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3. O caminho Diagon-al na demanda da Verdade

3.3. Harry Potter: a viagem começa

3.3.5. Harry Potter and the Order of the Phoen

3.3.5.2. O poder do amor

Harry torna-se, portanto, uma espécie de arauto messiânico caracterizado e associado a um forte simbolismo cristão, e colocado no mundo para libertar os povos da repressão e do terror. A sua maior arma é o poder do amor que, como vimos no capítulo segundo, é a mais importante e a base fundamental das três virtudes teologais,158 e a que, mais uma vez, protege o herói no seu combate contra o mal de Voldemort quando este se apodera do seu corpo:

Then Harry‘s scar burst open and he knew he was dead: it was pain beyond imagining, pain past endurance – He was gone from the hall, he was locked in the coils of a creature with red eyes, so tightly bound that Harry did not know where his body ended and the creature‘s began: they were fused together, bound by pain, and there was no escape (J. K. R., Phoenix 719)

É no momento em que Harry deseja morrer para assim se reunir a Sirius, que Voldemort abandona o seu corpo. Sendo incapaz de partilhar a sua essência com alguém que sente tão fortemente a dor da perda e que, por amor, escolhe a morte sobre a vida, Voldemort, mais uma vez, mostra a sua fraqueza: ― ‗Indeed, your [Voldemort] failure to understand that there are things much worse than death has always been your greatest weakness‘ ‖ (J. K. R., Phoenix 718).

Segundo Granger, Voldemort parece assumir o papel de doppelgänger de Harry, ou seja, uma figura-sombra que complementa ou revela a verdadeira natureza de uma outra personagem (42). Grande parte do terror inspirado por Voldemort radica na ideia de que todos nós temos a possibilidade de escolher o Mal livremente159 e de, assim, nos tornarmos monstruosos: ―He [Voldemort] represents a choice to forsake living a life of abundance, giving and receiving love, for a life of simply taking by force or deceit from another‘s life‖ (Baggett 136).

A importância do poder de escolha parece não entrar em confronto com a componente profética contida nos livros, chegando mesmo a sobrepor-se a ela, já que, como Dumbledore explica, foi a escolha de Voldemort que, ao considerar Harry uma maior ameaça que Neville,160 o marcou como seu inimigo e como o homem que o viria a destruir (J. K. R., Phoenix 742).

Como tal, a lógica de Dumbledore assenta sobre os princípios de que a liberdade pessoal se traduz numa consequente imprevisibilidade e de que as pessoas não são marionetas sem vontade própria, destinadas a moverem os seus corpos e a orientarem os seus actos de acordo com um destino fatal e inescapável. A profecia apenas refere alguém nascido no fim do sétimo mês, filho de alguém que tenha desafiado o Senhor das Trevas três vezes, deixando oculta a identidade dessa pessoa. É Voldemort quem faz uma escolha e, ao fazê-lo, marca Harry como seu igual.

159 O Mal entrou no coração dos homens, pela primeira vez, aquando do pecado original, sendo que a história

da Queda parece associar a existência do Mal ao livre-arbítrio. Ao criar o Homem, Deus ofereceu-lhe liberdade de escolha, podendo aquele escolher entre o caminho do Bem ou do Mal, sendo que o pecado original não atesta senão o uso incorrecto que o Homem deu a essa faculdade.

A semelhança partilhada entre ambos atormenta o protagonista ao longo da obra, tal como acreditamos perturbar todos os seres humanos que são avassalados pela epifania da sua natureza dupla – e, por vezes, múltipla. É a incapacidade que Harry demonstra em não conseguir enfrentar este seu dualismo161 que o torna vulnerável, acabando por ser possuído pelo seu antagonista. A dor que se apodera do herói no momento da possessão pode querer indicar o quão fulcral é que ele confronte o seu lado mais obscuro e reconcilie os dois instintos extremos que se digladiam constantemente no seu interior, para que, assim, ao resolver a ambiguidade do seu ser, aceitando-a, se reconstitua enquanto um ser uno: ―Opposites have to be reconciled and resolved for there to be a new life‖ (Granger 48).

Como já referido, este volume dá início a uma mudança de direcção na obra que, agora, se torna mais introspectiva e insiste na maturação do herói, pelo que é comum assistirmos a situações em que Harry se debate com questões identitárias que o levam até mesmo a querer anular-se: ―Harry could not stand this, he could not stand being himself any more… he had never felt more trapped inside his own head and body, never wished so intensely that he could be somebody, anybody, else‖ (J. K. R., Phoenix 724). Esta sensação de encurralamento dentro de si próprio percorre todo o volume, acabando por se manifestar não só na auto-renegação da sua imagem, mas também no isolamento progressivo do herói.

Estamos perante uma espécie de morte do homem velho, despido das ideias pré- -concebidas que tinha de si mesmo e que, agora, tem de se reerguer para poder continuar o seu caminho, não já como o filho de James Potter, mas como ele próprio, Harry Potter. Neste volume, Harry é, pois, uma espécie de fénix ao sofrer uma despersonalização e ao ver a concepção que tinha de si ser desmantelada. Ao aceitar o papel de líder, o protagonista abre, assim, espaço para o renascer de um novo homem plenamente consciente de si e do papel que irá ter de desempenhar, seja como aniquilador, ou como vítima de Voldemort.