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2.2 Duas análises para resultativas

2.2.2 Hoekstra (1988, 1992, 2004)

2.2.2.3 Licenciamento da SC

Verbos dinâmicos (e não inerentemente delimitados) consistem de uma sequência de pontos temporais distintos (t1...tn) e denotam progresso (de t1 para t2), ao passo que verbos estativos não.32 Nas atividades sem uma ‘SC resultado’, como drink, por exemplo, o ponto tn é indeterminado e é por esse motivo que o evento é atélico. Em drink himself senseless, o licenciamento da SC resultativa se dá por meio da contribuição aspectual da SC resultativa em fornecer um papel de evento (event-role ou e-role), à medida que o tn da matriz liga (bind) o e-role da SC complemento.33 Ou seja,

“The temporal point licensing the e-role of the SC is made available through the lexical meaning of the verb, and hence, the relation counts as a lexical relation, i.e. as a relation which counts as L-marking.” (Hoekstra, 1992:162). Dessa forma, a SC se comporta como um ‘objeto’ de fato, ou complemento do verbo.

32 Vendler (1967) divide os eventos (ou eventualidades (no sentido de Bach (1986))em quatro classes aspectuais: atividades, estados, accomplishments e achievements. Vejamos a distinção dessas classes, segundo Rothstein (2004): os estados são caracterizados como eventualidades totalmente homogêneas até o seu menor instante, onde cada subparte de um estado é o próprio estado. Já as atividades são eventualidades dinâmicas e homogêneas até intervalos mínimos, onde esses intervalos mínimos têm um determinado tamanho. Ou seja, há eventos mínimos dentro da atividade, mas não podemos dizer que qualquer instante dentro da atividade é a atividade em si. Por exemplo, na atividade dançar valsa, existem intervalos mínimos que ainda são dançar valsa, mas dar apenas um passo não significa dançar valsa, apesar de fazer parte dela. Os achievements são mudanças de estado que ocorrem instantaneamente. Já os accomplishments são eventualidades complexas com certa duração, e apresentam um ponto de culminação. Rothstein (2004) contrapõe estados a atividades, accomplishments e achievements, à medida que estados são caracterizados como eventualidades totalmente homogêneas até o seu menor instante, onde cada subparte de um estado é o próprio estado. Nesse sentido, entendo a ideia de Hoekstra (1992, 2004) de que estados não tem intervalos de tempo distintos t1... tn.

33 A análise será detalhada na próxima seção.

É por esse motivo que verbos estativos (a exemplo dos dados em (12)-(14)) não podem participar de resultativas, uma vez que sua constituência temporal não permite a identificação de pontos temporais distintos, e, consequentemente, a identificação de um tn com o qual o e-role possa se ligar.

Para o licenciamento das SCs resultativas, o autor propõe então uma tipologia de eventos, em que estados estão excluídos por não serem predicados eventivos. O que todos os predicados eventivos têm em comum é a característica transitória, ou seja, denotam um estado de coisas que transcorre em um determinado tempo, iniciando em t1

e terminando em tn, sendo 1 ≠ n. O intervalo de tempo entre t1 e tn é chamado de event span, e é homogêneo no sentido de que todos os pontos ti (≠s de t1 e tn) pertencem ao mesmo tipo de evento denotado no predicado e não podem ser tratados separadamente.

Os pontos acessáveis são t1 e tn, sendo esses pontos as fronteiras que constituem os primitivos em que a tipologia de eventos se baseia. Os primitivos [+/- fonte/iniciador] e [+/- ponto final/terminação] estão denotados no conteúdo lexical do verbo.

(15) Tipologia de eventos resultativas, à medida que somente predicados eventivos sem uma especificação inerente de um ponto de terminação é que podem se combinar com a SC resultativa. A função da SC é especificar o ponto final, como podemos ver em (16)a-b, em que as SC [Mary out of the room] e [Mary black and blue] especificam/denotam o ponto final da atividade.

34 Tipologia de eventos em Hoesktra (2004:352).

35 Note que a tipologia de eventos do autor não faz referência propriamente às quatro classes aspectuais vendlerianas, definidas conforme Rothstein (2004) na nota 32. A tipologia exclui estados e ainda considera verbos de ‘processo’ e verbos accomplishments separadamente. O autor não define ‘processo’, mas coloca como exemplo o verbo morrer, que tradicionalmente é caracterizado como achievement, por ser analisado como uma mudança instantânea de estado. Adicionalmente, o autor separa ‘weather verbs’

de ‘simple activities’, ambos considerados tradicionalmente eventos de atividade. Não acredito que isso seja necessariamente um problema, uma vez que o relevante, para licenciar resultativas, é o predicado denotar estágios (como nas atividades) e não ter um ponto final/culminação inerente no conteúdo lexical do verbo.

(16) a. John kicked Mary out of the room.

b. John kicked Mary black and blue.

c. * John kicked Mary cry.36

O dado (16)c é agramatical, segundo o autor, porque o predicado [cry] denota um evento por si só, e como consequência disso não pode ser integrado no event span do verbo kick. O autor faz então referência ao trabalho em Guéron e Hoekstra (1995), onde a análise é de que cada evento é licenciado singularmente por um tense, ou seja, cada evento requer o seu próprio tense.37

Dessa forma, Hoekstra (1988, 1992) explica as condições de licenciamento de uma SC resultativa complemento do verbo. A análise, portanto, é de que a SC resultativa é um complemento lexicalmente marcado do verbo matriz, no sentido de que a SC é ligada ao verbo devido às propriedades lexicais de V. Porém, essa marcação lexical não se refere à marcação temática; trata-se de uma relação puramente temporal-aspectual entre verbo matriz e SC.

Interpretando a análise do autor, a previsão então é de que somente verbos dinâmicos (denotam processo) e não inerentemente delimitados possam participar de uma resultativa. Esses verbos são conhecidos como verbos de atividade (na classificação vendleriana). A diferença entre verbos de atividade e accomplishments é que os últimos têm um ponto de terminação (tn é identificado, pensando na análise de Hoekstra), ao passo que as atividades não têm. Ou seja, a SC transforma a eventualidade em um accomplishment, à medida que a SC fornece o ponto de terminação que a atividade (predicado matriz) antes não tinha.38 Seguindo essa análise, é de se esperar então que verbos accomplishment não possam participar de uma resultativa, pois já possuem um ponto de terminação definido no conteúdo lexical do verbo matriz, a exemplo de kill – como de fato mostra o dado agramatical em (17)a. No entanto, temos ainda o dado (17)b, já apresentado no capítulo 1, o qual parecia não se encaixar na generalização de que é possível apenas a adição de um sintagma resultativo por ação.

(17) a. *The psychopath killed the village into a ghost town.39 b. He killed him dead.

c. Ela matou ele bem mortinho/ Ela matou ele ‘mortinho da Silva’.

36 Exemplos de Hoekstra (2004:353).

37 Abordarei a análise no capítulo 3.

38 Rothstein (2004) refere-se ao ‘ponto de terminação’ de um accomplishment como ponto de culminação.

39 Exemplo de Hoesktra (1992:161).

Para (17)b, poderíamos pensar que uma SC em um verbo accomplishment atuaria como um modificador (seja do ponto tn (já denotado no conteúdo do verbo) ou do verbo+DP(complemento)). Nesse sentido, a SC não seria uma SC complemento, mas sim uma SC modificador/ adjunto, e a estrutura seria uma ‘aparente’ resultativa (possivelmente com um PRO na posição de sujeito da SC: [He killed himi [PROi

dead]]). Dessa maneira, dado semelhante em PB pode ser produzido, a exemplo de (17)c.40 Já em (17)a, uma SC adjunto não seria possível em uma análise como em: [The psychopath killed [the village]i [PROi into a ghost town]]]. A explicação, a meu ver, é que [the village] não é argumento do verbo, fazendo sentido apenas como sujeito da SC, e portanto recebendo papel temático do AP.41

Na análise de Hoekstra (1992), o dado (17)a é agramatical porque o e-role da SC [[the village] [into a ghost town]] não pode se ligar ao tn do predicado matriz, uma vez que o tn já está identificado.42 Uma consequência dessa análise, se correta, é derivar a generalização de que é possível apenas a adição de um sintagma resultativo por ação – tomando esse sintagma como o estado final da ação (e não um modificador de estado final).

Diferentemente das atividades, os estados, como já colocado, não denotam processo, e portanto não possuem um tn com o qual o e-role da SC possa se ligar.

Hoekstra (1988, 1992, 2004) não trata de verbos/predicados achievement.43 Acredito que o autor queira excluir eventualidades desse tipo (em verbos de resultativas) por dois motivos. Um deles é que achievements já denotam uma mudança de estado em si. Outro motivo seria a ausência de estágios internos na eventualidade: tn

sendo o ponto de término do evento, em um achievement teríamos 1 = n, e é essa a situação que a análise de Hoekstra pretende excluir. Nesse sentido, achievements têm uma característica em comum com estados. Segundo Rothstein (2004), eventualidades achievement e estados não possuem estágios: os achievements porque são instantâneos e, portanto, não há como distinguir estágios nesse momento instantâneo; os estados, apesar de suficientemente longos, não são dinâmicos e cada pedacinho de um estado é o mesmo durante toda a eventualidade, impossibilitando assim que estágios sejam

40 Lembro que o PB licencia ‘aparentes’ resultativas e possivelmente por isso o dado (17)c é gramatical.

41 O sentido pretendido na resultativa é de que o psicopata matou pessoas, de forma que a vila ficou uma cidade fantasma, i.e. o psicopata não matou a vila em si.

42 Alternativamente, podemos pensar que o dado é agramatical porque o verbo é obrigatoriamente transitivo e não teria um DP para atribuir papel temático. Nessa linha de raciocínio, o dado *The psychopath killed the people the village into a ghost town é agramatical porque viola Filtro de Caso.

43 Hoekstra (2004:318) coloca que prefere se manter neutro quanto aos predicados achievements.

reconhecidos. Diferentemente, as atividades são caracterizadas como [+ estágio] e [- télico].

Para Rothstein (2004, 2008), a característica [- télico] em atividades se deve ao fato de que atividades são cumulativas, ou seja, a soma de duas atividades continua sendo uma só atividade, isto é, a soma forma um novo evento singular. Como atividades são homogêneas até eventos mínimos (e não instantes mínimos, como em estados), elas possuem a característica [+ estágio], em que os estágios são reconhecidos nesses eventos mínimos onde há algum movimento ou mudança de estado.