar e a metrópole. Inicialmente, por uma questão logística, o sentido colonizador da colônia se deu ao longo da faixa litorânea, não se registrando, ao menos no século do descobrimento, incursões de grande relevo ao interior do território, exceção feita a São Paulo, que teve sua fundação no planalto, atrelada à experiência jesuíta de catequização indígena, evitando, assim, influências externas dos colonos lusitanos.

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O século XVII, conhecido como século das bandeiras, circunscreve-se como a primeira empreitada em larga escala com vistas à exploração territorial do sertão. Os bandeirantes saíam em busca de minerais preciosos, porém, o interesse pela mão de obra indígena cativa era predominante. Embora tivessem percorrido quase todos os pontos da América Portuguesa, os sertanistas apenas se portavam como preadores, sem preocupação em fixar unidades de povoamento. Somente a partir do século XVIII, de acordo com Prado Júnior (2004), é que afluíram para o interior do território sucessivas correntes de povoadores, devido à descoberta das jazidas de minerais preciosos nas Minas Gerais, em Cuiabá e em Goiás.

O litoral, entretanto, continuou a exercer primazia sobre o adensamento populacional, já que era por via marítima que se davam as mais relevantes transações comerciais até então. O autor acima citado aponta que, em vários trechos da costa, as adversidades climáticas, de relevo ou de vegetação impediam o estabelecimento de adensamentos consistentes. Os locais mais propícios à ocupação do solo foram explorados à exaustão, entre o Nordeste, onde se desenvolveu a produção açucareira, e o Rio de Janeiro. A região de São Paulo que, até então, compreendia também o atual estado do Paraná, teve experiência diversa, devido a geografia dotar esse trecho do litoral de uma relativamente pequena faixa de planície em comparação com as regiões mencionadas ao norte e se encontrar afastada dos grandes centros populacionais da época, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Isso fez com que desde muito cedo a região paulista despertasse para um modelo de desenvolvimento buscando uma relativa autonomia em relação à política reinol. Devido à incipiente produção de açúcar, em comparação à do Nordeste, e à falta de mão de obra, os paulistas lançaram-se prematuramente aos sertões como uma das poucas formas, senão a única, de estabelecer um fluxo de mercadorias que pudesse abastecer seu mercado interno.

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A corrente de povoamento do ciclo da mineração teve por característica estabelecer uma rede de núcleos populacionais espalhados pelo território, cujas distâncias entre eles ou entre a região e o litoral demandavam grandes jornadas para alcançá-los, por isso o aprovisionamento destas é outro aspecto relevante; o relevo acidentado e o solo extremamente rochoso mostravam-se hostis à prática agrícola, cabendo a localidades mais distantes fornecerem alimentos e demais gêneros para a zona mineradora. Nesse caso, conforme Prado Júnior (2004), outra prática marcante na expansão de contingentes populacionais rumo ao interior do território foi à pecuária. Além da população litorânea, também os habitantes do sertão eram abastecidos de carne pelas diversas regiões, cuja criação de gado voltava-se ao abastecimento colonial, caso do Médio São Francisco, que fornecia alimentos para as jazidas mineiras, cuiabanas e goianas; o atual Piauí, que atendia o nordeste açucareiro e as charqueadas do Sul do Brasil. Quanto ao gado cavalar, do qual se originam as mulas que compõem as tropas, trataremos dessa relação em outro momento.

A região do planalto paulista, no contexto colonizador, afirmou-se como um caso excepcional por sua localização entre a montanhosa região mineradora e os campos sulistas; pela distância entre a então vila de São Paulo e o porto mais próximo, embora fosse preciso vencer a Serra do Mar; pelo fato de que grande parte dos rios de seu território, cujo Tietê é o maior expoente, ao invés de correrem para o oceano, têm fluxo inverso, no sentido do vasto interior; ou seja, todas as características se mostravam favoráveis à expansão territorial rumo aos mais remotos rincões.

Iniciada a colonização, é por São Paulo que se farão as primeiras penetrações do continente: para o altiplano central (Minas Gerais), para a grande depressão interior do continente (Bacia do Paraguai), para os campos do Sul. Penetração exploradora e preadora de índios, a princípio; prospectora de minas e povoadora afinal. (PRADO JÚNIOR, 2004, p. 65)

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