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Existência de norma complementando o comando

No documento MARIA CECÍLIA PAIVA CURY (páginas 135-143)

5. O MANDADO DE INJUNÇÃO COMO INSTRUMENTO DE

5.2.1 Existência de norma complementando o comando

Nesse item, indica-se as ementas dos julgados proferidos pelo Supremo Tribunal Federal em sede de mandado de injunção, cuja denegação justificar-se-ia pela impossibilidade jurídica do pedido face da mera existência fática de uma norma regulamentadora, independentemente de seu conteúdo.

Caso 1

Na primeira ementa escolhida, tem-se um mandado de injunção impetrado por Bento Gonçalves Ferreira Gomes, o qual requereu ao Supremo Tribunal Federal o gozo dos benefícios fiscais que lhe são garantidos no art. 153, § 2º, inciso III da Constituição.

O Supremo Tribunal Federal não conheceu do presente writ sob o argumento da existência norma disciplinando a matéria, a Lei no 7.713/88, razão pela qual “não se justifica o ajuizamento de mandado de injunção, ação que pressupõe a ausência de norma que impeça o gozo de direitos ou prerrogativas instituídas pela lei maior”.

In verbis:

“Mandado de injunção. Regulamentação do artigo 153, parágrafo 2º, inc. I, da Constituição Federal. Agravo regimental não conhecido. Omissão legislativa inexistente. Denegado o mandado de injunção por despacho do relator, não se conhece de agravo regimental protocolizado na secretaria do STF após o término do prazo, embora postado nos correios no qüinqüídio legal. Precedentes. Existindo lei disciplinando a matéria constitucional (redução de imposto de renda a aposentados e pensionistas com mais de 65 anos e renda constituída exclusivamente dos frutos do trabalho), não se justifica o ajuizamento de mandado de injunção, ação que pressupõe a ausência de norma que impeça o gozo de direitos ou prerrogativas instituídas pela Lei Maior. AgRg não conhecido” (STF, Tribunal Pleno, AgR no MI 152/DF, rel. Min. Célio Borja, j. 21.03.90, DJ 20.04.90, p. 3047. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).

Caso 2

A seguir, tem-se o mandado de injunção impetrado por Airton de Oliveira e outros, os quais requereram, através do writ, o tratamento

isonômico em relação ao servidores civis do INCRA lotados no Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário, cujos vencimentos seguiram o Decreto- lei no 2.363 que determinava o regime jurídico dos servidores autárquicos do INCRA, contrariando o disposto no art. 39, § 1º da Constituição, que garante isonomia no âmbito da administração direta.

O Min. Carlos Velloso, voto vencido, entendeu que o mandado de injunção “faria as vezes da lei mencionada no § 1º do art. 39 da Constituição, para o fim de assegurar isonomia de vencimento no âmbito da administração direta”. Contudo, concluiu que o mandado de injunção estava prejudicado, pois os servidores subordinados ao INCRA pertenciam à Administração Indireta, razão pela qual não haveria que se falar em quebra da isonomia. O Min. Aldir Passarinho acompanhou o Relator.

O Min. Celso de Mello, a seu turno, representando os votos vencedores, aduziu ser, o princípio da isonomia, não suscetível de regulamentação ou complementação, por ser um postulado revestido de auto- aplicabilidade. Eventual contrariedade a esse princípio só pode ser declarada pela ação direta de inconstitucionalidade e, enquanto isso não ocorrer, vigora o princípio da presunção de constitucionalidade.

Ademais, para que houvesse o cabimento do mandado de injunção, imprescindível a ausência de norma regulamentadora e, como, no caso, existe norma, não há a lacuna técnica exigida como pressuposto para uso do writ.

“Mandado de injunção. Pretendida majoração de vencimentos devidos a servidor publico (INCRA/MIRAD). Alteração de lei já existente. Principio da isonomia - postulado insuscetível de regulamentação normativa inocorrência de situação de lacuna técnica. A questão da exclusão de benefício com ofensa ao principio da isonomia. Mandado de injunção não conhecido. O principio da isonomia, que se reveste de auto-aplicabilidade, não é - enquanto postulado fundamental de nossa ordem politico-jurídica - suscetível de regulamentação ou de complementação normativa. Esse principio - cuja observância vincula, incondicionalmente, todas as manifestações do Poder Publico - deve ser considerado, em sua precípua função de obstar discriminações e de extinguir privilégios (RDA 55/114), sob duplo aspecto: (a) o da igualdade na lei e (b) o da igualdade perante a lei. A igualdade na lei - que opera numa fase de generalidade puramente abstrata - constitui exigência destinada ao legislador que, no processo de sua formação, nela não poderá incluir fatores de discriminação, responsáveis pela ruptura da ordem isonômica. A igualdade perante a lei, contudo, pressupondo lei já elaborada, traduz imposição destinada aos demais poderes estatais, que, na aplicação da norma legal, não poderão subordiná-la a critérios que ensejem tratamento seletivo ou discriminatório. A eventual inobservância desse postulado pelo legislador imporá ao ato estatal por ele elaborado e produzido a eiva de inconstitucionalidade. Refoge ao âmbito de finalidade do mandado de injunção corrigir eventual inconstitucionalidade que infirme a validade de ato em vigor. Impõe-se refletir, no entanto, em tema de omissão parcial, sobre as possíveis soluções jurídicas que a questão da exclusão de benefício, com ofensa ao princípio da isonomia, tem sugerido no plano do direito comparado: (a) extensão dos benefícios ou vantagens às categorias ou grupos inconstitucionalmente deles excluídos; (b) supressão dos benefícios ou vantagens que foram indevidamente concedidos a terceiros; (c) reconhecimento da existência de uma situação ainda constitucional (situação constitucional imperfeita), ensejando-se ao Poder Publico a edição, em tempo razoável, de lei restabelecedora do dever de integral obediência ao princípio

da igualdade, sob pena de progressiva inconstitucionalização do ato estatal existente, porém insuficiente e incompleto” (STF, Tribunal Pleno, MI 58/DF, rel. Min. Carlos Velloso, j. 14.12.90, DJ 19.04.91, p. 4580. Decisão: por maioria de votos, mandado de injunção não conhecido).

Caso 3

O mandado de injunção impetrado pela Confederação das Associações de Microempresas do Brasil, que o propôs em favor de seus associados, os microempresários brasileiros, suscitando a inconstitucionalidade da Lei no 7.689/88, a qual não regulamentaria o art. 179 de forma compatível com a Constituição de 1988. Assim, requer ordem judicial que afaste a incidência dessa Lei, com a conseqüente regulamentação do dispositivo constitucional para os seus associados.

O Supremo Tribunal Federal, diante do caso, entendeu que não haver ausência de norma regulamentadora, faltando o pressuposto para utilização do mandado de injunção, o que gerou seu não conhecimento.

É a ementa desse julgado:

“Mandado de injunção coletivo. Esta Corte tem admitido o mandado de injunção coletivo. Precedentes do Tribunal. Em mandado de injunção não é admissível pedido de suspensão, por inconstitucionalidade, de Lei, por não ser ele o meio processual idôneo para a declaração de inconstitucionalidade, em tese, de ato normativo. Inexistência, no caso, de falta de regulamentação do artigo 179 da Constituição Federal, por permanecer em vigor a Lei 7.256/84 que estabelece normas integrantes do

Estatuto da Microempresa, relativas ao tratamento diferenciado, simplificado é favorecido, nos campos administrativo, tributário, previdenciário, trabalhista, creditício e de desenvolvimento empresarial. Mandado de injunção não conhecido” (STF, Tribunal Pleno, MI 73/DF, rel. Min. Moreira Alves, j. 07.10.94, DJ 19.12.94, p. 35177. Decisão, por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).

Caso 4

No mandado de injunção impetrado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comercio – CNT, questiona-se a constitucionalidade do Decreto Federal nº 1.617/95, eis que deixou de incluir os representantes dos trabalhadores no Conselho Nacional do Trabalho, violando o art. 8º da Constituição, pelo que haveria uma omissão inconstitucional.

O Supremo Tribunal Federal, todavia, entendeu não ser, o mandado de injunção, o instrumento apto a questionar a constitucionalidade de uma norma, aduzindo não haver norma ausência de norma a completar o comando constitucional, razão pela qual, acompanhando o parecer proferido pela Subprocuradora-Geral, declarou, a impetrante, carecedora da ação, por impossibilidade jurídica do pedido e inadequação da via eleita.

In verbis:

“Mandado de injunção. Objeto. O mandado de injunção não é o meio próprio a ver-se declarada inconstitucionalidade por omissão, considerado ato administrativo do Presidente da República criando determinado conselho e deixando de contemplar participação possivelmente assegurada, a entidade sindical, pelo texto constitucional” (STF, Tribunal Pleno, MI 498/DF, rel. Min. Marco Aurélio, j. 06.02.97, DJ 04.04.97, p. 10523. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).

Caso 5

Por fim, o mandado de injunção impetrado pelo Educandário Madre Guell, que propôs o presente writ com o intuito de ver apurada restrições impostas à regra da imunidade pela lei no 9.732/98, as quais seriam contrárias ao determinado no § 7º do art. 195 da Constituição, com a conseqüente supressão, pelo Supremo Tribunal Federal, da omissão dessa norma citada.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal sustentou que o mandado de injunção não serviria sequer para suprimir omissão total, menos ainda para

sanar vício de inconstitucionalidade, o qual só poderia ser feito por meio da ação direta de inconstitucionalidade.

Decidiu, essa Corte Constitucional:

“I. Entidades de assistência social: imunidade das contribuições sociais (CF, art. 195, § 7º): argüições plausíveis de inconstitucionalidade das restrições impostas à imunidade por dispositivos da L. 9.732/98, por isso, objeto de suspensão cautelar na ADIn 2028, pendente de decisão definitiva. II. Mandado de Injunção: não se prestando sequer para suprir, no caso concreto, a omissão absoluta do legislador - tal a modéstia de suas dimensões, conforme demarcadas pelo STF, e que o Congresso vem de negar- se a ampliar - menos ainda se prestaria o malfadado instrumento do mandado de injunção a remediar os vícios de inconstitucionalidade que possa ostentar a lei editada para implementar a Constituição” (STF, Tribunal Pleno, MI 608/RJ QO, rel. Min. Sepúlveda Pertence, j. 01.06.00, DJ 25.08.00, p. 60. Decisão: por unanimidade, não conheceram do mandado de injunção).

Percebe-se, da leitura das ementas acima apresentadas, que o Supremo Tribunal Federal tem analisado o mandado de injunção, em especial os pressupostos autorizadores de seu uso, de uma forma bastante restritiva, minimizando, sobremaneira, o uso do instituto.

Essa Corte tem deixado de considerar de forma exaustiva o que seja por lacuna técnica. Com efeito, por lacuna técnica deve-se entender, não apenas a simples inexistência de norma regulamentadora, mas a inexistência de norma que viabilize o exercício dos direitos e garantias postos na Constituição.

Contudo, consoante demonstrar-se-á a seguir, não é esse o único caso de restrição do uso do mandado de injunção oriundo de interpretação restritiva do comendo constitucional.

5.2.2 Existência de norma, não obstante seja insatisfatória ou

No documento MARIA CECÍLIA PAIVA CURY (páginas 135-143)