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4.2 Partículas verbais

4.2.4 Expandindo a base empírica

O objetivo desta seção é levantar mais dados de resultativas e verbos de partícula, com o intuito de investigar a coocorrência dessas construções e a possibilidade de fazermos alguma generalização. Vejamos alguns dados do alemão.

24 Submeti os dados em (c) para julgamento e eles não foram considerados inaceitáveis.

(31) a. Peter spülte den Teller sauber. (resultativa) Peter lava o prato limpo

‘Peter lava o prato, que fica limpo.’

b. Peter spülte den Teller ab. (partícula) Peter lava o prato PRT

‘Peter lava o prato.’

c. Peter spülte den Teller sauber ab. (partícula + resultativa) Peter lava o prato limpo PRT

‘Ele colore o casaco de vermelho./ Ele colore o casaco, que fica vermelho.’ presença da partícula. Vejamos como se comportam os verbos de partícula austrinken (PRT-beber, ‘beber tudo’) e aufessen (PRT-comer, ‘comer tudo’).27 Adiciono ao paradigma os verbos aufblasen (PRT-assoprar, ‘assoprar dentro, com o intuito de encher’) e ausschütten (PRT-despejou, ‘despejar, derramar’).

25 O verbo farben (colorir) tem o sentido de colorir a primeira vez, com a cor original. O verbo umfarben (PRT-colorir) significa colorir mas com o sentido de mudar de cor, ou seja, já havia uma cor e foi colocada outra cor.

26 Repare que braten tem o sentido de assar, enquando anbraten significa assar até tostar, como se a carne tivesse queimado um pouquinho.

27 Os equivalentes em inglês seriam drink up e eat up.

(34) a. Hans trank das Bierglas leer. (resultativa) Hans bebeu o copo-de-cerveja vazio

‘Hans bebeu do copo de cerveja, que ficou vazio.’

b. Hans trank das Bierglas aus. (partícula) Hans bebeu o copo-de-cerveja PRT

‘Hans bebeu tudo do copo de cerveja.’/ ‘Hans terminou de beber do copo de cerveja.’

c. Hans trank das Bierglas leer aus. (partícula + resultativa) Hans bebeu o copo-de-cerveja vazio PRT

‘Hans bebeu tudo do copo de cerveja, que ficou vazio.’

(35) a. Maria hat den Teller leer gegessen. (resultativa) Maria teve o prato vazio comido.

‘Maria deixou o prato vazio, comendo o que tinha no prato.’

b. Maria hat den Teller aufgegessen. (partícula) Maria teve o prato PRT-comido.

‘Maria comeu tudo do prato.’

c. Maria hat den Teller leer aufgegessen. (partícula + resultativa) Maria teve o prato vazio PRT-comido.

‘Maria comeu tudo do prato, deixando-o vazio.’

(36) a. Peter bläst den Balon voll. (resultativa) Peter assopra o balão cheio.

‘Peter assopra dentro do balão, que fica cheio.’/‘Peter enche o balão, assoprando.’

‘Peter assopra dentro do balão, mas o balão fica somente meio cheio de ar.’

(37) a. Klaus schüttet den Eimer leer. (resultativa) Klaus despeja o balde vazio

‘Klaus despeja o conteúdo do balde de forma que o balde fica vazio.’

b. Klaus schüttet den Eimer aus. (partícula) Klaus despeja o balde PRT

‘Klaus despeja (todo) o conteúdo do balde.’

c. Klaus schüttet den Eimer leer aus. (partícula + resultativa) Klaus despeja o balde vazio PRT

‘Klaus despeja (todo) o conteúdo do balde, que fica vazio.’

d. Klaus schüttet den Eimer fast leer aus. (partícula + resultativa modificada)

Klaus despeja o balde quase vazio PRT

‘Klaus despeja o conteúdo do balde, que fica quase vazio.’

Uma observação é importante ser feita para os dados em (c) com as resultativas juntamente com os verbos de partícula austrinken (PRT-beber, ‘beber tudo’), aufessen (PRT-comer, ‘comer tudo’), aufblasen (PRT-assoprar, ‘assoprar dentro, com o intuito de encher’) e ausschütten (PRT-despejou, ‘despejar, derramar’). Se submetidos a julgamento em contexto ‘out of the blue’, os dados em (c) não são aceitos, e a intuição do falante é de que os dados são ‘doppelt gemoppelt’, i.e. expressão alemã usada para apresenta restrições, uma vez que não são todos os verbos de partícula que permitem a adição de um sintagma resultativo, como mostram os dados em (c) do alemão em (38) e do inglês em (39).

‘Você deve deixar sua mamadeira vazia, bebendo tudo!’

Para o dado em (36)c, podemos imaginar um contexto em que a intenção é encher todo o balão com o intuito de que ele estoure. Para (37)d, podemos imaginar uma sentença como continuação:

(ii) Klaus aber das nächste mal bitte ganz leer ausschütten, du Schlamper!

Klaus mas a próxima vez por-favor bem vazio despejar, seu desleixado!

‘Mas Klaus, por favor, da próxima vez, despeje todo o conteúdo do balde, de forma que ele fique bem vazio, seu desleixado!’

b. Er lacht ihn an. (partícula) Ele ri ele PRT.

‘Ele sorri para ele.’

c. *Er lachte ihn müde an. (partícula + resultativa) Ele ri ele cansado PRT.

Sentido pretendido: ‘Ele o deixa cansado, ao sorrir para ele.’

(39) a. He cried his eyes red. (resultativa) b. He cried his eyes out. (partícula)

c. *He cried his eyes out red. (partícula + resultativa)

As resultativas em (c) nos dados em (38) e (39) são construídas a partir de verbos intransitivos. Antes, porém, que a agramaticalidade seja atribuída à intransitividade do verbo, vejamos mais alguns dados.

(40) a. Er hat das Papiertaschentuch vom Tisch geniesst. (resultativa PP) Ele teve o lenço-de-papel da mesa espirrado

‘Ele espirrou e como resultado o lenço de papel saiu da mesa.’

b. Er hat das Papiertaschentuch vom Tisch weg geniesst.

(resultativa PP + partícula (=away))

Ele teve o lenço-de-papel da mesa PRT espirrado

‘Ele espirrou e como resultado o lenço de papel saiu para fora da mesa.’

c. Er hat das Papiertaschentuch vom Tisch hinunter geniesst.

(resultativa PP + partícula (=down))

Ele teve o lenço-de-papel da mesa PRT espirrado

‘Ele espirrou e como resultado o lenço de papel foi para baixo da mesa.’

(41) a. Daniel slept his way to the top. (resultativa)

b. Daniel slept his way up to the top. (resultativa + partícula)

Como podemos ver, a questão acerca da coocorrência de sintagmas resultativos e verbos de partícula é complexa: ao mesmo tempo que parece existir alguma restrição de produtividade e aceitabilidade, existem dados que mostram a possibilidade da coocorrência. Nos dados em que a coocorrência é possível, existe a hipótese de que o sintagma resultativo age como um modificador, conforme argumentado na literatura (ver, por exemplo, Müller (2002) e Neeleman & Van De Koot (2002)), sendo que os exemplos são com sentenças em que o sintagma resultativo denota cor.

Recapitulemos alguns dados. Para (32)c, realmente é difícil distinguir a interpretação em que ‘o casaco fica vermelho’ da interpretação em que ‘o casaco é

colorido de vermelho’. Vejamos então essa interpretação mais acuradamente. É possível criar um contexto em que a cor da tinta e o resultado final não são os mesmos: supondo uma porta recém pintada com tinta azul, ao pintarmos essa porta (com a tinta azul ainda fresca, digamos) com tinta amarela, as tintas reagem e a cor final é verde. Nesse caso, temos o paradigma em (42):

(42) a. *Ich habe die Tür gelb grün gemalt.

Eu tive a porta amarelo verde pintado

Sentido pretendido: ‘Eu pintei a porta com tinta amarela, e a porta ficou verde.’

b. Ich habe die Tür mit gelb grün gemalt.

Eu tive a porta com amarelo verde pintado

‘Eu pintei a porta com tinta amarela, e a porta ficou verde.’

c. *Ich habe die Tür gelb grün angemalt.

Eu tive a porta amarelo verde PRT-pintado

Sentido pretendido: ‘Eu pintei a porta com tinta amarela, e a porta ficou verde.’

d. Ich habe die Tür mit gelb grün angemalt.

Eu tive a porta com amarelo verde PRT-pintado

‘Eu pintei a porta com tinta amarela, e a porta ficou verde.’

Se amarelo em (42)a e (42)c fosse um modificador, denotando com tinta amarela,29 então os dados em (42)a e (42)c deveriam ser gramaticais, contrariamente aos fatos. Para termos a interpretação com tinta amarela, é preciso fazer uso da preposição, como em (42)b e (42)d. O mesmo raciocínio é exemplificado nos dados em (43):

(43) a. *Er färbte den blauen Mantel gelb grün um.

Ele coloriu o azul casaco amarelo verde PRT.

Sentido pretendido: ‘Ele coloriu o casado azul com (tinta) amarela, e o casaco ficou verde.’

b. Er färbte den blauen Mantel mit gelb grün um.

Ele coloriu o azul casaco com amarelo verde PRT.

‘Ele coloriu o casado azul com (tinta) amarela, e o casaco ficou verde.’

29 A exemplo do que argumentam Neeleman & Van De Koot (2002) para o dado em (i), em que a semântica de groen (verde), segundo os autores, é a de um modificador, interpretado como with green paint (com tinta verde).

(i) dat Jan de deur groen bij verft that John the door green up touches

‘that John touched the door up green.’

Além de dados desse tipo (em que o sintagma resultativo denota cor), restam outros tantos dados - conforme procurei mostrar no texto - em que a interpretação do sintagma resultativo como modificador não é nada óbvia, sugerindo que de fato a interpretação é resultativa. No dado em (33)c, não é possível a interpretação em que ‘a carne é assada de preto’. No dado em (31)b, com o verbo abspülen (PRT-lavar), a interpretação de que a louça fica de fato limpa não é obrigatória. Podemos imaginar contextos em que: (i) alguém não lave louça direito; nesse caso o adjetivo sauber (limpo) especifica o resultado da ação (cf.(31)c); (ii) abspülen (PRT-lavar) é uma espécie de pré-lavagem (antes de colocar na lava-louças). Ou seja, em (31)c, a interpretação é de fato resultativa. A interpretação também é resultativa (e não de modificador) nos dados em (40)c de (41).

Nesse ponto, vale lembrar a generalização empírica de que na resultativa é possível a presença de apenas um sintagma resultativo. Nesse sentido, poderíamos hipotetizar que algumas partículas estejam se comportando como predicado, o que explicaria a agramaticalidade de dados como (39)c. Falta, no entanto, uma explicação para a agramaticalidade dos dados em (24)c, (25)d e (38)c.