2.3 O(S) PROBLEMA(S) DAS BIOGRAFIAS NÃO AUTORIZADAS
2.3.3 O problema no Poder Legislativo: PL nº 393/2011
Está em trâmite no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 393/2011173, de autoria do deputado federal Newton Lima (PT-SP), que visa alterar o art. 20174 do Código Civil de 2002. O projeto, que autoriza a publicação de biografias de pessoas públicas mesmo sem a anuência dos biografados, encontra-se, atualmente, no aguardo de votação no Senado Federal.
169
VELOSO, Caetano. Os caras. A TARDE, Salvador, 10 nov. 2013. Brasil, p. B8.
170
LAVIGNE, Paula. Debate? Que debate? Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 nov. 2013. Opinião, p. A3.
171
BRAGON, Ranier. ‘Em nenhum país existe direito absoluto’. Folha de S. Paulo, São Paulo, 12 nov. 2013. Ilustrada, p. E1.
172
Dados da tramitação disponibilizados no site da Câmara dos Deputados (“camara.gov.br”) no seguinte link: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=491955>.
173
O Inteiro Teor pode ser consultado no seguinte link:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=840265&filename=PL+393/2011>. 174
Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.
O PL nº 393/2011 foi inspirado no PL nº 3.378/2008175, do ex-deputado federal Antônio Palocci Filho, e tem apensados o PL nº 395/2011, de autoria da deputada federal Manuela d’Ávila (PCdoB-RS), e o PL nº 1.422/2011, de autoria do deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ), que dispõem sobre a mesma matéria.
Eis a ementa da redação do projeto: “Altera o art. 20 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil, para garantir a liberdade de expressão, informação e o acesso à cultura”. E sua explicação: “Visa garantir a divulgação de imagens e informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública, cuja trajetória pessoal tenha dimensão pública ou cuja vida esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade”.
O projeto coloca em discussão o problema das restrições aos direitos fundamentais nas relações privadas pela publicação de biografias não autorizadas de personalidades públicas, com o objetivo de alterar, através de inclusão, o art. 20 da lei civil. Pretende-se acrescentar ao referido dispositivo um parágrafo específico que, em sua redação, disciplina a desnecessidade de autorização (prévia) da pessoa de notoriedade pública para a publicação e distribuição de biografias sobre a vida da mesma.
O PL nº 393/2011 foi aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados no dia 06 de maio de 2014, tendo sito incorporada ao texto emenda do deputado federal Ronaldo Caiado176 (DEM-GO), a fim de possibilitar ao biografado o requerimento nos juizados especiais, teoricamente, de forma célere, da exclusão de trechos ilícitos, ao ter a sua “honra, boa fama ou respeitabilidade” (art. 20 do CC/2002) atingida, nas edições futuras da obra biográfica.
Para o autor do PL, a proposta pretende reparar um erro da lei cível que, supostamente, permite a censura prévia no país. E, segundo o relator do projeto pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), o deputado federal Alessandro Molon (PT-RJ), o texto equilibra a liberdade de expressão com o direito à vida privada.177
Eis a redação final dos enunciados normativos propostos:
175
Retirado de pauta da Câmara em 2009 por acordo entre lideranças na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) e arquivado pelo fim da legislatura 2007-2011.
176
Não foi à toa a proposta de emenda: “O próprio Caiado move uma ação na Justiça contra o escritor Fernando Morais, a editora Planeta e o publicitário Gabriel Zellmeister. Ele reclama de um trecho do livro ‘Na Toca dos Leões”, sobre a história da agência de publicidade W/Brasil. No livro, Zellmeister afirma que, durante a campanha de 1989, quando Caiado foi candidato a presidente, o hoje deputado defendeu a esterilização das mulheres nordestinas como medida de controle populacional. A ação está na Justiça já faz dez anos”. SOUZA, André de. Câmara aprova projeto que permite publicação de biografias sem autorização. O Globo, 06 maio 2014. Cultura. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/camara-aprova-projeto-que-permite-publicacao-de- biografias-sem-autorizacao-12401006>. Acesso em: 16 jun. 2014.
177
CÂMARA aprova projeto que libera biografia de pessoas públicas. Câmara dos Deputados, Câmara Notícias, Brasília, 06 maio 2014. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITO-E- JUSTICA/467292-CAMARA-APROVA-PROJETO-QUE-LIBERA-BIOGRAFIAS-DE-PESSOAS-
Art. 20 (...)
§ 2° A mera ausência de autorização não impede a divulgação de imagens, escritos e informações com finalidade biográfica de pessoa cuja trajetória pessoal, artística ou profissional tenha dimensão pública ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade.
§ 3° Na hipótese do § 2º, a pessoa que se sentir atingida em sua honra, boa fama ou respeitabilidade poderá requerer, mediante o procedimento previsto na Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, a exclusão de trecho que lhe for ofensivo em edição futura da obra, sem prejuízo da indenização e da ação penal pertinentes, sujeitas essas ao procedimento próprio.178
No Senado, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 42/2014179, que corresponde ao PL nº 393/2011, está sob análise da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e tem como relator o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES).
Em seu parecer, enviado à apreciação da CCJ no dia 28 de outubro de 2014, favorável à aprovação do PLC, Ferraço alterou o texto do projeto com a retirada do § 3° da proposta normativa, suprimindo a emenda, o que poderá acarretar no retorno do PL nº 393/2011 à Câmara dos Deputados se os senadores entenderem que se trata de modificação de mérito.180
Segundo o senador, “os litígios que decorrem da edição de obras literárias são bastante complexos e, muito provavelmente, necessitariam de produção de prova pericial, inadmissível no procedimento dos juizados”, além do que, “geraria um mecanismo de censura posterior das biografias, incompatível com a liberdade de expressão que se busca reconhecer nesse projeto”.181
Mas o relator reformulou o relatório do seu parecer182 no dia 02 de dezembro de 2014, reintegrando o § 3° ao projeto, mudando, somente, o rito dos juizados (Lei nº 9.099/95), para o rito sumário previsto no artigo 275 do Código de Processo Civil.
178
A Redação Final pode ser consultada no seguinte link:
<http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1250924&filename=Tramitacao- PL+393/2011>.
179
Dados da tramitação disponibilizados no site do Senado Federal (“senado.gov.br”) no seguinte link: <http://www.senado.gov.br/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=117559>.
180
GRAGNANI, Juliana; PESSOA, Gabriela Sá. Senador muda projeto de lei das biografias. Folha de S. Paulo, São Paulo, 25 out. 2014. Ilustrada. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/10/1537637- senador-muda-projeto-de-lei-das-biografias.shtml>. Acesso em: 02 dez. 2014.
181
BIOGRAFIAS não autorizadas devem entrar na pauta. Jornal do Senado, Portal de Notícias, Brasília, 04 nov. 2014. Disponível em: <http://www12.senado.gov.br/jornal/edicoes/2014/11/04/biografias-nao-autorizadas- devem-entrar-na-pauta>. Acesso em: 02 dez. 2014.
182
O parecer pode ser consultado, na íntegra, no seguinte link: <http://www.senado.gov.br/atividade/Materia/getTexto.asp?t=157755&c=PDF&tp=1>.
Portanto, caso haja aprovação do Projeto de Lei nº 393/2011 no Congresso, o novo texto legal estabelecerá que a mera ausência de autorização não poderá impedir a publicação e distribuição de biografias de pessoas notoriamente conhecidas na sociedade e, caso o biografado tenha seus direitos da personalidade violados, será adotado o rito sumário do CPC para a supressão das partes ofensivas da obra em suas próximas edições.
No entanto, o PL nº 393/2011 não deve ser aprovado, pois não soluciona o problema das biografias não autorizadas. A nova regra impediria, somente, a restrição à publicação e distribuição de biografias (não autorizadas) de pessoas públicas pelo “mero” argumento da “não autorização”. Mas se o argumento for a violação à “honra, boa fama ou respeitabilidade” ou o fim comercial da obra, as biografias continuariam podendo ser proibidas a requerimento da parte; e, ainda, com a possibilidade de se promover ação pelo procedimento sumário para retirada de trechos ilícitos em caso de publicação.
Outro não é o entendimento de Anderson Schreiber, ao analisar o(s) projeto(s): “Os projetos de lei que vêm sendo discutidos no Congresso brasileiro erram, portanto, o alvo. Nenhum deles evitará que as ações judiciais continuem acontecendo e que o público continue privado de excelentes biografias enquanto decisões liminares estiverem em curso.”183
Na verdade, o art. 20 do CC/2002 não impede a publicação e distribuição de biografias sem autorização do biografado. Apenas permite que o biografado requeira a proibição caso a obra atinja seus direitos da personalidade, ou possua intuito econômico. A questão é que, como delineado no item 2.2.2 deste estudo, dificilmente não há intuito econômico na produção de uma biografia não autorizada, o que legitima a proibição deste tipo de obra literária.
Assim, a norma, corretamente, impede, apenas, caso seja requerido em juízo pelo interessado, a divulgação de biografias não autorizadas que violam a honra, imagem, privacidade e intimidade dos biografados ou que tenham fins comerciais.
Ainda na análise do PL em comento, Schreiber tece as seguintes considerações,
É fácil perceber que o acréscimo não resolve o problema. Embora o art. 20 exija, em regra, a autorização da pessoa para a divulgação da sua imagem, da sua voz e de seus escritos, o próprio dispositivo reconhece que há exceções, às quais os tribunais acrescentam outras tantas, especialmente no exercício das liberdades constitucionais de informação e de expressão artística ou intelectual. Em outras palavras: basta interpretar o art. 20 à luz da Constituição para perceber que a ausência de autorização não impede juridicamente a edição de biografias, do mesmo modo que não impede a circulação de jornais. A melhor jurisprudência já caminha nesse sentido, limitando-se a impedir a circulação de biografias naquelas hipóteses em que considera ter havido uma injustificada violação à privacidade, à imagem ou à honra
183
do biografado. O verdadeiro problema é que, na ausência de parâmetros legais, cada magistrado acaba recorrendo ao seu próprio “sentimento” sobre o que é ou não é um atentado injustificado à privacidade, à imagem, ou à honra do biografado.184
O problema do artigo, nesse caso, é apenas o não estabelecimento de parâmetros para que o magistrado decida sobre o que realmente viola os direitos da personalidade e, consequentemente, comine a proibição da obra biográfica. Sobre este quesito que uma possível modificação do dispositivo deveria se pautar. Mas, na dúvida, de acordo com a lei, e consoante se constatará nas próximas ilações, deve, em regra, prevalecer a proteção aos direitos da personalidade, podendo haver relativização apenas em certos casos, a partir de critérios específicos que ainda serão delimitados, através da ponderação de interesses.