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Evolução e modificação do comportamento de Lo-

renz

Fernando Moreno Castilho

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Mestre em História da Ciência Professor do Departamento de Biologia, Centro Universitá-

rio Anhanguera de Santo André Pesquisador do Grupo de História e Teoria da Biologia, Departamento de Biologia, FFCLRP–USP Resumo: Konrad Lorenz (1903-1989) é conhecido como um dos fundadores da etologia moderna, para a qual deve também ser mencionada a significativa contribuição deixada por Char- les Darwin (1809-1882). O objetivo desta comunicação é ave- riguar de que maneira a seleção natural atua no processo evolu- tivo relacionado ao comportamento animal, de acordo com a visão adotada por Lorenz em Evolução e modificação do com- portamento. Além disso, identificar outros possíveis meios de modificação das espécies que tenham sido sugeridos por ele. A presente pesquisa levou à conclusão de que Lorenz se apoiou no mecanismo da seleção natural, proposto por Darwin, no século XIX, para explicar a evolução e a modificação do com- portamento animal, como por exemplo, as técnicas de natação

em baleias. Em alguns casos, considerou a herança de caracte- res adquiridos, como por exemplo, ao discutir sobre a capaci- dade dos gaviões de estimar distâncias pela mudança da para- laxe das imagens do objeto.

Palavras-chave: história da evolução; Darwin, Charles; Lo- renz, Konrad; seleção natural; século XIX, século XX

Konrad Lorenz (1903-1989) é conhecido como um dos fun- dadores da etologia moderna. Seguindo os passos de seu pro- fessor Oskar Heinroth (1871-1945), procurou oferecer uma explicação filogenética e fisiológica para o comportamento. Deve também ser mencionada a significativa contribuição dei- xada por Darwin (1809-1882) sobre aspectos do comportamen- to animal, na Expressão das emoções no homem e nos animais (1872). No século XX, contudo, a contribuição inicial, tanto teórica quanto empírica, para o desenvolvimento da disciplina Etologia, coube a Lorenz. Ele escreveu vários livros, como, Evolução e modificação do comportamento, de 1965, e A agressão: uma história natural do mal, de 1963. Nessas obras, estudou o comportamento instintivo dos animais, especialmen- te em gansos cinzentos e gralhas. Na publicação de 1963, tra- tou da agressividade como instinto de combate do animal e do homem, através da descrição de algumas das observações que fizera sobre as formas típicas do comportamento agressivo e de que modo isso teria refletido na conservação das espécies. Na publicação de 1965, discorreu sobre adaptação filogenetica- mente adquirida e modificação adaptativa do comportamento.

O objetivo desta comunicação é averiguar de que maneira a seleção natural atua no processo evolutivo relacionado ao com- portamento animal, de acordo com a visão adotada por Lorenz em Evolução e modificação do comportamento. Além disso, identificar outros possíveis meios de modificação das espécies que tenham sido sugeridos por ele.

No prefácio da edição de 1965, do livro A expressão das emoções no homem e nos animais, Lorenz comenta que um dos

mecanismos propostos por Darwin na Origem das espécies (DARWIN, 1859) para a determinação de padrões de compor- tamento específicos nos animais foi a seleção natural. Ou seja, ele concordava com Darwin em que as formas de estrutura e de comportamento poderiam, em princípio, terem sido adquiridas como resultado de uma pressão seletiva exercida pela luta pela sobrevivência (LORENZ, 1965, p. 8-9).

Nesse livro, Lorenz definiu adaptação como sendo o proces- so que molda o organismo, a fim de que o mesmo se ajuste ao seu meio de maneira que possa sobreviver. Para ele, a adaptabi- lidade seria sempre a prova irrefutável de que este processo teria ocorrido. Qualquer modelação do organismo ao seu meio seria um processo semelhante ao da morfogênese, no âmbito da estrutura orgânica, que teria sido adquirida pelo organismo (LORENZ, 1965, p. 16). Isso poderia acontecer de duas manei- ras. A primeira seria, durante o processo evolutivo, através da interação do organismo com o seu ambiente. Nesse processo, a espécie, por meio de mutação e seleção, alcançaria uma adap- tação, que asseguraria a sua sobrevivência, sendo que através dos seus cromossomos, toda a informação obtida no meio seria armazenada no seu genoma e codificada em cadeias molecula- res. Seria cautelosamente medida por uma taxa de mutação que não poria em risco a sobrevivência da espécie, consequente- mente, todo o volume de informação que já havia sido armaze- nado (LORENZ, 1965, p.97-98). A aprendizagem, como qual- quer função comparável de elevada diferenciação e valor de sobrevivência, precisaria, necessariamente, ser pré-formada por um mecanismo muito especial constituído no sistema orgânico ao longo de sua evolução. Desta forma, esse fato explicaria como o mecanismo de aprendizagem realizaria o trabalho de escolher para reforçar, entre numerosas possibilidades de com- portamento, aquelas que desenvolvessem um valor positivo de sobrevivência e, para a extinção, as que fossem prejudiciais para o indivíduo ou para a espécie (LORENZ, 1965, p. 21).

Mais adiante, Lorenz utilizou o comportamento reprodutivo em aranhas, para mostrar que em muitos casos, a adaptabilida- de do comportamento poderia ser retraçada para a informação inata, mesmo sem realizar um experimento de privação. Por exemplo, um filhote macho de aranha que, depois da última muda, se aproxima da fêmea com todo o cuidado para não ser confundido como pertencente a outra espécie. Ele deve ter o mesmo cuidado para não modificar a dança de corte, conhecida pela fêmea. Caso contrário pode ser devorado imediatamente. Para Lorenz, este macho não teve a oportunidade, em sua curta vida, de obter informação sobre a aparência (ou o aspecto) da fêmea de sua própria espécie, nem de saber a maneira pela qual ele deveria agir para inibir suas reações de comer e para esti- mular suas respostas reprodutivas específicas (LORENZ, 1965, p. 31).

Lorenz se referiu também aos padrões de comportamento das baleias. Sugeriu que seus ancestrais, quando iniciaram sua vida aquática, haviam sido carnívoros com cérebros altamente desenvolvidos. Eram dotados de uma porção satisfatória de movimento voluntário até que uma pressão seletiva fez com que ocorresse o desenvolvimento de padrões motores inteira- mente novos para um animal terrestre. Alguns deles, ao invés de criar novos padrões motores fixos, filogeneticamente adap- tados, proporcionaram o desenvolvimento de movimentos vo- luntários com diferentes propósitos, inclusive técnicas eficien- tes de natação. Dessa forma, as baleias teriam desenvolvido um cérebro grande, semelhante ao dos humanos, sob a pressão de seleção para a coordenação de natação (LORENZ, 1965, p. 74). Para Lorenz, seria uma característica da ontogenia do com- portamento em animais superiores, um padrão motor filogene- ticamente adaptado surgir inicialmente de forma completa, ou pelo menos reconhecível. Por exemplo, o hábito comportamen- tal de um filhote de cachorro ao realizar seu movimento de agitação, juntamente com o ato de matar a presa, usando os sapatos de seu dono como objeto ou então o padrão motor de

enterrar restos de alimentos no canto do chão de uma sala (LORENZ, 1965, p. 62). Darwin já havia feito uma discussão semelhante na Expressão das emoções no homem e nos ani- mais ao comparar o comportamento, que observara em cães e gatos, com o comportamento de lobos, chacais e raposas, con- forme relatado por tratadores de animais em zoológicos. Nos dois casos, os animais procediam da mesma forma. De acordo com Darwin, esses hábitos comportamentais teriam sido adqui- ridos, muito provavelmente, de algum ancestral remoto do gê- nero dos cães, que originalmente executaria esses movimentos com alguma finalidade precisa (DARWIN, 1872, p. 41-46).

A presente pesquisa levou à conclusão de que Lorenz se apoiou no mecanismo da seleção natural, conforme proposto por Darwin, para explicar a evolução e a modificação do com- portamento animal. Assim como Darwin (ver CASTILHO, 2010, cap. 2), também, em alguns casos, considerou a herança de caracteres adquiridos, como se pode perceber no trecho que se segue onde Lorenz comentou sobre a capacidade dos gavi- ões de estimar distâncias pela mudança da paralaxe das ima- gens do objeto:

Se calculada, mesmo grosseiramente, a quantidade de informação que, quase indubitavelmente, é transmitida por meio do genoma e a comparar com o que (mesmo com escassa possibilidade) po- deria ser adquirido na vida do indivíduo, a propor- ção é aterradora. O que o gavião poderia ter apren- dido sobre estereometria é praticamente nada, mesmo se atribuíssemos a ele poderes de aprendi- zagem sobre-humanos. (LORENZ, 1973, pp. 31- 32, ênfase nossa)

Agradecimentos: Agradecemos à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo pelo apoio recebido que propiciou o desenvolvimento desta pesquisa.

Referências bibliográficas

CASTILHO, Fernando Moreno. Concepções evolutivas de Darwin na Origem das espécies (1859) e na Expressão das emoções no homem e nos animais (1872): um estudo com- parativo. Dissertação de Mestrado em História da Ciência. São Paulo: PUC, 2010.

DARWIN, Charles Robert. The expression of emotions in man and animals. London: John Murray, 1872.

_______. The origin of species by means of natural selection. London: John Murray, 1859.

LORENZ, Konrad. Evolution and modification of behavior. Chicago: University of Chicago Press, 1965.

_______. A agressão: uma história natural do mal. Tradução de Maria Isabel Tamem. São Paulo: Martins Fontes, 1973.

Apresentação Oral

Narrativas históricas como material instrucional

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