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3 PERSPECTIVAS DA IGUALDADE NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DI-

5.9 Execução fundada em título executivo extrajudicial

Conforme leciona Leonardo Greco, título executivo “é o documento ou é a situação fático jurídica que, revestidos dos requisitos legais, autorizam a instauração do processo de execução (nulla executio sine titulo)”560. Para o mesmo autor, o título

executivo extrajudicial corresponderá a um “documento ou ato a que a lei confere eficácia executiva, sem que a sua formação tenha se originado de um processo de conhecimento anterior”561.

O texto constitucional prevê que os pagamentos realizados pelo modus previsto em seu art. 100 serão oriundos de “sentença judiciária”. Por isso, parte da doutrina abraçou a idéia de que o procedimento dos artigos 730 e 731 do Código de Processo Civil somente poderia advir com base em título judicial562.

Vicente Greco Filho, defende que a execução por quantia certa com base em título extrajudicial não é possível, e que o tratamento constitucional do problema foi coerente com o regime de reexame obrigatório das sentenças proferidas contra a Fazenda Pública (art. 475 do Código de Processo Civil), da tradição do direito brasileiro. Para o autor, se a lei, de regra, exige que as próprias decisões judiciais contra a Fazenda sejam reexaminadas obrigatoriamente pelo tribunal para terem executividade, como admitir que o título extrajudicial a tenha quando o mais das vezes ou pelo menos às vezes não tem exame algum do judiciário sobre a integridade e procedência do crédito563?

Da mesma opinião é Bruno Espiñeira Lemos, que acredita ter o § 3º do artigo 100 da Constituição, através da expressão “sentença judicial transitado em julgado”,

559 DIÁRIO DO SENADO FEDERAL. <http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/diarios

/pdf/sf/2007/02/06022007/00700.pdf.> Acessado em 10 de março de 2008.

560 GRECO, L. O processo... p. 103. 561 GRECO, L. O processo... p. 178. 562 VIANA, J. V. Execução... p. 94/95.

563 GRECO FILHO, V. Da execução... p.59. MACHADO, Antonio Cláudio. Execução contra a Fazenda Pública. Inadmissibilidade. São Paulo: Revista de Processo. nº 59. P. 216-218.

afastado a possibilidade de execução de título extrajudicial. Além disso, o autor sustenta a existência do sistema de precatórios na suposta (e ultrapassada) supremacia do interesse público sobre o privado564. Este posicionamento é seguido também por João

Carlos Souto565 e Juraci Inês Chiarini Vicente566.

Para estes juristas o detentor do título executivo extrajudicial deveria propor ação de conhecimento condenatória para a obtenção de um título executivo judicial e, só posteriormente, ingressar com a execução com base na condenação obtida567.

Existe uma posição intermediária, porém extremamente minoritária. De acordo com os autores que compartilham desta vertente, uma vez ajuizada uma execução contra a Fazenda pública, com base em título extrajudicial, sendo citada a Fazenda-devedora e, opostos ou não os embargos, deveria ser proferida uma sentença, a qual, como qualquer sentença contrária à Fazenda Pública, sujeita-se ao duplo grau de jurisdição. Nesta situação, estaria satisfeita a exigência constitucional. Teríamos, aí, uma “sentença judiciária” para fins de expedição do precatório568.

Juvêncio Vasconcelos dissente de tal opinião. Sustenta que a eficácia de um título executivo extrajudicial é imediata, decorrente da lei, não estando a depender de uma posterior sentença oriunda de processo de conhecimento. Para o autor, admitida a execução de um título extrajudicial contra a Fazenda pública, o procedimento, em especial a fase de expedição de precatório, não decorreria de uma decisão judicial a posteriori, lançada em sede de eventuais embargos, mas sim, da própria eficácia executiva do título. Segundo este posicionamento, mesmo que os embargos sejam opostos, e posteriormente rejeitados, não é a sentença embargatícia que se executa, mas sempre o título que instrui a exordial executiva569.

Pela possibilidade de execução do título extrajudicial contra a Fazenda Pública encontramos as abalizadas opiniões de Celso Neves570, Humberto Theodoro Júnior571,

564 LEMOS, B. E. Op. cit. p. 26-27-62. 565 SOUTO, J. C. Op. cit. p. 288, 289.

566 VICENTE, Juraci Inês Chiarini. Execução contra a Fazenda Pública Fundada em Título Extrajudicial.

1 ed. Rio de Janeiro: Forense. 2001. p. 120.

567 VIANA, J. V. Execução... p. 95. 568 VIANA, J. V. Execução... p. 95-96 569 VIANA, J. V. Execução... p. 96-98.

570 NEVES, Celso. Comentários ao Código de Processo Civil. 7 ed. v. VII. Rio de Janeiro: Forense, 2000,

p. 153.

Leonardo Greco572, Leonardo José Carneiro da Cunha573 e Araken de Assis574. Este

último traz importante contribuição ao assunto, defendendo o trânsito em julgado não para a expedição do precatório, mas para o levantamento do dinheiro575.

Este posicionamento de tão numerosa parcela da doutrina decorre da total equiparação da eficácia executiva dos títulos judiciais e extrajudiciais. Principalmente após o advento da Lei nº. 8.953 de 1994, que albergou de vez o entendimento de que os procedimentos executivos comuns do Código de Processo Civil – execução para entrega de coisa, execução das obrigações de fazer e não fazer e execução por quantia certa - podem ter fundamento em título executivo judicial ou extrajudicial. É essa tendência unificadora leva aos processualistas entenderem a possibilidade de cabimento da execução contra a Fazenda Pública fundada em título extrajudicial576.

Além disso, deve-se ressaltar que é impossível negar que a Administração Pública, no desenvolver de suas atividades, muitas vezes participa da confecção de documentos, como contratos e duplicatas, também encontrados nas relações jurídicas entre particulares e que são, por sua vez, títulos executivos extrajudiciais, constantes do roll do artigo 585, Código de Processo Civil577.

Para nós, este entendimento é o que se encontra em maior conformidade com a efetiva paridade de armas no processo civil. A Fazenda Pública, quando exeqüente, promove a execução de débito inscrito em sua dívida ativa através de título executivo extrajudicial (art. 585, VII), onde o particular não participou de sua formação podendo sujeitá-lo à ônus injustificável no acesso à justiça e à ampla defesa, impedindo-o de reagir contra a execução injusta antes de garantir o juízo578. Logo, a execução de título

extrajudicial contra a Fazenda Pública parece-nos ser um feliz contraponto em face do soturno, e quiçá inconstitucional, privilégio dos entes públicos.

O próprio Superior Tribunal de Justiça já consolidou o entendimento favorável à execução em face da Fazenda Pública com base em título extrajudicial, tendo

572 GRECO, L. O processo... v. I. p. 396.

573 CUNHA, Leonardo José Carneiro da. As defesas do executado. In: Leituras complementares de

Processo Civil. Org.: DIDIER JÚNIOR, Freddie. 6 ed. Salvador: Juspodium, 2008, p. 274.

574 ASSIS, A. Op. cit. p. 961/963. 575 Loc. cit.

576 VIANA, J. V. Execução... p. 97. 577 VIANA, J. V. Execução... p. 98.

578 GRECO, Leonardo. A crise do processo de execução. 1 ed. In: Estudos de Direito Processual. Campos

dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2005, p. 42. Araken de Assis destaca que somente os embargos suspendem a execução do crédito fiscal. Este, como sabemos, por força do artigo 16, §1º da Lei 6.830 de 1980, depende de prévia garantia do juízo. A mera propositura de Mandado de Segurança ou de ação anulatória não suspende a exigibilidade do crédito tributário. ASSIS, A. Op. cit. p. 988/991.

consagrado seu posicionamento no verbete 279 de sua súmula579.

Admitido o título executivo extrajudicial contra a fazenda, o procedimento a ser trilhado será exatamente o dos artigos 730 e 731 do Código de Processo Civil. O rito é perfeitamente compatível com o título extrajudicial. Citar-se-á a Fazenda para opor embargos. Não opostos ou rejeitados, só então virá a expedição do precatório. O contraditório estará plenamente assegurado com a possibilidade de interposição (ou não) dos embargos, destacando-se, inclusive que, nesse caso, a defesa será ampla, ex vi do art. 745 do CPC580.