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A excepcionalidade de Harry Potter

3. O caminho Diagon-al na demanda da Verdade

3.3. Harry Potter: a viagem começa

3.3.1. Harry Potter and the Philosopher’s Stone

3.3.1.1. A excepcionalidade de Harry Potter

Desde o início do primeiro volume da saga de J. K. R. que nos apercebemos que Harry não se trata de um rapaz como os outros. Logo à partida intitulado de ―The Boy Who Lived‖ (J. K. R., Stone 7), i.e., o rapaz que sobreviveu, é-lhe reconhecido um estatuto superior, especial. Como mais tarde vimos a saber, Harry foi o único sobrevivente da maldição mortal Avada Kedavra (etapa 6 de Raglan), uma vez que a sua mãe, Lily, num acto de amor altruìsta, ofereceu a sua vida em troca da do seu filho: ― ‗Not Harry, please no, take me, kill me instead –‘ ‖ (J. K. R., Azkaban 134). A construção da imagem de Lily é feita logo no primeiro livro e jamais virá a ser alterada ou desenvolvida ao longo dos restantes seis volumes; porém, é ela e o seu acto que estão por detrás de toda a obra e que actuam como móbil da acção e da missão do herói.

No primeiro volume, apenas sabemos que a mãe de Harry sacrificou a sua vida pela do filho, embora mais tarde nos apercebamos que ela permanecerá como uma das poucas,

99 Não referenciamos as etapas que correspondem às alíneas (3) e (12) por não encontrarmos paralelismos com

a obra. Não obstante, ressalvamos que Ginny Weasley, mais tarde esposa de Harry, por ser filha de feiticeiros de sangue-puro, pode ser equiparada a uma princesa.

senão a única personagem a permanecer imaculada, resistindo à crítica por parte da autora e por parte da maioria das restantes personagens. Colbert sublinha este mesmo facto, na sua obra de estudo introdutório, quando afirma: ―Lily Potter seems to deserve idolatry. She‘s essentially a Madonna figure, the Virgin Mary, mother of Jesus‖ (294). Julgamos ser demasiado pretensioso reclamar o estatuto de Virgem Maria para Lily, no entanto a verdade é que a sua imagem nunca chega a ser desconstruída ou a ser trazida para um nível mais humano.

O mesmo não acontece com personagens como James, o pai de Harry, ou até mesmo com Dumbledore, cuja imagem irá ser abalada, nos volumes posteriores. Lily é essencialmente bondosa e gentil, sendo que é na protecção dada pelo seu sangue inundado de amor, via o seu acto sacrificial, que podemos encontrar o motivo por que Harry escapou à morte. De resto, a oportunidade de redenção final que o herói, em toda a sua misericórdia, oferece a Voldemort, em Hallows (594), apenas é possível a partir do momento em que este contém, dentro de si, o sangue sacramental de Lily.

A mãe de Harry é ainda representada por uma corça que, tal como o seu macho, o veado, comporta um simbolismo fortemente religioso, como veremos. Ainda que nunca cheguemos a saber qual é o Patronus de Lily, i.e., o seu guardião, encontramo-la representada no Patronus de Snape, invocada pelo profundo amor que este por ela sempre nutriu. Assim se relembra novamente o leitor de que o amor é a derradeira protecção do ser humano contra os perigos do mundo. Como tal, apesar de não podermos afirmar peremptoriamente que Lily é uma virgem real, para recuperar a designação de Raglan, podemos por certo defender que ela partilha alguns traços com uma figura de tal calibre, o que vem ser reforçado pelo significado do seu nome, já que o lírio, a flor em que o seu nome se traduz, simboliza pureza (etapa 1).

De igual modo, apesar de o pai de Harry, James, não ser um rei, pode ser interpretado como tal, como veremos aquando da análise de Azkaban. Para além de pertencer a uma das mais antigas famílias de sangue-puro do mundo dos feiticeiros, James assume a forma de um veado, quando se transforma. Este animal, nos bestiários, encontra- -se relacionado com Cristo que é, muitas vezes, nomeado por Rei, como já adiantámos, anteriormente (etapas 2 e 5).

Filho de pais tão especiais quanto estes, é expectável que o nascimento de Harry esteja envolvido por um mistério (etapa 4) que, por sua vez, se encontra intimamente ligado a uma profecia e à missão que terá de cumprir. Pelo caminho, o herói irá ser confrontado por vários desafios que não representam senão ritos iniciáticos de passagem e que irão pôr à

prova a legitimidade do seu estatuto (etapa 11), como já tivemos oportunidade de verificar no capítulo anterior.

Perante tais circunstâncias, é fundamental que o herói seja exilado do mundo mágico que se divide entre os que o idolatram e os que o pretendem matar (etapa 7). Harry passa, então, toda a sua infância, até aos onze anos, ao cuidado da família Muggle da sua tia materna (etapa 8), Petunia, cujo nome, por oposição ao da sua irmã, Lily, significa ódio e ressentimento, exactamente os sentimentos que a definem.

Pouco sabemos da infância de Harry (etapa 9), sendo apenas concedido ao leitor o acesso a momentos específicos que narram como aquele realiza actos de magia involuntários, não lhe tendo sido ensinado como controlar a sua natureza. Ainda assim, este afastamento do mundo mágico a que o herói, na verdade, pertence é fulcral. Por um lado, permite mantê-lo dentro de um ambiente seguro, uma vez que a protecção que lhe havia sido dada aquando do sacrifício da sua mãe continua a ser exercida e a renovar-se através do sangue de Petunia.100 Por outro lado, este isolamento é determinante para a formação do carácter de Harry, tornando-o uma pessoa humilde e íntegra, tendo sido ele próprio alvo de várias injustiças.

Esta é, no entanto, uma separação temporária, sendo que o herói tem necessariamente de regressar ao seu mundo de origem para que nele possa cumprir a sua missão, vindo, por isso, a ser reconhecido como um dos mais preeminentes feiticeiros da sua era (etapas 10 e 13). Para Harry, este momento ocorre na passagem da infância para a adolescência, pelo que todas as suas aventuras podem ser consideradas como ritos de passagem que lhe permitirão superar desafios rituais que assumem a função de o preparar para o teste final onde será posta à prova, não só a sua destreza e conhecimentos mágicos adquiridos ao longo dos anos, como principalmente a força da sua personalidade.

100 O princípio do Sagrado Feminino que perpassa as lendas da Matéria da Bretanha está aqui presente. De

acordo com este princípio de soberania matriarcal, a mulher simbolizava a fertilidade da terra e reencarnava a Grande Terra-Mãe, devendo escolher, de entre um grupo de guerreiros, o futuro rei que, ao casar com a rainha, estaria a oferecer os seus serviços ao reino e, portanto, à terra que o acolhia. É nesta tríade que tem por vértices a mulher, o rei e a deusa (terra) que se manifesta o poder do Sagrado Feminino e de cuja harmonia dependia a prosperidade e paz do reino.