5. O MANDADO DE INJUNÇÃO COMO INSTRUMENTO DE
5.2.1 Existência de norma complementando o comando
Nesse item, indica-se as ementas dos julgados proferidos pelo Supremo Tribunal Federal em sede de mandado de injunção, cuja denegação justificar-se-ia pela impossibilidade jurídica do pedido face da mera existência fática de uma norma regulamentadora, independentemente de seu conteúdo.
Caso 1
Na primeira ementa escolhida, tem-se um mandado de injunção impetrado por Bento Gonçalves Ferreira Gomes, o qual requereu ao Supremo Tribunal Federal o gozo dos benefícios fiscais que lhe são garantidos no art. 153, § 2º, inciso III da Constituição.
O Supremo Tribunal Federal não conheceu do presente writ sob o argumento da existência norma disciplinando a matéria, a Lei no 7.713/88, razão pela qual “não se justifica o ajuizamento de mandado de injunção, ação que pressupõe a ausência de norma que impeça o gozo de direitos ou prerrogativas instituídas pela lei maior”.
In verbis:
“Mandado de injunção. Regulamentação do artigo 153, parágrafo 2º, inc. I, da Constituição Federal. Agravo regimental não conhecido. Omissão legislativa inexistente. Denegado o mandado de injunção por despacho do relator, não se conhece de agravo regimental protocolizado na secretaria do STF após o término do prazo, embora postado nos correios no qüinqüídio legal. Precedentes. Existindo lei disciplinando a matéria constitucional (redução de imposto de renda a aposentados e pensionistas com mais de 65 anos e renda constituída exclusivamente dos frutos do trabalho), não se justifica o ajuizamento de mandado de injunção, ação que pressupõe a ausência de norma que impeça o gozo de direitos ou prerrogativas instituídas pela Lei Maior. AgRg não conhecido” (STF, Tribunal Pleno, AgR no MI 152/DF, rel. Min. Célio Borja, j. 21.03.90, DJ 20.04.90, p. 3047. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).
Caso 2
A seguir, tem-se o mandado de injunção impetrado por Airton de Oliveira e outros, os quais requereram, através do writ, o tratamento
isonômico em relação ao servidores civis do INCRA lotados no Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário, cujos vencimentos seguiram o Decreto- lei no 2.363 que determinava o regime jurídico dos servidores autárquicos do INCRA, contrariando o disposto no art. 39, § 1º da Constituição, que garante isonomia no âmbito da administração direta.
O Min. Carlos Velloso, voto vencido, entendeu que o mandado de injunção “faria as vezes da lei mencionada no § 1º do art. 39 da Constituição, para o fim de assegurar isonomia de vencimento no âmbito da administração direta”. Contudo, concluiu que o mandado de injunção estava prejudicado, pois os servidores subordinados ao INCRA pertenciam à Administração Indireta, razão pela qual não haveria que se falar em quebra da isonomia. O Min. Aldir Passarinho acompanhou o Relator.
O Min. Celso de Mello, a seu turno, representando os votos vencedores, aduziu ser, o princípio da isonomia, não suscetível de regulamentação ou complementação, por ser um postulado revestido de auto- aplicabilidade. Eventual contrariedade a esse princípio só pode ser declarada pela ação direta de inconstitucionalidade e, enquanto isso não ocorrer, vigora o princípio da presunção de constitucionalidade.
Ademais, para que houvesse o cabimento do mandado de injunção, imprescindível a ausência de norma regulamentadora e, como, no caso, existe norma, não há a lacuna técnica exigida como pressuposto para uso do writ.
“Mandado de injunção. Pretendida majoração de vencimentos devidos a servidor publico (INCRA/MIRAD). Alteração de lei já existente. Principio da isonomia - postulado insuscetível de regulamentação normativa inocorrência de situação de lacuna técnica. A questão da exclusão de benefício com ofensa ao principio da isonomia. Mandado de injunção não conhecido. O principio da isonomia, que se reveste de auto-aplicabilidade, não é - enquanto postulado fundamental de nossa ordem politico-jurídica - suscetível de regulamentação ou de complementação normativa. Esse principio - cuja observância vincula, incondicionalmente, todas as manifestações do Poder Publico - deve ser considerado, em sua precípua função de obstar discriminações e de extinguir privilégios (RDA 55/114), sob duplo aspecto: (a) o da igualdade na lei e (b) o da igualdade perante a lei. A igualdade na lei - que opera numa fase de generalidade puramente abstrata - constitui exigência destinada ao legislador que, no processo de sua formação, nela não poderá incluir fatores de discriminação, responsáveis pela ruptura da ordem isonômica. A igualdade perante a lei, contudo, pressupondo lei já elaborada, traduz imposição destinada aos demais poderes estatais, que, na aplicação da norma legal, não poderão subordiná-la a critérios que ensejem tratamento seletivo ou discriminatório. A eventual inobservância desse postulado pelo legislador imporá ao ato estatal por ele elaborado e produzido a eiva de inconstitucionalidade. Refoge ao âmbito de finalidade do mandado de injunção corrigir eventual inconstitucionalidade que infirme a validade de ato em vigor. Impõe-se refletir, no entanto, em tema de omissão parcial, sobre as possíveis soluções jurídicas que a questão da exclusão de benefício, com ofensa ao princípio da isonomia, tem sugerido no plano do direito comparado: (a) extensão dos benefícios ou vantagens às categorias ou grupos inconstitucionalmente deles excluídos; (b) supressão dos benefícios ou vantagens que foram indevidamente concedidos a terceiros; (c) reconhecimento da existência de uma situação ainda constitucional (situação constitucional imperfeita), ensejando-se ao Poder Publico a edição, em tempo razoável, de lei restabelecedora do dever de integral obediência ao princípio
da igualdade, sob pena de progressiva inconstitucionalização do ato estatal existente, porém insuficiente e incompleto” (STF, Tribunal Pleno, MI 58/DF, rel. Min. Carlos Velloso, j. 14.12.90, DJ 19.04.91, p. 4580. Decisão: por maioria de votos, mandado de injunção não conhecido).
Caso 3
O mandado de injunção impetrado pela Confederação das Associações de Microempresas do Brasil, que o propôs em favor de seus associados, os microempresários brasileiros, suscitando a inconstitucionalidade da Lei no 7.689/88, a qual não regulamentaria o art. 179 de forma compatível com a Constituição de 1988. Assim, requer ordem judicial que afaste a incidência dessa Lei, com a conseqüente regulamentação do dispositivo constitucional para os seus associados.
O Supremo Tribunal Federal, diante do caso, entendeu que não haver ausência de norma regulamentadora, faltando o pressuposto para utilização do mandado de injunção, o que gerou seu não conhecimento.
É a ementa desse julgado:
“Mandado de injunção coletivo. Esta Corte tem admitido o mandado de injunção coletivo. Precedentes do Tribunal. Em mandado de injunção não é admissível pedido de suspensão, por inconstitucionalidade, de Lei, por não ser ele o meio processual idôneo para a declaração de inconstitucionalidade, em tese, de ato normativo. Inexistência, no caso, de falta de regulamentação do artigo 179 da Constituição Federal, por permanecer em vigor a Lei 7.256/84 que estabelece normas integrantes do
Estatuto da Microempresa, relativas ao tratamento diferenciado, simplificado é favorecido, nos campos administrativo, tributário, previdenciário, trabalhista, creditício e de desenvolvimento empresarial. Mandado de injunção não conhecido” (STF, Tribunal Pleno, MI 73/DF, rel. Min. Moreira Alves, j. 07.10.94, DJ 19.12.94, p. 35177. Decisão, por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).
Caso 4
No mandado de injunção impetrado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comercio – CNT, questiona-se a constitucionalidade do Decreto Federal nº 1.617/95, eis que deixou de incluir os representantes dos trabalhadores no Conselho Nacional do Trabalho, violando o art. 8º da Constituição, pelo que haveria uma omissão inconstitucional.
O Supremo Tribunal Federal, todavia, entendeu não ser, o mandado de injunção, o instrumento apto a questionar a constitucionalidade de uma norma, aduzindo não haver norma ausência de norma a completar o comando constitucional, razão pela qual, acompanhando o parecer proferido pela Subprocuradora-Geral, declarou, a impetrante, carecedora da ação, por impossibilidade jurídica do pedido e inadequação da via eleita.
In verbis:
“Mandado de injunção. Objeto. O mandado de injunção não é o meio próprio a ver-se declarada inconstitucionalidade por omissão, considerado ato administrativo do Presidente da República criando determinado conselho e deixando de contemplar participação possivelmente assegurada, a entidade sindical, pelo texto constitucional” (STF, Tribunal Pleno, MI 498/DF, rel. Min. Marco Aurélio, j. 06.02.97, DJ 04.04.97, p. 10523. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).
Caso 5
Por fim, o mandado de injunção impetrado pelo Educandário Madre Guell, que propôs o presente writ com o intuito de ver apurada restrições impostas à regra da imunidade pela lei no 9.732/98, as quais seriam contrárias ao determinado no § 7º do art. 195 da Constituição, com a conseqüente supressão, pelo Supremo Tribunal Federal, da omissão dessa norma citada.
Entretanto, o Supremo Tribunal Federal sustentou que o mandado de injunção não serviria sequer para suprimir omissão total, menos ainda para
sanar vício de inconstitucionalidade, o qual só poderia ser feito por meio da ação direta de inconstitucionalidade.
Decidiu, essa Corte Constitucional:
“I. Entidades de assistência social: imunidade das contribuições sociais (CF, art. 195, § 7º): argüições plausíveis de inconstitucionalidade das restrições impostas à imunidade por dispositivos da L. 9.732/98, por isso, objeto de suspensão cautelar na ADIn 2028, pendente de decisão definitiva. II. Mandado de Injunção: não se prestando sequer para suprir, no caso concreto, a omissão absoluta do legislador - tal a modéstia de suas dimensões, conforme demarcadas pelo STF, e que o Congresso vem de negar- se a ampliar - menos ainda se prestaria o malfadado instrumento do mandado de injunção a remediar os vícios de inconstitucionalidade que possa ostentar a lei editada para implementar a Constituição” (STF, Tribunal Pleno, MI 608/RJ QO, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 01.06.00, DJ 25.08.00, p. 60. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).
Percebe-se, da leitura das ementas acima apresentadas, que o Supremo Tribunal Federal tem analisado o mandado de injunção, em especial os pressupostos autorizadores de seu uso, de uma forma bastante restritiva, minimizando, sobremaneira, o uso do instituto.
Essa Corte tem deixado de considerar de forma exaustiva o que seja por lacuna técnica. Com efeito, por lacuna técnica deve-se entender, não apenas a simples inexistência de norma regulamentadora, mas a inexistência de norma que viabilize o exercício dos direitos e garantias postos na Constituição.
Contudo, consoante demonstrar-se-á a seguir, não é esse o único caso de restrição do uso do mandado de injunção oriundo de interpretação restritiva do comendo constitucional.
5.2.2 Existência de norma, não obstante seja insatisfatória ou