Compreendo que, talvez, por apresentar um sistema racional singular que ultrapasse e integre os modelos vigentes (SARTRE, 1985,p. 40), Sartre defende a ideia de que nossas escolhas devem ser tomadas de tal modo, como se toda a humanidade pudesse também fazer a mesma escolha (SARTRE, 1996, p. 34).
Numa época, que é aquela em que nós vivemos, em que a perda de referências nos leva à indiferença, ao relativismo, ao cinismo, pela impossibilidade de identificação de valores individuais, de valores coletivos, talvez a atualidade de Sartre consista exatamente em nos
mostrar que a nossa identidade não significa a construção e a fixação de uma imagem de nós mesmos, mas deveria consistir em assumirmos o livre compromisso de uma identificação muito lúcida e muito crítica com a história que nos é dada a viver (LEOPOLDO E SILVA, 2013b).
Poderíamos trocar “história que nos é dada a viver” da citação acima por “história que queremos viver”, pois Sartre deseja que tenhamos o compromisso com o futuro e não com o presente. Talvez esse seria o sentido, ainda que a frase pudesse ter um ar bem mais romântico não desejado pelo autor. Vejamos o que fala Sartre: “Compreedeu-se ‘Escrever para sua época’ como se isso significasse: escrever para seu presente. Mas não: é escrever para um futuro concreto delimitado pelas esperanças, pelas crenças e pelas possibilidades de ação de todos e de cada um” (SARTRE, 1989, p. 33, tradução nossa)73.
Nesse sentido, reafirmo Sartre como um filósofo esperançoso, pois a ontologia do fenômeno, em que a aparência revela a essência, liga-se perfeitamente com a atitude aparecida, pois a verdade se revela pela ação (SARTRE, 1989, p. 39), em que o homem só é aquilo que ele faz, a partir da interpretação do outro. O para- si, que não tem essência, que não está acabado, ele a constitui com a sua biografia para o mundo.
Por pensar sobre a essência do mundo que ele pode vir a constituir, é que o homem se engaja nos projetos e constitui também a história e a ciência. Escrever uma teoria, assim, é participar de um projeto literário escolhido e inspirador para a prática, fazendo-se e fazendo história. Sartre fala da ferramenta como corpo inerte de mediação (SARTRE, 1985, p.196). Ao meu ver, a teoria, e inclusive, o estudo sobre a Ética, da forma como a conceituamos nesse trabalho, pode ser considerada como constituição de ferramenta para o ultrapassamento da situação, uma vez que “[...] o conhecimento aparece como o desvelamento do campo perceptivo e prático pelo fim, ou seja, pelo não-ser futuro” (SARTRE, 1985, p. 206, tradução nossa)74, um futuro
73 « On a compris : ‘ Écrire pour son époque’ comme si cela signifiait : écrie pour son présent. Mais non : c’est
écrire pour un avenir concret délimité par les espérances, les craintes et les possibilités d’action de tous e de chacun ».
74 «[…] la connaissance apparaît comme le dévoilement du champ perceptif et pratique par la fin, c’est-à-dire par
que não é ainda, mas que está para ser “na unidade prática de uma totalização em curso”(SARTRE, 1985, p. 206, tradução nossa)75.
Sartre distingue contemplação de conhecimento, justamente porque esse desvelamento permanece prático. Mas por outro lado, podemos concluir que uma contemplação falada, ou seja, uma descrição pronunciada, não seria uma mera contemplação, pois: “[...] a linguagem é práxis como relação prática de um homem a um outro e a práxis é sempre linguagem (seja ao mentir, seja ao falar a verdade) porque ela não pode se fazer sem se significar” (SARTRE, 1985, p. 212, tradução nossa)76. Com isso, podemos fazer uma aproximação de Sartre com a filosofia da linguagem de Austin (1962), em que todo constatativo (as afirmações) é na verdade um performativo implícito (as ordens), pois, em Sartre, a própria contemplação, se enunciada, é conhecimento, pois seria desvelamento prático.
A práxis, com efeito, é uma passagem do objetivo ao objetivo pela interiorização; o projeto como ultrapassamento subjetivo da objetividade para a objetividade, estendido entre as condições objetivas do meio e as estruturas objetivas do campo de possíveis, representa nele mesmo a unidade movente da subjetividade e da objetividade, essas determinações cardinais da atividade. O subjetivo aparece então como um momento necessário do processo objetivo. Para se tornarem as condições reais da práxis, as condições materiais que governam as relações humanas devem ser vividas na particularidade das situações particulares [...]. O que quer dizer ao
mesmo tempo, que o vivido enquanto tal encontra seu lugar no
resultado, o sentido projetado da ação aparece na realidade do mundo para tomar sua verdade no processo de totalização. Somente o projeto como mediação entre dois momentos de objetividade pode explicar a História, ou seja, a criatividade humana (SARTRE, 1985, p. 80-81,
tradução nossa)77.
75 : « […] dans l’unité pratique d’une totalisation en cours ».
76 « […] le langage est praxis comme relation pratique d’un homme à un autre et la praxis est toujours langage
(qu’elle mente ou qu’elle dise vrai) parce qu’elle ne peut se faire sans se signifier ».
77 “La praxis, en effet, est un passage de l’objectif à l’objectif par l’intériorisation; le projet comme dépassement
subjectif de l’objectivité vers l’objectivité, tendu entre les conditions objectives par l’intériorisation ; le projet comme dépassement subjectif de l’objectivité vers l’objectivité, tendu entre les conditions objectives du milieu et les structures objectives du champ des possibles, représente en lui-même l’unité mouvante de la subjectivité et de l’objectivité, ces déterminations cardinales de l’activité. Le subjectif apparaît alors comme un moment nécessaire du processus objectif. Pour devenir des conditions réelles de la praxis, les conditions matérielles qui gouvernent les relations humaines doivent être vécues dans la particularité des situations particulières […]. Ce qui veut dire à
la fois que le vécu en tant que tel trouve sa place dans le résultat et que le sens projeté de l’action apparaît dans la
réalité du monde pour prendre sa vérité dans le processus de totalisation. Seul, le projet comme médiation entre deux moments de l’objectivité peut rendre compte de l’Histoire, c’est-à-dire de la créativité humaine ».
O homem mostra sua verdade também através da fala, pois ela é concretização objetiva de sua escolha subjetiva, ou seja, a fala é sua criação e sua ação. E através da fala, e da fusão das falas, fazemos história.
O fato de que o ápice do processo histórico seja somente a fusão das liberdades recíprocas é tão instável quanto o desejo escorregadio do para-si que se modifica imediatamente após sua realização. Isso decorre do fato de que, séries e grupos, momentos da totalização, estão perpetuamente em curso. Acredito que esse também seja o motivo pelo qual Sartre almeja somente uma solução provisória em Questão do Método e em Crítica da razão dialética (SARTRE, 1985, p. 14-15).
A ideia que não é pré-existente, mas que é criada/escolhida, é fundamento do movimento a posteriori, assim a ação de si mesmo vai constituindo sua própria identidade – a essência –, que também não pode ser imposta como modelo, mas ao contrário, pode abrir possibilidades de escolhas ao outrem. E, como Sartre fez a comparação entre a moral e a estética (SARTRE, 1996, p. 64-66), à essa ideia que afeta o outrem a posteriori, podemos chamar de inspiração. Mesmo que o existencialismo seja o contrário do prescritivismo clássico (SARTRE, 1996, p. 102), que seus pressupostos a posteriori não aceitem valores a priori (SARTRE, 1996, p. 64), e que seu método heurístico (SARTRE, 1985, p.104) se contraponha ao dedutivo, a inspiração e o conceito de responsabilidade entendidos em conjunto provocam uma aproximação da prática da filosofia existencialista à ética universal, pois o homem que é livre, é responsável por sua história e por sua cultura.
Para concluir esse capítulo, temos que, em resumo, a discussão sobre a essência encontra-se desde a antiguidade e relaciona-se com a questão da verdade. A fenomenologia contesta a metafísica idealista. Vejamos. Para Platão, a essência existe antes do mundo sensível, porque ela está ligada às formas, às ideias pré- existentes, ao mundo inteligível. Assim, o mundo sensível é cópia imperfeita das ideias e a essência (a verdade) só pode ser acessada pela razão. Por outro lado, em Aristóteles, a essência existe a partir do sensível. Para Aristóteles, a definição surge com a existência. Enquanto Platão, com o seu racionalismo, funda, de certa forma, o que a história da filosofia costuma chamar de idealismo ontológico; Aristóteles funda o empirismo. Kant fez uma importante síntese: reuniu razão e sentidos, disse que o conhecimento se daria a partir de ambos (fenômeno), mas a essência (sobre como as coisas são verdadeiramente) não seria acessível (númeno). A fenomenologia cria a antítese de Kant. Sartre diz que a verdade está na relação entre consciência e objeto,
e que o fenômeno não vela nada, ao contrário, desvela o ser (a verdade). Para a fenomenologia, a essência é o próprio fenômeno. Mas, embora eu entenda a projeção da teoria do fenômeno em Sartre como antítese kantiana, eu também o vejo como constituinte de outra importante síntese, não no âmbito da metafísica, mas no âmbito da ética prática, sobre o existencial e o universal, pois, embora não existam verdades sobre um bem a priori como no idealismo, a verdade se encontra no fazer-se, ou seja, um bem a constituir-se existencialmente, a posteriori, através do fazer-identidade (capítulo 2) e do fazer-universalização (capítulo 3).
2 FAZER-IDENTIDADE
Identidade e idealidade estão intimamente interligadas. Mencionamos no capítulo anterior que o não se projetar para a identidade impede a vivência de uma finalidade com maior significância e impede a autenticidade, e assim, impede a idealidade a posteriori. Entretanto, percebemos que essa questão não está esgotada, pois a questão da contingencialidade humana é inter-relacionada a todos os principais conceitos sartrianos, que é o que queremos mostrar.
A essência do homem não é anterior à existência do homem, pois sua essência, ou até mesmo o próprio homem, estão para serem feitos a partir das vivências. Dessa maneira, Sartre afirma sobre a postura dos intelectuais, que:
Contrariamente ao pensamento burguês, ele deve tomar consciência de que o homem não existe. Mas, consequentemente, sabendo que ele não existe ainda como um homem, ele deve apreender, nele e de fora dele – e inversamente – o homem como a fazer (SARTRE, 1972,
p. 50, tradução nossa)78.
Com isso, o objetivo desse capítulo é discutir em que sentido o homem é contingência e em que sentido ele é necessidade em sua relação com sua identidade. Se ele é totalmente contingente, ele não possui identidade, o que garante a inexistência de um idealismo a priori. Para Sartre, o passado foi constituído contingencialmente, mas necessariamente é um em-si imutável. O para-si é presente das escolhas contingentes, ao mesmo tempo em que é necessidade de identidade. Uma identidade que não existe pronta e acabada, mas que foi se formando no passado e está permanentemente para ser formada no futuro.
Dizer que a liberdade é a essência do Para-si é o mesmo que dizer que o Para-si não possui essência a priori. Por outro lado, isso atribui responsabilidade ao Para-si sobre a constituição de sua essência: “Eis o paradoxo sartreano: viver é aceitar a impossibilidade de encontrar a liberdade substantiva e, ao mesmo tempo, permanecer concentrado sobre o processo de criação de si” (MOURA, 2013, p. 83).
78 « Contrairement à la pensée bourgeoise, il doit prendre conscience de ce que l’homme n’existe pas. Mais, du
même coup, sachant qu’il n’est pas encore un homme, il doit saisir, en lui et du coup hors de lui – et inversement – l’homme comme à faire ».
Disso podemos dizer que, quando não se assume a responsabilidade por nenhum projeto, a atitude é de má-fé, pois a impossibilidade de criação de sentido é afirmada como algo fixado, definido, fora do para-si. Não obstante, quando se escolhe um projeto unicamente pelo fato de ter feito isso anteriormente, na tentativa de constituição de uma identidade, essa atitude também tem característica de má-fé, pois a permanência no projeto, desenvolve-se como se fosse algo dado, como se não pudesse ser diferente. Assim é o projeto de má-fé, que surge na tentativa de mentir para si mesmo sobre o que é escolha e o que é determinação, no intuito de não assumir a responsabilidade de uma ação da qual se é o autor. Logo, para agir autenticamente, o para-si precisa escolher seus projetos, mas ele não pode se manter nesse projeto pelo simples fato de ter um dia escolhido tal projeto. A escolha de tal projeto deve ser constantemente reavaliada e o projeto constantemente escolhido. Eis a dificuldade da constituição da identidade de forma predominantemente autêntica e de entender o que seria a constituição da identidade que não se daria principalmente pela má-fé. Vejamos os motivos dessa dificuldade.
2.1 Má-fé e identidade: dependência da subjetividade para classificação e