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2.3 A AUTONOMIA DA VONTADE

2.3.1 O evoluir da autonomia da vontade

O Direito Romano funcionou como inspirador de diversos ordenamentos jurídicos no que diz respeito ao Direito Privado. Em razão desta constatação, comum é a aceitação de que a autonomia da vontade possui origem romana. Nada obstante, o Direito Romano não vislumbrava a possibilidade de exercício de direitos subjetivos, de sorte que o contrato não fora reconhecido como uma categoria geral. A ilustração trazida pelas actiones romanas não era suficiente para se visualizar figuras genéricas de espécies contratuais70.

No pensamento de Christian Baldus, isso não significa que não existia autonomia no Direito Romano. Para o autor, os romanos seguiam os ditames da autonomia privada e não da autonomia da vontade, uma vez que havia limitação, ainda que pequena. Assim, não se tinha

69 BALLALAI, Augusto Luppi. A vontade como elemento promordial no direito privado. Revista De Direito

Privado, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, v.8, n.32, p. 21-31, out. / dez. 2007, p. 24.

70 LÔBO, Paulo Luiz Neto. Contrato e mudança social. Revista Dos Tribunais, São Paulo: Revista dos Tribunais,

consagração de interesses individuais per si, buscando-se uma estabilidade de interesses em face de uma avaliação dogmática71.

Negócios jurídicos eram vislumbrados no Direito Romano, embora não fossem considerados como espécies contratuais. Os acordos firmados pelas partes negociantes consubstanciavam atos de autonomia da vontade, haja vista que possuíam força normativa por meio da Lex

privata. A vinculação das partes ao negócio, por sua vez, não se dava por uma imposição e

sim por conta dos interesses das mesmas, devendo apenas demonstrar que se encontrava consenso com o equilíbrio comum de interesses72. Este fato, por si só, não é capaz de ressignificar a autonomia da vontade no Direito Romano ao ponto de entendê-la como autonomia privada.

Avançando na história, a Idade Média também possui enlaces com a autonomia privada, onde esta admitia influência das leis cristãs. Nos feudos, o proprietário da terra, chamado senhor feudal, tinha status superior aos demais homens e exercia todas as relações de domínio e bens. Contudo, quando a terra deixa de ser o único bem comerciável, abre-se espaço para a noção de vontade73.

O Direito Natural tomista, segundo Canotilho, ao distinguir Lex divina, Lex natura e Lex

positiva, abriu caminho para a necessidade de se analisar o direito positivo à luz das normas

jurídicas naturais, que possuíam como base a própria natureza humana. A secularização do Direito Natural pela teoria dos valores objetivos da escolástica espanhola, ao admitir a substituição da vontade divina pela natural, dá origem à concepção secular de Direito Natural74.

Entende-se que a vontade passa a ser enxergada no contexto de uma vontade natural, fruto da razão humana. Os negócios jurídicos, portanto, são fundamentados no período por meio da existência do Direito Natural. A ideia então descrita ganha força diante da revolução francesa, uma vez que esta promove uma mudança na estrutura social no contexto da liberdade e

71 BALDUS, Christian. Autonomia privada romana. Trad. Vinicius Aquini e Eduardo Bondarczuk.. Revista Dos

Tribunais, São Paulo: Revista dos Tribunais, v.100, n.904, p. 41-72, fev. 2011, p. 47 e 66.

72

ARAÚJO, Maria Angélica Benetti. Autonomia da Vontade no Direito Contratual. Revista De Direito Privado, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, v.7, n.27, p. 279-292, jul./set. 2006., p. 281.

73 BADIR, Eid. Autonomia privada à luz do direito comunitário - a formação do direito civil comunitário in:

LOTUFO, Renan (coord.). Direito Civil Constitucional. Caderno 3. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 99.

74 CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003,

igualdade. As pessoas agora eram vistas como livres e iguais, sendo titulares de direitos naturais patrocinados pela organização da sociedade75.

Assim, o conceito de autonomia da vontade possui influência direta da Escola dos Glosadores da Universidade de Bolonha, da Escola de Direito Natural, da Teoria do Contrato Social de Rousseau e da Teoria Kantiana da Vontade76.

Analisando a ideia de Rousseau em O contrato social, percebe-se que o mesmo defende a noção de liberdade natural do homem pactuada em estágios, quando se tem um estágio de liberdade plena, o estágio do contrato social e, por fim, o estado de sujeição da pessoa à sociedade77.

Nesta toada, segundo Rousseau, "cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral; e recebemos, coletivamente, cada membro como parte indivisível do todo"78.

Infere-se de tal pensamento que a autonomia da vontade faz com que o indivíduo se submeta à vontade da sociedade, em face da vinculação ao contrato social. A obediência ao Estado adviria da ideia de participação social na elaboração das normas pela maioria, o que justificaria o exercício da autonomia da vontade nestes moldes.

Esta questão também é abordada por Locke e Hobbes na perspectiva da vivência humana, no desenvolvimento do ser humano, portanto. Não levam em consideração a vontade per si, mas, na medida em que descrevem o ser humano, tratam da atuação estatal perante as vontades individuais. Segundo Hobbes79, os indivíduos, por viverem em Estado de guerra constante, necessitariam de um Estado forte, com grande poder de atuação, de sorte a limitar a vontade. Já Locke defende que os indivíduos sabem diferenciar o justo do injusto, de sorte que a atuação estatal deveria ser imparcial, visando o relacionamento bom entre os indivíduos no exercício das suas vontades80.

75 PEREIRA, Jane Reis Apontamentos sobre a aplicação das normas de direito fundamental nas relações

jurídicas entre particulares in BARROSO, Luís Roberto (Org.) A Nova Interpretação Constitucional: Ponderação, Direitos Fundamentais e Relações Privadas. 3. ed.. Rio de Janeiro: Renovar, p. 125.

76 AMARAL, Francisco. Direito Civil: introdução. 5. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 356.

77 SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 9. Ed., rev., atualiz. e ampl.. Porto Alegre:

Livraria do Advogado, 2008, p. 37.

78

ROUSSEAU, Jean Jacques. O contrato social. Trad. Antônio de Pádua Danesi. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 22.

79 HOBBES, Thomas. Do cidadão. Trad. Renato Jaime Ribeiro. Coord. Renato Janine Ribeiro. 2. ed. São Paulo:

Martins Fontes, 1998, p. 32-35.

80 VIEIRA, Oscar Vilhena. Direitos Fundamentais: uma Leitura da Jurisprudência do STF. Colaboração de

Para Locke, no que concerne à vontade, o homem não é livre para decidir. O ato de volição, segundo o autor, "faz com que o homem permaneça acerca do ato de vontade sob uma necessidade e, deste modo, não pode ser livre, a menos que a necessidade e a liberdade sejam compatíveis, e o homem posa, ao mesmo tempo, ser livre e obrigado"81.

Por isso, os autores possuem em comum o pensamento de que a vontade encontra-se em conformidade com o poder estatal, podendo haver uma submissão estatal mais forte, a fim de promover a paz social ou uma atuação estatal imparcial, auxiliando o relacionamento entre os seres humanos.

Urge fazer menção ao pensamento de Kant que, estimulado pelo pensamento de Rousseau, faz a primeira teorização acerca da autonomia numa perspectiva prática e com aplicabilidade ao âmbito jurídico de forma marcante.

Segundo ele, o homem é detentor de liberdade jurídica, uma vez que exprimiu seu consentimento livre ao Estado no momento da produção de uma norma, de sorte que a obediência e vinculação à norma ocorreriam apenas àquelas onde houve sua participação82. Na busca por uma lei que, moralmente, valha em si mesma, abrangendo todos os seres humanos racionais, Kant deseja que os indivíduos consigam julgar suas ações de forma a reconhecê-las como máximas das leis universais83. Esta questão é abordada na obra A

Metafísica dos Costumes, onde o autor defende que a vontade é fruto do desejo de cada um,

sendo designada a faculdade de fazer ou deixar de fazer conforme seu deleite. O fundamento para tanto seria a razão84.

Almejando a consagração de uma vontade que fosse pura, Kant aborda ainda o conceito de boa vontade. Se esta for boa, sua carga valorativa estaria garantida em si mesma. A vontade pura é designada pelo conceito de dever, que precisaria ser cumprido por si mesmo, não por sua utilidade e que apenas é alcançado pela razão85, como fora dito linhas atrás.

Em face desta concepção de vontade, qualquer ação é justa se for capaz de coexistir com a "liberdade de todos de acordo com uma lei universal, ou se na sua máxima a liberdade de

81

LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. Trad. Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultura, p. 120.

82

KANT, Immanuel. Metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 62.

83Ibid., p. 62-63. 84 Ibid., loc. cit. 85

NAVES, Bruno Torquato de Oliveira. O direito pela perspectiva da autonomia privada - relação jurídica, situações jurídicas e teoria do fato jurídico na segunda modernidade. 2. ed. rev e atual. Belo Horizonte: Arraes Editores, 2014, p. 55.

escolha de cada um puder coexistir com a liberdade de todos de acordo com uma lei universal"86.

Avançando na breve análise da evolução da autonomia da vontade, Hegel e Schopenhauer também buscam analisar o referido instituto. Como ponto de partida, ambos se filiam à autodeterminação que o indivíduo detém no progredir da vontade.

Segundo Hegel, a vontade pode ser visualizada por meio de três elementos. O primeiro deles é a pura indeterminação ou da pura reflexão em si mesma, representando o puro pensamento humano. O segundo, a determinação, constitui o caminho natural após a indeterminação, materializando-se na fase de tomada de decisão. O terceiro e último momento consiste na relação de negatividade consigo mesmo, que consiste na união dos momentos relatados anteriormente para a formação da vontade do indivíduo87.

Assim, os dois primeiros momentos são tidos como momentos abstratos, ao passo que o terceiro "o que é verdade, o que é especulativo (e o que é verdade, para ser concebido, só pode ser pensado especulativamente), é aquele que o intelecto se recusa a penetrar, ele que sempre chama de inconcebível o conceito"88.

Já os ensinamentos de Schopenhauer revelam que o corpo tem o condão de demonstrar a vontade. Conhecimento e vontade possuem relação direta, de sorte que "o conhecimento permanece sempre sujeito ao serviço da vontade, dado que se formou para este serviço, e mesmo emergiu da vontade assim como a cabeça emerge do tronco"89.

As coisas individuais diante de toda a história da humanidade nada mais são do que ideias, na visão do autor. Quando surge uma ideia, não se tem como distinguir nela sujeito e objeto, pois somente quando estas se interpenetram que se forma a objetividade adequada à vontade90. Por isso, é através das indisposições do corpo que o homem consegue se enraizar no mundo, unindo ideia e vontade, de sorte a intuir o mundo por meio de um processo intelectivo que gera conhecimento.

Depreende-se que o mandamento da vontade materializa o conceito de autonomia da vontade, dominante nos séculos XVIII e XIX. Revela o direito de liberdade, conforme os ideais

86 KANT, Immanuel. Metafísica dos costumes. São Paulo: Martin Claret, 2002, p. 76-77. 87

HEGEL, Friedrich. Princípios da filosofia do direito. Trad. Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 13-15.

88 Ibid., p. 17.

89 SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Livro III. Trad. Wolfgang Leo Maar.

Edição Acrópoles, p. 10. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/representacao3.html, acesso em 18 de agosto de 2018.

expostos no período da Revolução Francesa por meio da tríade kantiana da liberdade, igualdade e fraternidade.

Entabula-se, portanto, a concepção clássica de autonomia da vontade, que surge com base nos ditames liberais focados na liberdade contratual e na noção de força obrigatória dos contratos. Esta constatação inunda o Direito Privado com uma teoria que tem por base a vontade, tornando a autonomia da vontade protagonista da produção de negócios jurídicos.