Gustavo Barreto Vilhena de Paiva
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade de São Paulo Resumo: Muitos dos problemas científicos que foram desenvolvidos e escrutinados na Idade Média o foram no âmbito de discussões, para nós hoje, pouco científicas. Com efeito, os temas da vida e da morte foram objeto de grande debate em fins do século XIII, sendo longamente discutidos, entre outros autores, por Henrique de Gand (a. 1240-1293) – um dos mais influentes pensadores na época. Este último
abordou tal tema no contexto que lhe era mais caro, a saber, a teologia. De fato, em “Quodlibet” 3, q. 8, ele se pergunta “se a morte de Cristo teria sido natural”. Para determiná-lo, Henrique desenvolve toda uma descrição de caráter metafísico das noções de vida e morte dos homens comuns que, ao cabo de seu texto, possa ser extrapolada para o caso singular de Cristo, que era a um só tempo homem e Deus. Ademais, Henrique desenvolve nessa mesma passagem uma tipologia da morte, distinguindo morte natural, morte violenta e casos intermediários. Sendo assim, encontramos nele um testemunho tardo-medieval das discussões universitárias ducentistas sobre temas que se tornariam centrais para o surgimento da biologia na modernidade. Pretendo aqui desenvolver alguns desses elementos tal como surgem na discussão proposta por Henrique, dando especial atenção para a noção de ‘morte’ e abrindo caminho para o estudo da tipologia da ‘morte’ por ele proposta.
Palavras-chave: vida; morte; filosofia medieval; século XIII; Henrique de Gand (a. 1240-1293)
Dentre os mais importantes mestres de teologia em atividade na Universidade Paris de fins do século XIII, podemos destarcar Henrique de Gand (a. 1240-1293). O Doutor Solene – alcunha que tradicionalmente lhe reservaram – produziu uma obra imensa, na qual ele aborda os principais temas em debate em sua época de magistério (c. 1275 até sua morte). Essa grande produção é unificada pelo seu interesse central, que também é o foco a partir do qual a maior parte dos temas é tratada em sua obra, a saber, a teologia enquanto ciência (sendo esta última concebida ao modo dos Analíticos posteriores de Aristóteles, ou seja, como um corpo de conhecimentos silogísticos).
Sendo assim, não é surpresa que suas principais investigações sobre o homem sejam encontradas em passagens centradas sobretudo em temas teológicos. Em particular, muito
de sua noção de ‘homem’ (em seu latim, homo) pode ser lida nos momentos em que Henrique se dedica ao estudo e compreensão intelectual da unidade, na pessoa de Cristo, da natureza divina e da natureza humana (BAYERSCHMIDT, 1941). Destarte, a vida e a morte de Cristo se tornam uma ocasião particular para a discussão sobre a vida e a morte do homem em geral, constituindo-se assim em uma ‘caso’ particular que possibilita o estudo universal do homem enquanto espécie (tal técnica casuística, aliás, não se restringe a esse tema, podendo ser encontrada em diversos momentos dos debates escolásticos e, em especial, da obra do Doutor Solene, (MARMURSZTEJN, 2001)).
Nesse contexto, pergunta-se, na questão 8 de seu terceiro conjunto de “Questões quodlibetais” (sessões nas quais qualquer um colocava qualquer questão ao mestre que se dispunha a respondê-las – ‘de quolibet a quolibet’), “se a morte de Cristo teria sido natural” (“utrum mors Christi fuerit naturalis” – “Quodl.” 3, q. 8. Ed. 1613, f. 93v). O que mais prenderá minha atenção nesse texto não será precisamente a resposta à questão teológica colocada, mas antes o aparato filosófico desenvolvido para respondê-la. Em particular, dois elementos: [i] a determinação da noção de morte e [ii] uma certa tipologia da morte. Pretendo aqui estudar exclusivamente o primeiro destes dois temas, o que abrirá espaço para que possa futuramente desenvolver o segundo.
No que diz respeito à noção de morte, o que se nota primeiramente é que ela é concebida como uma ‘privação da vida’ (“mors sit privatio vitae”). Dessa maneira, qualquer determinação da noção de ‘morte’ reclama uma prévia compreensão do que seria a ‘vida’ e, por isso mesmo, Henrique inicia sua resposta pela breve formulação daquilo que ele entende por esta última: “viver, de fato, nada mais é do que um determinado grau de nobreza no ser [gradus nobilitatis in essendo], que diz-se possuírem aqueles que possuem, em si mesmos, a partir de sua natureza, o estenderem-se a uma
operação ou ação própria a si. Assim, os vegetativos ao movimento de crescimento e nutrição, os sensitivos à apreensão dos sentidos e ao movimento segundo o lugar, os inteligentes à operação segundo o intelecto e a razão” (GANDAVO, 1961). Como vemos, a ‘vida’ é caracterizada principalmente a partir de certas ações produzidas por aqueles que a possuem. A saber, eles têm a capacidade de atingir, por si mesmos, as ações que lhes são próprias. Dessa maneira, um vegetal se alimenta por si mesmo, um animal bruto (irracional) chega a seu alimento, por exemplo, pelo olfato e um animal racional, como o homem, sabe pelo intelecto o que é melhor para si e busca atingi-lo. Essa independência no agir é uma nobreza, de maneira que os viventes são seres mais nobres do que os não viventes, que dependem de outros (como pedras, que só se movem ao serem movidos por outros). Ora, se a vida é esse grau de ser nobre, pelo qual algo se estende ‘em si mesmo e a partir de sua natureza a uma operação ou ação própria a si’, a morte é precisamente a ausência de uma tal capacidade em algo que antes a possuía. Certamente, uma pedra não será considerada morta por não se mover a si mesma (pois nunca ela pôde fazê-lo), porém um vegetal que não mais se alimenta será dito ‘morto’ (uma vez que antes ele realizava por si essa ação).
Entretanto, para podermos avançar mais nessa determinação da noção de morte, será preciso fazer uma rápida referência a alguns outros elementos da concepção de ser animado proposta pelo Doutor Solene. Em primeiro lugar, é importante destacar que, em sua física, todos os seres sub-lunares – e, portanto, submetidos à geração e à corrupção – são compostos de matéria e forma substancial. Esta última, ao informar a matéria de determinado modo, põe em ato um ser composto e, precisamente, corpóreo. Esse é o caso com todos os seres corpóreos, incluíndo inanimados e animados. A diferença é que, nos inanimados, a forma substancial informa a matéria tal que eles não possam mover a si mesmos, enquanto que nos
animados ela o faz de tal modo que eles movam a si mesmos. A grande diferença está no caso do homem, uma vez que, diferentemente do que ocorre em todos os outros seres materiais, sua forma substancial não provém de princípios materiais, mas diretamente de Deus. Isso significa que o homem possui duas formas, a saber, [i] a forma da corporeidade que, provindo dos progenitores enquanto princípios materiais, produz um corpo capaz de receber a alma e [ii] a própria alma intelectiva, forma substancial última que põe o homem em ato enquanto ser intelectivo. Para além disso, o homem, diferentemente de todos os outros animados, possui algo eterno em si – a saber, essa alma intelectiva (HOCEDEZ, 1925; MAURER, 1948; ZAVALLONI, 1951; SORGE, 1988).
Dito isso, começa a transparecer o fato de que a ‘morte’ não poderá ser igual no caso do homem e naquele dos demais animados, pois nestes tudo perece, enquanto que naquele primeiro isso não ocorre. Sendo assim, após apresentar a morte como ‘ausência de vida’, Henrique distinguirá uma morte por ‘perecimento e corrupção’ (“interitum et corruptionem”) e uma morte por ‘separação’ (“separationem”). No primeiro caso de morte, há uma completa corrupção da forma substancial do animado, de maneira que essa morte significa o total perecimento desse composto que antes vivia. Já no segundo caso, que se restringe ao homem, o que ocorre é somente uma separação da forma substancial (aqui, a alma intelectiva) com respeito à forma da corporeidade e ao corpo em geral. Estes dois perecem, enquanto que a alma intelectiva se mantém enquanto algo eternamente existente por si mesmo. Assim, se há alguma corrupção relacionada à morte do homem, ela é antes uma corrupção da ‘temperança’ (“temperantia”) do corpo, que permite a ele abrigar a alma, mas jamais uma corrupção da própria alma. Dessa maneira, vemos que a distinção da ‘vida’ no homem com respeito aos outros animados leva à interessante distinção entre a ‘morte’ do homem e dos demais viventes corpóreos. Com isso, Henrique
busca resguardar a superioridade do homem com respeito aos outros corpóreos, fazendo deste um ser que ultrapassa o próprio corpo e atinge a espiritualidade, sendo o homem um exato meio entre os seres corpóreos e os seres espirituais (GANDAVO, 1961).
Tendo em mãos essa noção de ‘morte’, o que o Doutor Solene faz em seguida é propor uma tipologia da morte, distinguindo casos de morte natural, de morte violenta e casos intermediários. Essa distinção será fundamental para resolver o problema teológico levantado, a saber, “se a morte de Cristo teria sido natural”. No entanto, o cuidadoso estudo dessa tipologia estrapolaria os limites do presente trabalho, de maneira que a menciono unicamente como uma sugestão daqueles que serão os próximos passos da presente pesquisa.
Concluindo, chamo atenção para a centralidade que ganha, na concepção de homem de Henrique de Gand, a duplicidade da forma humana – isto é, a tese segundo a qual o homem, diferentemente de qualquer outro animal, possui uma forma da corporeidade e, além dela, uma alma intelectiva. Essa tese, como vimos, condiciona tanto a sua concepção da vida humana como também da morte do homem. Com efeito, é justamente nessa tese que o Doutor Solene se afasta de outros autores de sua época. Por um lado, se distancia de Egídio Romano (c. 1245-1316) ou Egídio de Lessines (m. 1304, fl. s. XIII f.), na medida em que estes defendem que a única forma no composto ‘homem’ é a própria alma intelectiva (MAURER, 1948; ZAVALLONI, 1951; WULF, 1901; WILSON, 2014). Por outro, discorda também de autores como Mateus de Aquasparta (c. 1240-1302), para o qual é necessário propor uma pluralidade de formas no homem para além dessa duplicidade afirmada por Henrique (MAZZARELLA, 1969; CAPPELLETTI, 2011). Enfim, como vemos, as concepções de vida e morte deste último são claramente fruto de um debate candente sobre a própria concepção de homem enquanto composto de corpo e alma em fins do século XIII.
Agradecimentos: Dirijo meus agradecimentos a meu orientador, prof. José Carlos Estêvão (Depto. de Filosofia – USP), aos professores e colegas do Centro de Estudos de Filosofia Patrística e Medieval de São Paulo (CEPAME) e do GT-ANPOF História da Filosofia Medieval e a Recepção da Filosofia Antiga, ao prof. André Mota e à colega Tamara Prior (ambos do Museu Histórico FMUSP). Todos, de uma maneira ou de outra, têm contribuído de modo relevante para minha pesquisa. Por fim, agradeço à CAPES pelo financiamento. Referências bibliográficas
BAYERSCHMIDT, Paul. Die Seins- und Formmetaphysik des Heinrich von Gent in ihrer Anwendung auf die Christolo- gie. Eine Philosophie- und Dogmengeschichte Studie. Münster: Aschendorff, 1941.
CAPPELLETTI, Leonardo. Matteo d’Acquasparta vs. Tom- maso d’Aquino. Il dibattito teológico-filosofico nelle Qua- estiones de anima. Roma: Aracne, 2011.
GANDAVO, Henricus de. Aurea quodlibeta <...> commenta- riis <...> Vitalis Zucolii Patavini <...>. 2 vols. Venetiis: apud Iacobum de Franciscis, 1613. [________. Quodlibeta <...> cum duplici tabella. 2 vols. Parisiis: in aedibus Iodo- ci Badii Ascensi, 1518 (reprint – Louvain: Bibliothèque S. J., 1961)].
HOCEDEZ, Edgar. Richard de Middleton. Sa vie, ses oeuvres, sa doctrine. Louvain – Paris: ‘Spicilegium Sacrum Lova- niense’ Bureau – Honoré Champion, 1925.
MARMURSZTEJN, Eisa. Du récit exemplaire au casus uni- versitaire: une variation théologique sur le thème de la pro- fanation de l’hosties par les juifs (1290). Médiévales, 41: 37-64, 2001.
MAURER, Armand. Henry of Ghent and the Unity of Man. Mediaeval Studies, 10: 1-20, 1948.
MAZZARELLA, Pasquale. La dottrina dell’anima e della co- noscenza in Matteo d’Acquasparta. Padova: Editrice Gre- goriana, 1969.
SORGE, Valeria. Gnoseologia e teologia nel pensiero di Enri- co di Gand. Napoli: Loffredo, 1988.
WILSON, G. A. Le Contra gradus de Gilles de Rome. In: CORDONIER, V., SUAREZ-NANI, T. (éds.). L’aristotélisme exposé. Aspects du débat philosophique entre Henri de Gand et Gilles de Rome. Fribourg: Acade- mic Press Fribourg, pp. 29-54, 2014.
WULF, Maurice de. Le traité “De Unitate Formae” de Gilles de Lessines. Texte inédit et Étude. Louvain: Institut Supé- rieur de Philosophie de l’Université, 1901.
ZAVALLONI, Roberto. Richard de Mediavilla et la contro- verse sur la pluralité des formes. Textes inédits et étude critique. Louvain: Éditions de l’Institut Supérieur de Philo- sophie, 1951.
Apresentação Oral – Mesa Redonda