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4 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, A COLISÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS E AS BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS

4.2 LIBERDADE DE EXPRESSÃO VERSUS DIREITOS DA PERSONALIDADE

4.2.1 Exemplos estrangeiros

4.2.1.1 Salman Rushdie, “Os Versos Satânicos” e o Islã

No ano de 1988, Salman Rushdie, escritor britânico de origem indiana, publicou o livro intitulado Os Versos Satânicos, a partir das histórias sobre o profeta Maomé, fazendo questionamentos sobre a validade do sagrado. Tal fato gerou a revolta de Mulçumanos, que consideraram a obra um insulto ao Islã, tendo sido decretada pelo líder religioso do Irã, Aiatolá Khomeini, a condenação à morte (fatwa) do referido autor.655

Rushdie passou a viver na clandestinidade e, inclusive, diversos tradutores e editores de sua obra sofreram atentados após o ocorrido. Em entrevista concedida ao jornalista e escritor Edney Silvestre, questionado sobre a existência de um filme paquistanês que o colocou como vilão, o escritor põe em pauta a questão da liberdade de expressão:

[...] Não, foi em 1990. Internacional guerillas era o título. Eu era o vilão, vivendo em uma ilha paradisíaca rodeado de garotas e policiais. Policiais, não. Pareciam mais soldados israelenses. Os heróis eram os assassinos fundamentalistas que me procuravam para acabar comigo. Fui retratado como bêbado, sádico, torturador e por aí vai. O filme foi proibido na Inglaterra por ser fantasticamente difamatório. Eu me vi na estranha posição de ser defendido pela lei da censura, quando minha luta é contra ela. Disseram-me que o motivo pelo qual a censura não deixou passar foi o receio que eu movesse um processo, que poderia vir a ser contra eles também, caso liberassem o filme, como parte difamatória. Tive de lhes mandar uma carta formal, afirmando que não abriria processo, desistindo de meus direitos legais na questão, solicitando que não me difamassem e liberassem o filme. Por causa dessa intervenção o filme foi liberado. É uma boa história sobre o valor da liberdade de

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expressão, porque o filme foi exibido em Bradford, a cidade da Inglaterra com a maior população islâmica, e ninguém foi assistir.656

Ou seja, a vida de Salman Rushdie é exemplo claro da dicotomia entre a liberdade de expressão e os direitos da personalidade. De um lado, a manifestação de seu pensamento foi de encontro a um ideal coletivo. De outro, a manifestação de pensamento “coletivo” sobre ele foi de encontro a uma concepção de proteção da sua personalidade.

Ainda sobre este caso, no ano de 2012 foram lançadas as memórias de Rushdie, espécie de autobiografia em terceira pessoa intitulada Joseph Anton (codinome que o escritor adotou na época de clandestinidade) na qual o autor descreve como foram os anos de reclusão forçada após a polêmica publicação, sendo símbolo de luta contra o fundamentalismo.657

Em entrevista concedida para Fabio Victor, jornalista do periódico Folha de S.

Paulo, Rushdie tece o dilema de ser conhecido mais sobre sua vida do que sobre suas obras:

[Vitor]: O Sr. Costuma dizer que preferiria que as pessoas soubessem menos sobre

sua vida e mais sobre seus livros. Mas, com suas memórias, elas saberão mais sobre sua vida. Como se sente com isso?

[Rushdie]: É algo que me deixa num grande conflito. Por um lado, eu sempre soube

que em algum momento seria necessário contar essa história. Aqui estamos, a hora chegou. Mas você está certo, há 20 anos eu luto com esse problema de muita gente me conhecer por causa de um fato jornalístico. Sempre achei uma inversão, uma loucura. Preferiria realmente ser conhecido como autor dos meus livros. Mas o que vou fazer? Você não tem como evitar a sua vida. Agora que o livro está escrito, é como se tivesse tirado um peso das minhas costas. Penso em não voltar a falar disso novamente. Se me perguntarem sobre esse período direi: ‘Leia o maldito livro, está tudo lá’.658

Este lançamento (auto)biográfico se deu em meio à veiculação de um filme anti-islã na internet, Innocence of Muslims (A inocência dos Muçulmanos), publicado por um americano, que provocou a insurgência do Islã contra os Estados Unidos, culminando, inclusive, na morte do embaixador estadunidense no Oriente Médio.659 Fato este que trouxe à tona questões sobre a liberdade de expressão no meio digital.

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SILVESTRE, Edney. Contestadores: entrevistas notáveis. São Paulo: Francis, 2003. p. 149.

657

VICTOR, Fabio. Sujeito oculto. Folha de S. Paulo, São Paulo, 18 Set. 2012. Ilustrada, p. E1.

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Ibid., p. E4. Fazendo um paralelo com os biógrafos, a título ilustrativo, será que os autores de biografias gostariam de ser reconhecidos mais sobre suas vidas do que por suas obras? Será que os biógrafos que devassam a vida privada/íntima de pessoas notoriamente conhecidas (como artistas que querem ser reconhecidos por suas obras e não por suas vidas) gostariam de ter as suas vidas devassadas desautorizadamente por outros biógrafos? Afinal, escritores também são pessoas públicas; ou não? Por que não?

659

BRINCO, Henrique. Polêmica: Afeganistão bloqueia YouTube por conta de filme anti-islã. Ibahia, Cinema, Salvador, 12 set. 2012. Últimas Notícias. Disponível em: <http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/polemica- afeganistao-bloqueia-youtube-por-conta-de-filme-anti-isla/>. Acesso em: 20 jan. 2015.

E, apenas com outra roupagem, mas em tom ainda mais grave, o tema voltou à tona recentemente. Foi manchete de notícias do mundo inteiro o atentado terrorista à sede da famosa revista Charlie Hebdo, na França, em janeiro de 2015, que matou doze pessoas, dentre elas, cartunistas renomados que criavam e publicavam sátiras em charges, no periódico, sobre Maomé e sua religião. Se, por um lado, o atentado representou, além de um atentado à(s) vida(s), a repressão à liberdade de expressão, por outro, houve quem criticasse o tipo de humor feito pela revista, ofensivo aos mulçumanos (o que não justifica os assassinatos).660

4.2.1.2 Larry Flynt, Jerry Falwell, sátiras e caricaturas

Adentrando na questão das sátiras e caricaturas (“versus direitos da personalidade”), cumpre apresentar conhecido caso ocorrido nos Estados Unidos, na década de 1980.

Famoso editor de revista masculina nos EUA, Larry Flynt, utilizando-se da liberdade de expressão garantida pela Constituição americana, publicou uma sátira com a caricatura da maior representação da direita cristã estadunidense, o pastor Jerry Falwell, fazendo referência à sua vida sexual e à bebida alcoólica Campari.

O caso foi emblemático nos Estados Unidos e a questão foi suscitada na Suprema Corte, que reconheceu o direito de manifestação do pensamento do editor.

Jayme Weingartner Neto, em favor da proteção do direto à honra do “caricaturado”, comenta o caso criticamente:

Flynt, editor da revista, condenado a pagar U$ 150.000 de indenização por causação intencional de danos emocionais, recorreu à Suprema Corte. Em suma, uma figura pública teria de suportar os danos emocionais causados por uma paródia extremamente ofensiva e grosseira além dos limites aos olhos da grande maioria da população? Sim, na resposta jurisprudencial. A sentença ampliou a cobertura constitucional da difamação explicitamente para a causação dolosa de danos emocionais – no caso, através de uma caricatura. Nessa hipótese, não se julgam os bons ou maus motivos do editor, sendo descabido, ainda, pedir ponderação e racionalidade a uma caricatura, precisamente uma distorção deliberada (que tem exercido papel central no debate político); ademais, o caráter ultrajante, na área do discurso político e social, é inevitavelmente subjetivo e, portanto, inaceitável.661

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MAISONNAVE, Fabiano. Entenda o que aconteceu no ataque ao jornal ‘Charlie Hebdo’ em Paris. Folha de

S. Paulo, São Paulo, 17 jan. 2015. Últimas Notícias. Disponível em:

<http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/01/1576091-entenda-o-que-aconteceu-no-ataque-ao-jornal- charlie-hebdo-em-paris.shtml>. Acesso em: 20 jan. 2015.

661

Neste diapasão, o advogado especialista na Primeira Emenda da Constituição dos EUA, Rodney Smolla, escreveu um livro descrevendo este famoso acontecimento. Nesta obra, o autor discorre sobre a importância do caso na S.C. americana:

The case became much more than a battle of lawyers over the legal consequences of a dirty joke. It was also a cultural battle: Presenting to the Supreme Court deep conflicts reaching into the very soul of the American First Amendment tradition, the case involved a battle over the very nature of free expression in a pluralistic society, a battle over competing visions of American life.662

O caso Larry Flynt foi além do simples conflito entre advogados em relação ao estabelecimento (ou não) de consequências sobre uma “brincadeira de mau gosto”. Foi, na verdade, uma discussão no campo cultural pela qual a Suprema Corte dos Estados Unidos teve que ponderar valores inerentes à Primeira Emenda, uma vez que envolveu uma questão social, que interferiria diretamente na vida do americano: a liberdade de expressão.

A sátira é um tipo de manifestação legítima das liberdades de expressão, artística e intelectual. Contudo, o seu exercício pode acabar suscitando violação ao direito à honra da pessoa “retratada”,663

como claramente ocorreu no caso narrado, mas que teve outro “fim”, pelo fato de o ordenamento jurídico dos EUA estabelecer espécie de hierarquia entre os direitos – o que não ocorre no ordenamento jurídico brasileiro, como bem assinalou Chinellato na audiência pública do STF sobre as biografias não autorizadas –, enaltecendo a liberdade de expressão em detrimento dos direitos da personalidade.664

Reafirmando isso, Aguiar anota que “nos Estados Unidos a liberdade de informação e expressão tem tido, quase sempre, uma posição preferencial quando em colisão com outros direitos”.665

662

SMOLLA, Rodney A. Jerry Falwell V. Larry Flynt: the First Amendment on trial. Chicago: Illini books, 1990. p. 3. O caso se tornou muito mais do que uma batalha de advogados sobre as consequências jurídicas de uma piada suja. Foi também uma batalha cultural. Foram apresentados para o Supremo Tribunal os profundos conflitos que se estendem até a própria alma da tradição americana, a Primeira Emenda. O caso envolveu uma batalha sobre a própria natureza da liberdade de expressão em uma sociedade pluralista, acerca das visões concorrentes da vida americana. Tradução nossa.

663

SCHREIBER, 2014, p. 89.

664

Comparando o sistema jurídico brasileiro com o americano quanto à liberdade de expressão, Daniel Sarmento afirma: “o caminho adotado pelo Brasil, que aceita as restrições à liberdade de expressão, voltadas ao combate do preconceito e da intolerância contra minorias estigmatizadas, parece-nos correto, tanto sob o ponto de vista jurídico como moral. Ele está em plena consonância com a normativa internacional sobre direitos humanos e com a jurisprudência constitucional da maioria das democracias liberais modernas – os Estados Unidos, neste particular, é que representam exceção”. SARMENTO, Daniel. A Liberdade de Expressão e o Problema do “Hate

Speech”. In: FARIA, Cristiano Chaves de (Org.). Leituras Complementares de Direito Civil: o direito civil-

constitucional em concreto. Salvador: JusPODIVM, 2007, p. 95.

665

A caricatura é paródia em sentido estrito, e esta, por sua vez, em sentido amplo, é sátira. Na definição de Regina Sahm, paródia “é a imitação burlesca de uma obra literária. É a imitação de efeito humorístico de uma obra de caráter sério, é a crítica típica das sociedades democráticas”; e caricatura é a “paródia realizada por meio da arte plástica em que há exageros de traços para representar geralmente pessoas [...]”.666

A caricatura, que “deforma” a imagem da pessoa retratada e submete o sujeito ao comentário de humor, é lícita desde que seja atual e tenha oportunidade jornalística. Mas se tiver o condão de causar prejuízo ou expor a pessoa representada ao ridículo, encontrará limites, em especial, no direito à honra.667

Assim, Schreiber aduz que “é evidente a necessidade de proteção à reputação da pessoa, que não pode sofrer arrefecimento pelo simples intuito humorístico de quem publica um texto, uma caricatura ou uma fotomontagem.”668

Dessa forma, se uma biografia não autorizada contiver uma sátira ou caricatura do biografado, é preciso averiguar se a mesma tem (ou não) o condão de lesar o direito à honra do indivíduo retratado. Havendo, pois, poderá ser requerida pelo ofendido a sua proibição ou, no mínimo, a retirada da imagem da obra, se não houver fim comercial e não violar outros direitos da personalidade.